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30.6.14

A produção maldita!

 

Quando falamos em produções desastrosas não podemos deixar de referir a versão de 1996 de The Island of Dr. Moreau, uma modernização do homónimo clássico literário de H.G. Wells que remete-nos a um cientista “louco”, exilado numa ilha distante e que exerce experiências malditas, transformando bestas animalescas em humanos.

 

 

Brincando ao papel de Deus, a decifração da essência humana, a criação de uma sociedade oprimida e controlada, são vários os elementos que no livro funcionam como uma reflexão ética dos avanços científicos, e da cada vez mais consolidação entre a genialidade e a loucura, derivação da transgressão dos formatados limites da ciência. Nesta mais recente adaptação do dito conto, a hipnose e cirurgias, processos levado a cabo pelo Dr. Moreau para converter os ditos animais em aspirações humanas são substituídos pela engenharia molecular e genética, tentado envergar por caminhos ousados e aludidos às amoralidades dessas mesmas experiências. Porém o filme que John Frankenheimer tentou resgatar da penúria nem chega a roçar tais questões éticas que tão bem poderiam ser propostas, privando-se e desleixando-se para um espectáculo de feira, encabeçado pelos efeitos visuais e pela caracterização gerida por Stan Winston.

 

 

Porém, voltando à temática da produção “condenada”, reza a lenda que os problemas começaram com Val Kilmer, o suposto protagonista que devido à sua própria "birrice" de vedeta foi automaticamente "encaminhado" para um papel secundário e de participação “desmembrada”, sem com isto falar das suas divergências com Frankenheimer, que segundo os rumores foi tão intensa que depois da última cena gravada com Kilmer o realizador gritou ""Cut! Now get that bastard off my set" (Corta! Agora tirem aquele bastardo do meu set). Depois são os problemas com o realizador original, Richard Stanley (também autor do argumento), que foi despedido após quatro dias de rodagem e que falou-se de sabotagem por parte deste durante todo o processo de filmagem. A repudia dos actores ao filme, David Thewlis que apesar de protagonista recusou estar presente na premiere. E quanto a Brando (sabendo que os anos 90 não foram favoráveis para a sua carreira), The Island of Dr. Moreau foi prejudicado pelo facto do actor estar a lidar com o recente suicídio da sua filha, Cheyenne, que condicionou o desempenho deste e em consequência disso um papel mais reduzido, para além de uma interpretação insonsa e sem carisma pela súbita falta de motivação no trabalho. Ou seja, tudo em The Island of Dr. Moreau apontava ao desastre, contudo acredito que por vezes certos "desastres" dão origem a obras-primas (The Shining de Kubrick ou Apocalipse Now de Coppola são alguns dos exemplos), mas este não foi o caso.

 

 

Com uma equipa desmotivada como esta, The Island of Dr. Moreau evidencia automaticamente desleixo, a começar pelo argumento, vitima de reestruturação de última hora que deixa de lado a essência do conto, até chegarmos a um elenco que praticamente manda o filme para as "urtigas", e claro, Val Kilmer a acusar-se de ser o caso mais agreste desse comportamento. Ou seja, concretizou-se a profecia, o desastre artístico que se adivinhava, e o resultado é uma obra esquizofrénica e de um climax dissipado que antecede o próprio espectador, tendo mais pressa em chegar ao desfecho que este. Porém no centro de tanta "loucura" e fracassos, uma pergunta fica - como é possível arruinar tal malevolamente distorcido conto de H.G. Wells?  E como não bastasse ainda temos a oportunidade de questionar - o que faz Marlon Brando no meio disto tudo? É de chorar por menos apesar do trabalho técnico.

 

"There is no pain, there is no law!"

 

Real.: John Frankenheimer / Int.: Marlon Brando, Val Kilmer, David Thewlis, Fairuza Balk, Marco Hofschneider, Ron Perlman.

 

 

3/10
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publicado por Hugo Gomes às 21:49
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