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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Macacotopia

Hugo Gomes, 08.05.24

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Há um momento no filme em que duas personagens humanas interagem, os Ecos, como são apelidados pelos símios dominantes, eles argumentam (muito breve tendo em conta o contexto da ação) e tentam persuadir um ao outro sobre o seu papel naquele mundo. A mais jovem, interpretada por Freya Allan, ambiciona por uma revolta, uma contra-ofensiva humana para reconquistar o antigo direito antropocentrista, enquanto o mais velho, William H. Macy (há muito não visto por estes lados), remata em jeito derrotista: “o mundo agora é deles”. 

Chegamos ao quarto “Planeta dos Macacos” deste reboot iniciado em 2011 e que atingiu um brilharete com a batuta de Matt Reeves nos seus dois últimos capítulo da trilogia (“Dawn of the Planet of the Apes” e “War of the Planet of the Apes”), porém, em termos de saga e das suas diferentes intersecções é o décimo filme baseado no livro de Pierre Boulle, e obviamente, imortalizado pela sua adaptação em 1968, naquela icónica imagem e twist final com Charlton Heston grunhindo e socando o chão de raiva - “You Maniacs! You blew it up! Ah, damn you! God damn you all to hell!”. 

Contudo, voltemos a este “Kingdom of the Planet of the Apes”, decorrido gerações à frente do desfecho do “War” (2017), aqui, apresentando um mundo pós-apocalíptico, onde a natureza reavê o seu perdido território, cruzando betão, esses rasto de uma civilização há muito perdida com o imparável selvagem e nela, utopia trazida por uma proto-sociedade de símios sapientes. Damos de caras com o nosso protagonista, um destemido chimpanzé com interesses na arte da falcoaria, tradição do seu clã, Noa (com Owen Teague em motion-capture), que após a tragédia que abateu ao seu vilarejo, prossegue num jornada ao encontro do desconhecido e de reinos de discórdias entre primatas. É macaco contra macaco a entrar em vigor neste futuro, e aí estão ditados os ingredientes que farão aproximar estes “quatro-mãos” aos humanos que tanto inferiorizam enquanto criaturas imundas. 

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É a continuação de um fascínio perverso que nós, humanos, nunca escondemos desde os escritos do Livro das Revelações, a fantasia quanto à nossa destruição, da nossa ausência e contraditoriamente a continuação da nossa essência mesmo com a inexistência humana. Neste caso os primatas assimilam aos sonhos molhados do antropocentrismo, à conquista, subjugação, genocidio e tiranização dos seus. Tal como os anteriores filmes são estas criaturas em CGI que ostentam alegorias à nossa espécie, são eles um reflexo distorcido e animalesco do nosso mundo, um espelho de Perseus que reflete a face hedionda e condenada de Medusa, a gorgon do olho de pedra, fazendo-a encarar o que sempre negara ver, a sua danação. Dito desta forma, soa que este “Planet of the Apes” é um complexo retrato político-social, mas só que não. Evidencia o seu lugar de blockbuster, direto e simplista na sua matéria filosófica, recebendo os resquícios da seiva oleosa dos filmes de Matt Reeves, mas dele um fruto menos sumarento, mesmo que confortavelmente digno da sua cadeira de entretenimento. 

Kingdom of the Planet of the Apes” é assinado por Wes Ball (de um outra saga, mais distópica que utópica, “Maze Runner”), menos gracioso e criativo que Reeve, apesar de ambos comportarem-se como tarefeiros à altura da expectativa de Hollywood. Contudo, é uma franquia que tem-se revelado milagres quanto à maquinaria e centrifugação que o sistema industrial hollywoodesco consegue captar. Não tão sapiens como “Dawn” e “War”, e longe de ser um australopithecus de filme.  

A não-cura para a tendência

Hugo Gomes, 24.01.18

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Chegamos à terceira e última parte desta distopia juvenil perdida em becos sem saída. Verdade seja dita, a competência não faz um filme, e Wes Ball por mais competente que seja a dirigir uma grande produção com foco centrado na fatia juvenil, dificilmente consegue bravamente sair do seu próprio registo.

Aqui a questão não é conduzir-se num guia de entretenimentos fáceis. “Maze Runner” peca, primeiro, pela coerência político-social que uma distopia poderia emanar (ao contrário do anarquismo envolto de revolta em “The Hunger Games”), e sobretudo por não trazer nada de novo às audiências. A começar pela primeira sequência, uma aspiração a "Mad Max" sem a orgânica de edição que o anexa, e a terminar na tentativa Senhor das Moscas como desfecho feliz e solucionável a um apocalipse materializado. Grandes corporações que tudo fazem para salvar a Humanidade da iminente extinção, um vírus quase “Romeriano” que gera criaturas desfavorecidas de realismo, e um grupo de jovens imunes inseridos em labirintos sintéticos de forma a descobrir uma cura. Sim, até nós questionamos a verosimilhança em tais métodos científicos, como tudo se servisse numa máscara circense de forma a injetar adrenalina num cenário pós-apocalíptico (sem acrescentar o facto desta mesma corporação intitular-se de WCKD, uma prolongada piada).

Nada faz sentido, mas mesmo sob o pretexto de “disbelieve” (descrença), “Maze Runner" não escapa ileso à homogenia da sua produção. Inconsequente até à quinta casa, longo até mais não (a culpa foi dos decepcionantes resultados do segundo “The Hunger Games”, que deitou por terra o plano de duas partes) e demasiado automático no seu encaixe, não existem aqui personagens, apenas bonecos com objetivos definidos e até mesmos os “novos” instalam-se como figuras-ferramentas, cuja existência é a solução dos problemas dos protagonistas. Nesse sentido, é o contágio da narrativa videojogo, sem o realce de questões existenciais e dimensionais do seu cenário. Tudo é corrido com a passagem de níveis.

Contudo, percebemos o público-alvo disto, em tempos de smartphones e enxurradas e consumo fácil de informação. Esse espectador perdeu a paciência, distrai-se facilmente, e necessita sobretudo de filmes acelerados e demasiado explícitos, narrativamente falando, para merecer a sua atenção. Foi nisso que o Cinema se converteu: alvos fáceis, produções gigantescas e anónimas.

“Maze Runner: The Death Cure" pode não ser a pior “coisa” existente no panorama atual, mas o seu conformismo é sobretudo alarmante.  

Corre, coração corre ...

Hugo Gomes, 17.09.15

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Maze Runner: The Scorch Trials” é a obra mais recente das três fatias da distopia juvenil – que parecem ter virado a tendência literária do momento – a ser adaptado para o grande ecrã. Uma “moda” que parece perdurar para os grandes estúdios lucrarem com uma revolução de marketing, que tão bem condiz com o espírito rebelde e quase anárquico da juventude atual.

Mas verdade seja dita, ao contrário de “The Hunger Games”, cujos últimos capítulos têm adquirido um certo gosto de provocação política, espelhada no nosso dia-a-dia, “Maze Runner” conduz-se como um prolongado ensaio de ação sob uma narrativa exposta aos parâmetros do cinema de cerco (no caso do primeiro livro e filme). Uma distopia que por momentos pede emprestado influências aos territórios percorridos por Romero ou das críticas fantasiosas escritas por um Orwell, mas que dificilmente consegue envergar por uma realidade paralela credível.

Enquanto que no primeiro  filme, o absurdismo da sua intriga constituía de certa forma uma caricatura às matrizes do videojogo, neste segundo as influências referidas adquirem contornos mais exaustivos e o resultado está à vista de todos: uma sobreposição de lugares-comuns, “déjà vus” e mais premonições numa “aventura” em modo corrente. Faltam sobretudo personagens (devidamente caracterizadas) e uma ênfase dramática que possa ser nivelada com entusiasmo (ou na ausência deste ponto, uma viragem assertiva para um teor mais “trash” e despretensioso). Sim, tal como o título indica (“Maze Runner”), a narrativa começa a correr e acaba por acelerar ainda mais, o “nitro” só desvanece numa falsa elipse que tinha tudo para corresponder a um assombroso “cliffhanger“; ao invés disso, apostou-se num “não percam os próximos capítulos”, e é possível até que vejamos mais um terceiro livro dividido em dois filmes de ritmos distintos.

Ação, romance de vez em quando, muito frenesim tecnológico, testosterona juvenil e uma distopia sugestiva sem fulgor político-social são os ingredientes perfeitos para tornar “Maze Runner: The Scorch Trials” o mais recente êxito de bilheteira. Agora se é cinema fértil? Nem por isso. Verifica-se sim, o automatismo industrial que estávamos à espera. É visualmente “bonitinho”, com valores de produção invejáveis, mas é tão vulgar que chega a ser entediante.