Traz-me de volta ao terror!

Em "Talk to Me", houve quem olhasse para o fenómeno para lá das luvas higiénicas geracionais e a compreendesse na sua posição na linha canónica do género (ao tentar elaborar uma). Nesta variação de terror dos irmãos Philippou [Danny e Michael], deparamos com uma nova forma de contacto para com o sobrenatural, adaptada às gerações de hoje e, talvez, às que virão consumir o terror, auto-definindo-se como público-alvo no contexto box-office. São discussões mais frutíferas do que a simples questão binária e subjetiva do “ é bom ou é mau”, pois o filme estabelece uma ligação com a contemporaneidade, onde a hegemonia virtual se tornou ela mesmo na “mesa de ouija” para manejar espíritos e o além. Ou a viralidade, em moldes que tão bem conhecemos atualmente, desprendida já da etimologia médica, algo que "Smile 2", por exemplo, aproveitou na exactidão, confirmando a tendência no audiovisual.
Mas, voltando aos Philippou, em “Talk to me” foram os ensinamentos das suas origens pelo YouTube que as transladaram na metragem cinematográfica, trazendo essa imagética por vezes imediatista, leviana e o melancolismo juvenil destas gerações que se sentem defraudadas, ou inteiradas na sua própria insignificância existencial. Quanto à sua segunda obra - "Bring Her Back" —, preservando algumas decisões estéticas da produtora A24, faz “gato-sapato” do medo da mortalidade (e a perda assim associada) nas gerações mais velhas às de “Talk to Me”. Com ‘anjinhos’ putrefactos e uma Sally Hawkins em perverso modo "Happy-Go-Lucky", é um “terror de algibeira” que usa a convencionalidade como exemplo: nada fora, nada demasiado dentro, mas com um notório equilibrismo entre o macabro, seja visual, sugestivo ou até afectivo, e a estranheza (de uma geração para a outra, da sua distância e das sua doutrinas morais e amorais).
O termo creepypasta, aqui operando como elemento de mediação geracional, introduz simultaneamente um espaço de contacto e de fricção, reforçando a percepção de incompatibilidade entre visões morais e amorais de diferentes idades. Em jeito “Lazarus” com a pertinência herética de “Frankenstein” este é um conto de terror cujo sobrenatural não é só uma presença mas uma possibilidade (tal como a obra anterior). No entanto, os Philippou resolvem ser mais visualmente audaciosos, colhendo os frutos do jumpscare e do impressionável que o gore embutido proporciona, para além dos temas, o cadavérico ou a essência sedutora e voyeurista do subgênero “true crime”, a apoiar a narrativa até ao não-estado de graça. E dando a volta à tumba, Sally Hawkins é acima do decreto um “must-to-see”, não fugindo aos seus habituais desempenhos (aquela ternura que sempre emanou), adaptados e reconfigurados ao registo oposto ao do acostumado. Digamos que o lado maternal é obsessivo e viscoso de alguma forma.
Projeta-se que 2025 seja um ano auspicioso para o terror, e este "Bring Me to Her" revela força mesmo nas fórmulas revisitadas. Incomoda, sente-se e nunca é frívolo nos seus mais diversos campos. Depois da experiência de "Talk to Me", os Philippou demonstram volatilidade ao mover-se por territórios pantanosos e, ainda assim, familiares. Mesmo que prometa mais do que eventualmente cumpra (os mistérios são mantidos como preservação da sua natureza), e com certo ar de exercício, é feroz, bizarro, feito de body horrors descamados e vínculos levados ao limite. Não reinventa, mas lá bruto é.