Actores sem salvação?

É um filme de fracassos – colocamos desta maneira os pontos nos “i” – após a abertura em que o protagonista (interpretado por Toby Kebbell … já lá vamos) encena um combate de boxe, invisivelmente um adversário, num ringue fantasma a preto e branco. A sequência, acompanhada pelo eufórico relato em voz-off, remete-nos ao cinzentismo melancólico do início de "Raging Bull", esse outro relato de fracassados e losers sem rendição. O tracejado que une ambos os filmes começa e termina nessa devolução ao boxe como espectáculo da tristeza, sem os ares nem desvaires do underdog com final feliz perpetrado por "Rocky" e as suas sequelas.
"Salvable" é, por via do seu actor principal e da história da personagem que encarna, o retrato de um lutador cansado diante do cocktail de “vida maldita” temperada por más escolhas. Precário, decadente e velho demais para o “one shot” (Eminem cantarola no meu ouvido) que o lançaria para a ribalta como pugilista de "rés", Kebbell soa-nos como um dos actores perfeitos para este falso comeback. Captou atenção em "Dead Man’s Shoes", de Shane Meadows (2004), e confirmou o estatuto-cometa sob a tutela de Guy Ritchie ("RocknRolla", 2008), até chegar a Hollywood, embrulhado em promessas. Não se consolidou, em terras dos anjos; flops são por lá, pregos na carreira, estacam, e por vezes fazem recuar.
Voltando, então, à terra natal, abraça este projecto da dupla Bjorn Franklin & Johnny Marchetta (primeira longa) sobre um pugilista sem eira nem beira, reflectindo uma alternativa ambivalente à própria experiência do actor, exacerbada por más escolhas, as mesmas que o seu coadjuvante, Shia LaBeouf, também ostenta como “cicatrizes de guerra”, a somar devaneios de ego e problemas judiciais. "Salvable" parece querer inquirir um tom de redenção para ambos os actores, sem jamais vitimizá-los ou romantizar a sua martirologia, criando apenas um palco cru onde possam exibir, sem véus, as suas habilidades dramáticas. Toby Kebbell, de cariz discreto, não desilude nem se rebaixa perante o desafio; já Shia LaBeouf parece ter feito amizade infindável com a sua persona quase esdrúxula e histriónica, rompendo, por vezes, o naturalismo enfadonho que muitos intérpretes impõem sob o realismo, ou a ideia que dele têm, como conformismo desta audiência moderna.
O final rima com o início, em jeito de poema ocasional — mas não se acredita acidental — que "Salvable" dispõe como escapismo frente à “realidade crua e dura”, nada solarenga, como manda a meteorologia britânica. Um confronto às cegas, num filme que não vergou ao sonho hollywoodesco, antes o retratou como um pesadelo que muitos sonhadores nem chegam a vislumbrar.




