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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

The Pool Club

Hugo Gomes, 20.08.25

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Gostaria de pensar em “Pools” como uma espécie de “The Breakfast Club”, caso John Hughes fosse dado a estratagemas políticos e tivesse vivido numa geração altamente depressiva como esta que se faz adulta, em constante FOMO e com a sensação de um fim próximo, talvez demasiado próximo, alimentando uma melancolia esmagadoramente suicida.

Não se pode negar: Sam Hayes, neste primeiro ensaio de longa-metragem, comete alguns erros de principiante, como insuflar em demasia a intriga com reflexões que soam a profundidade forçada ou a filosofias de segunda categoria. Mas não fiquemos pelo aparente: há espaço para apreciar aquilo que “Pools” quer ser, desde logo, no próprio título,  “piscinas” surgem aqui como símbolo máximo da divisão entre classes: não apenas como frescura para os verões insuportáveis, mas como ostentação social, marca de uma propriedade líquida e visível. 

É nesse calor … e que calor! … que enlouquece os jovens de um campus universitário, cinco náufragos da chamada “escola de verão”, decididos em “assaltar” um condomínio privado, explorando piscina a piscina, muitas vezes perseguidos pelos seus donos. Para uns, o gesto é mera emancipação de uma juventude desamparada (a última loucura jovial antes da entrada do ‘universo adulto’); para outros, um movimento político de desapropriação do próprio conceito de propriedade (Hughes cometia tal ato num carro em “Ferris Bueller's Day Off”, símbolo não apenas da apropriação, como da opressão hereditária), essa arma tão americana contra ideais de esquerda, nomeadamente comunistas.

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Se dúvidas houvesse quanto às intenções politizadas de Sam Hayes neste seu primeiro filme, existe uma sequência nada inocente em que um técnico de ar condicionado (Michael Vlamis), é desafiado pela protagonista, Kennedy (Odessa A’zion, “Hellraiser”), a integrar um union (= sindicato). Talvez aí resida a chave para a resolução dos seus problemas e dos que a narrativa lhe reservará mais adiante. Voltando ao “clube de pequeno-almoço”, as personagens agrupam-se nas suas dores, frustrações e inseguranças, espelho de uma juventude que anseia pelo protagonismo das suas próprias vidas, cada vez mais trituradas pelas pressões sociais e incapazes de se conformar com um destino já predestinado e no seu entender dilacerado.

Sam Hayes é desses autores independentes que entrelaçam comédia e drama, por vezes abusando da dose, sem saber ao certo onde acaba a tristeza e começa a martirologia. A juventude, verde ainda, sujeita-se ao que a vida oferece sem pudor: a mortalidade — a nossa e a dos outros. Só há que lidar com ela. Não é perfeito, nenhum filme o é, nem mesmo as proclamadas “obras-primas”, mas “Pools” é uma viagem: pela secura, pelo salto de fé na água, pelo mergulho até à exaustão. Perdoam-se-lhe os pecados, porque as virtudes fazem os seus devidos mortais à retaguarda..

Erradicando o ‘rapaz’ em nós

Hugo Gomes, 07.12.18

Curiosidades-de-Boy-Erased-filme-cancelado-no-Bras

O segundo passo do ator Joel Edgerton na realização faz-se por um filme-denúncia. Remexe nas memórias do escritor Garrard Conley, filho de um pastor Baptista, que após revelar a sua homossexualidade é enviado para uma instituição de forma a “curar-se”.

Boy Erased” apresenta-nos Lucas Hedge (“Manchester By the Sea”, “Lady Bird”) no papel de Conley, que se assumirá como um guia para um protótipo destas casas de conversão gay, sempre pontuado de doutrinas religiosas e alusões a cantos infernais e movimentos pecaminosos. Todo este processo tende em soar como irmão bastardo entre os Alcoólicos Anónimos e um estabelecimento militarizado (aqui até mesmo a posição é sinônimo de virilidade). Este Hedge / Conley evoca-se como um “insider” pronto a esboçar esta realidade ainda existente em terras yankees, fundando assim um encenado documento para com esta desinformação. É como se um artigo da New Yorker tratasse, minado de reflexão e tendências jornalísticas, originando um filme sobretudo esquemático e descritivo onde as personagens não são mais do que meras representações (curiosamente, um dos “utentes” é Xavier Dolan).

Nesse termo, “Boy Erased” justifica a sua visualização para fins de conhecimento e conscientização, o que prova acima da tentativa de Edgerton prevalecer como um realizador de R maiusculo. Endereçado por uma planificação sobretudo académica onde não faltam os graduais fade in e fade outs como mandam as leis emocionais de Spielberg, o realizador parece não ter controlo numa miopia castradora para com as eventuais direções do filme, fechando, ou melhor, enclausurando com uma falsa luz messiânica do que é Cinema.

Todo este processo depara-se com as similaridades do modus operandis destas mesmas “casas”, uma manipulação mental e sentimental que a homossexualidade é anti-natura, assim como Edgerton julga o além-academismo numa anormalidade. Fora do cenário protagonista desta história, o filme tende em solidificar a sua dramatização com momentos pai-filho ou em spotlights repentinos de Nicole Kidman (no mesmo registo de “Lion”, ou seja, uma secundária dependente do seu destacado monólogo), tudo sob a melodia do arrasa-corações.

No final, percebemos duas coisas. Uma é que Joel Edgerton não tem “visão” para realizador (ao contrário de um Bradley Cooper que surpreende em renunciar essa linguagem de “bom americano de estúdio”). Segundo, Lucas Hedge tem a força, mas não a suficiente para realçar este telefilme disfarçado de Cinema.

A joia que surge no meio do carvão

Hugo Gomes, 28.11.17

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No universo de Guillermo Del Toro (assim o chamaremos) existe toda uma coletânea de simbolismos, elementos fantásticos e criaturas mitológicas que operam conjuntamente como uma metáfora político-social. Talvez seja por isso que adereçamos a este seu mundo fértil de décors e caracterizações uma profundidade alusiva que muitas das variações fantásticas atingidas pelo cinema  – sublinhando as adaptações das série infanto-juvenis que seguiram moda no rescaldo do sucesso de Harry Potter e afins – nem sequer sonharam obter.

Em “The Shape of Water” deparamos, indiscutivelmente, com esse cunho autoral, até porque o Cinema do mexicano é reconhecível, e muito mais a sua colaboração com o ator Doug Jones, o verdadeiro “homem das mil faces”, um exímio herdeiro do legado Lon Chaney. Existem esses recortes, aqui e ali, empréstimos de outras experiências que o cineasta viveu nos seus “anos loucos” por terras de Hollywood, como as transladações de “Hellboy” e de “Blade” ao grande ecrã, orquestradas numa diluição de mundos secretos com o realismo formalizado que o espectador indicia como déjà vu.

É verdade que este vencedor do Leão de Ouro no último Festival de Veneza, um feito para um cinema cada vez mais “série B” ou da infame etiqueta “cinema de género”, é uma obra pretensiosa, com os truques baratos da award season, para além de prolongar os lugares-comuns definidos por este cinema querido, mas é dentro dessa capa de vulgaridade que Del Toro faz das suas para implantar uma rebeldia ao bem-estar do espectador. Pequenos, mas eficazes atos de ativismo que tornam “The Shape of the Water” numa fábula adulta e não tão inocente como aparentemente se julga. Obviamente que todo este dispositivo fabulístico segue numa demanda pela despersonalização de um mundo tão nosso, desde a criatura até ao ar agridoce desta América fechada e pintada sob tons de pseudo-medievalismo, tudo servindo como catarse para um plano maior.

Falar da nossa natureza humana e a atualidade que nos atinge com subjetividade, sem com isso deixar que a mensagem não seja percetível, é tarefa capaz para a “forma desta água”. Identificamos esses mesmos elementos paralelos, reconhecidos e experienciados, e apercebemos a trajetória que nos conduz a uma lição “dickeana” da seriedade humana (Philip K. Dick e não Charles Dickens): o que distingue os seres humanos dos animais? O que nos torna humanos? Mas ao invés da singela imagem de androides replicantes, agora vulgarizados por um cinema de entretenimento ansioso pelo estatuto de adulto (“Blade Runner 2049” sofreu com essa saturação e a queda do dito cinema maduro que teima em marcar presença na principal indústria), temos um protótipo de criatura da Lagoa Negra, a mitologia que se mistura com elementos invertidos de Hans Christian Andersen (sim, “A Pequena Sereia” representada por uma muda Sally Hawkins em missão do encanto ao seu “príncipe”) e os factos históricos distorcidos a perpetuar uma sensação de paralelismo.

A desigualdade, discriminação e a incompreensão pelo próximo, matéria evidente em todo este contexto. Sim, por mais rico que seja o ambiente próspero de Del Toro, ele torna-se previsível e percetível para o espectador. Não existem leituras agravantes e, possivelmente, é nesse sentido que “The Shape of Water” vinga de muitas construções fantásticas e de ficção científica que ultimamente têm sido produzidas, não existindo a pretensão de esconder ou de confundir com intelectualidade. Neste caso, o Mundo é aberto e apto para todos o usufruírem, quer como crítica sociopolítica, quer como a fábula adulta pelo qual tem sido vendido.

Se Del Toro é um artesão formidável na construção desse imaginário materializado, já a música de Alexandre Desplat acompanha esse processo e salienta os já proclamados tons fabulistas deste amor interespécies, que na verdade se refere ao mais antigo dos contos humanos. Dentro daquilo que tem sido produzido lá para os cantos de Hollywood, “The Shape of Water” é uma gema, um brilho reluzente de um cineasta que nos fascina através da criança que vive dentro de nós. Simplesmente honesto.