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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Takes Festival Política 2022: relembrando as pessoas nem que seja por escrito

Hugo Gomes, 04.05.22

Alcindo 

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Há um cuidado redobrado em tecer uma crítica que seja a um documentário da natureza deste "Alcindo'', filme que começou por ser um projeto de mestrado é agora convertido numa assumida produção de remexer consciências. Partindo do brutal assassinato de Alcindo Monteiro - vítima do ódio radicalista de um bando de skinheads decididos a causar o caos no Bairro Alto, naquela fatídica noite de 10 de junho de 1995 - Miguel Dores tenta interligar mais um punhado de casos anteriores e posteriores para prevalecer a sua tese de racismo estrutural. Contudo, é naquele momento em que o advogado de defesa da família de Alcindo, mapeando aqueles bairros de Lisboa com os dedos, descrevendo todas as vítimas e os desacatos envoltos até chegar à figura-chave e o homicídio cuja sua resolução iria mitigar a expansão da extrema-direita nos próximos anos, que encontramos o dito filme. Neste caso, possivelmente iludido com o método académico de apontar para pista A, B e sucessivamente até a sua teoria não possuir mais ponta alguma de questionabilidade, Dores conseguiria dizer tudo aquilo que pretendia em poucos tópicos, aliás focando somente no crime, a sua investigação e o seu julgamento. Ao invés disso, é um puxar de acontecimentos, numa estrutura “salta-pocinhas”, dando a sensação de chover no molhado quanto ao tema. Esta seleção, corte e concisão, não impediria de “Alcindo” ser um “dois em um”, um relato de um crime hediondo que envergonha um país ainda seguro da sua “hospitalidade” (no qual confunde com empatia e por sua vez uma prova à nossa sistemática abjeção racial), ao invés disso navega “não por outros mares”, mas por outras correntes com esperanças da vinda de ventos de cariz emocional. Ou seja, para uma tese no pretexto de abordagem a um caso criminal, Miguel Dores cede ao sentimentalismo como perfeita arma de empatia, só que esquece da exatidão desse mesmo arsenal.  

 

O Teu Nome É

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Em paralelo com "Flee", de Jonas Poher Rasmussen, o nosso “O Teu Nome É” subscreve a animação como um velcro concentrado de histórias e delas sublinha a sua Humanidade além das fronteiras do real. Funcionando como um documentário que reúne depoimentos de simpatizantes e agressores do caso Gisberta Salce Júnior (transexual brasileira torturada durante vários dias por 14 adolescentes num edifício abandonado, acabando por morrer, em 2006), Paulo Patrício tenta descortinar mais do que uma verdade, desvendar a consciência perante esse crime e as repercussões do mesmo. É um embate de olhares, de gestos e de trincheiras perante um só monumento - à memória de Gisberta - e através desses ditos e feitos costurar uma teia de relações a algo mais subconsciente que os corpos. A animação transveste o que poderia ser uma estética de reportagem / investigação, atribui uma nova pele, novas expressões e dinamismo ao credo. O que para muitos poderá ser uma distração, para outros é o processo de retirar Gisberta do rótulo de “mais um caso”, auferindo-lhe uma vida para além da sua morte. A animação assume o seu papel, e acima disso, reivindica o seu direito de existência fora do conceito de “miudagem” e no panorama português, o qual, mesmo sob a alçada de grandes mestres a níveis mundiais (José Miguel Ribeiro, Abi Feijó, Regina Pessoa e a ascendente Laura Gonçalves), continua a ser renegado à segunda liga pelas mais variadas instituições, personalidades e cultos intelectualizados.

 

A Nossa Bandeira Jamais Será Vermelha

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O atual cenário político tem impulsionado o cinema brasileiro a expressar as suas reflexões, críticas e descontentamentos, seja na ficção por discursos diretos ou metáforas distópicas, seja no documentário, com principal enfoque ao "impeachment" de 2016. Nesse sentido, a juntar a exemplares como o cru “O Processo” de Maria Augusta Ramos (2018) ou o embelezado “Democracia em Vertigem" de Petra Costa (2019), chega-nos “A Nossa Bandeira Jamais Será Vermelha” do jornalista Pablo Lopez Guelli, título apropriado de um slogan presente em várias manifestações de extrema-direita brasileira (ou somente fruto do medo instalado por um demonizado “comunismo”), um prisma focado na tendenciosidade da imprensa brasileira, e como estas influenciam a política brasileira assim como as vontades coletivas. Tendo depoimentos de Noam Chomsky e de Glenn Greenwald, um dos fundadores do jornal online The Intercept, o filme de Guelli esquematiza o oligopolismo dos media ao longo da sua história, especializando nos cruciais tópicos que levaram à ascensão de Jair Bolsonaro à presidência. Através desse desencantamento inquisitor, esboça o paradoxismo da nova presidência em que as “fakes news” e outros meios alternativos de propagação de “notícias” (entre aspas para não existir dúvidas) adquiriram uma emancipação frente à incentivação da imprensa oficial brasileira. Por sua vez, o documentário, persistindo numa estrutura esperada do seu formato (imagens de arquivo, manchetes de jornais e “talkings heads”), tende em glorificar os meios independentes (que se assumiram como "mídia ninja”), não com isso especificando as diferenças destas com as veículos de manipulação noticiosa. “A Nossa Bandeira Jamais Será Vermelha” sabe apontar o dedo mas é pouco esclarecedor na sua abordagem.   

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