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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

O sangue corre na família

Hugo Gomes, 07.01.26

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Após o sucesso inesperado de “Texas Chainsaw Massacre, filme-choque que ruminava splatter e cuspia um exploitation desencantado e grudado, a produtora Cannon Group “perseguiu” Tobe Hooper para conduzir uma antecipada sequela enquanto tinha o realizador na sua alçada. No entanto, o realizador não tinha interesse em regressar a esse universo sombrio, a não ser por outras vias, mas houve ‘forças’ que o motivaram para esse retorno, nomeadamente o fracasso “Invaders from Mars”. Paralelamente, havia ainda o desaguar de um outro percurso: o do argumentista L. M. Kit Carson.

Depois de ter escrito “Breathless” (Jim McBride), a “refilmagem” americanizada de “À Bout de Souffle”, de Godard, e mais tarde “Paris, Texas”, de Wim Wenders, Carson recorda como, aquando deste último, alguém lhe disse: “eis o filme que te vai meter no mapa!”. “Portanto, teria de sair do mapa”, afirmou num dos depoimentos incluídos no making of  “Texas Chainsaw Massacre 2: Runs with the Family”. O filme escolhido para essa evasão ao prestígio foi precisamente a sequela do êxito de 1974, que, num deslize de tom (agora mais próximo da comédia negra), faria Hooper querer regressar ao seu ponto originário como promessa de renascimento.

Texas Chainsaw Massacre 2”, ao contrário do grotesco viscoso da partida, é um objecto carnavalesco, histérico, onde as serras eléctricas se assumem como alusões fálicas e os hippies dão lugar aos yuppies enquanto nova “carne para o tacho”. Um ano antes da façanha cómica de “Evil Dead 2”, Hooper observa a sua recém-formada franquia pela lente da sátira, aquela que, segundo o próprio, já se insinuava entre os horrores e o choque do primeiro “Texas Chainsaw Massacre”. Ninguém viu?

Aqui, assumindo esse exagero, o choque manifesta-se nas blasfémias excessivamente presentes cometidas à época. A segunda parte prossegue numa tradição de sequelas que se desviam do curso hoje canonizado da continuação: é quase um filme à parte, ligado apenas por um ou dois pontos e por uma figura antagonista central — Leatherface, com Bill Johnson a ocupar o lugar emblematicamente deixado por Gunnar Hansen e… ora bolas, apaixona-se por uma das vítimas, tentando simultaneamente iniciar uma actividade sexual sem nunca largar a sua serra de estimação. Dennis Hopper surge como ligação indirecta ao filme de 1974: um xerife obcecado pela vingança, assombrado por uma das vítimas do primeiro tomo. Com isso, enfrenta uma família de canibais que, pasme-se, baptizado pelo nome de Sawyer. Pelo meio, há um esgrimir de serras e Bill Moseley num dos seus papéis mais hilariantes, como um dos “fraternos” de Leatherface (o actor seria resgatado por Rob Zombie num punhado de trabalhos seus, como devoção à franquia)

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Num clímax envolto num cenário dantesco e circense, um parque de diversões abandonado, rimando com outro trabalho de Hooper, “The Funhouse” (1981), “The Texas Chainsaw Massacre 2”, apesar dos desvios, e uns cortes e intervenções do estúdio que mutilaram parte do enredo e deixaram de fora algum trabalho prático de Tom Savini, não agradou os fãs (a mudança de Sam Raimi foi mais bem aceite), nem críticos, e até alguns dos envolvidos (Dennis Hopper o considerou o seu pior filme , até à chegada de “Super Mario Bros”), o que fez com que a saga seguisse caminho seguro num terceiro e inofensivo filme (chegando depois a um embaraçoso quarto filme, com uns jovens Matthew McConaughey e Renée Zellweger, em 1994) e fosse hoje motivo exasperante para remakes, homenagens, reboots ou reinvenções sem a dita invenção envolvida. Mesmo assim, esta sequela maldita é como um vistoso e aparatoso acidente, se houver parafilia no meio, há quem consiga encontrar a sua “beleza nas pequenas coisas”. 

E quanto a Hooper, ainda teve alguns “dias felizes” e meio conturbados, seja na produção do seu maior êxito “Poltergeist”, segundo consta filme silenciosamente arrancado por Steven Spielberg, e uma colaboração com John Carpenter (“Body Bags, 1993) e umas quantas com Robert Englund (“The Mangler”, “Dance of the Dead”), o restante foi tentar concentrar e persistir num gênero que no fim de contas não lhe foi simpático de todo … mas isso fica para outra serralharias.

"You have one choice, boy: sex or the saw. Sex is, well... nobody knows. But the saw... the saw is family."

A marca distinta do Massacre!

Hugo Gomes, 01.08.25

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Nunca o som de uma motosserra foi tão aterrador! No início dos anos 60, Alfred Hitchcock trouxe ao cinema uma figura até então pouco explorada (sugerida, mas nunca assumida), mas que, com o tempo, se tornaria peça central na ficção: o psicopata. “Psycho (1960), uma das suas obras-primas do suspense à lá Hitchcock, apresentaria Norman Bates (Anthony Perkins), um assassino travestido, assombrado pelos fantasmas de um passado opressivo e moldado por uma educação castradora. Inspirado, ainda que livremente, no infame assassino do Wisconsin, Ed Gein (1906 - 1984), Norman foi apenas o formalmente “primeiro” de muitos. A história de Gein serviria de base não só para Hannibal Lecter, a criação literária de Thomas Harris, mas também para a criação de um dos ícones mais perturbadores do terror moderno: Leatherface, o “rosto” macabro de “The Texas Chainsaw Massacre” (1974), de Tobe Hooper.

Ainda hoje um das obras de terror mais influentes de sempre, “O Massacre no Texas” (título traduzido) foi pioneiro na violência gráfica, elevando o terror a um novo patamar. Produzido de forma independente com um orçamento reduzido de apenas 15 mil dólares, chocou uma geração e redefiniu o género, consolidando o subgénero do road trip horror movie. Mesmo hoje, continua a ser uma referência incessantemente imitada. O filme de Hooper é um verdadeiro pesadelo capturado em película, a sua estética crua e de baixo custo reforça a sensação de realismo e degradação, nasty até, enquanto a narrativa fareja os arquétipos do documental, tudo em nome da credibilidade possível, conduzindo o espectador a uma experiência exaustiva e opressiva. Mais do que um mero exercício de terror, “The Texas Chainsaw Massacre" funciona como uma incursão à mente de um psicopata, expondo uma loucura descontrolada e visceral, sem nunca subestimar a disfuncionalidade familiar nas caudas dos devaneios violentamente glorificados.

No coração desta história está uma família de maníacos consanguíneos, de sotaque cerrado e completamente insanos e para piorar o retrato, canibais. Dentro deste lar desestruturado, emerge Leatherface (Gunnar Hansen), o grande psicopata / assassino do filme, uma evolução das arestas afiadas por Hitchcock. Munido da sua icónica serra elétrica e oculto por uma máscara contrafaturado por pele humana, Leatherface tornou-se uma das imagens mais aterradoras da história do terror moderno. Inspirado no caso real de Ed Gein, ele é o pior pesadelo dos cinco jovens que, numa simples viagem de carrinha pelo Texas, se deparam com armadilhas mortais e cadáveres profanados, expostos como grotescos espantalhos. Ponto curioso da narrativa: segundo a lei texana, o facto destes jovens “invadirem” propriedade privada, não ilegaliza de modo nenhum, as obscenidades e morbidez lhes infligida pelos antagonistas [os habitantes]. 

The Texas Chainsaw Massacre” rapidamente conquistou o estatuto de culto e foi até homenageado na "Quinzena dos Realizadores" do Festival de Cannes. Com uma receita superior a 100 milhões de dólares a nível mundial, manteve-se durante anos como o filme independente mais rentável da história. Mas o seu maior legado não está nos números: Tobe Hooper inscreveu-se nos anais do cinema ao transformar radicalmente o género, hoje deparamos “Texas Chainsaw Massacre” nas mais inevitáveis homenagens, sequelas, remakes (o de 2003 sob a batuta de Marcus Nispel tem o seu valor, mas também a sua inutilidade), variações ou imitações, das mais certeiras talvez Rob Zombie, convicto fã e nisso nota-se nos seu “House of 1000 Corpses” (2003) e da fuga originária em continuações tão ou menos bem-sucedidas.

Quanto a Hooper, ainda voltou ao universo com uma sequela hilariante (1986), em contrapondo com o ambiente da sua criação original, não rendendo os meus resultados, tentou outros ares, trabalhou com Spielberg em “Poltergeist”, com alguns conflitos pelo meio, e desde o fim dos seus dias operou com produtos menores, por vezes reavaliados na sua sombra autoral. Mas inevitavelmente foi com “Texas Chainsaw Massacre” que levou para a tumba, bem “agarradinho” e com bastante afecto. Sendo quase impossível imaginar o horror moderno sem este ensaio brutal sobre o medo. O do desconhecido, o do rural e o da marginalidade. 

Cada um com a sua infância, cada um com o seu Cinema

Hugo Gomes, 01.06.21

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Good Morning (Yasujiro Ozu, 1959)

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The Childhood of a Leader (Brady Corbet, 2015)

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Capernaum (Nadine Labaki, 2018)

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Wadjda (Haifaa Al-Mansour, 2012)

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Home Alone (Chris Columbus, 1990)

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The White Ribbon (Michael Haneke, 2009)

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Let the Right One in (Thomas Alfredson, 2008)

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Little Fugitive (Ray Ashley & Morris Engel, 1953)

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The Florida Project (Sean Baker, 2017)

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The Sixth Sense (M. Night Shyamalan, 1999)

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The 400 Blows / Les Quatre Cents Coups (François Truffaut, 1959)

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The Kid (Charlie Chaplin, 1921)

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The Last Emperor (Bernardo Bertolucci, 1987)

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Zero to Conduite / Zéro de conduite: Jeunes diables au collège (Jean Vigo, 1933)

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Bicycle Thieves / Ladri di Biciclette (Vittorio di Sica, 1948)

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Village of the Damned (John Carpenter, 1995)

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My Life as a Zucchini / Ma vie de Courgette (Claude Barras, 2016)

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The Boy with Green Hair (Joseph Losey, 1948)

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Aniki Bóbó (Manoel de Oliveira, 1942)

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The Shining (Stanley Kubrick, 1980)

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Cinema Paradiso / Nuovo Cinema Paradiso (Giuseppe Tornatore, 1988)

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Come and See (Elem Klimov, 1985)

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Pather Panchali (Satyajit Ray, 1955)

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E.T. the Extra-Terrestrial (Steven Spielberg, 1982)

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André Valente (Catarina Ruivo, 2004)

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Ivan's Childhood (Andrei Tarkovsky, 1962)

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Nana (Valérie Massadian, 2011)

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Pixote, a Lei do Mais Fraco (Hector Babenco, 1981)

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Poltergeist (Tobe Hooper, 1982)

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800 Balas (Álex de la Iglésia, 2002)