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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Uma questão de "split-screen"

Hugo Gomes, 06.11.22

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At least you could have had the decency to bring your own champagne!

Pillow Talk”, comédia romântica conectada pelo trio criativo e amoroso (Doris Day - Rock Hudson - Tony Randall), não foi certamente um exercício da vibe George Cukor e seu o proto-feminismo entranhado no sistema, ao invés disso é uma comédia screwball de tendência conservador e de apostas à “domesticação”. 

Porém, não desprezaremos a escrita por detrás desta obra do retornado Michael Gordon (realizador de “Cyrano”, incluindo nas “blacklists” que marcaram a década de 50), e as suas conversas de travesseiros, um encontro acidental como Hollywood ambiciona entre dois estranhos da grande metrópole [Nova Iorque]. Ela, decoradora de interiores (Doris Day), ele, um compositor playboy (Rock Hudson), cujas linhas telefônicas estão partilhadas (problemas passados, obviamente), para um triângulo amoroso estar completo é necessário um terceiro vértice, um milionário (Tony Randall) que se sente “minoritário” (e de apropriado apelido ‘Forbes’), a alavanca para que as duas criaturas urbanas (cada uma delas livres das amarras matrimoniais), cedam a um romance de enganos. Existem aqui gags deliciosas, não há como negar - hoje em posição de espargata para com a validade do tempo - e a personagem borrachona de Thelma Ritter para ajudar à festa. 

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Contudo, o que de mais criativo este “Pillow Talk” (1959) possui, é infelizmente efêmero. Trata-se do uso engenhoso e por sua vez satírico do split screen, ora o contexto das linhas partilhadas é motivação para estes mesmos ventos, e assim o ecrã dividido, ora em dois, ora em três, demonstra uma interação simultânea entre as diferentes ações. A dinâmica entre as partes é também ela “bom serviço” ao emprego visual, que por vezes parece desejar sair dos seus traços e contactar carnalmente uma com a outra, ora vejamos, Day e Hudson comunicarem-se telefonicamente nas suas respectivas banheiras, cujo pé de cada um se une na invisibilidade do limite. Uma questão de enquadramento, diriam alguns, deste lado refiro a somente gosto, a aplicação do mesmo dá asas à criação. 

Mas o romance aí erguido parece não dar mais oportunidades a esta opção estética, deixando a decoração interiorizada para Doris Day e a sua trupe (que voltaremos a rever). No final ficamos com a comédia sucedida e a mensagem de matrimónio como designo (des)igual para homens e mulheres. Porque Hollywood da casa dos 50 sofria com pesadelos sobre mulheres ambiciosas e livres (“If there's anything worse than a woman living alone, it's a woman saying she likes it.”). Mas quanto a isso deixemos para a História a do seu industrializado sistema. 

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