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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Tanto esforço de Carey Mulligan e Ralph Fiennes para desenterrar apenas latão ...

Hugo Gomes, 29.01.21

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Com "The Dig", o realizador australiano Simon Stone (“The Daughter”, “The Turning”) “escava” uma produção com requinte "à la BBC" com a intenção de conquistar a temporada de prémios. E é pena que o academismo que é aqui formalizado (e atualizado) seja usado apenas para homogeneizar histórias de teor biográfico e de reconstituição de época como parece que anda a ser exigido por escolas e indústrias, contribuindo para que os biopics se tornem uma arte narrativa, e formal, cada vez mais caducada.

Aqui, a "vítima" são as escavações de Sutton Hoo, em 1938, marco na arqueologia anglo-saxónica que redefiniu o quotidiano daqueles povos, anteriormente considerado “bárbaros saqueadores”, que povoaram Inglaterra há mais de mil anos. Um acontecimento relevante para o estudo da nossa História que se torna um macguffin, um pretexto para lançar uma espécie de teia de enredos em que nada se destaca pela espessura.

Ralph Fiennes faz os possíveis para interpretar mais um “esquecido” no percurso histórico, o escavador Basil Brown, realçando a amizade e compaixão com uma moribunda Edith Pretty, papel de uma madura mas não eficaz Carey Mulligan, tendo com apêndice um romance frouxo da, até certa altura, “sonsa” Lily James com um aspirante a piloto, Johnny Flynn (“Emma”). Tudo aqui são rodeios que nada acrescentam e, pior, nunca dão total dimensão a este percurso unidimensional de uma narrativa desinteressada no que quer retratar (o achado arqueológico, a amizade entre Brown e Pretty, o romance da personagem de Lilly James ou até a Guerra) e esteticamente demasiado conservador: o único devaneio parece ser encontrado com “maliquices”, essa paródia a Malick e a sua ligação com a ruralidade.

Estas distrações afastam-nos do que devia ser o verdadeiro propósito da história (as escavações de Sutton Hoo) ou de toda a sua reconstituição, sobrando apenas uma produção desbaratada, convencional e tremendamente cansada. Uma peça arqueológica produzida pelo acaso...