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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Vamos rir do grotesco?

Hugo Gomes, 09.06.22

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Rir ou não rir? Mais do que a questão, é a percepção enquanto espectador, lidando com uma sensibilidade em plena mudança, contorcendo por movimentos sociais atrás de movimentos sociais que vão ditando novas consciências. Posto isto em resumos, o que formalmente vemos em “Laranjas Sangrentas" (“Oranges Sanguines”) não é mais que um pano retalhado de gags, muitos deles seriam aceitáveis em comédias mainstreams de há 20 anos. Hoje, tais, são tabus, “esmagados” pelo intencionado politicamente correto como muitos creem.

Acredita-se que Jean-Christophe Meurisse (que assumiu inspiração numa notícia de jornal norte-americano, uma situação digna dos anteriormente em voga “rape revenges”) faça considerações para com a modernidade, trazendo com isso “monstros” por nós criados numa sociedade instintivamente reagentes aos regulamentos, aos “bons costumes”, frente à verdadeira empatia (toda a sua inerência leva-me a “Election” de Alexander Payne, onde se debatia constantemente a diferença entre ética e moral, sendo que a última responde-se com a sua maleabilidade para com os padrões e contextos de cada um). Porém, não sabendo se essa é a verdadeira intenção do realizador, somos desvendados em narrativas em mosaico o qual se conjugam para formar uma criatura frankensteneana, um cenário da contemporaneidade que não é mais que uma sociedade sedenta de revanchismo, uma sociedade corruptiva pelas políticas conscientizadas e acima de tudo, uma sociedade onde o contraste é antagonizado. Mais do que o filme, é a sensação da nossa metamorfose, somos envolvidos nessa sensibilidade, aquela que nos faz corar no contacto com um humor negro atado em temas difíceis, seja essa direccionada a minorias, géneros, diferenças ou de violência, a escapatória ou é gargalhar com culpa, ou colocar as mãos sobre o rosto (“vergonha alheia” dirão os de fora). 

Quem somos nós afinal? A resposta não é uma resposta, e sim uma afirmação. Estamos em desenvolvimento, em adaptação, ou nos braços destes novos ventos. “Oranges Sanguines” não é a declaração ou antídoto destes recentes tempos, é uma prova ácida e de sabor amargo que desafia-nos a rir do grotesco, do atualmente abjeto, e por sua vez, encontrar uma crítica propícia, entendida por alguns, repudiada por outros. Nós, espectadores, fazemos um filme e o sentimos consoante a nossa subjetividade ou diríamos nós, consciência, e no caso da obra de Meurisse, ele diz mais de nós do que propriamente dele. O que somos afinal? Devemos rir ou nem por isso?