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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Viver o quê?

Hugo Gomes, 25.11.25

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Esta primeira longa-metragem contém vários pontos que nos levam a olhar com interesse para a possível futura carreira de Harry Dickinson (conhecido por projectos como “Triangle of Sadness” ou “Babygirl”), enquanto realizador, e a não encará-lo como uma inocuidade. Mesmo sob o mote de estreia, “Urchin” guarda alguns tiques de principiante. Somos introduzidos numa Londres que orbita os locais-postal ou os lugares-comuns de que o cinema sempre se serviu; o que vemos, porém, é outra face da cidade, uma que se desenha em círculos, como se o espaço não quisesse o personagem Mike (Frank Dillane) dentro das suas “entranhas” (não é por acaso que o título se traduz como ouriço do mar).

A verdade é que o nosso protagonista é de afecto difícil, um loser no sentido narrativo da própria construção. Quando o espectador o conhece, vê-o como um sem-abrigo, dependente de drogas e álcool, cometendo um violento furto que o conduz à cadeia e mais tarde a um programa de reabilitação. Nesses primeiros momentos, Dickinson ensaia algumas similaridades com certo cinema da fraternidade Safdie, lembrando o pouco valorizado “Heaven Knows What” (2014): o apogeu dessa noção de extração de um realismo sujo e cru, em convergência com uma shaky handcam provocadora desse mesmo simulacro. É a realidade encenada longe dos virtuosismos académicos ou industriais, uma sensação de caos espacial credível que confere a imprevisibilidade da vida, ou o que quer que isso seja. 

Em “Urchin” não vamos tão longe nessa estética de crueza, mas a sugestão de uma credibilidade comportamental e contextual da ultra-precariedade do protagonista levam-nos a esses becos, apenas interrompidos pelas cavernosas estalactites cinematográficas que o filme compõe esporadicamente no seu âmago. Há uma transição de virtuosismo, de artifício e de banda sonora mesmerizante a condizer [Archie Pearch & Scott O'Conell]: um dos tiques que Dickinson parece exercer como legitimação de “cineasta a sério”. Surge um pouco dessa estética de ódio arrancada e transformadas das veias tarkovskianas do tempo esculpido e da contemplação, mas não pensem que isso implica um entendimento pleno do tempo imposto … nada disso. 

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Há apenas uma sensação de passagem, e nela regressamos ao nosso anti-herói social, à sua reabilitação, às falsas melhoras da sua desgraça. O filme estabelece outro olhar: perde-se o caos estetizado, ou pelo menos a tentativa de o invocar, e chega-se a um caos diferente, o inscrito na personagem de Dillane. Aí, torcemos pela reconquista, mas Harry Dickinson surge perverso e cruel para com aquilo que vemos. Este mendigo de algibeira é forçado a viver como peão da própria miséria, e o espectador torna-se testemunha da sua iminente queda. O seu arco narrativo é um monte, talvez dos vendavais, cujo pico de sucesso nunca atinge. Há miragens, ou algo semelhante, mas “Urchin” é de uma crueldade quase heideggeriana: a existência de um homem com consciência da própria morte, e nos interlúdios, o vazio do seu percurso vivente. Contudo, não tomem isto como spoiler nem como ornamento da finitude; chegamos à decadência e daí avançamos para outros territórios.

Mais uma vez, Dickinson tenta engrandecer-se, insuflando-se como tal, oferecendo um epílogo esotérico nas reminiscências dos túneis alucinógenos e temporais de “2001: A Space Odyssey”. Não nos compete decifrá-lo; até porque o final, em posição fetal, indicia esse nascimento pelo fim, essa jornada de sofrimento que desemboca num salto de fé kierkegaardiano, ou na ilusão dele. O fracasso do não cumprido, a existência inexistente, sem pegada, sem relevo: a vida sem vida, destruição do propósito. Interpretação nossa, claro está; não imagino que Dickinson carregue tal intenção num primeiro filme, para lá do abraço forte a um percurso autodestrutivo. Deve ter aprendido a provocar com Östlund, talvez, mas deixou o actor escapar para lá da representação, e, nisso, ficamos satisfeitos em reconhecer aquilo que Londres renega.