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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

O livro, o filme e a (des)ordem natural

Hugo Gomes, 11.08.25

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Sou anónima na hoste cinéfila, por isso foi com alguma surpresa que recebi o convite do Hugo e com ainda mais assombro que anuí ao seu repto. Entre meia dúvida e meia hesitação nos entretantos, aqui estou eu a escrever. Dúvida e hesitação porque adoro ler e adoro cinema (cinema e literatura são indissociáveis, não é verdade?) mas não queria cair no óbvio e largar aqui um chorrilho de nomes e referências. A dificuldade nestes desafios será sempre sair do ordinário e ser original. Por essa razão, decidir seguir pelo caminho menos claro para toda a gente mas totalmente óbvio (e mais arriscado) para mim — a ideia primeira, imediata, que activou entusiasticamente o meu córtex pré-frontal assim que recebi o convite — qual a ordem ideal: ler o livro ou ver o filme?

E aqui entramos em níveis diferentes de rigor: há quem se recuse a ver um filme sem antes ter lido o livro que o inspirou; há quem dê preferência a ver o filme, em ler o livro e só depois comparar a obra literária à cinematográfica; ou quem não perca tempo com este tipo de questiúnculas pseudoexistencais e simplesmente desfrute das narrativas, independentemente do suporte de média em que estas tomam forma. Sou prova dessa ambiguidade. Continuo a recusar o visionamento d'A Estrada sem antes descobrir o romance de Cormac McCarthy, e no entanto vi Double Indemnity e tenho o homónimo literário de James M. Cain para ler há anos. Não existe em mim critério algum, nunca o defini nem sinto necessidade de o fazer, mas lembro-me do momento exacto em que tal dilema surgiu. Com oito anos, já bastante afoita nas lides literárias, tinha por hábito ler com o meu pai, antes de adormecer, os livros da saga Harry Potter. O "útil" era treinar a velocidade de leitura e aumentar o vocabulário, mas o que me entusiasmava era o "agradável", o facto de partilhar o momento e a história com o meu pai e de poder dar asas à imaginação (e isso J.K. Rowling sempre soube como fazê-lo). Era o quarto livro, Harry Potter e o Cálice de Fogo. Do capítulo não me recordo com exactidão, mas os meus preferidos eram aqueles em que os elfos apareciam, os que trabalhavam em Hogwarts e a minha personagem favorita era a Winky, a elfo amiga de Dobby. "Winky? Mas não me lembro de a ver nos filmes". E estão certos porque infelizmente a personagem nunca saiu das páginas e, por conseguinte, nunca chegou ao grande ecrã, nem mesmo numa mísera referência. Quando finalmente vi o filme, senti um desgosto enorme. Todo o meu imaginário parecia ter sido invalidado por aquela lacuna fatal. Demorei algum tempo até voltar a permitir-me sonhar ao ler alguma obra que tivesse sido, ou em vias de ser, adaptada para o cinema, sempre apreensiva com a inevitabilidade de uma nova desilusão.

O tempo passou e alguns vestígios desses receios permaneceram (não tenho nada contra ti, John Hillcoat, apenas quero mesmo ler o McCarthy primeiro) mas acho que estou a conseguir contrariá-los da melhor forma!

Vejamos o work in progress... Revi duas vezes o aborrecidíssimo (para a maioria) mas maravilhoso (para mim) Out of Africa, realizado por Sydney Pollack, e há dois anos decidi comprar o romance de Karen Blixen, no qual o filme é baseado; tenho o Gigi de Colette para ler, apesar de não ter adorado a adaptação de Vicente Minnelli (quem sabe, talvez precise da magia do suporte literário e de uma nova revisão para apreciá-lo); e tenho expectativas elevadíssimas para a leitura do Giant de Edna Farber (o livro pertence-me há quatro anos mas o medo da desilusão tem adiado o nosso encontro), adaptado por George Stevens ao grande ecrã e um dos meus filmes favoritos de sempre.

E um trabalho finalizado digno de menção? They Shoot Horses, Don't They?, quer a obra de Horace McCoy, quer a adaptação de Sydney Pollack (atenção, uma segunda referência não confirma predileções). Li-o em 2018, em duas tardes, na praia de Sesimbra — a paisagem idílica para minimizar os efeitos da violência daquela leitura — e quando terminei reparei no fantástico pôr do sol, quase como se quisesse dizer-me "nada temas, já passou". Dei graças pelo privilégio. Quanto ao filme, conhecemo-nos logo no início deste ano e foi uma revelação absoluta. Felizmente tinha ainda na memória grande parte do que li. A adaptação é bastante fiel à história, Jane Fonda transpõe para a tela o permanente desconsolo da sua Gloria Beatty e o ambiente desconcertante em que a história se desenrola e as personagens gravitam é semelhante ao do livro. Senti uma melancolia perturbadora em ambos os casos, do início ao fim. Quando uma obra nos inquieta, nos perturba, nos questiona, sabemos que estamos perante algo extraordinário, seja cinematográfico ou literário. Então, fará diferença ver um filme sem ter lido o livro? O prazer de um sem o outro é possível? Ou esbate-se? E, finalmente, não será o casamento entre literatura e cinema idêntico a um enlace com os ingredientes que o tornam feliz e duradouro — longe de ser perfeito, desafiador na inquietude que provoca e emocionante nas interrogações com que nos deixa?

 

Texto da autoria de Manon Abrantes, jornalista/ex-copywriter, criadora da newsletter "A Dupla Vida de Manon" e curadora da página Chacun son Cinema 

Ai ... a política dos autores! A política dos autores!

Hugo Gomes, 03.09.23

Silvana Pampanini, unknown and director Abel Gance

Abel Gance e a atriz Silvana Pampanini em "La Tour de Nesles" (1955)

Sim, mas a política dos autores tornou-se muito depressa uma figura para a frente, porque era o mesmo que dizer: efectivamente são todos muitos diferentes, mas têm algo em comum que é o facto de serem “autores”. Mas bom, a partir desse momento, num instante, toda a gente se tornou um autor! É verdade quando são Rossellini e Hitchcock, continua a ser verdade quando se trata de Ford e de Renoir, ainda é verdade quando é Hawks, e continua a sê-lo, claro, quando se trata de Lubitsch ou de Dreyer, mas continua a ser verdade quando se trata de Minnelli, ou por mais fortes razões quando se trata de Richard Fleischer? E depois chegamos à Positif, que se põe a falar de Sydney Pollack e de não sei mais quem, ou tanto faz, porque quando se diz Pollack não se está longe de dizer “tanto faz”!

Portanto a política dos autores é uma resposta má, e sobretudo não explica porque é que, nos “grandes” autores, como de resto nos grandes romancistas, nos grandes pintores ou nos grandes músicos, tudo é interessante, porque os seus falhanços merecem ser considerados com mais atenção do que um sucesso de um fazedor; de resto, no príncipio, era isto que a política dos autores queria dizer. Uma encomenda executada por Abel Gance é mais interessante (porque, se bem me lembro, a primeira vez que François [Truffaut] lançou esta expressão nos Cahiers, foi a propósito de um filme de Gance, “La Tour de Nesle”, que era uma pura encomenda, da qual Gance falava com grande modéstia) … portanto, porque é que “La Tour de Nesle” por Gance pode ser tomada em infinitamente mais alta consideração do que a obra-prima de Delannoy? Eis a primeira questão.

E esta, é um assunto arrumado; mas o que não foi resolvido, o que continua em suspenso, é: o que é que faz com que possamos admirar no mesmo plano - por causa da sua coerência, por causa, digamos, da sua lógica, mas isto não é suficiente - cineastas tão diferentes, e usemos os mesmos exemplos, como Rossellini e Hitchcock.

  • Jacques Rivette em conversa com Hélène Frappat em “Jacques Rivette: O Segredo por Trás do Segredo” (edições Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema) 

De gospel nas veias, ouçamos a voz do Divino

Hugo Gomes, 16.09.19

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Um belo edifício surge perante nós. Numa das suas fachadas é possível termos a perceção da sua futura estética, uma magnífica e trabalhada construção que se erguerá na cidade em todo o seu apogeu, mas do outro lado, ainda inacabado, a estrutura de ferro e betão carece da sua capa. Duas metades fazem-nos anteceder o antes e depois, e no seu todo, a imperfeição resultante desse calculado caminho à perfeição.

Amazing Grace” é essa arquitetura projetada, mas não idealizada, o documentário que abraça o seu processo de criação e que através do “acidente” de percurso, que é a sua existência, se converte num divinal making-of do concerto de duas noites na Igreja do Reverendo James Cleveland, em Los Angeles, 1972, da grande rainha do soul Aretha Franklin. Incorporada para prestar um serviço religioso, a pujante voz por detrás de “(Sweet, Sweet Baby) Since You’ve Been Gone” abraçou um outro género musical, vivido na sua infância (vista ser filha de um reverendo) o qual acompanhou o seu crescimento profissional – o gospel. Perante um público curioso, devoto e convidado (no qual se integram algumas estrelas como Charlie Watts e Mick Jagger), Franklyn ascendeu aos céus numa omnipresente melodia, suor e lágrimas, como se estivesse envolvida num intenso estado de transe.

Desta performance nasceu um dos discos mais importantes do género, o dito "Amazing Grace” … e não só, mas foi um dos marcos da música norte-americana. A gravação do álbum levou à conceção de um concerto filmado com destino à televisão, por detrás dessa tentativa encontrava-se um “verdinhoSydney Pollack (“Yakuza”, “Tootsie”, “The Firm”), visível a dar instruções aos membros da equipa que cercavam a diva e as suas constantes e transcendentes canções. Contudo, algo aconteceu, por motivos técnicos o projeto foi inconcebível, seguido por questões de direitos que impediram o concerto ser divulgado até à sua estreia no festival DOC NYC em 2018, num trabalho continuado por Alan Elliot (visto que Pollack faleceu em 2008).

Só que Elliot não se dignou a revestir as filmagens num embrulho de intocável brilhantismo. “Amazing Grace” abre com um aviso, um contexto histórico para depois seguir, sem medos, pelas suas fissuras – os closes ups fracassados e desengonçados, as falhas de som, os enganos, o rosto “inundado” de Aretha, os reprises, o inesperado e as emoções incontroláveis e não programadas. São estas imperfeições que nos fazem antever a sua perfeição, que infelizmente não iremos presenciar em imagem, mas que reside no áudio deste “Amazing Grace”.

É através desses erros, desses bloopers e imprevistos que o documentário transforma-se numa oportunidade de aproximação do público para com a cantora, um intimismo raro que posiciona Aretha no devido lugar dos mortais, fora dos contornos divinos atribuídos enquanto ícone. “Amazing Grace” é essa estrutura de aço em pré-construção, inacabada, mas que preenche a paisagem com uma presença altiva.