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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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"Golpe de Sol": Um Vicente com novos pontos de alma

Hugo Gomes, 13.08.20

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Nove anos separam este Vicente Alves do Ó do seu hitchcockiano “Quinze Pontos de Alma” (a sua primeira longa-metragem em 2011), a ainda imbatível “obra-prima”, e tendo em conta essa linha direta que reúne comédias disparadas e biografias do foro artístico é que questionamos, o que ficou do velho Alves do Ó e o que podemos contar com o novo?

A verdade é que o realizador, que encontrou sucesso em “Florbela” (a segunda longa-metragem que posteriormente se converteria numa série televisiva), é um homem constantemente assombrado pela sua existência, quer vindo das memórias do passado, quer do presente que o atormenta, quer o futuro o qual deseja vincar. É quase, em jeito de má-língua, um Almodovar de marca branca, no sentido com que idealiza as suas pessoalidades e que as impõe nas suas obras, nunca escondendo a sua natureza emocional, afetiva e sexual (tal como o cineasta espanhol).

Com “Golpe de Sol”, o realizador encontra-se ciente que este filme é uma desculpa para uma introspecção, uma psicanálise autoinduzida, e como tal, reparte a sua alma em quatro personagens aparentemente distintas, mas igualmente confundíveis nos propósitos e nas suas géneses. Convém salientar que não há artista algum que não trabalhe o seu íntimo, e quem não o faz arrisca-se a ser um mero técnico / tarefeiro. Por mais que se adore ou odeie Alves do Ó (ele tem a capacidade de alimentar essas duas esferas), nunca o poderemos acusar de falta de personalidade ou de isenção artístico-criativa.

Porém, com esta obra … esta, mesma, longe dos seus piores trabalhos (refiro às suas falhadas experiências cómicas como “O Amor é Lindo … Porque Sim!” e “Quero-te Tanto!”), é o filme que mais revela as suas arestas a merecer ser limadas enquanto realizador de corpo e alma. Entre as quais, o completo ego retraído que invalida de uma total entrega emocional nas personagens – quatro adultos prontos a conviver numa residência da costa vicentina, numa tremenda espera por um quinto elemento que lhe trará assuntos pendentes.

Nessa questão, a das personagens, nota-se a dedicação dos atores em construí-las e enraizá-las neste mesmo universo, com especial atenção a Ricardo Pereira na sua demanda pela transgressão de estereótipos já ultrapassados (mas que no nosso audiovisual ainda somos presenteados, graças à escassez da representação), e o alicerce valioso do qual se assume a banda-sonora (“bullseye”) – o artista brasileiro Johnny Hooker – a implementar a ênfase dramática que Alves do Ó não consegue de forma alguma (os atores parecem reconhecer isso, porque os seus gestos são sincronizados com a cadência do cantautor).

Ele próprio afirmou que se sente, por vezes, megalómano, e essa megalomania o atrapalha em tentar resolver trabalhos simples e quase niilistas como este “Golpe do Sol”. Por isso, respondendo à pergunta pontapé de saída que coloquei, a grande diferença está nessa aproximação com o futuro que o espera. Enquanto “Quinze Pontos de Alma”, indiciamos um realizador a emancipar-se perante o panorama que se inseria, em “Golpe de Sol”, testemunhamos um homem preocupado com o seu legado, e aquilo que as futuras gerações o poderão interpretar.

Cinema em Portugal? "Quero-te Tanto!"

Hugo Gomes, 15.04.19

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Um pouco antes da estreia de “Al Berto”, Vicente Alves do Ó declarou que em Portugal o cinema continua como um parente pobre da TV. As suas palavras poderiam soar como um alerta acerca da dependência dos produtos cinematográficos para com a linguagem televisiva, a fim de conquistar um lugar na “indústria”. O que acontece é que Alves do Ó apenas explicita a velha cantiga do “faz o que digo e não o que faço”, até porque, como se vem a confirmar com este “Quero-te Tanto!”, o “raio” da televisão não desgruda do grande ecrã. Portanto, as lições são as lições, e os filmes são à parte.

Até poderíamos justificar que o que deparamos aqui estava inicialmente planeado para ser projetado nos pequenos ecrãs, aliás, uma das produtoras é um canal televisivo generalista que nos últimos tempos tem definido uma linguagem tão própria nesse ramo. Se houve desmembramento e enquadramento de forma a solicitar um “filme”, “Quero-te Tanto!” fica-se então pelo oportunismo enquanto ocupa as salas de cinema do país. Por outro lado, visto que temos a preencher estes espaços, olhemos com atenção a este “case study”.

Se Luís Urbano da Som e Fúria afirmava num debate ocorrido na Universidade Lusófona, no final de março, que não fazia distinção entre cinema mainstream e cinema de autor, pois todo o cinema tinha um fim comercial, Pandora da Cunha Telles contrariou a ideia ao dizer que todos os seus filmes produzidos eram, de uma forma ou de outra, de autor. O seu argumento é que cada um deles tem um realizador, argumentista e autor da banda-sonora, logo… autorais. Seguindo à letra as declarações da sua produtora, talvez, cegamente consideremos “Quero-te Tanto!” num trabalho autoral, visto termos os envolvidos na sua conceção.

Mas é de uma ingenuidade extrema consentir com este ponto de vista, porque esta TV para “Multiplexes” é um exemplo claro de massificação de uma ideia de Cinema para massas. Uma ideologia que deve ser sobretudo combatida por várias razões: a primeira é o sufoco criativo e da transgressão do dialeto cinematográfico, sendo para além de tudo um desrespeito para com as audiências em trazer para as salas aquilo que tão facilmente se pode ver em casa. Segundo, a miopia para com a comercialidade do filme, o que resultará numa obra apenas bem-sucedida em mercado interno sem pretensões além-fronteiras. 

É claro que “Quero-te Tanto!” não é a pedra pedestal deste formato que contagia as nossas produções com desejos de viabilidade comercial há anos … mas é um exemplo daquilo que se deve evitar nos tempos atuais. E não estou a referir apenas à inclusão da caucasiana atriz Alexandra Lencastre a interpretar uma vidente chinesa designada por Madame Ping Pong (um tipo de humor arcaico a contornar, para além de uma discriminação para com os atores asiáticos). O que acontece é que esta história pindérica de um jovem casal lisboeta – ele, o arquétipo visto e revisto do homem-menino à lá Adam Sandler (Pedro Teixeira), ela a cegamente apaixonada e despersonalizada (Benedita Pereira) – não é mais do que um mero episódio-resumo dos tiques e tendências acumuladas neste Cinema “vendido” para todos. Isto tudo para além do humor básico e condescendente onde a caricatura falha com toda a sua “inglória”.

E é pena que Vicente Alves do Ó que tanto prometia desde “Quinze Pontos de Alma" dê a cara por isto … o prolongamento de um dos pecados do nosso Cinema.

Vicente Alves do Ó: "O Cinema continua como um parente pobre da televisão em Portugal."

Hugo Gomes, 10.10.17

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Ricardo Teixeira em test screen para "Al Berto" (2017)

Vicente Alves do Ó regressa à poesia, aos poetas e aos inspiradores. Cinco anos depois de “Florbela”, a poetisa de “amar perdidamente”, o realizador decide aventurar-se num projeto mais pessoal, mais intimista e emocional – “Al Berto”. A vida de Alves do Ó cruzara com este desafiador por natureza, este artista que olhou de frente para a hipocrisia da época e fez estremecer o conservadorismo embebido da cidade de Sines num pós-25 de Abril. Falei com o realizador sobre o projeto, a sua experiência e sobre o seu olhar à mudança eternamente esperada da sociedade portuguesa.

Em relação ao filme, a iniciativa e da construção de uma “trilogia de poetas”, o porquê de aventurar-se em Al Berto?

Esta ideia de uma “Trilogia dos Poetas” nasceu durante a produção da “Florbela”, e não antes. Não foi uma ideia pré-concebida, ao contrário foi crescendo com este retomar ao gosto da Poesia. Esta com enorme importância na minha vida, assim como no meu crescimento, e não só. A escolha dos três poetas foi feita, pura e simplesmente por ligação emocional, nada mais que isso. E Al Berto fazia todo o sentido integrar esta mesma trilogia, visto que foi dos poetas que mais me marcou até porque convivi, conheci e trabalhei com ele.

Não poderia contorná-lo, até porque em dimensão emocional foi evidentemente mais enriquecedor para mim que “Florbela”. Al Berto estava intrinsecamente relacionado com a minha vida, com a do meu irmão, com Sines, etc. Foi a primeira personalidade notável a ler um texto meu, lembro de recitar um poema da minha autoria no Teatro de Sines e Al Berto, assim como o João Maria [o irmão de Vicente Alves do Ó], encontravam-se no público. Tinha 19 anos.

E quanto à escolha deste período na vida do artista?

Agora em relação a este período, que de certa forma desafia o esquematismo da biografia, e tal como fizera com Florbela, é encontrar um período transformador, catártico, revelador, inspirador, na vida desta pessoa que irá despoletar tudo o resto que se conhece. Como Al Berto se tornou na figura que hoje o público conhece? Eu tinha esta história para contar. Primeiro, era algo que o grande público desconhecia, até mesmo que as pessoas que lidavam com ele conheciam, apercebi-me disso rapidamente. Para além de ser um período muito complexo. O 25 de Abril é fresco, a liberdade, o direito de expressar-se livremente, a democracia, encontravam-se igualmente frescos, e neste período há uma reação a essas mesmas mudanças que entra em choque com uma juventude inquieta que simplesmente quer viver. Depois quis demonstrar o amor entre dois homens, que continua sendo um tabu, até porque ainda hoje a homossexualidade é encarada como um algo perfeitamente sexual e nunca um sentimento amoroso. Esse elemento, o Amor, é bem mais complexo do que as pessoas julgam. Aliás, é mais difícil aceitar a possibilidade de amor entre dois homens do que o teor sexual da homossexualidade.

Em relação ao casting. Porquê a escolha de Ricardo Teixeira para interpretar essa personalidade tão querida para si?

Conheci-o no ginásio [risos]. Sim, pouco tempo depois de ter terminado o guião. Quando dei por encerrado o argumento de Al Berto deparei com um autêntico problema: quem iria interpretar o poeta? Isto preocupava-me profundamente porque eu conheci perfeitamente o Al Berto, sei de cor a sua aparência, a sua voz, os seus gestos e maneirismos, sabia perfeitamente os pormenores do seu ser, aliás o meu jeito livre foi adquirido graças a ele, e eu devo-lhe muito da minha personalidade. Ele morreu há 20 anos, por isso existem registos vídeo e áudio. Eu teria que encontrar alguém parecido, para não dizer idêntico, a esse homem.

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Vicente Alves do Ó

Mas não desviando do assunto, estava a treinar no ginásio quando de repente passa por mim o Ricardo, na sua, com fones nos ouvidos e de cabelo comprido. A minha reação foi simplesmente de espanto, apesar de ter a sensação que a sua cara não me era estranha. Ricardo pertencia aos Silly Season, uma companhia de teatro. Meti conversa com ele de forma a conseguir ouvir a sua voz, o timbre do Al Berto era inconfundível, suave e grave, e quando o Ricardo falou comigo fiquei determinado a contratá-lo. Imagem e voz eram as qualidades que precisava para o meu Al Berto. Contudo, depois disto, o Ricardo seguiu para o casting e juntei-o logo com o José Pimentão, que iria interpretar o meu irmão, para ver como resultava em termos de química. Obviamente que o resultado foi positivo. Quanto ao resto dos atores foram aparecendo. 

O espaço entre terminar o argumento e começar a filmar foram dois anos, e nesse tempo fui construindo o meu elenco. Procurei jovens atores em teatro. Por exemplo, Raquel Rocha Vieira impressionou-me numa peça. “Quem é esta miúda?” pensei eu espantado. Mas concretizei este processo com o elenco jovem; quanto aos adultos, foram atores que fui gradualmente convidando.

A produtora não fez nenhuma exigência no casting?

Não, a minha produtora não fez qualquer exigência com o grupo mais jovem, pelo contrário, incentivou-me a trazer “caras novas” para o Cinema, de forma a renovar os “rostos do Cinema”, para não termos a tendência de repetir os atores. Julgo que a mais conhecida dos jovens é a Gabriela Barros, que faz televisão, porém, só também a descobri numa peça de teatro.

A atriz Rita Loureiro interpreta em "Al Berto" a sua própria mãe. A escolha para este papel derivou de algum traço afetuoso para com a atriz ou foi uma espécie de “recompensa” por ter integrado a sua primeira longa-metragem?

Obviamente, para além de admirá-la como atriz, e ter sido a minha primeira protagonista [“Quinze Pontos na Alma”], eu olho para ela e apercebo-me nela algo de muito semelhante com a minha mãe. É um sentimento quase maternal, e acrescentaria também fetichista, visto que ela já participou em três filmes meus. Tento mantê-la perto de mim [risos], daqui a uns anos alguém irá se debruçar dos porquês e os quês dela aparecer tanto na minha filmografia.

Contudo, não imaginaria outra pessoa para fazer o papel de minha mãe. Se a Rita não pudesse fazê-lo, juro que tirava a personagem do filme.

Nós portugueses sempre tivemos a ideia de que o 25 de Abril nos tornou tolerantes e livres da noite para o dia. Essa desmistificação encontra-se presente no seu filme, a sociedade de época ainda “abraçada” aos valores conservadores e ao medo da mudança.

Era a sociedade da época, como tu dizes, eu não precisei de inventar. Queria combater a hipocrisia, a cristalização daquele momento [25 de Abril] como perfeito. O português tem dificuldade em encarar a verdade, sempre a mascará-la, uma hipocrisia impressionante.

O 25 de Abril não foi perfeito, mas se foi a melhor coisa que nos aconteceu? Foi dentro daquilo que tínhamos. Mas algo que temos que ter em conta é que muitas pessoas não alteraram a sua mentalidade, aliás mantiveram aquelas mesmas ideias que tinham no exato dia 24 de abril, o conservadorismo, a intolerância, o medo da modernidade e das diferenças, estas ainda se encontravam nestas pessoas. Ainda existe a ideia de que um dia marca a diferença nas emoções de uma pessoa, a ideologia, a política, a religião … não, nada muda. E a prova está naquilo que se abateu sobre esses jovens, as pessoas não sabiam lidar com aquela diferença, com aquela liberdade, e ao invés disso responder com o instinto, primário e tradicional. Não paravam para pensar que as suas lutas pela liberdade dava direito a que aquele estilo de vida existisse.

O paradoxo é esse, elas querem a liberdade, mas não a liberdade total. Para mim era importante falar nisto, porque isto estava tão presente naquela altura, assim como está hoje. Agora vivemos numa sociedade mais “politicamente correta”, em que estes temas continuam a ser varridos para “debaixo do tapete”.

Considera o politicamente correto de hoje como uma espécie de máscara?

O politicamente correto é uma máscara, sim. Porém, hoje confunde-se o frontal em ser desrespeitoso, e há uma linha que separa ambos os lados. Penso que da mesma forma que tentamos desmontar o politicamente correto, também devemos diferenciar cada coisa. Acima de tudo, questionar o que é a Liberdade de Expressão? Onde acaba e começa o desrespeito pelo próximo.

Adiante, se eu retratasse Sines neste filme como uma cidade maravilhosa, progressista, artística e tolerante com os ideais do 25 de Abril … estava a ser igualmente hipócrita. Por outro lado, é uma forma de olhar o interior do nosso país. As histórias envolventes do 25 de Abril são retratadas quase exclusivamente em Lisboa. E o resto do país? Não tem histórias para contar? Aliás, não só o 25 de Abril, mas muitas das histórias cinematográficas parecem restringidas a esta bolha.

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Al Berto (2017)

Há bocado falava dos “rostos habituados do Cinema Português”, é verdade que muitos dos atores alternam entre o cinema e a televisão, mas a questão é, para si, qual a diferença de fazer Cinema e Televisão?

O Cinema e a Televisão são duas plataformas completamente distintas, apesar de hoje existir muitos a fazer cinema na televisão e televisão no cinema. Julgo que tudo isso irá ser debatido cada vez mais, até porque as plataformas estão cada vez mais a transformar, a aproximar um do outro, e aí entra o streaming, os “netflixes” da vida. Só espero que não acabem com as salas. Podes estar a ver a melhor série do Mundo, mas nada bate a experiência que é ver um filme em sala, uma verdadeira comunhão.

Em relação à televisão, contextualizando-o no caso português, possui mais dinheiro, mais tempo e até liberdade. Mas recordo que existe um preconceito de quem faz televisão não pode fazer cinema e assim vice-versa, apesar de hoje, este cenário encontra-se melhorado. E acredito plenamente que as televisões generalistas vão-se extinguir. Quanto ao Cinema, apesar da evolução, continua como um parente pobre da televisão em Portugal.

É sabido que o Vicente Alves do Ó dá aulas de cinema, utiliza os seus filmes como práticas ou exemplos de ensinamento?

Eu não obrigo ninguém a ver os meus filmes, nem sequer a seguir-me, mas aconselho os meus alunos a espreitá-los. Acho que algo crucial no ensino é ter professores que se encontram no ativo, que se debatem constantemente sobre a prática e não apenas na teoria, isso é verdadeiramente importante. Muitas vezes uso a minha experiência para focar nas determinadas áreas do ensino, no que toca à escrita, à rodagem, à realização, ao estilo, na pós-produção.

Costuma ler críticas?

Leio tudo, tudo e tudo. Mas já passou o tempo em que me preocupava com as críticas, ficava desmerecido com as más e só apetecia desaparecer. Aos poucos comecei a fortalecer e hoje, leio, só que não me chateio. Para quê? Quando estou a rodar e a trabalhar no filme, ele é meu por direito, mas depois de terminá-lo, passa a ser de quem o vê, da sua interpretação, do seu gosto. Más críticas tornam-me mais forte, e se não gostam do meu trabalho, temos pena. Continuarei a realizar os meus filmes.

Novos projetos? Tenho conhecido que o seu próximo chama-se “Golpe de Sol”, quer falar-nos sobre esse projeto?

Só posso dizer que acabamos as quatros semanas de rodagem, muito discretas e para os próximos dias começarão a sair mais algumas informações.

Al Berto, o “menino de olhos tristes” que quis ser poeta

Hugo Gomes, 09.10.17

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Tens os olhos tristes, e todos os homens com olhos tristes são poetas”. Assim é nos dito inicialmente, no meio do encontro de duas personagens, que o espectador, até então, desconhece as suas identidades e paradeiros, mas apercebe-se instantaneamente da teatralidade dos seus diálogos proclamados com tamanha serenidade e espera. Com a frase feita, pronunciada e ouvida, o espectador é informado automaticamente da natureza de uma das suas personagens. O Poeta, o eremita da sua verdade, refém das palavras que nascem do seu interior com fins de expressar a alma da maneira como lhe convém. Porém, “Al Berto”, de Vicente Alves do Ó, está longe dessa recolha de talentos pelo qual se tornaram cinebiografias.

A personalidade-protagonista nunca recita uma estrofe, a sua criação é sugestiva na mente do público, visto que não é esse o objetivo inicial do realizador de “Florbela”, a adaptação da poetisa de “Amar Perdidamente” que soa como um rascunho em comparação a este relato de foro mais emocional, pelo ponto de vista do seu narrador (Alves do Ó). É sabido que Vicente (o chamaremos assim) conviveu com este amante da liberdade, dos ideais do 25 de Abril que não se viveram na sua totalidade na população de Sines. Até certo ponto, a existência de Al Berto cruza com a existência do nosso Vicente, direta e indiretamente, nesta última estância e como parte umbilical deste filme, o romance com o irmão de Alves do Ó, um “amor entre homens” acima da sexualidade “profana” aos olhos dos “pacóvios conservadores”.

Mas do Al para Berto nota-se um espaçamento, uma distância e nela, se materializa com toda esta época induzida como um espectro da sua sugestão. O afastamento para com o espectador dá-se por vários motivos, pela rigidez planificada que nunca encontra lugar no onirismo libertino nem da sujidade do intimismo dito queer (referenciando os lugares-comuns detidos nesse subgénero), ou, pelos conflitos internos do telefilme com a própria matéria cinematográfica, uma linguagem empestada por um crescente academismo. 

Outro ponto que remete Al Berto para o “feliz” fracasso, é a quantidade de secundários nunca desenvolvidos, subjugados pela sombra da personagem-título e do seu romance protagonista, o carisma requisitado de Ricardo Teixeira que ofusca qualquer justificação para que o produto saia do seu umbiguismo. A juntar a ausência de lirismo que não disfarça a teatralidade destes atores e situações, Al Berto funciona como um gesto, narcisista para uns, honesto para outros, dando forma a um exercício falhado.