Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Zero em Comportamento

Hugo Gomes, 02.08.18

qofv1FdR0DtkUeZXCyezwiTtmFO-1200-1200-675-675-crop

Abram alas!! Temos um novo universo partilhado cinematográfico, conceito nada de novo, digamos, nem sequer devedor do mercado glutão dos super-heróis e monstros ambulantes. A utopia aqui descrita em “A Ciambra”, que interliga com “Mediterranea”, é uma réplica social e étnica de uma Itália sob as crises existenciais e identitárias.

Porém, avança-se que Jonas Carpignano não se interessa em criar panfletos de reinserção social, ao invés disso preenche a tela com outra tela, um reflexo da nossa realidade, sem filtros nem moralidades enxertadas. “A Ciambra”, que segue um jovem de etnia cigana perante uma reafirmação de status, o da sua comunidade, assumindo como um elemento patriarcal e da sociedade que o rodeia e o rejeita, é a atualização de uma homónima curta da autoria do próprio Carpignano, um revisitar aos elos e às hospitalidades por vezes hostis.

Assim como o coming to age vivido pelo protagonista, de criança a adulto forçado, esta curta-a-longa desvia a atenção de qualquer compaixão ou solidariedade por parte do espectador. Filma-se a seco, invocando as raízes do neorrealismo italiano, deixa previsível por aqueles ares de contexto social, mas é nas infâncias renegadas de um “Zéro de conduite: Jeunes diables au collège” de Jean Vigo ou das delinquências escapistas de Antoine em “Les quatre cents coups” do nosso amigo Truffaut, que “A Ciambra” bebe diretamente da fonte. Fora as particularidades étnicas e sim, também eles, éticas, Jonas Carpignano retrata a adolescência tortuosa de qualquer um, sem cor, sem divergência cultural e sobretudo sem os maniqueísmos pedagógicos que atormentam o cinema (para) jovens.

Portanto esse formalismo do real, o culminar de 100 anos de aproximação da Sétima Arte com a nossa visão estandardizado do mundo envolvo, “A Ciambra” funciona como um dos rebentos dessa inteiração, se alguns apelidam na ressurreição do novo realismo conterrâneo, outros falaram na maturidade da câmara em lidar com o verité (verdade) das suas ações. Assim como “um rapaz que conheceu uma rapariga” é imbatível na maior das odisseias cinematográficas, a criança em linha direta ao mundo adulto não se fica atrás.