Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Actores sem salvação?

Hugo Gomes, 14.07.25

110 - Sal.08465_b.jpg

É um filme de fracassos – colocamos desta maneira os pontos nos “i” – após a abertura em que o protagonista (interpretado por Toby Kebbell … já lá vamos) encena um combate de boxe, invisivelmente um adversário, num ringue fantasma a preto e branco. A sequência, acompanhada pelo eufórico relato em voz-off, remete-nos ao cinzentismo melancólico do início de "Raging Bull", esse outro relato de fracassados e losers sem rendição. O tracejado que une ambos os filmes começa e termina nessa devolução ao boxe como espectáculo da tristeza, sem os ares nem desvaires do underdog com final feliz perpetrado por "Rocky" e as suas sequelas. 

"Salvable" é, por via do seu actor principal e da história da personagem que encarna, o retrato de um lutador cansado diante do cocktail de “vida maldita” temperada por más escolhas. Precário, decadente e velho demais para o “one shot” (Eminem cantarola no meu ouvido) que o lançaria para a ribalta como pugilista de "rés", Kebbell soa-nos como um dos actores perfeitos para este falso comeback. Captou atenção em "Dead Man’s Shoes", de Shane Meadows (2004), e confirmou o estatuto-cometa sob a tutela de Guy Ritchie ("RocknRolla", 2008), até chegar a Hollywood, embrulhado em promessas. Não se consolidou, em terras dos anjos; flops são por lá, pregos na carreira, estacam, e por vezes fazem recuar.

Voltando, então, à terra natal, abraça este projecto da dupla Bjorn Franklin & Johnny Marchetta (primeira longa) sobre um pugilista sem eira nem beira, reflectindo uma alternativa ambivalente à própria experiência do actor, exacerbada por más escolhas, as mesmas que o seu coadjuvante, Shia LaBeouf, também ostenta como “cicatrizes de guerra”, a somar devaneios de ego e problemas judiciais. "Salvable" parece querer inquirir um tom de redenção para ambos os actores, sem jamais vitimizá-los ou romantizar a sua martirologia, criando apenas um palco cru onde possam exibir, sem véus, as suas habilidades dramáticas. Toby Kebbell, de cariz discreto, não desilude nem se rebaixa perante o desafio; já Shia LaBeouf parece ter feito amizade infindável com a sua persona quase esdrúxula e histriónica, rompendo, por vezes, o naturalismo enfadonho que muitos intérpretes impõem sob o realismo, ou a ideia que dele têm, como conformismo desta audiência moderna.

O final rima com o início, em jeito de poema ocasional — mas não se acredita acidental — que "Salvable" dispõe como escapismo frente à “realidade crua e dura”, nada solarenga, como manda a meteorologia britânica. Um confronto às cegas, num filme que não vergou ao sonho hollywoodesco, antes o retratou como um pesadelo que muitos sonhadores nem chegam a vislumbrar.

'Arnices' em 'Vindices'

Hugo Gomes, 12.03.20

bloodshot-vin-diesel-film-review.webp

Cada geração tem o Arnold Schwarzenegger que merece!

Pois bem, um projeto como este “Bloodshot” (baseado numa banda-desenhada da Valiant Comics) seria, há uns valentes anos, mais um nas narrativas aventurosas do ator/culturista de origem austríaca. Hoje, não é mais que um pretexto para o domínio do império de Vin Diesel e do CGI autómata. O protagonista que muito dinheiro rende com a saga “Fast and Furious” parece ter tido como missão transformar um projeto com algumas ideias dignas dos confins imaginativos da ficção científica numa ode ao seu ego. O resultado é que algo que tinha potencial transformou-se numa bomba calórica de testosterona ao serviço da canastrice da estrela.

Mas nem sempre foi assim. Em tempos, mais concretamente em 2006, Vin Diesel tentou distanciar-se da imagem de “action man” bronco e monossílabo conquistada com alguns ensaios de ação bem-sucedidos e arriscou alterar por completo o físico e trabalhar com um dos melhores realizadores da história de Hollywood Sydney Lumet (saudades!) em “Find Me Guilty". O Óscar esteve na mira, mas o filme foi um fracasso de bilheteira. Os "fãs" não responderam ao chamamento e condenaram a Vin Diesel a uma corrente homogénea de projetos, todos em celebração da imagem que vendera em terras "hollywoodeanas".

De vez em quando, ele expressa essa vontade de romper a carreira-carrasco. Basta ver os primeiros momentos de “The Last Witch Hunter”, um dos fracassos fora do circuito “Fast & Furious”, em que é evidente o entusiasmo de trabalhar com alguém de pedigree de Michael Caine. Como uma escola de atuação ambulante, Vin Diesel quis aprender, mas prevalece este modelo de ação de peito aberto. Em “Bloodshot”, o panorama não é assim tão diferente, pois ao lado de atores como Toby Kebbell ou Guy Pearce, a estrela sai a perder. Mesmo comparado com os seus “colegas” automatizados. E a questão não é a falta de talento ou de esforço de Vin Diesel, é a necessidade de entregar aquilo que querem os fãs, um Arnold pitoresco que responda às necessidades desta nova geração. O último dos “homens viris” do cinema. 

Só que é injusta a comparação com a estrela celebrizada da saga "Terminator", “Total Recall” e “Predator” (três exemplos plenos no campo da ficção científica cinematográfica) porque "Arnie" sempre se mostrou disponível e bastante apto para as ridicularizações da sua própria figura. Já Vin Diesel passeia em "Bloodshot", na forma como age e é filmado, a auto-consagração do seu modelo habitual de "action man". Fora isso, eis um filme de ação que corresponde às epidemias tecnológicas destes tempos. O clímax é um autêntico videojogo gráfico (curiosamente, o realizador David Wilson fez parte da concepção de muitos videojogos, como “Mass Effect 2” ou “Halo Wars”) e a ação destaca-se pela falta de classe.

Numa indústria que vibra com as sequências "one-take" e as proezas físicas de um “John Wick”, ainda existem filmes com cortes sucessivos de montagem, "bullet time" mal empregue e rochedos em forma de bonecos de ação. E como "Bloodshot" ainda tem o apetite de abrir uma futura saga, esta overdose de Vin Diesel pode não ficar por aqui...

Um dia foi "Ben-Hur"

Hugo Gomes, 31.08.16

ben1_770x433_acf_cropped.jpg

Ben-Hur (Timur Bekmambetov, 2016)

Não, de maneira nenhuma precisaríamos de outra versão cinematográfica de "Ben-Hur", a história ficcional cruzada com um dos mais importantes capítulos bíblicos, mas visto que temos que “gramar” com mais um … cá vamos então! Tudo começou com um livro escrito pelo devoto General Lew Wallace que chegou ao grande ecrã, pela primeira vez, em 1925. Durante o espaço (desde a sua criação literária a este “embrião” de épico que assistimos em 2016), surgiu a epopeia de 1959, um colosso filme de William Wyler que revelou-se numa mostra de grandeza de uma Hollywood agregada a majors e produções sem precedentes. 

Protagonizado por Charlton Heston, que viria a tornar-se no galã de épicos de longo fôlego, esse “Ben-Hur” fez História dentro do circuito cinematográfico da altura, arrecadou uns impressionantes 11 Óscares, um feito que seria mais tarde “batido” por James Cameron e o seu trágico naufrágio ao som de Celine Dion. Obviamente que este novo “Ben-Hur” não irá triunfar com a mesma dezena de estatuetas (uma piada fácil que fora optada pela imprensa norte-americana), porém, seria de esperar um outro tipo de tratamento em relação às tão famosas adaptações. 

Sim, heresias à parte, este equívoco de Timur Bekmambetov é o mais tolerável das versões cinematográficas por um simples facto – é em comparação com os outros três o menos evangélico, cristalizado, e o mais ambíguo no que requer ao retrato “demonizado” dos romanos, os perfeitos antagonistas e … pagãos, como é referido no filme de 1925. Claramente, que essa faceta “humanitária” deriva de um século (hoje vivido), em que questionamos e pensamos sobre o fundamento da religião e das ideologias dos de crença oposta. Nesse termo, são pequenas as provocações (tal como sucedera em “Exodus”, de Ridley Scott), mas é evidente que esta tentativa de afastar-se o quanto possível do cristianismo intolerante das obras anteriores é, não um feito, mas um esforço que faz com que “Ben-Hur” seja readaptado às mais diferentes audiências. Aliás, esse vetor de pensamento é evidente no, por fim, vislumbre de Jesus Cristo (aqui interpretado por Rodrigo Santoro), uma figura ocultada pelas produções anteriores porque simplesmente seria blasfémia atribuir uma cara ao Nazareno em uma história ficcional do século passado. 

image-w128.webp

Ben-Hur: A Tale of the Christ (Fred Niblo, 1925)

ben-hur-e1581451509728.webp

Ben-Hur (William Wyler, 1959)

ben-hur-analise-imag2.jpg

Ben-Hur (Timur Bekmambetov, 2016)

Todavia, vamos ser sinceros, mesmo que fraudulento e movido com a maior das preguiças (a edição é uma lástima), este “Ben-Hur” ganha aos pontos à adorada versão Wyler pela naturalidade (ou pela aproximação) nos desempenhos. Afastando-se do exagero overacting, e do charlatão Charlton Heston. Mas perde, novamente na comparação, no ponto menos improvável – qualidade de produção – “Ben-Hur” de 1959 continua imbatível nesses termos; numa realização orgânica, uma edição monstruosa e quase sem falhas (a corrida continua, depois destes anos todos, no auge da ação cinematográfica) e os cenários construídos que atribuem uma textura impressionável. Agora, com o de 2016, face aos avanços tecnológicos, temos um produto estival, demasiado corriqueiros e igualmente desastrado. Quanto à famosa e mortal corrida no coliseu … nada a fazer … uma sequência “engasgada” onde ninguém parece perceber bem o quê. 

Certamente, não iríamos apostar num “novo clássico”, mas o filme de Timur Bekmambetov não deixa dúvidas – o épico morreu em Hollywood – e ninguém parece importar com qualidade produtivas (atualmente o único a operar efetivamente em grandes produções hollywoodianas é Christopher Nolan, fica a provocação). Uma afronta para atores (Toby Kebbell condenado a outro “flop” de Verão), aos envolvidos (penso que ninguém se orgulhará proclamar que fez parte da produção) e ao público que cresceu a “venerar” a versão de William Wyler e que encontra aqui um tremendo e prolongado videoclipe narrado por Morgan Freeman. Ah! Já me ia esquecendo, quanto à evangelização, este “Ben-Hur” tem outro ponto contra, possui o final mais moralmente “tosco” das mencionadas três versões.