Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Uma promenade na vida de Marie

Hugo Gomes, 11.02.26

d532673d01de9f1adc828a3475118e7f9d8e0010.jpg

Produtoras portuguesas como pólos de criação estética endêmicas: seja a Terratreme, a funcionar à imagem dos seus fundadores, quase como uma comuna artística; seja a Bando à Parte, a operar sob idêntico estratagema (e poder-se-ia acrescentar muitas das produções de Paulo Branco, aqui uma só figura, o produtor, a servir de bússola formal das metragens). A juntar à equação, a Promenade, multiplataformíco, demonstrando que já não é apenas de cinema que vivem as produtoras audiovisuais, comete matrizes semelhantes ao procurar respeitar, como se de um código deontológico se tratasse, a estetização do seu fundador, Justin Amorim, cuja sua primeira longa-metragem dirigida, “Leviano”, aglomera esse “livro de estilo”: uma direcção artística que se apodera da imagem, exalta-se e expõe, sem receios, as suas excentricidades e a veia pop que daí germina.

Sob esse signo, se nos dissessem, antes de sabermos a que produtora pertence, que iria ser concebido um documentário sobre Maria Manuela Pinheiro Gomes, conhecida como Marie ou "La Vie de Marie", estrela digital, facilmente o despacharíamos para a Promenade, casando naturalmente com o decorativismo e a excentricidade da persona. Eis, então, que chega “La Vie de Maria Manuela”, com assinatura de João Marques: um retalho da personagem, ela própria retalhada entre a persona virtual e o existencialismo de uma identidade em permanente busca. Tal como a protagonista, o filme reflecte sobre a normatividade social e a marginalização daqueles que não se enquadram nos “códigos de conduta”. Contudo, os discursos a essas problemáticas são levianas (leves demais, talvez) para sustentar uma hora e meia dedicada a Maria Manuela e a sua Terra do Nunca.

Permanece uma melancolia vasta no seu olhar, fora do cinzento estereotipado a dar lugar a solipsismos feitos, Marie refugia-se em cores múltiplas, quase Caran d’Ache, ou da infantilização do seu mundo, preservando uma inocência pré-fabricada e ostensiva, daí a pintura para a tela Promenade. É, porém, no não-dito que o tal manifesto melhor se entende (ela contra os “outros” que desejam a sua “integração): Maria Manuela cresceu num Portugal rural, no seio de uma família conservadora que viu na diferença da filha motivo de desaprovação, ampliado pelo falatório da aldeia, e desse contexto nasce uma estrela de TikTok (plataforma usada não apenas de exposição, mas de clarificação identitária) contaminando o seu quotidiano. Vemo-la, ouvimo-la aqui e ali, em pequenas falas dispersas, mas o discurso nunca é o verdadeiro centro formal do filme, mais fascinado pelo universo do seu objecto fílmico (o que, de resto, condiz com o ADN da produtora) do que pela tese que acarreta nas costuras.

Não restam dúvidas. É um filme Promenade, com certeza. Ninguém o deserdará dessa condição. Agora, se valeria a pena outro tratamento, tal mais desconstrutivo pela realidade vivida por Marie e o exterior que a demove … aí sim, seria um outro trabalho.