"Acredito que o cinema pode tornar-nos mais sensíveis, mais conscientes, mais gratos pelo que temos, e mais vigilantes": uma conversa com Steffi Niederzoll, realizadora de "Seven Winters in Tehran"

Aos 19 anos, Reyhaneh Jabbari, estudante iraniana, após defender-se de uma violação que resultou na morte do agressor, foi condenada e sentenciada à morte. O seu fado poderia ter sido evitado se a jovem retirasse, a pedido da família do violador, a acusação, instaurando assim a honra do defunto. Reyhaneh recusou. Preferiu a verdade, mesmo que isso a conduzisse à derradeira consequência. Não quis ser a vítima, antes o mártir de um movimento contra um regime patriarcal, onde os direitos das mulheres não passam de ficção científica.
O caso tornou-se mediático, no Irão (em 2017) e em vários outros cantos do mundo, levando a realizadora germânica Steffi Niederzoll a interessar-se pela história. Tendo o privilégio de aceder a imagens de Reyhaneh e da sua família, constrói uma anatomia desse julgamento, dessa mulher que se sacrificou pelo que acreditava ser a sua luta. E, do outro lado, a mãe, carregando o fardo de um luto permanente.
“Seven Winters in Tehran” estreia nas salas portuguesas, depois da exibição em Berlim, a realizadora aceitou o convite do Cinematograficamente Falando… para abordar este projecto erguido por escolhas de montagem e de coração … valente coração.
Talvez comece com a mais básica das perguntas em relação a este projeto: como é que descobriu a história de Reyhaneh Jabbari e o que te levou a querer explorá-la?
Na verdade, tudo começou por amor. Apaixonei-me por um homem iraniano. [risos] Ele também é realizador, chama-se Sina Ataeian Dena [produtor de “Critical Zone”], e foi através dele que, em 2016, conheci familiares da Reyhaneh, que na altura viviam em Istambul, Turquia. Já tinham passado dois anos desde a execução dela, e quando os conheci, lembrei-me imediatamente do caso, porque tinha sido muito mediático na Alemanha (um dos tios da Reyhaneh vivia lá, e isso fez com que a história tivesse bastante destaque nos nossos noticiários). Tinha muitas perguntas, claro, mas nesse encontro não estava ali como realizadora … conheci-os apenas como a namorada do Sina.
Em determinado momento, perguntaram-me se gostaria de fazer um documentário com as imagens filmadas secretamente. Para ser sincera, não tinha a certeza se seria capaz de o fazer. Quer dizer, tinha um namorado iraniano, mas nunca tinha estado no Irão e nem sequer falava persa. Então pedi-lhes autorização para copiar o material, levá-lo para a Alemanha, traduzi-lo e perceber exatamente o que tinham filmado. Isto aconteceu já no início de 2017. Voltei a Istambul e copiei as imagens. Nesse mesmo dia conheci Shole Pakravan, a mãe da Reyhaneh.
Foi um encontro muito comovente. Já tinha visto parte das gravações, nomeadamente a cena em que ela espera à porta da prisão para saber se a filha será executada ou não. Ainda hoje, quando penso nisso, fico com arrepios. Fiquei profundamente tocada, e quando nos encontramos pela primeira vez, sentia uma vontade de abraçar aquela mãe. Sentia-me próxima dela, mesmo sem a conhecer. Para ela, como é óbvio, foi uma situação estranha … esta alemã que só quer abraçá-la! [risos]. Não é propriamente um comportamento típico alemão, por isso tudo ficou muito estranho.
Então disse-lhe: “Sei que não me conhece, mas sinto que a conheço, porque vi estas imagens. Tenho vontade de a abraçar o tempo todo.” A partir daí algo mudou entre nós. Ela olhou-me nos olhos e respondeu-me com um outro abraço. Nesse momento aconteceu algo muito simples: duas mulheres a abraçarem-se. Já não importava de onde vínhamos, o que existia era uma ligação humana. Depois sentou-se e começou a falar muito sobre a Reyhaneh. Não sei bem porquê, mas senti que ela passou a confiar em mim. Percebi que, naquele momento, ela tinha decidido que seria a realizadora do filme sobre a filha. “Se ela o decidiu, então eu faço.”

Steffi Niederzoll
Disse que na altura nunca tinha ido ao Irão, nem mesmo depois do filme?
Não, nunca fui. O Sina (que agora é o meu ex-companheiro) é um realizador político e, por isso, não pode regressar ao Irão. Sempre me pareceu estranho ir a um país onde ele não podia entrar. Acabei por nunca ir.
Queria ter a certeza, porque trabalhou com este material existente vindo de um país distante, de uma realidade que em certa parte não lhe pertence. Que impressão obteve do Irão ao longo deste processo?
Foi uma experiência estranha, e igualmente interessante. Fazer um filme numa língua que não falas e sobre um país onde nunca puseste os pés é algo especialmente desafiante.
Claro que filmei algum material (sobretudo entrevistas e pequenas recriações, miniaturas de lugares), mas quase tudo o resto veio de filmagens feitas por pessoas próximas da família ou por outros realizadores iranianos. O que fiz foi trabalhar através do olhar deles, através do que tinham captado. Na verdade, do material todo que recebi, talvez apenas 1% foi filmado especificamente para o meu filme. O resto eram gravações aleatórias.
A família nunca teve a intenção inicial de fazer um documentário, isso só surgiu depois da morte da Reyhaneh. Filmavam com o telemóvel momentos que sentiam ser importantes, de forma muito espontânea. Devido a esse acto, tinha uma quantidade enorme de imagens e tentei, através delas, compreender o que se tinha passado. Mas também quis perceber o que era importante mostrar a alguém que, como eu, não conhecia o contexto iraniano. Trabalhei sempre com esse duplo olhar: o meu, de estrangeira, e o das pessoas que viveram aquilo.
Por isso o filme funciona em dois níveis. Um é para pessoas como tu e eu, que não conhecemos o Irão, embora agora, provavelmente, saiba mais sobre o país do que a maioria dos europeus, mesmo nunca tendo vivido lá. O outro nível é para o público iraniano.
Há coisas que um iraniano entende imediatamente e que para nós precisam de explicação. Há detalhes que um espectador estrangeiro não compreenderia sem contexto. Tentei equilibrar isso, acrescentando elementos que permitissem a ambos os públicos sentir que o filme era autêntico. Fiz o meu melhor para ser o mais preciso possível. Contudo, é inevitavelmente o meu olhar estrangeiro sobre a história.
E como é que a família, especialmente a mãe, reagiu ao ver o filme completo?
Eles apoiaram o projeto desde o início e estiveram bastante envolvidos no processo. Viram várias versões antes da final. A mãe só viu o filme completo uma vez, na estreia na Berlinale, e instantaneamente disse-me que nunca mais o veria. Nem consegue ouvir a música, mesmo sendo ela própria quem a canta. Para ela é uma experiência demasiada dolorosa. Cada som, cada carta, cada gravação traz recordações. Ela passa a vida a ler e a ouvir essas memórias, mas ver tudo condensado em noventa minutos, imagino também, é insuportável.
A irmã da Reyhaneh, por outro lado, viu o filme dezenas de vezes (cinquenta, sessenta, talvez mais), vê-o repetidamente, porque é uma forma de revisitar a irmã. São reações muito diferentes, mas há um momento que guardo com muito carinho. Depois da estreia na Berlinale, pedi à Shole que não assistisse à primeira sessão, mas sim à última, porque tinha medo que fosse demasiado duro para ela (estamos a falar de uma mulher traumatizada, cuja filha foi executada).
No final da sessão, o público ficou em silêncio total, sem fôlego. Havia muitos iranianos na sala. Quando a Shole subiu ao palco, ainda sem ter visto o filme, parecia leve, quase a flutuar. Enchia o ar de beijos, como uma actriz, e, de certa forma, ela é uma actriz. Depois disse algo muito bonito: “Estou feliz. Agora sim, sinto-me leve.” Porque sentiu que, com o filme, tinha finalmente cumprido o último desejo da filha. A Reyhaneh, nas suas palavras de despedida, pediu à mãe que “a entregasse ao vento”. A Shole sempre acreditou que o “vento” era o filme e também o livro que publicámos. Sentiu que o tinha conseguido.
Quando vi o seu filme, percebi logo a importância do papel da mãe. Claro que a Reyhaneh é o espírito que atravessa toda a sua obra, é com ela que tudo começa e termina. Mas a mãe, para mim, é o coração do filme. É com ela que sentimos, com ela que choramos. Há uma escolha muito clara no momento em que ficamos a saber da execução: estamos sempre com a mãe. Vemos a primeira reação dela, não a execução em si. Queria perguntar-lhe mais sobre esse processo e sobre as tuas escolhas de montagem, porque este filme parece-me mais um trabalho de montagem emocional do que de organização narrativa. Como é que decidiu colocar a mãe no centro da história?
Acho interessante dizer-me isso, porque essa é uma clara leitura sua do filme. Para mim, o centro é, na verdade, a relação entre mãe e filha. É sobre as duas. Quando comecei a trabalhar, a Reyhaneh já tinha morrido, é uma personagem ausente, portanto, o foco inevitavelmente recaiu sobre a mãe. O que sempre quis foi explorar essa relação entre mãe e filha, o qual me tocou profundamente. Mas fico feliz que, para si, a mãe seja o centro. É uma mulher extraordinária, e é curioso, porque há pessoas que se ligam mais ao pai; cada espectador tem um ponto de identificação diferente.
Para mim, a escolha por essa relação mãe-filha foi natural, porque é o aspecto mais universal da história. Eu própria sou filha e tenho uma mãe, e consigo relacionar-me profundamente com essa ligação. Além disso, trago também uma experiência pessoal de violência sexual, o que me fez identificar-me com a Reyhaneh. Pensei muitas vezes: “E se isto tivesse acontecido comigo e à minha mãe, se tivéssemos nascido noutro país?”, essa pergunta acompanhou-me durante todo o processo. Por isso, segui essa linha emocional: a da mãe e da filha.
Em termos práticos, tínhamos uma quantidade enorme de material. A minha montadora [Nicole Kortlüke] disse que nunca tinha trabalhado com tanto, e ela já montou muitos documentários. Nada tinha sido filmado com o propósito de fazer um filme, tudo era aleatório. As nossas decisões de montagem basearam-se em dois critérios: o que tínhamos de mais forte emocionalmente e o que era necessário para compreender o percurso desta jovem mulher, uma mulher com toda a vida pela frente que, de um dia para o outro, é lançada na prisão, submetida a tortura, e depois aprende, através de outras mulheres vulneráveis (sem-abrigo, prostitutas, toxicodependentes), a ver a sociedade em que vive.
Ela cresce, amadurece e chega à conclusão de que a única forma de resistir é lutar em solidariedade com as outras mulheres, e tal gesto fascinou-me: como é que alguém tão jovem chega a essa consciência? Como é que diz à própria mãe: “Não lutes só por mim, luta pelas outras”? Há aí uma dimensão heroica, como também quis mostrar o que isso significa para a mãe. Porque a Reyhaneh podia ter mentido, podia ter dito que não houve tentativa de violação e talvez tivesse salvo a vida. Mas recusou-se a fazê-lo. Isso sim é heroico! Contudo, o que representa para uma mãe ver a filha escolher a verdade, mesmo sabendo que pode morrer por isso?
Percebo.
E mesmo hoje, a Shole continua a pensar muitas vezes que talvez devesse ter tentado fazê-la mentir. Ela aceita a escolha da filha, respeita-a, mas continua a desejar que a Reyhaneh estivesse viva.

Queria agora falar de algo que o seu filme me fez reflectir. Este caso em particular levou-me a outras situações, como o recente movimento das mulheres iranianas em torno do hijab, da Polícia dos Costumes e a trágica morte de Mahsa Amini, em 2022, com vídeos virais a denunciar o regime e o patriarcado, não só no Irão, mas noutras sociedades também. Vivemos num tempo em que tudo facilmente se torna viral e depressa é esquecido, onde tudo acontece a uma velocidade absurda. Como realizadora, o que espera que permaneça nos espectadores depois de verem o seu filme? Pretende provocar choque, silêncio, vontade de resistir? Como transformar uma imagem efémera numa memória duradoura?
Percebo perfeitamente a tua pergunta. A Reyhaneh não foi a única, houve muitos casos antes e muitos depois, mas ela tornou-se um símbolo de resistência, porque foi um dos primeiros casos a emergir numa altura em que o Facebook começava a ser usado no Irão. A mãe dela utilizou muito as redes sociais para fazer campanha pela filha.
Por isso, muitas mulheres iranianas que vejo nas sessões vêm ter comigo e dizem: “Acompanhei o caso da Reyhaneh, ela foi uma inspiração.” Ela ficou na memória coletiva, porque foi uma das primeiras a dizer “NÃO”. Disse não a um homem, e disse não a um sistema. Lutou pela dignidade e pela verdade. Quis fazer este filme porque acredito profundamente no poder das histórias. Nós sabemos, intelectualmente, que o Irão é uma sociedade patriarcal, tal como a Alemanha, embora de forma diferente, e talvez também Portugal.
… sim, tradicionalmente como actualmente …
Sabemos, mas não sentimos. Quando lês que foram executadas mais de 1.200 pessoas num ano no Irão, é apenas um número. Um número absurdo, mas ainda assim um número. Quando passas 90 minutos a viver a história de uma dessas pessoas, sentes a injustiça de forma real. A emoção transforma a estatística em empatia, e, a partir daí, já não consegues ignorar.
Acredito que o cinema pode tornar-nos mais sensíveis, mais conscientes, também mais gratos pelo que temos, e mais vigilantes para não perdermos esses direitos. Porque, afinal, na Alemanha também não foi há tanto tempo que as mulheres não tinham direitos. Não podiam abrir uma conta bancária sem autorização de um homem, parece impensável hoje, mas foi há poucas décadas. O meu objetivo com “Seven Winters in Tehran” é que o público perceba o que está por detrás da palavra “pena de morte”: não é apenas a pessoa executada, mas toda a rede que a rodeia — a mãe, o pai, a irmã, a comunidade. É um mundo inteiro atingido por uma injustiça.
E sim, vivemos num tempo em que tudo é rápido, mas comecei este filme antes do movimento Woman, Life, Freedom. Na altura, estes casos não eram tão visíveis nos media internacionais. Só depois da morte de Mahsa Amini é que voltaram a emergir com força.
Uma outra pergunta habitual: “Seven Winters in Tehran” é a sua primeira longa-metragem, mas tinha outro projeto chamado “In Between”, certo?
Sim, mas esse foi um projeto experimental, mais uma improvisação. Filmei-o, mas nunca o terminei.
Nunca o mostrou a ninguém?
Não, nunca. [risos] Foi filmado, mas ficou inacabado.
E tem já um próximo projeto?
Sim, tenho. Chama-se “Radical Hope”. Estou agora a escrever o primeiro esboço do argumento. É um projeto de ficção, não um documentário, mas mantém uma ligação temática com “Seven Winters in Tehran”. Passa-se na Alemanha e é um pouco inspirado pelo que aconteceu à família da Reyhaneh depois de se mudar para lá, só que é uma história ficcional.
Estou a fazer um péssimo “pitch” [risos], mas a ideia central é: o que aconteceria se a irmã da Reyhaneh infiltrasse na família do homem responsável pela morte da irmã?


















