Um guia prático para o Fim em tempos incertos

Nos dias que correm, um Hal Hartley em jeito imaculado resulta num OVNI: um objecto feel good movie, nada inibido em mostrar as suas varizes enquanto filme independente, sustentado por um orçamento auxiliado via Kickstarter. Embora o modelo de financiamento limite a amplitude estética, permite ao realizador, em tempos apelidado de “Godard americano”, mobilizar os seus temas-fetiche e filosofias, injetadas nas personagens e interioriza-las na sua quietude. “Where to Land” é um filme à procura do seu ponto de aterragem (seguindo a tradução literal, com engodo a um falso-primo e encosto ao livro do filósofo e sociólogo Bruno Latour, “Où atterrir — comment s'orienter en politique”, 2017), na língua original, por sua vez, aproxima-nos da ideia de chegada a bom porto [“land”] após a deriva no grande azul.
Dito isto, o protagonista, reflexo do próprio Hal Hartley, Joe Fulton (Bill Sage), um realizador de comédias românticas, que, à chegada da meia-idade, se depara com um estado de estagnação existencial. Atingira o auge da carreira, mantém uma boa relação com a filha e (pasmem-se) com a ex-mulher, amigos e vizinhos, toda uma comunidade a seu favor, e até vive um caso que alimenta tinta nas revistas cor-de-rosa com uma estrela de uma série televisiva bem-sucedida (já com um valente “x” de temporadas). Ainda assim, chega à deriva: para onde ir? O que fazer? Ou, apropriando o título, “Onde aterrar?” A solução talvez resida no fim, ou melhor, numa aproximação simbólica para com a Morte. Procura trabalho no cemitério local e redige o seu testamento. Esse conjunto de actividades desencadeará um delicioso mal-entendido nos seus familiares, amigos e conhecidos.
“Where to Land” entende-se como uma comédia humanista, quase minimalista e centrada num certo umbiguismo. Contudo, opera como cápsula político-filosófica: observamos esta personagem central numa busca — meio acidentada, talvez — por um significado capaz de sustentar a própria vida, nem que seja um sentimento de finitude misturado com uma ociosidade vincada. Surge uma noção e reflexão sobre propriedade e materialismo, aproximando-o a um niilismo como agrado espiritual e de uma farsa sociológica sobre padrões e estabelecimentos sociais para bom Molière entender, onde o minimalismo cenográfico e emocional funciona como dispositivo para interrogar a condição contemporânea (cujo o referido Latour aborda igualmente esse estado intermitente para com a corrente Modernidade e o nosso “desraizamento”).
Para onde segue o nosso registo depois da morte? Como deixamos de temer o Fim e abraçamos o inevitável com calculismo? Tudo isto em casas apinhadas e cerveja light a condizer.