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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Um 'drink' com sabor a estrela

Hugo Gomes, 14.08.25

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A tripla que virou dupla (retira-se Bruno Romy, mantém-se Dominique Abel e Fiona Gordon, dentro e fora da tela) e mesmo assim indignamos com as comparações com Aki Kaurismaki, no seu estilo realista minimalista, de estéticas retros e bares como cantos de nostalgia e soturnidade. "A Estrela Cadente" (“L'Étoile filante”) vive, por infelicidade dele, desse mesmo encosto, absorve das aparências para se erguer como produção de referências, mas o que sobra para além da vivência do slapstick e do discreto gag a cometer "wink wink" a um certo cinema mudo e pós-mudo sem nunca levar as evidências? 

O cardápio de "Estrela Cadente" tem de tudo, políticas camufladas, doppelgangers, embustes, mal entendidos e personagens caricaturais quase saídas das galerias de Jeunet. Comédia franco-belga de momentos pitorescos, cinematograficamente romantizados, ditando no gesto e no movimento, contornando a palavra, mera ‘gordurinha’ descartável, de forma a entender-se com a alma vendida ao Diabo. 

Recuo, por vezes as comparações o colocou no seu devido lugar, na cadência do subproduto, mas como se diz e muito bem, vivemos num momento de cinema autorreferencial, difícil de ver a oeste algo novo e quando existe recolhemos as nossas vontades em prol de uma saudosista vaga ou data industrial, nomeiam-o, mas com "Estrela Cadente" a porta está entreaberta para aquilo que chamamos de cinema proustiano, ou quiçá cinema das nossas elites. O paladar é quem mais ordena, por mim dava uma oportunidade e beberia um copo neste balcão.