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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Um pedaço de lugar entre um rio dominante!

Hugo Gomes, 13.06.15

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De certa maneira podemos assumir que “Mekong Hotel” é todo um concerto de improvisação musical, onde cada acorde corresponde a um pedaço da História tailandesa, e as relações com o seu “vizinho”, Laos, onde apenas um rio (Mekong) os divide. Sob essa metáfora, Apichatpong Weerasethakul ilustra cada tom melódico e o repovoa com o seu universo irreconhecível, uma utopia em que o real e o sobrenatural coabitam, acostumados com a presença de um e do outro, e que os fantasmas dos entes caídos assombram o seu conjunto de personagens com uma exactidão cirúrgica.

Ninguém é deixado para trás nesta reunião de espectros, nem mesmo o espectador que ousa entrar nesta alternativa fantástica, porém, sustentada com uma melancólica nostalgia em que os demónios da guerra e os “vampiros” da actualidade social estão longe de ser exorcizados. Trata-se de uma obra “simplicíssima” e sustentada por poucos recursos, ao contrário da invocação do Homem selvagem em “Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives” (o vencedor da Palma de Ouro em 2010), “Mekong Hotel” nasceu a partir de uma ideia cinematográfica, de um filme não cumprido (“Ecstasy Garden”), um objecto de estudo que Apichatpong Weerasethakul decidiu explorar e polvilhar com a sua imaginação subliminar.

Acrescentando a isto, temos a contemplação de um redor desolado por forças naturais, assim como das iminentes ameaças que as personagens citam constantemente. Uma cultura em pleno estado de auto-devoração (as criaturas alusivas estão integradas nas imagens), vivente de cada nota musical libertada do seu pano de fundo, que formam este fenómeno cinematográfico regido por uma singeleza invejável e por uma mestria solene e despreocupada. Uma das melhores obras de Apichatpong Weerasethakul, um espelho social constituído por uma linguagem subliminar e transversal.