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27.1.17

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Tôkyô Monogatari (Yasujiro Ozu, 1953)

 

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Grüße aus Fukushima (Doris Dörrie, 2016)

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 17:12
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2.9.14

Os tons de Ozu!

 

Yasujiro Ozu teve não só voz no trajecto geracional como também na ténue emancipação feminina, mulheres que o autor as remete às diferentes causas rebeldes, desafiando todo um legado de tradições. A verdade é que nessa transição entre a modernidade globalizada e o primórdio Japão que teima em desvanecer, o realizador de A Viagem a Tóquio (Tokyo Monogatari) regressa com a sua paleta, neste caso a primeira a se pintar a cores, concretizando um quadro divergente com o mesmo uso de tons, ou seja, todos os elementos inerentes do seu cinema encontram-se presentes e ainda mais, a sua linguagem fílmica, imutável e intransmissível (planos filmados a pouco centímetros do chão, a implementação do “falso-raccord” na montagem e a quase ausência de expressividade dos seus personagens).

 

 

Tal como a estilizada dança kabuki, os palcos são os mesmos como as próprias “marionetas”, actores afáveis ao estilo de Ozu que emprestam as suas almas em prol dos seus contos, é como visitasse-mos os mesmos amigos sob circunstâncias diferentes. E para quem está habituado às jornadas de simplicidade transcritas pelo autor, encontrará neste seu leque de actores uma comodidade calorosa. Como é bom presenciar cada esquina, sala de estar, bar de saké com estes mesmo homens e mulheres ao serviço de Ozu, as suas rotinas, a sua conversa fiada e cinematograficamente inútil que nos remete a algo deveras simples mas genuíno. O realizador não tem bonecos, nem personagens, mas sim pessoas.

 

 

A Flor do Equinócio (titulo traduzido) seja talvez o filme mais moderno de Ozu, que evoca a nostalgia mais uma vez para ser o alicerce ensaísta das novas mudanças. Repetidamente os casamentos arranjados são tema de conversa e a conduta directa para a intriga. Aqui, somos remetidos ao patriarca Wataru Hirayama (Shin Saburi), desafiando pela própria filha que arranja casamento sem o seu consentimento. Hirayama, defensor dos valores tradicionais japoneses, porém apologista do amor livre entre jovens, opõem a esta decisão, não por desacreditar a causa da sua filha mas como preservação da sua autoridade. Estas desavenças entre pai e filha levarão a Ozu criar material necessário para culminar o subliminar, a referida mensagem de desconstrução da sociedade conservadora nipónica por parte das gerações mais novas.

 

 

Este é o cinema guiado pelo signo do autor japonês, apoiado por um drama rotineiro que qualquer espectador (conforme seja a sua sociedade e crença) identifica, o humor singelo e autêntico que contagia e por fim, como parece ser habitual na grande parte das suas obras, o clímax emocional, que implode na narrativa de forma crescente sem que o público aperceba. Sendo este o seu primeiro trabalho a cores, Yasujiro Ozu não perdeu, de maneira alguma, o seu delicado toque.

 

Real.: Yasujiro Ozu / Int.: Shin Saburi, Kinuyo Tanaka, Ineko Arima, Yoshiko Kuga, Chishû Ryû

 

Ver Também

Sanma no Aji (1962)

Tokyo Monogatari (1953)

 

9/10

publicado por Hugo Gomes às 09:43
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4.2.14

A despedida de Ozu!

 

Em O Gosto do Saké (titulo traduzido), o seu ultimo filme da carreira e o segundo rodado a cores como se de pastosas pinturas de guaches se tratassem, Yasujiro Ozu aborda um país sob uma crise de identidade. Enquanto em Tokyo Monogatari (A Viagem de Tóquio), por exemplo, continuávamos a assistir um Japão tradicional em plena remodelação após a derrota da Guerra, na derradeira obra deparamos com uma nação nipónica cada vez mais contagiada pelo Ocidente.

 

 

Entre os exemplos Ozu filma grandes fábricas industriais, os produtos ocidentais em constante presença no quotidiano das personagens (a cerveja ao invés de saké, o macarrão ao invés de arroz, as uvas aos invés das delicias típicas) e a vontade destas em mimetizar o estilo de vida norte-americano, enchendo as suas habitações com os mais claros acessórios do moderno ocidente. E não só: até mesmo o uso de contraceptivos é referido. É uma transição visual e inerente que o cineasta implanta sob uma trama tão usual na sua carreira, novamente balançando os seus ingredientes em mais uma nova visita à classe média. O Gosto do Saké resume-se a um drama agridoce sobre a importância do casamento como dever de uma vida e a solidão que atinge a "velhice" (um dos elementos altamente referidos na carreira do realizador).

 

 

A história centra num veterano viúvo interpretado pelo actor Chishu Ryu (cara conhecida da obra de Ozu) que tenta arranjar casório para sua única filha. Contudo o medo do isolamento se instala no pobre "velhote". Uma obra tão rica em simbolismos, ditada pelas ocorrências minuciosas e demoradas, O Gosto de Saké, tal como o título parece indicar, é um filme para saborear, para sentir e, acima de tudo, interagir. O final é novamente contagiado por um clímax algo poético que, apesar não ter a mesma força emocional que A Viagem de Tóquio, possui um traço especial, uma despedida dolorosa mas incutida como uma prolongada balada de um realizador e um cinema tão único como de "tão japonês", preservando todos os elementos característicos do seu modus operatis (os planos baixos e os falso-raccords).

 

 

Os constantes olhares ao passado com pouca crença no futuro cada vez mais reduzido e o país que metamorfoseou em consequência dos mais inúmeros eventos, até se tornar numa terra capitalista, onde a modernidade ocidental tenta a todo o custo apagar uma herança tradicional. O quotidiano de Ozu igual a si mesmo, mas sob uma capa adulterada e sofisticado. Chishu Ryu encontra-se perfeito a personificar Yajusirô Ozu nesta tremenda despedida, visto que o realizador faleceu um ano depois de O Gosto de Saké, no exacto dia do seu aniversario, quando completava 60 anos. O ultimo adeus em jeito de melancolia.

 

Real.: Yasujiro Ozu / Int.: Chishû Ryû, Shima Iwashita, Keiji Sada

 

 

Ver Também

Tokyo Monogatari (1953)

 

9/10

publicado por Hugo Gomes às 20:45
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27.1.14

Confronto de gerações!

 

Vivemos numa sociedade onde a distância entre gerações é cada vez mais diferenciada e isolada entre elas, provocando nestas adversidades uma incompatibilidade sociável que é gradualmente notada nos avanços e na modificação do quotidiano que como tal conhecemos. Ozu ilustrava há 60 anos uma longitude geracional que se bem empregaria nos tempos que decorrem, tudo num retrato deveras alusivo e exaustivo em simbologias presentes nos seus diálogos quotidianos, na monotonia dos actos, nos laços familiares que recorria e por fim na multiplicidade de sentimentos.

 

 

Falo obviamente de A Viagem de Tóquio (Tokyo Monogatari), onde já se mostrava o confronto entre épocas, ambientado num Japão em plena reconstrução, quer social e económica, após a humilhante derrota na Segunda Grande Guerra. O enredo da obra é deveras simples: um casal de idosos oriundos de uma calma e pequena cidade costeira "ozuesca" viajam para a capital nipónica com fins de visitar os seus filhos e confirmar como se estão saindo fora das suas "alçadas". Durante esta jornada de reencontros familiares, os "velhotes" apercebem-se que os tempos mudaram e as suas anteriores crianças já não são mais crianças que necessitam dos pais, são agora adultos feitos e de família formada que tentam sobreviver numa cidade competitiva. De natureza ocupada e sempre dotados de uma certa frieza em relação à visita dos seus progenitores, os filhos tentam mantê-los ocupados com actividades dos quais não requerem a suas presenças, fazendo com que estes tenham as merecidas férias mas não as pretendidas. Porém a ironia das ironias, é que a única pessoa que os recebe com a tal devida atenção e respeito durante a viagem é a nora viúva, que demonstra tamanho afecto, principalmente no tremendo climax que Ozu aguarda para o último acto.

 

 

Uma trama simples, interligada pelas mais diferentes rotinas familiares onde pouco ou nada parece surgir no ecrã. Contudo este é o filme que mais sintetiza o próprio estilo e inerência do cineasta. Não apenas a nível técnico; os falsos raccords e os planos a poucos centímetros do chão que se adapta aos próprios costumes dos nipónicos (esses planos viriam ser academicamente apelidados de “planos-Ozu”), mas a forma como transcreve o quotidiano e a dita rotina social em histórias de vida, em enredos que consolidam a tradição com o moderno e os valores com emoção entre os diferentes laços familiares. São pouco os realizadores que conseguem transcrever tais minuciosidades "banais" em termos cinematográficos, e  transforma-los em verdadeiros "palcos" para os seus peões e mais … para as suas histórias. Apelidado de o mais "japonês" dos realizadores japoneses, Ozu faz jus a tal cognome, demonstrando acima de tudo uma sensibilidade em retratar o seu património cultural e expressar o mundo em constante mudança que o rodeia.

 

 

Quanto a Tokyo Monogatari,  eis uma obra de beleza inigualável onde Ozu tece um confronto de gerações e "coze" discretamente qualquer veia sentimental mas que as difunde nas proximidades do final, onde nos deparamos com uma orquestrada inerência em transmitir sob um signo nobre, uma ênfase emocionante, de beleza triste e súbita, capaz de difundir uma poderosa moral. Claramente esta é a obra-prima do cineasta, um quadro subtil, bem-intencionado e sempre munido de mensagens ocultadas nos cenários e nas triviais conversas entre personagens. A Viagem de Tóquio foi durante a sondagem de 2012 da revista Sight & Sound considerado o terceiro melhor filme de sempre entre os críticos e o primeiro entre os realizadores, distinção discutível mas que se reconhece ser de certa forma merecida: esta é uma das obras que nos "tocam" pela sua simplicidade em emoções que ecoam por toda a eternidade.   

 

"Isn't life disappointing?"

 

Real.: Yasujiro Ozu / Int.: Chishu Ryu, Chieko Higashiyama, Setsuko Hara, Haruko Sugimura, Sô Yamamura, Kuniko Miyake, Kyôko Kagawa

 

 

10/10

publicado por Hugo Gomes às 22:37
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Gritos 3: 5*Que filme excelente e fenomenal, adore...
Um dos meus favoritos 5*
Gritos 2: 5*Sidney, Dewey e Gale estão de regresso...
Para mim é um dos melhores estreados em 2018, amo ...
É já de domínio público que João Botelho adaptou, ...
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