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10.4.14

Wes Anderson chega ao seu apogeu?

 

Podem chamá-lo de esteticamente "fascista", visualmente sedutor/obsessivo e maníaco pela centralização de planos, mas tudo isso faz de Wes Anderson um renascentista da Sétima Arte, um realizador que expõe as suas intrigas, mirabolantes e de entrega singular, com um cuidado extremo na sua geometria e matriz visual. Goste-se ou odeie-se, a verdade é que Anderson é inegavelmente um dos influentes e cobiçados cineastas da actualidade, se não, como se pode explicar a reunião de elencos de luxo (e nesse termo Grand Budapest Hotel é, até à data, o maior desses "agrupamentos") que os seus filmes têm tendência em proporcionar?

 


Num ambiente que quase roça a literatura vitoriana de um Arthur Conan DoyleGrand Budapest Hotel é inspirado nos trabalhos do autor literário Stefan Zweig. O clima de mistério incessantemente presente (quase como uma Agatha Chirstie), sob o tom caricatural do realizador, remete-nos para uma intriga de crime, calúnias e suspeitas, onde o homónimo hotel é o arranque de toda a premissa, como também o desfecho desta. Uma história dentro de uma história envolvida noutra história, as narrativas sobrepondo-se, onde seguimos o distinto Gustave H. (Ralph Fiennes), concierge do dito hotel, que é acusado de homicídio da viúva Madame D. e de ladrão do seu mais valioso bem: o quadro do "Rapaz e a Maçã". Gustave H. tem, com isto, para além de provar a sua inocência, de tentar escapar aos membros da família da vítima que o desejam matar o quanto antes. O nosso protagonista tem como "cúmplice" e companhia o seu fiel paquete, Zero Moustafa (Tony Revolgre).

 

 

Num país imaginário, no centro de uma guerra de igual imaginação, porém recheada de alusões e referências a tantos pontos históricos (há quem fale da Segunda Guerra Mundial e da crise da Polónia), Grand Budapest Hotel arquitecta um enredo complexo, pausado e sempre entretido com todos os toques e gags que já se tornaram marca na filmografia de Anderson, que brinca aqui, mais uma vez, aos espaços, ao fora de campo e à estática dos seus cenários. Em termos visuais, não temos dúvidas algumas: este é um filme verdadeiramente sedutor e estilizado até à medula, mas Anderson constrói, por um período de tempo, um conjunto de personagens inteiramente romanescas, plausíveis, mesmo sob os seus códigos alienados, distorcendo todos os seus cânones e com isso requisitando uma nova linguagem cinematográfica.

 

 

Tal como o seu anterior, Moonrise Kingdom, o autor refere o romance como algo verdadeiramente estranho e insólito no seu conjunto de personagens, todos eles integrados na tragédia pessoal, sendo que sentimentos são bramidos, de forma gélida e frívola, por desempenhos, de iguais adjectivos, que não se esforçam em trair a câmara. Nesse último ponto, temos que ter em conta que nos jogamos a um mundo alternativo, pitoresco, caricatural e, sim, revestido por um uma geometria autoritária (vale a pena relembrar essa marca autoral) e uma mise-en-scène artística acima de qualquer outro requisito. Mas não se deixem enganar: apesar desta "nova vaga" de cineastas independentes que Wes Anderson parece liderar, existe muito de primitivismo aqui. Um cinema "fóssil vivo", mais dependente dos seus cenários e das suas limitações, facilmente violáveis, do que do realismo e seriedade que nos dias de hoje parece ser regulamentar. É a sétima arte mais próxima da dramaturgia, dos palcos e da cortina vermelha, da imaginação do espectador e da espera pelos aplausos.

 


Depois desta demanda, talvez a mais próxima da perfeição por parte de Wes Anderson, será difícil ultrapassar-se sem cair na limitação do seu estilo (fazendo lembrar o misterioso Terrence Malick). Enquanto não chega essa futura obra que irá ditar o rumo enquanto cineasta verdadeiramente acarinhado na indústria, Grand Budapest Hotel é uma fantástica aventura que nos remete ao misticismo do cinema, algo que parecia perdido. Já agora, como é bom ver um actor como F. Murray Abraham a ressuscitar dos "mortos"!

 

"Keep your hands off my lobby boy!"

 

Real.: Wes Anderson / Int.: Ralph Fiennes, Tony Revolori, Adrien Brody, Willem Dafoe, Saoirse Ronan, Edward Norton, Jude Law, F. Murray Abraham, Jeff Goldblum, Mathieu Amalric, Harvey Keitel, Bill Murray, Tilda Swinton, Tom Wilkinson, Léa Seydoux, Owen Wilson, Jason Schwartzman

 

 

9/10
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publicado por Hugo Gomes às 19:08
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