Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Uma imagem vale mil memórias

Hugo Gomes, 23.10.18

FB_IMG_1582506313196.jpg

Em abril deste ano [2018], num encontro com o teórico norte-americano Jonathan Beller na Cinemateca, foi abordada a importância do arquivo, não só em questões de preservação patrimonial, mas como “armas” à tentativa de adulteração histórica. Esta conversa surgiu como eco após a abertura desta curiosa curta-metragem do “verdíssimo” Carlos Miranda, que se foca no ANIM: Arquivo Nacional das Imagens em Movimento para interiorizar esse valor quase antropológico que o Cinema arrecada: “perderíamos a memória de um povo”.

Picotado com o formalismo do cinema de investigação, neste caso convertendo a preservação e restauração da película num objeto de estudo que ultrapassa todo esse academismo espiritualizado, seguindo forte nas cadências de uma emotividade à Sétima Arte. Por entre os entrevistados, por entre as demonstrações do trabalho executado, “24 Memórias por Segundo” (bela apologia dos 24 frames) é um pequeno filme que nos aproxima às imperfeições deste frágil universo chamado Cinema (brincadeiras cinematográficas pelo meio, com “Frágil como o Mundo” de Rita Azevedo Gomes a indiciar-se como “trocadilho”). Como diz, e muito sabiamente (devemos salientar), Filipe Lopes, um dos técnicos do ANIM, são as deformações da fita, a imagem cansada, cicatrizada e “defeituosa”, os sinais da história de vida imprimidas e projetadas aos olhos de todos, que nos conduzem à verdadeira essência do Cinema. Não se trata do filme em si, trata-se do filme a demonstrar que a “película também tem uma vida”, o inanimado passa a ser animado, o morto (pensávamos nós) exibe a sua memória … 24 destas aliás … e por cada segundo.

Há neste trabalho uma curiosidade mórbida de Carlos Miranda, apenas possível com a sua paixão … possivelmente mais um amante … até porque os cinéfilos são isso mesmo … eternos amantes … os outros. Obrigado pelas emoções, porque em momentos como estes, onde digital e o streaming nos colocam num constante debate no que é o Cinema e o que não é, o amor à película abate-nos como aquelas memórias eternas, como a Paris que Bogart e Bergman recordam com longínqua compaixão. Sem elas, seriam, essas também, as memórias a desaparecer.