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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Espiões e futeboladas ...

Hugo Gomes, 06.05.24

Captura de ecrã_1-5-2024_94057_www.youtube.com.jp

Cândido - O Espião Que Veio do Futebol” procura cinema onde não o há, com a inteira noção de que está a construir uma produção ambientada para pequenos ecrãs, cujas suas ambições não disfarçam essas habituais armadilhas. 

Desvendando um episódio da nossa história recente, Cândido Plácido de Oliveira (1896 - 1958), jornalista desportivo e eventual selecionador de futebol, se vê envolvido num enredo de espionagem montado pelos ingleses que o conduzirá aos calabouços da polícia política (PVDE) e posteriormente “cumprindo pena” no Tarrafal devido à sua resistência. Tomás Alves (“Amor de Perdição”, a de Mário Barroso, “Salgueiro Maia: O Implicado”), perante uma questionada caracterização (a calvície revela uma secção que ainda  nos posicionamos no amadorismo), faz o que pode tendo em conta que a narrativa segue-se em fragmentos telenovelescos, com personagens ali e acolá apenas servindo de contexto social e político e nunca adensando a veia thriller que parece emanar. 

Talvez seguindo a tradição da produtora Ukbar que é apostar nessa ambiência de espiões e guerra iminentes, com alemães nazi invocados como apocalypse deveras, “Cândido” (de Jorge Paixão Costa, que em outros tempos assinou um dos mais bem equilibrados produções de cinema popular - “O Mistério da Estrada de Sintra”) resume apenas a isso, a tentativa de, uma, fazer cinema para massas seguindo os códigos de géneros consolidados, e dois, penetrar no século XX português extraindo dele estas mirabolantes e ocultadas jornadas de um país em rebelião com o seu Estado Novo. Dessas duas vias, o falhanço é abismal, primeiro por não ser verdadeiramente cinematográfico na sua invocação de elementos thriller e segundo por não ser convincente na sua transcrição histórica. Apenas Carloto Cotta, soando num registo oposto ao do filme, salva o que pode nesta “carolice” produtiva. 

Falando com Tomás Alves, de Salgueiro a Expatriado em "Pátria"

Hugo Gomes, 20.10.23

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Pátria (Bruno Gascon, 2023)

Vimo-lo pela primeira vez na grande tela, na releitura moderna do clássico literário de Camilo Castelo Branco - "Um Amor de Perdição" - hoje, ele pode ser considerado um protagonista em ascensão no cinema português, mas não foi há muito tempo que vestiu a farda e seguiu em direção à Liberdade ("25 de Abril Sempre!"), encarnando Salgueiro Maia em "O Implicado", um dos rostos da Revolução dos Cravos. Agora, como mártir revolucionário de uma distopia ditatorial nesta terceira longa-metragem de Bruno Gascon - "Pátria" - questionamo-nos se estamos perante um símbolo da rebelião.

Falamos de Tomás Alves, o ator que não se considera um agente político, mas que eventualmente tem dedicado esforços no seu percurso para tal. Conversamos sobre o seu novo projeto, aquele que, perante a ira contra uma milícia ao serviço do regime, assume-se como guerrilheiro de uma guerra de causas dignas, mas de vitórias lentas, e sobre a chegada de um eventual cinema que reage à espuma dos dias.

Com Salgueiro Maia ainda "fresco" na nossa mente, agora com "Pátria" em que se revolta contra uma distopia ditatorial, podemos dizer que Tomás Alves é um ator para revoluções e revoluções?

Podemos dizer que sim. O que poderá ter a ver com o facto de, na minha personalidade, não haver propriamente características de um revolucionário. Desde cedo ouvi dizer que o mais difícil é fazermos de nós próprios. Considero-me alguém muito pacífico e pouco dado a confrontos. Evito o conflito, sendo-me mais natural à procura do que leva às injustiças para as amenizar… embora sinta que algo, ultimamente, está a mudar um pouco. Influenciado pelas personagens ou simplesmente pelo meu crescimento pessoal, talvez esteja a sentir a necessidade de me envolver, talvez por estar mais atento, inquieto e sensível à injustiça.

Voltando a "O Implicado", em termos performativos, como foi o salto do filme de Sérgio Graciano para o de Bruno Gascon? Trouxe algo de Salgueiro Maia para esta sua nova personagem?

São personagens bastante diferentes, apesar de terem como denominador comum um grande sentido de justiça e a luta pelos direitos humanos. O Salgueiro’ foi sustentado pelas fontes históricas de onde bebi muita informação, que me guiaram e delinearam as linhas do meu trabalho. Algo mais minucioso e de construção. O Rocky foi mais baseado na imaginação, intuição e das referências, ainda que não o tenhamos vivido, que todos acabamos por ter, do que seria esta realidade distópica, tendo, por isso, mais liberdade para o construir. 

Devido a esta experiência, considera-se um ator político? Na sua opinião, o que faz um filme ser político? 

Não me considero nada uma pessoa atenta ou interventiva na política, no que se refere à forma como os partidos se movimentam, mas se considerarmos a política como o exercício de pensar e viver em sociedade, acredito que sou alguém sensível ao que se passa ao meu redor. E por isso acho que qualquer filme que nos ponha a pensar em direitos humanos, na forma como vivemos em comunidade e o espaço que nele ocupamos, pode ser encarado como um filme político. 

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Pátria (Bruno Gascon, 2023)

"Pátria" leva-nos de volta a um tipo de cinema que surgiu no pós-25 de Abril, um cinema militante e ativista da década de 70 (de repente, lembro-me de "Confederação" de Galvão-Teles ou "Os Demónios de Alcácer Quibir" de Fonseca e Costa). O facto de Gascon trazer até nós este cinema com um discurso e estética mais politizados é também um sinal de que estamos precisando dele (novamente)? Ou, de forma mais concisa e abrangente, "a História tende a repetir-se"?

Infelizmente a história é cíclica, e temos a tendência para apagar da memória o que já se viveu. Por isto, e estando quase a completar-se os 50 anos da conquista da democracia em Portugal, democracia esta que tem muitos aspectos delicados e que se tem afastado dos ideais originais, nunca é demais falar e refletir sobre o valor da liberdade, os direitos humanos, não só para avivar a memória, como para alertar para o perigo que representa a perda destes valores fundamentais.

Numa entrevista, considerou que a sua transição para o cinema foi determinada em parte pela sorte, visto que um dos seus primeiros papéis (se não o primeiro, se não estou enganado), foi como protagonista na obra de Mário Barroso - "Um Amor de Perdição" (2008). Quinze anos depois, mantém a mesma postura em relação à sua carreira?

Apesar do Simão Botelho ter sido a minha segunda experiência em cinema (a primeira foi o “Do outro lado do mundo”, de Leandro Ferreira, só estreado anos mais tarde) tive alguma sorte, no sentido em que foi por acaso, num encontro social, que soube, pela Catarina Wallenstein, do casting para o Mário Barroso, que já estava numa fase final e praticamente fechado. Essa casualidade, deu-me a oportunidade de ainda fazer o casting e ficar com o papel! Sempre me senti bafejado pela sorte, pela carreira que fui construindo e pelas oportunidades que me têm sido dadas. Mas, obviamente, manter uma carreira não depende só da sorte. Desde a minha primeira experiência em cinema, tendo vindo do teatro, ganhei plena consciência do meu lugar, enquanto pequena peça de uma engrenagem maior: o fazer parte de uma equipa, da máquina de fazer cinema.  Acredito que essa consciência e preocupação têm constituído um fator importante quando me escolhem para trabalhar. 

O que procura nos papéis que seleciona no seu percurso no cinema, o que difere deste universo em relação ao teatro enquanto ator?

Um ator em Portugal nem sempre tem grande espaço para ser muito seletivo na escolha dos papéis. Ou porque não há a quantidade desejável de projetos (o que considero estar a melhorar ultimamente), ou porque os valores do mercado não estão ao nível de outros países e há contas para pagar. Mas tendo em conta este pressuposto, procuro ir variando ao máximo o tipo de papéis, seja no cinema ou no teatro. Gosto muito de ir conhecendo vários universos e de aprender com as personagens. 

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Tomás Alves e Benedita Pereira na peça "Pulmão" de Duncan Macmillan

Quanto a novos projetos?

Estou neste momento a acabar a rodagem de um filme sobre outra personalidade da nossa história. Desta vez, alguém ligado ao futebol, ao jornalismo desportivo, aos correios e à espionagem, durante a segunda guerra mundial. Uma figura muito interessante que me obrigou, entre outras coisas, a engordar 12 quilos. Desafio pouco habitual por cá, devido aos timings das produções portuguesas.

Vou começar o próximo ano com alguns projetos de teatro, de que destaco, a partir de janeiro, a reposição do espectáculo “Pulmão" de Duncan Macmillan, com a Benedita Pereira, encenado pela Ana Nave, no Teatro Maria Matos.