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22.10.16
22.10.16

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O Evangelho dos Burgueses!

 

A crise dos refugiados contraiu tal dimensão mediática que é praticamente impossível ficar indiferente ao tema. Em consequência disso, são “às centenas”, as obras que são lançadas este ano e que deambulam sobre as condições desta gente. Felizmente, há quem o faça bem, como também, a quem os explores de maneira quase pornográfica. Nesta última opção encontramos Vangelo (em Competição Internacional do Doclisboa) sobre um actor e encenador italiano - Pippo Delbono (conhecido pelo seu desempenho em I am Love, de Luca Guadagnino, ao lado de Tilda Swinton) - que após a morte da sua querida mãe e dos diagnósticos assombrosos da sua saúde, decide aventurar-se entre os refugiados para … sabe-se lá o que se passa na cabeça dele … encenar o Evangelho.

 

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Antes disso, bem, após algumas sequências longas e narcisistas, filmadas por telemóvel sobre a sua pessoa, Pippo afirma que para consolação da sua dor havia encenado um chamado “Evangelho dos Ricos”, uma peça trabalhada com muitos dos seus amigos artistas, que segundo o realizador, são burgueses que desconhecem o mundo real. Bem visto, sim senhor, se não fosse o facto de logo a seguir Pippo afirmar que pessoas infelizes devem se manter próximo de pessoas ainda mais miseráveis para se sentir na melhor das formas.

 

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Solução, o encontro com um grupo de refugiados para confortar o seu pesar. Esta comparação entra logo em conflito com a moralidade do projecto, até porque a restante duração do documentário faz-se com puro bullying. Pippo é um burguês privilegiado que encontra nos refugiados o seu ar de graça para simplesmente troçar, quase obrigando-os a citar frases italianas, o qual se entende que estes homens não percebem nem sequer uma palavra daquilo, até à natureza religiosa cristã da peça sobre vários homens, que sem sombras de dúvidas, são muçulmanos. A persistência nessa evangelização está em perguntas como “Conheces Jesus?”. Será Pippo um jesuíta?

 

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O incomodo é um sentimento vivido por estes homens com vidas destroçadas, os respectivos olhos falam por si. Homens munidos de coragem para deixar para trás as suas vidas anteriores e aventurarem-se nas mais arriscadas façanhas (exemplo, é o único relato de vida destes, Safi, que com o seu péssimo inglês torna-se no ponto alto da obra). Por entre “torturas” (um homem residido minutos sem fim no alto mar para citar textos do Nazareno), até a interrogatórios frios e voyeuristas, Pippo, sob uma sugestiva respiração ofegante, faz de “domador de feras” num circo que ele próprio montou, para além disso, todo este registo funciona numa espécie de “snuff film”.

 

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Para finalizar, este homens cujo futuro é incerto, muitos deles com vistos negados e recambiados aos seus países de origem (qual? O filme nem interessa por isso), Pippo, revela o seu pensamento mais egoísta de puro conformista burguês, “estas pessoas são felizes porque tem música e dança”, ou “como estas pessoas não tem medo da morte, sabem o que é viver”. Mas que raio de “moralismo” é este?! Pippo pega nos refugiados para o seu próprio entretenimento (existe também alusões sexualmente fantasiosas com estes mesmos homens), depois reforça a sua miserabilidade humana, como fosse o mais desgraçado de todo este Mundo, esquecendo que é um privilegiado homem branco ocidental.

 

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No final temos a sua “queridaÚltima Ceia, sob o som de uma música em looping I Feel Good”, sim, bastante apropriado, indeed!. Pelos vistos, encontrei o Je m’appelle Hmmm … deste ano [ler crítica aqui], mal executado, mal idealizado e imoral no seu sentido de oportunismo.

 

Filme visualizado no 14ª Doclisboa: Festival Internacional de Cinema

 

Real.: Pippo Delbono

 

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2/10

publicado por Hugo Gomes às 16:04
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