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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Uma Varda lágrima

Hugo Gomes, 03.10.19

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Até há data só houve três mulheres do Cinema que me fizeram chorar!

A primeira, aconteceu em Cannes de 2018, no Theater DeBussy, quando após a transmissão do excerto de Pierrot le Fou - “Pourquoi t’as l’air triste?” / “Parce que tu me parles avec des mots, et moi je te regarde avec des sentiments” – fomos levados diretamente ao rosto lavada em lágrimas de Anna Karina que se encontrava timidamente no meio do público. A outrora bela face da Nouvelle Vague já não apresentava mais aquela jovialidade e vitalidade que paralelizava com um cinema que emergia sob novas ideias e sobretudo novos dispositivos narrativos. Era agora uma cara envelhecida. Anna Karina confrontava com as recordações dos seus tempos áureos, e nós, espectadores fomos empurrados para esse mesmo saudosismo.

A segunda ocorreu no dia 27 de janeiro de 2017, ao rever Hiroshima Mon Amour depois de ter sido noticiado com a morte de Emmanuelle Riva. Segundo consta, ela nada sabia sobre a tragédia de Hiroxima e portanto nós também não.

A terceira deu-se novamente em Cannes, em 2017, sentadinho no meu banco aguardava um eventual e esperado reencontro. Recordo de ver Agnès Varda dirigindo-se alegremente, quase a saltitar, para a casa de Jean-Luc Godard. Contudo, a promessa não foi cumprida, na porta encontrava-se um recado, o realizador de Pierrot le Fou e Vivre sa Vie não estava disposto a recordar os velhos tempos. Varda, a sempre alegre “piolha” não consegue esconder a sua desilusão, uma lágrima solta-se e corre pela sua face. Um momento duro, mas de uma sinceridade que dificilmente poderia ser falseada. Visages Villages foi essa emenda.

Com isto para dizer que ao ver novamente Varda no documentário-legado e certa forma, autobiografado, em Varda por Agnès, é de um triste consolo. A sua energia, criatividade, expressividade e sabedoria, Agnès Varda era uma artista, não de palmo e meio, mas de corpo inteiro, e sobretudo de um humanismo único. Vê-la, ou direi corretamente, revê-la no grande ecrã numa espécie de retrato a nu, porém, de uma nudez controlada pela própria, foi uma das experiências mais emocionantes deste ano no Cinema.

Ficamos sem Varda. Longa Vida a Agnès.