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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Cinéfilos, unir! Close-Up chega à 10ª edição com David Lynch, Margarida Cardoso e de olhos bem fechados

Hugo Gomes, 10.10.25

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Uma década de Close-Up!". Como celebrar? Talvez a resposta resida no seio desta edição, através de relações, matrimónios, o toque definitivo ou o romance para lá do ideal e da sua ideia. O Observatório do Cinema de Famalicão está pronto para o seu “Close-Up”, descendo escadaria abaixo como Norma Desmond em “Sunset Boulevard”, de Billy Wilder, rumo à sua triunfal entrada em cena. Neste caso, longe das ficções e dos sonhos molhados e febris de Hollywood, esta montra de cinema vive o seu próprio devaneio, deambulando pelos labirintos oníricos e surreais de David Lynch. Promete-se que o seu “fantasma” estará presente, nem que seja pela melodia trazida por Dean Hurley, o seu fiel colaborador musical, com concerto e masterclass já agendados para o município de Vila Nova de Famalicão.

Como todos os anos, a celebração faz-se com cinema, convidados e intervenções, filmes e categorias, e um público pronto a (re)descobrir os segredos bem guardados da Sétima Arte. Mas convém amplificar: como em qualquer casamento, cujos segredos é ‘coisa’ que abunda.

Mais uma vez, o Cinematograficamente Falando… conversou com o programador Vítor Ribeiro sobre o que nos espera neste novo “Close-Up” (de 11 a 18 de outurbo na Casa de Artes).

Da Infância passamos ao conforto e segurança da Família e atravessamos agora o Domicílio Conjugal com todas as harmonias e atribulações. Com isto pergunto se o Close-Up pretende ser uma família ou um casamento? Garantir segurança à comunidade cinéfila nestes tempos incertos ou casar as suas diferenças para gerar um lugar de familiaridades?

Os vários motes das edições anteriores procuraram uma relação entre os filmes e os autores que pretendíamos mostrar, enquanto procurávamos que o cinema, e a programação, participassem da atmosfera do nosso tempo. Daí o elogio anterior à comunidade e à família, que era também uma reunião alargada dos espectadores de cinema. Nesta edição, ao escolhermos como mote o Domicílio Conjugal, procurarmos dar a ver as tensões intrínsecas à dinâmica do casal, ao pedir emprestado o título a um dos filmes de Truffaut da série Antoine Doinel, mas também usar o palco do domicílio para explicitar as tensões do mundo exterior ao casal, como Ingmar Bergman, por exemplo, concretizou em muitos dos seus filmes.

David Lynch será um rosto familiar, ou melhor, um fantasma neste 10º Close-Up, seja a retrospectiva da sua obra de 70’ até ao final dos anos 90’, a exposição no foyer, ou a presença do músico e colaborador desse universo lynchiano, Dean Hurley, que garantirá um concerto e ministrará uma masterclass. Tendo em conta a temática do Close-Up, onde podemos enquadrar o cinema de David Lynch?

A obra de David Lynch, o seu importantíssimo legado para a história do cinema, teria de obter um destaque no programa deste ano. Trata-se de um realizador que boicotou a submissão do cinema às directrizes do romance do século XIX e das histórias bem resolvidas, para nos convidar a seguir outras estradas, a aproximar o cinema à pintura, e à interpretação de significações, quadro a quadro. 

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Blue Velvet (David Lynch, 1986)

Este programa também se desenhou na importância conferida por Lynch à música e ao som e por isso a importância da presença de Dean Hurley, que trabalhou com o cineasta durante 20 anos, desde “Inland Empire” (2006), até se tornar numa das figuras mais influentes no som e na música dos filmes (e dos discos) de Lynch, o que culminou na riqueza da banda sonora da terceira série de “Twin Peaks”, que ficou como o testamento do cineasta norte-americano. Este programa inclui a exibição das suas mais importantes longas-metragens, desde “Eraserhead” até “Uma História Simples” (“A Simple Story”), passando por “Veludo Azul” (“Blue Velvet”) ou “Um Coração Selvagem” (“Wild at Heart”), num ciclo que fechará no início de 2026, numa réplica do Close-up, com as duas últimas obras de Lynch: “Mulholland Drive” e “Inland Empire”.

Em Fantasia Lusitana, Margarida Cardoso é a destacada, e parte da sua obra (re)avaliada em Famalicão. O porquê da sua escolha para a secção deste ano, e, permita-me o reparo, num ano em que a realizadora é, coincidentemente, fruto de retrospectivas, masterclasses e outros olhares nos festivais de cinema nacionais?

Este programa dedicado a Margarida Cardoso começou a ser desenhado há mais de um ano, nas vésperas da estreia de “Banzo”. Com a secção Fantasia Lusitana procuramos destacar um cineasta ou um movimento do cinema português, incluindo por vezes realizadores emergentes. No caso de Margarida Cardoso trata-se de uma obra com mais de 25 anos, composta de ficção e documentário, que a torna uma das nossas mais importantes cineastas. Além das escala da sua filmografia, o conjunto dos seus filmes revelam uma coesão indiscutível, na entrega ao tema das heranças coloniais. Serão sete sessões, incluindo uma masterclasse, em que mostraremos pela primeira vez documentários como “Natal 71” ou “Kuxa Kanema – O Nascimento do Cinema”, que estão na génese do percurso de Margarida Cardoso, mas que mantêm o vigor, nesse permanente diálogo com a memória, com as relações com os territórios de Moçambique ou de São Tomé e Príncipe, na História que liga a Europa Colonial a África.  

Na secção Paisagens Temáticas somos convidados a espreitar Domicílios Conjugais em seis obras. Como foram selecionadas e com que parâmetros?

Tal como adiantamos na resposta à primeira questão, a dinâmica de casal permite explicitar tensões interiores e exteriores ao casal, como um reflexo do mundo. Procuramos selecionar um conjunto de filmes, a que se adicionarão outros nas réplicas do Close-up em 2026, que cruzam o cinema do presente com a história do cinema, dentro dessa temática. Por isso, encontramos por exemplo Jonas Trueba, em “Volvereis”, um cineasta que tem feito o seu cinema das convulsões entre as relações humanas e o cinema. Mas também voltaremos a “De Olhos Bem Fechados” (“Eyes Wide Shut”), o derradeiro Kubrick, que transportou para dentro do ecrã um dos casais mais significativos da Hollywood do final dos anos 1990: Nicole Kidman e Tom Cruise, numa secção em que também reencontremos “O Piano” (“The Piano”), de Jane Campion. Haverá filmes de Stephane Brizé – “A Vida Entre Nós” (“Hors-Saison”) - , numa ponte do melodrama entre França e Itália, com o casal Guillaume Canet e Alba Rohrwacher, mas também a revelação de um actor cineasta alemão, Fabian Stumm, em “Ossos e Nomes” (“Bones and Names”), e um dos títulos mais curiosos da produção norte-americana estreada este ano, “Amor em Sangue” (“Love Lies Bleeding”),  um casal de mulheres em fuga, da lei e do crime.

O que pode dizer sobre os convidados deste ano, e se a família Close-Up está de alguma forma montada?

A família de comentadores do Close-Up nunca está fechada. Se compararmos o elenco deste ano com o da edição passada, apenas dois nomes se repetem. Há uma procura permanente na identificação de vozes, de quem escreve sobre cinema, de investigadores, de outros artistas que se relacionam com o cinema, de novos e já reputados cineastas, de forma a alargar essa família de que falas, do círculo de pessoas que possam, pela sua participação, singularizar a experiência da sala de cinema. 

Nesta edição há nomes que já poderiam ter aparecido antes, como a investigadora Ana Isabel Soares ou o crítico (e psiquiatra) António Roma Torres, que abrirá a sessão de “O Homem Elefante” (“The Elephant Man), de Lynch. Destaque também para um núcleo de investigadores, nas áreas do som, da imagem e da literatura, designadamente Nuno Fonseca, José Alberto Pinheiro, Margarida Pereira e Márcia Oliveira. Há também novas vozes da crítica, como o radialista (e agora editor da página À Pala de Walsh) Rui Alves de Sousa, ou uma reputada pianista, Joana Gama, na introdução ao “The Piano” de Jane Campion e da música de Michael Nyman.

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The Piano (Jane Campion, 1993)

O Close-Up decorrerá lado a lado com as eleições autárquicas, e tendo apoio da Câmara Municipal de Famalicão, teme que o resultado das mesmas condicionará as futuras edições, ou este encontra-se assegurado?

O Close-Up integra a programação da Casa das Artes de Famalicão, um teatro municipal, que tem financiamento do Município de V. N. de Famalicão, mas também da Direcção Geral das Artes, através da Rede de Teatros e Cine-Teatros Portugueses, e ainda do nosso público que, com a sua participação, suporta o nosso trabalho. Este trabalho nunca está terminado, é um permanente recomeço, também na procura pela garantia de condições para continuar a promover o cinema e os seus autores, num diálogo continuado com o público, com o público do presente e na conquista do espectador do futuro.

O que nos pode dizer sobre a 11ª edição, quais os preparativos ou planos para trespassar a década de existência?

Já identificamos as directrizes para a edição 11, que se realizará a meados de Outubro de 2026. Como nesta e nas anteriores, procurará relacionar o cinema com o mundo, no entrelaçar dos autores do presente com as retrospectivas dedicadas à memória do cinema, com destaque também para os nomes emergentes do cinema produzido em Portugal. Também os cruzamentos entre o cinema e as outras artes estarão presentes, pelo que haverá cine-concertos, alguns deles apresentados pela primeira vez, resultado de encomendas da Casa das Artes de Famalicão.

Para mais informações sobre a programação, ver aqui

O que mais pode Tom Cruise fazer pela Nação?

Hugo Gomes, 21.05.25

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O efeito “último capítulo” leva-o a ser inchado, mas, sobretudo, condescende com o espectador: há que insuflá-lo com flashbacks, não vá a audiência perder o eixo da “coisa”. Por outro lado, importa pensar na saga como um todo: fechar becos, incutir coerência, ou ao menos uma tentativa engenhosa de costurar tudo o que Tom Cruise, sob a pele de Ethan Hunt, sofreu ao longo destes 29 anos. 

The Final Reckoning” (renomeando a segunda parte, pois somos alérgicos a numéricos) é a promessa de desfecho e, com isso, sofre de certos males: ser tagarela ao ponto de situar, de estabelecer um propósito para aquela correria maneirista de Cruise. Chega a esses fins como quem serve aquela palha, mas vence e apenas porque, no modo star system, sendo um dos últimos da esquadria de Hollywood, faz o impossível com Tom Cruise. E o mesmo espectador, tratado como uma criança, é conduzido à promessa do seu limite: o que fará o actor a seguir? Qual será o seu novo truque?

Desde sempre, a saga foi apropriada por esse ego - e que bem - porque é Tom Cruise o verdadeiro autor de um blockbuster que deseja destacar-se dos demais, não pela negação do CGI, mas pela criação de uma adrenalina genuína. E o resto? O que fazer com ela? Ser-se normativo enquanto espectáculo ou espectacular enquanto proeza técnica? Ficamos com a segunda: o de ver Cruise em modo cruzeiro, saltar de avionetas para avionetas, submergir, enfrentar claustrofobia e talassofobia num só plano, desafiar a morte, fazer-se à vida em subenredos apocalípticos, e tornar o MacGuffin novamente grande - aquele que Hitchcock se orgulharia (ou envergonharia) pela sua simplicidade e pelo risco da sua inserção.

“Mission: Impossible” chega com notas celebrativas e fúnebres, para, depois da acção (e do circense dessa mesma acção) pregar sermões, lançar toques melosos, enquanto, talvez sem querer, tropeça em alguns zeitgeists acidentais. Prova de que o mundo mudou, aproximando-se cada vez mais daquilo que definimos (e garantimos) como ficção.

Contudo, mesmo cedendo nos calcanhares (peças todas encaixadas na sua oleosidade e personagens cuja única utilidade é avançar a gincana do protagonista) é na questão do que Tom Cruise ainda nos é capaz de oferecer que ficamos rendidos ao malabarismo hollywoodesco, no seu jeito mais ingénuo e hegemónico.

A vovó dinamite!

Hugo Gomes, 12.03.25

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Segundo o próprio realizador, “Thelma” nasceu de uma experiência pessoal e da possibilidade desse episódio seguir o seu “natural” percurso. Josh Margolin recebeu uma chamada aflita da sua avó, acreditando que ele teria sido preso por um acidente qualquer e que um advogado a havia contactado para que pagasse uma fiança de 10 mil dólares. Teria de enviar o dinheiro para a morada facultada pelo alegado advogado.

Esta evidente burla, felizmente, não se concretizou, o neto conseguiu impedir que a avó fosse enganada, mas, apesar do final feliz, uma alternativa ficou-lhe a “marinar” na mente. E se o dinheiro tivesse sido enviado? Dessa imaginação nasceu um arquétipo de filme de ação protagonizado por uma nonagenária - ninguém menos que June Squibb (uma cara familiar, e prestigiada, do cinema de Alexander Payne). “Thelma” joga com essa linguagem visual e com as limitações fisicas e cognitivas da sua heroína, sem nunca condescende-la ou reduzi-la a mero alvo de chacota, emanando uma terna paródia do género que pretende mimetizar e igualmente homenagear.

Nisto há dois momentos-chaves, a revelação, com a Thelma de Squibb impressionada com a genica de Tom Cruise, numa das “Mission: Impossible” em transmissão televisiva: “Tom Cruise é como os gatos, cai sempre de pé”. A partir daí, a estrelaem formato Ethan Hunt, mesmo que invisível e ausente, vira grilo-falante da consciência da sénior nesta jornada pela possibilidade de reaver o dinheiro burlado. E perto da finalização, com a protagonista deslumbrada pelas árvores aparentemente moribundas, que, contra todas as expectativas, permanecem de pé: uma ode à resiliência. Esta sequência é paralelizada com imagens reais da verdadeira Thelma Post e a sua entusiástica observação ao resistente arvoredo.

E este projeto não seria possível - muito menos em coligar estas duas sequências - sem June Squibb, e a sua demonstração de “destreza” física possível e brincalhona para com as suas fragilidades ao longo do filme. É uma espécie de tributo à “avó verdadeira”, sem lamechices fáceis, mas com júbilo próprio e isento de festividades circenses. Um “feel good” sem desprender massa cinzenta, e enquanto é também ele uma última mirada a Richard Roundtree (o nosso “Shaft”), nem que na prolongada caça às réstias de holofote deixados pela passagem de Squibb na sua “frenética correria”.

Táxi!!

Hugo Gomes, 25.11.23

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Like Someone in Love (Abbas Kiarostami, 2012)

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Total Recall (Paul Verhoeven, 1990)

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Night on Earth (Jim Jarmusch, 1991)

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The Fifth Element (Luc Besson, 1997)

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Colateral (Michael Mann, 2004)

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They All Laughed (Peter Bogdanovich, 1981)

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Taxi Driver (Martin Scorsese, 1976)

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Taxi (Gérard Pirés, 1998)

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Taxi (Jafar Panahi, 2017)

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No Táxi do Jack (Susana Nobre, 2021)

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Scrooged (Richard Donner, 1988)

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A Taxi Driver (Jang Hoon, 2017)

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The Day After (Hong Sang-soo, 2017)

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It Must be Heaven (Elia Suleiman, 2019)

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The Bone Collector (Phillip Noyce, 1999)

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2046 (Wong Kar-Wai, 2004)

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Happy Together (Wong Kar-Wai, 1997)

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In the Mood for Love (Wong Kar-Wai, 2000)

Tom Cruise, o impossível

Hugo Gomes, 12.07.23

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Em parte, este novo "Mission: Impossible" parece-nos um “filme-trocista”. No mesmo ano em que Vin Diesel e sua trupe (vá, "família") nos entregaram uma sequência estapafúrdia nas ruas de Roma, Tom Cruise e sua “equipa” nos apresentam uma "réplica" mais contida, mas não inferiormente energética (aliás, o espectador consegue ter uma noção de espaço e tempo, coisa que não acontecia na assinatura de Louis Leterrier). Se "Indiana Jones" abriu com uma cena de ação num comboio nos Alpes austríacos, Tom e "amigos" (mais uma vez!) demonstram como se faz um longuíssimo clímax com tais ingredientes, dispositivos e locais, e de certa forma hitchcockiana, resolvendo-nos com um empratado circo de acrobacias, sem que o CGI berrasse pelas costuras.

Dito e feito, a "dupla maravilha" McQuarrie e Tom (sempre Tom!) matam "dois coelhos numa cajadada só" e "enterram" uns quantos street racings lamechas e um arqueólogo aventureiro no seu aparente "canto do cisne" em matéria de sequências de ação. Até porque o propósito de cada "missão" (já vamos na sétima e com muito mais genica para demonstrar) é superar os desafios físicos anteriormente estabelecidos. Portanto, ver e apreciar estes filmes é encontrar cinema na sua gincana, ação como veículo da intriga e o stunt (muito dele do próprio astro) como tour-de-force de  enredos cruzados, d espionagem global e blockbuster multi-geográfico.

Não é de espantar, com certeza absoluta, que estes capítulos tenham as suas manobras performativas como storyboard de raiz, e todo o resto nasce a partir desses feitos projetados. Contudo, mais um ato inconsciente (ingenuamente acreditamos nisso) é a posição de uma entidade de inteligência artificial como nemesis de Tom Cruise, o algoritmo contra o prático, poesia romantizada aos ouvidos de um cinema em transformação, e em conformidade com a urgência destes dias - "abraçar" o A.I. ou temê-lo? Nesse sentido, "Dead Reckoning Part 1" é provocador, principalmente quando o "encostamos" aos dois filmes anteriormente mencionados: "Fast X", filme que nos parece ter sido "escrito" com o auxílio do ChatGPT, ou "Indiana Jones", cujas acusações de uso da inteligência artificial têm vindo à tona, principalmente no infame de-aging

É um aviso certificado a essa Hollywood cada vez mais refém do artificialismo, com Tom Cruise (mais uma vez) a demonstrar que é um "action man" fora do seu tempo e que mesmo assim demonstra que o seu modus operandi não é obsoleto, e sim recriável e fascinante... mesmo que nele se deposite o "último dos moicanos".

O indomável Maverick e aquilo que chamamos nostalgia

Hugo Gomes, 25.05.22

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Poderia aqui falar das sequências de ação, tomadas pelo gosto do risco, da fisicalidade, e do menor uso possível do CGI. Poderia referir o espéctaculo em sala, a exaltação dos costumes circenses ditados pela Hollywood, e sempre a Hollywood. Poderia citar o jogo de cintura executado por Tom Cruise, desafiando, para além da morte, o tempo, e com isso mantendo a ilusão do “star system" em épocas de famas efêmeras ou de estrelas “virtuais” e “conceptuais”. Poderia … mas mencionar só um momento deste “Top Gun: Maverick” é o equivalente da abordagem a todas estas temáticas. 

O que sabemos é que passaram 36 anos desde o sucesso do primeiro “Top Gun” - com a assinatura de Tony Scott e com uma estrela em ascensão de nome Cruise - e que o nosso protagonista, ainda detendo o seu talento volátil, contraria as ordens do seu superior hierárquico (Ed Harris novamente como o sisudo de eleição) em de não pilotar. Um ato de rebeldia que por pouco lhe custaria a sua reputação e carreira, mas que não evitou de lhe ser dirigido o sermão, realçando a extinção da sua "espécie" em um projetável futuro de máquinas dirigidas por máquinas e de pilotos encostados às boxes. Isto, logo antes de nos ser introduzido o macguffin da trama, mera irrelevância (até mesmo o filme aponta num inimigo sem pátria nem cultura, um não-lugar para se lançar em joguetes de stunts e sobressaindo o espírito do antecessor, aquele ambiente académico-militar), mas que reforça uma ideia de resistência, não somente de um modus operandis, como de um cinema deslocado das tendências atuais ou da imperatividade do streaming. 

Tom Cruise relatou em entrevistas várias, a recusa deste projeto estrear numa plataforma, conduzindo-a para um evento de sala, cuja capacidade de prevalecer depende da disposição dos espectadores em não aceitar o predestinado trilho da indústria hollywoodesca. O produtor Jerry Bruckheimer e o realizador Joseph Kosinski (de outras ressurreições como “Tron Legacy”, mas sublinhamos “Oblivion” como casa de partida para esta estância) também alinharam. “Top Gun: Maverick” não inventa a roda, apenas nos oferece um bilhete de ida e volta a um outro período, contudo, é no fascínio do mesmo e sempre com a motivação de Cruise e o seu cúmplice das últimas baladas [Christopher McQuarrie] para estender acima do mero exercício de revisitação, digamos, tal como a personagem, de superação. 

 

Highway to the Danger Zone

I'll take you right into the Danger Zone

 

Tom Cruise, o "action man" para toda a obra

Hugo Gomes, 03.08.18

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Da História desta saga com mais duas décadas de existência (sem contar com a longevidade da série original o qual se inspirou), Christopher McQuarrie torna-se no único realizador a repetir a posse da batuta. Curiosamente, tendo em vista o anterior “Rogue Nation”, este “Fallout” (incrível como não houve tradução português do subtítulo) é um aprumo das revisitações. Ou seja, a experiência cometida com o quinto filme espelha-se como uma aprendizagem neste igualmente megalómano filão globalizado. Aliás, sejamos sinceros, “Mission: Impossible” é o exemplo de caricatura dos modelos hollywoodescos.

Mas vamos por partes, o absurdismo adquirido em todo este período produtivo implantado no próprio registo de “Fallout”. Há uma sensação de autoparódia. Existe um reconhecimento do ridículo culminado pelos elementos que forçam esta quimera de sequências de ação e até mesmo dos momentos dos lugares-comuns que pontuam em cada um dos capítulos. E McQuarrie fá-lo sem os estapafúrdios de John Woo e o seu infame segundo capítulo (sublinha-se, hoje visto como um produto do seu tempo). E nessas doseadas secreções de humor discreto e jubilante regista-se a grandiosa marca autoral hollywoodiana, hoje esquecida perante a dominância e facilitismo do CGI – os stunts.

Deparamos então com um concerto de acrobacias, um jogo sem fronteiras cujo único concorrente é Tom Cruise, que endereça a maior percentagem destes “duelos entre a vida e morte” (a sua lesão nas rodagens serviu automaticamente como marketing). Desde as escaladas vertiginosas, as quedas voluntárias e coreograficamente programadas, sim, “Fallout” vence por todo esse espetáculo old school, pela restauração da nossa crença numa Hollywood arriscada e analógica (pelo menos utilizando o mínimo possível de CGI na ação gratificante).

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Entenda-se que do exercício de ação vertiginosa e frenética, “Mission: Impossible” não se ficou na sombra perante o valor de tais atributos técnicos e tacticistas. Christopher McQuarrie trabalhou sobretudo para interligar tais momentos através de uma rede de camadas, o qual constitui o guião, sempre pronto para relembrar os feitos passados da fasquia como uma utopia abastada. Sim, o argumento tende acima de tudo induzir-se no espírito quer da saga, quer do simbolismo da mesma. A tendência de ilusão tão presente no eterno jogo de máscaras é aludida nesta trama que cruza a espionagem e a sua contra-espionagem. “Fallout” é um exemplo de filme espião-duplo, incentivado, sobretudo, a induzir o espectador em erro em prol de outra ilusão.

Falando a verdade, Christopher McQuarrie concretizou um bem esgalhado enredo sem nunca perder o apetite pelo absurdismo nem da onipresença do subgénero de espiões. E já que falamos de experiências, “Mission: Impossible” tem separado gradualmente da sua postura “ressaca James Bond”, focando inclusive na grande fraqueza / marca das aventuras de 007, as mulheres. Fallout não inventa nesse sentido, mas demonstra a relevância do sexo feminino na ação, sem nunca desbravar os clichés e as associações fáceis. Como anexo a essa tendência, o regresso da formidável Rebecca Ferguson ao mais sólido papel anti-Bond Girl do recente cinema hollywoodiano.

Nada que realmente envergonhe a indústria e muito mais a evolução desta, Tom Cruise autorreconhece-se como um dos grandes do género sem nunca conduzir-se no arquétipo “one-army man”, nem mesmo ceder às fragilidades “millennials”. É de momento um dos apogeus das acrobacias cinematográficas, que não se via desde “Mad Max: Fury Road” (sim, esta declaração soa quase a cliché!).

Por agora deixo o aviso: esta crítica vai se autodestruir em 5 segundos. 5 … 4 … 3 … 2 … 1 …

Missão Impossível: Múmias & CIA

Hugo Gomes, 13.06.17

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Monstros! Monstros em todo o lado, e sem a necessidade de pagar direitos de autor, é assim que a Universal Pictures lança o seu “Universo Partilhado” – Dark Universe – de forma a não ficar atrás dos outros case study de sucessos que se têm visto por aí, nomeadamente, a pioneiro e até à data, a melhor sucedida Marvel. Contudo, o curioso caso da Universal é um olhar de certa forma nostálgico ao seu registo monstruoso de criaturas e outras histórias clássicas que hoje integram o imaginário, diretamente ou indiretamente, do espectador. Antes de toda esta confusão de crossovers e afins, a Universal já integrava os seus “universos partilhados”, era lobisomens contra frankensteins, vampiros contra qualquer coisa e, em casos específicos (como “House of Frankenstein”, de Erle C. Kenton, em 1944), com todas estas figuras em modo boys band.

Depois da era clássica, os direitos desta coletânea monstruosa começaram a dispersar por outros estúdios e produtoras, até porque os direitos encontravam-se vencidos, sendo que se tornou fácil a inserção dos mesmos, resultando assim, nas mais diversas versões dos “clássicos”. A Universal Pictures perdeu terreno, mas mesmo assim aventurou-se numa recuperação. Em 1999 conseguiria colocar a “The Mummy” no topo do box-office, mesmo que a chamada “febre do Egipto” tenha desvanecido com o tempo. Sucessivamente surgiram sequelas e até mesmo spin-offs, com algum êxito financeiro, mas artisticamente nulos e, em certos casos, reduzidos à própria caricatura. Até mesmo o herói surgido neste franchiseBrendan Fraser – pareceu ter sido “mumificado” nos tempos pós-Múmia. Mas a Universal não descansou, eles queriam monstros, a ressurreição do seu legado.

Em 2004 chega-nos “Van Helsing”, com Hugh Jackman, que simplificaria os desejos desse mercado. A história do célebre némesis do Conde Drácula foi igualmente “vaporizado” pela crítica, da mesma forma que fora pelo público. Com as notícias da concorrência em que os chamados universos partilhados eram fórmulas comprovadas “cientificamente”, a Universal, cada vez mais reduzida em termos de franchises, encontraria o dispositivo perfeito para esse consolidar de criaturas. “Dracula Untold" foi a experiência falhada, o falso-início que não convenceu nem sequer os produtores, mas é em “The Mummy” onde, por fim, nos deparamos com esta introdução.

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Sim, uma introdução, visto que Alex Kurtzman preocupa-se mais com a representação que as personagens podem ter neste Universo do que propriamente com a desenvolvimento destas figuras, e feita as contas, temos o enésimo blockbuster mecanizado, pronto a decorrer sem surpresas nem desfeitas. O terror é elementar, reduzido a jumpscares e a sustos fáceis de terceira escola, a ação é implantada sem imaginação e Tom Cruise repete-se no seu papel de sempre. Ou seja, apesar dos efeitos e desta pré-construção de um Mundo próprio, “A Múmia" eleva-se como um entretenimento sem personalidade e reduzido a adereços de injeção instantânea. Mesmo que a argelina Sofia Boutella se comporte devidamente como o “monstro do título”, tudo o resto parece abandoná-la a favor de um filme pleno para todos.

Todavia, o grande problema desta “Múmia” não está inteiramente no produto em si, mas sim na indústria omnipresente que agrega. É uma cópia dos modelos mercantis com todos os marcos que poderíamos “desejar” neste tipo de produções. É previsível, cumpre a sua agenda de forma aplicada e ainda transtorna os monstros que assustaram gerações passadas, escusado será dizer que teremos mais uns episódios para “aturar” num futuro próximo. Mas este começo é tudo menos relíquia, é pechisbeque.