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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

As Revoluções não acontecem apenas com intenções ...

Hugo Gomes, 13.04.22

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"Há diversas modalidades de Estado: os estados socialistas, os estados corporativos e o estado a que isto chegou! Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos. De maneira que quem quiser, vem comigo para Lisboa e acabamos com isto. Quem é voluntário sai e forma. Quem não quiser vir não é obrigado e fica aqui."

São dois, os momentos que retenho nesta minha experiência com “Salgueiro Maia - O Implicado”. A primeira, após o aviso de Miguel Borges que faz da refeição uma ocasião sagrada digna do silêncio, a câmara de Sérgio Graciano, pacientemente, aguarda e respeita esse mesmo tempo de comunhão, cinco minutos que em jeito abstrato poderiam traduzir os tempos amedrontados do Estado Novo (se Joaquim Pinto conserva-se em 11 horas, nem é por meros minutos que o “gato vai às filhoses”). A segunda sequência resulta na decorrência numas das “missões” ultramarinas, quando uma das praças do pelotão sob o comando de Maia pisa acidentalmente uma mina. A câmara, mais uma vez, reforça o seu papel expressivo, mapeando um quadro de três pessoas - a aflição, a salvação e a consciência - numa cena que responde com sugestão e nessa “invisibilidade” consegue captar um pânico de difícil descrição. 

Duas cenas, foram essas as que consegui reter nesta cinebiografia, mais que convencional, de um dos grandes heróis da Nação, o nosso “capitão de Abril” por excelência (pelo menos, o mais consensual e apolitizado). “Salgueiro Maia - O Implicado” é um protótipo de um filme, um teaser para uma possível série televisiva (pelos vistos é esse o plano). O porquê de dizer isto? Pela sua narrativa descosturada por vinhetas biográficas, saltitando narrativamente sem se aperceber que desta maneira sacrifica o ritmo (aliás, tem sido o grande “calcanhar de Aquiles” de Graciano neste seu percurso cinematográfico) e a própria dimensão da personagem (Tomás Alves, que vimos em grande plano ao serviço de Mário Barroso em “Um Amor de Perdição”, é mais que competente no seu papel, diria mesmo, heróico), sem referir à quantidade de elenco reduzido a meras passagens (Catarina Wallenstein, João Nunes Pinto, Diogo Martins, José Raposo, etc). 

Esta postura kamikaze resultou numa mera lição de História, pedagógica nos seus costumes e telenovelesca na sua postura, invadida por uma banda-sonora onipresente de José de Castro (que havia trabalhado com Graciano em “O Som que Desce na Terra” e o infame “As Linhas de Sangue”) que com uma assertiva disciplina tenta invocar a emoção ausente nas imagens deste “Salgueiro Maia – O Implicado”. Resumindo e concluindo, pouco cinema e mais televisão por estas andanças. 

Depois disto, “Capitães de Abril” de Maria Medeiros (com o ator italiano Stefano Accorsi, e dobrado por João Reis, como Maia) deverá ser promovido a “obra-prima”.