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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Arranca o 13º Encontros Cinematográficos: "um poema colectivo de louvor ao cinema e de amor à liberdade."

Hugo Gomes, 10.08.23

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Paradise Alley (Sylvester Stallone, 1978)

A proposta é a seguinte: a 40 km da fronteira com Espanha, mais precisamente na cidade do Fundão, realiza-se um seminário para cinéfilos com o intuito de ver, discutir, debater e apreciar o Cinema, seja através de filmes variados, modernos, clássicos, cultos e ocultos. Trata-se de um seminário anual que chega à sua 13ª edição, um número associado à má sorte para os supersticiosos, mas à sorte para aqueles para quem o Cinema é uma religião única e absoluta. Referimos, sim, aos Encontros Cinematográficos, que acontecerá de 11 a 14 de agosto, na Moagem do Fundão. 

Este ano, o evento prestará homenagem à animação portuguesa, na sua fase ascendente e resgatada, e as primeiras imagens da obra (ainda em fase de montagem) “Senhora da Serra”, de João Dias (editor de alguns trabalhos de Pedro Costa), que remete-nos a lendas oriundas do interior português, com especial atenção ao misticismo da Gardunha. Além disso, o Serge Daney será o signo destes quatro dias, não apenas pela apresentação do livro "Perseverança" (editado em português pela The Stone and the Plot), mas também porque será o ponto de partida para a exibição de dois clássicos amados por este crítico e eterno cine-amante: "Hiroshima Mon Amour" de Alain Resnais e "Paradise Alley" ("O Beco do Paraíso") de Sylvester Stallone.

No entanto, não revelaremos mais detalhes sobre o programa desta intensa peregrinação cinéfila, deixaremos isso para o programador Mário Fernandes, nesta conversa que traz à baila surpresas e destaques deste “encontro entre cine-amigos”.

Na 13ª edição e com uma perspetiva / retrospectiva, o que podemos esperar dos novos Encontros Cinematográficos, para onde se direcionam e quais são as ambições deste evento?

No essencial, dar a ver um cinema diferente de uma forma diferenciada: um Encontro na verdadeira acepção da palavra, assente na partilha e não na competição. Todas as edições são naturalmente diferentes, mas creio que o maior desafio para o futuro será manter o nosso espírito identitário ou linha editorial: «posicionados ao lado dos que resistem, dos que fazem do ofício um acto de amor, dos que divergem da unanimidade premiada, das “anomalias” dos pequenos e grandes gestos cinematográficos.» [Catálogo da XI edição dos Encontros Cinematográficos, p. 6].

Ao tentarmos definir os Encontros Cinematográficos, podemos considerá-los um festival? Uma mostra? Uma comunhão entre cinéfilos?

Diria que os Encontros Cinematográficos são essa comunhão, não apenas entre cinéfilos. Podemos defini-los como um poema colectivo de louvor ao cinema e de amor à liberdade.

Celebrando o centenário da animação portuguesa, que nos últimos meses ganhou destaque, em grande parte devido à nomeação para o Óscar de "Ice Merchants" de João Gonzalez. No entanto, nem sempre foi assim, uma vez que já foi considerada um subproduto do cinema nacional. Sem questionar se concorda ou não com esta depreciação, acredita que são necessárias mais iniciativas como esta para promover e divulgar este tipo de produções? O que mais acha que deve ser feito?

O cinema de animação começou por ser uma das vanguardas cinematográficas por excelência, em linha com as vanguardas artísticas do início do séc. XX, pelo menos era esse o entendimento do Henri Langlois, que nunca teve qualquer problema em programar filmes de animação ao lado dos maiores filmes da vanguarda francesa, por exemplo. Talvez tenha sido ele o primeiro a perceber a relação visceral entre o cinema de animação e a pintura, a música, a dança, o desenho, etc. Muitos animadores são, na verdade, extraordinários artistas, além de cineastas de corpo inteiro. Desde o Émile Cohl, o Picasso da animação, ao Theodore Ushev. No caso português, penso que o filme do João Gonzalez foi fundamental para o cinema de animação recuperar uma certa “carta de nobreza”, pelo menos em Portugal, onde há grandes talentos, com um universo muito próprio e muito poético, desde o Abi Feijó ao Nelson Fernandes, entre muitos outros. Seria perfeitamente possível programar blocos de filmes de animação na televisão em horário nobre…  Falta-nos o Vasco Granja!

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Ice Merchants (João Gonzalez, 2022)

Olhando para a programação, não apenas deste ano, mas também dos anos anteriores, constatamos que existe muita produção portuguesa que não tem tido divulgação nem distribuição em grande parte do país. Os Encontros Cinematográficos têm a intenção de quebrar essa barreira, realçando um cinema independente (um dos poucos no nosso panorama 'industrial') ou de criar um polo criativo-artístico?

Um dos objetivos dos Encontros é, de facto, resgatar do esquecimento ou dar visibilidade a importantes obras e autores, muitas vezes fora dos circuitos comerciais ou festivaleiros. Assim tem acontecido com várias obras e realizadores do cinema português. Chegámos mesmo a organizar ciclos paralelos, como os Filmes Proibidos, onde programávamos filmes portugueses censurados pela ditadura política ou económica ou, mais genericamente, pela ditadura da estupidez. Talvez a grande (re)descoberta nos Encontros tenha sido um dos mais belos filmes de sempre, “O Movimento das Coisas”, de Manuela Serra. O filme foi aqui exibido várias vezes, desde 2011, com a presença da realizadora. Escrevemos vários textos sobre o filme, entrevistas para o nosso catálogo, etc.. Para nós era inconcebível que pouca gente conhecesse essa maravilha. Como a própria Manuela Serra reconheceu em entrevistas recentes, agora que o filme já circulou pelo país e pelo mundo, foi fundamental a persistência dos Encontros Cinematográficos.

Em relação à programação desta 13ª edição, o que destacaria, seja em termos de filmes ou convidados? E já agora, sobre a recente reavaliação da carreira de Sylvester Stallone, que José Oliveira considerou um autor numa crónica do jornal Público no âmbito dos Encontros Cinematográficos?

Além do bloco dedicado ao cinema de animação, com as presenças de grandes realizadores (Abi Feijó, Regina Pessoa, João Gonzalez, Nelson Fernandes e Bruno Caetano), destaco a estreia do filme “Senhora da Serra”, de João Dias, um filme belíssimo e surpreendente, que transforma a Serra da Gardunha num palco giratório onde se debatem as grandes questões universais, como numa tragédia grega. E o filme “Terra que Marca”, de Raul Domingues, um dos grandes filmes portugueses dos últimos anos, de imensa poesia telúrica, concreto e abstracto, absolutamente extraordinário, único. 

Pela raridade, o épico terreno “Uma Aldeia Japonesa: Furuyashikimura” ("A Japanese Village", 1984) de Ogawa Shinsuke. Quanto ao filme “O Beco do Paraíso”, julgamos que será uma boa revelação para muita gente. É mais um filme que urge descobrir e talvez ajudar a derrubar o preconceito que existe em relação ao Stallone. O grande músculo de Sly é mesmo o coração e, no caso deste filme, conseguiu uma realização totalmente à altura das personagens, com momentos de grande emoção. Foi, de resto, um filme muito importante para cineastas tão diferentes como Carax ou Tarantino, que escreveram sobre ele. No fundo, ao programá-lo, continuamos o esforço de recuperação de realizadores pouco consensuais, como quando organizamos retrospectivas de Michael Cimino ou Sam Peckinpah

Para lá dos filmes e dos realizadores, os excelentes convidados que irão conversar sobre os filmes, a apresentação do livro do Serge Daney (outro admirador de “O Beco do Paraíso”), a caminhada na Serra da Gardunha, o concerto dos Blue Velvet.  

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Senhora da Serra (João Dias, 2023)

A importância de iniciativas cinematográficas como esta, realizadas fora das metrópoles como Lisboa e Porto.

Em 13 edições, sem apoio do ICA e com a paixão e dedicação de 3 ou 4 voluntários, a importância dos Encontros Cinematográficos é manifesta: 192 convidados de nacionalidades diferentes, 200 filmes exibidos e discutidos, 13 catálogos com textos inéditos e entrevistas aos realizadores convidados, um livro de celebração do 10º aniversário, diversas colaborações, lançamentos de livros, concertos, exposições, exibições especiais para a população escolar, projecções descentralizadas, extensões anuais na Cinemateca Portuguesa, vários artigos nacionais e internacionais a elogiar o trabalho desenvolvido e um número crescente de participantes com algumas sessões esgotadas nos últimos anos.

E, claro, a qualidade dos convidados que têm passado pelos Encontros Cinematográficos do Fundão: Victor Erice, Pedro Costa, Billy Woodberry, Manuela Serra, Pierre-Marie Goulet, Andrea Tonacci, Peter Nestler, Miguel Marías, Chris Fujiwara, Luís Miguel Cintra, Virgínia Dias, Pablo Llorca, Adolfo Luxúria Canibal, Bruno Andrade, Patrick Holzapfel, Andy Rector, Mercedes Álvarez, Rita Azevedo Gomes, Pierre Léon, Vítor Gonçalves, Paulo Faria, Manuel Mozos, Mike Siegel, entre muito outros.  E, sem dúvida, os Encontros também contribuíram para a fixação de cineastas no concelho do Fundão, como o próprio João Dias, realizando nesta região muitos dos seus filmes que depois viajam pelo mundo.

 

A entrada é livre. Ver toda a programação aqui.

Godard, o passador

Hugo Gomes, 13.04.23

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Entretien entre Serge Daney et Jean-Luc Godard (Jean-Luc Godard, 1988)

Hoje, consigo reproduzir procedimentos intelectuais ou discursos próximos dos seus - enfim, próximos do Godard daquele período, uma vez que não sei realmente onde está agora. Sem dúvida que há, no gozo de alguém como ele, uma parte que não é comunicável. A respeito de Godard, Jacques Rancière usou o termo passador. O passador é aquele que reserva para si o gozo da última palavra. Há então uma forma de competição e será cada vez maior para se chegar a ser o último. Godard é, talvez, o último grande cineasta, e eu talvez seja o último crítico a tê-lo feito com … Este orgulho que consiste em querer representar um estado terminal ou uma memória lendária é difícil de passar socialmente; deve haver uma espécie de contradição, um constrangimento duplo, onde colocamos as pessoas e que explicaria, efectivamente, que são absolutamente incapazes de …

- Serge Daney entrevistado por Serge Toubiana  [Fevereiro, 1992], publicado sob o título "Perseverança" (edição portuguesa, com tradução de Luís Lima, publicado pela The Stone and the Plot)

Amar os avós que não nos amam

Hugo Gomes, 10.03.23

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Rue de l'Estrapade (Jacques Becker, 1953)

“Não há muito tempo, estava eu a ver a “História Parisiense" [“Rue de l'Estrapade”], de Becker, na TV por cabo, e não conhecendo bem Jacques Becker, senti-me um pouco envergonhado, pois ele terá sido o único cineasta que, na altura da minha saída da infância, amou a juventude dos actores franceses de então, esses jovens como Daniel Gélin e Louis Jourdan ou Anne Vernon, que tinham tudo para ser os primeiros jovens a estrelar no pós-guerra. Pois, nada disso aconteceu. Não sei o que se passou, mas, dez anos depois, ainda antes da Nouvelle Vague, os cabeça-de-cartaz do cinema francês eram novamente os monstros sagrados de entre as guerras: Fernandel, Gabin, Fresnay, Brasseur, Noël-Noël. Portanto, o que o cinema francês estava a oferecer a uma criança francesa, como eu, eram os seus avós, o vovô e a vovó, decerto fantásticos, mas bastantes amargurados e anti-jovens. Era preciso amar a forma como eles não nos amavam!”

- Serge Daney entrevistado por Serge Toubiana  [Fevereiro, 1992], publicado sob o título "Perseverança" (edição portuguesa, com tradução de Luís Lima, publicado pela The Stone and the Plot)

Uma cadência obstinada

Hugo Gomes, 17.02.23

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Albert Préjean e François Rosay em "Jenny" (Marcel Carné, 1936)

O cinema, essa arte paradoxal, privilegiada, diferente de todas as outras. O cinema, lugar dos pais mortos, desaparecidos, ausentes para uma ou duas de cinéfilos por vir. E eu só posso ser o mais obstinado, amarrado à própria “história” como um molusco ao rochedo.”

- Serge Daney entrevistado por Serge Toubiana  [Fevereiro, 1992], publicado sob o título "Perseverança" (edição portuguesa, com tradução de Luís Lima, publicado pela The Stone and the Plot)

Pelo retrovisor ...

Hugo Gomes, 11.01.23

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Taxi Driver (Martin Scorsese, 1976)

“Há uma imagem que me agrada muito, que é a do espelho retrovisor. Há um momento - chamemos-lhe envelhecer, morrer - em que é melhor olhar para o retrovisor. Porque, em suma, podemos ver nele tanto a imagem do nosso passado quanto a forma como essa imagem é modificada por todos os presentes, que já nem sequer espreitamos, e que nos caem dos olhos como palimpsesto efêmero, “dromoscópio”. Contentamo-nos em olhar para trás, para as sobras no retrovisor, para aquilo com o que esse presente se parecia.”

- Serge Daney entrevistado por Serge Toubiana  [Fevereiro, 1992], publicado sob o título "Perseverança" (edição portuguesa, com tradução de Luís Lima, publicado pela The Stone and the Plot)

Por Entre Belíssimas Ruínas

Hugo Gomes, 14.07.22

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Serge Daney

O estado da cinefilia? Ui. Talvez pudesse começar este texto narrando uma situação que me acontece cada vez mais frequentemente em reuniões sociais e noites de imperiais. Invariavelmente, há uma altura em que alguém me interpela - “olha, li o teu texto sobre o filme X e fiquei muito curioso/a”. Às vezes tenho que fazer um esforço de memória, porque o filme X já estreou e saiu de exibição há meses. Mas comento sempre - “ah, óptimo” - e pergunto sempre - “e foste vê-lo?”. Também invariavelmente, a resposta é “não” - “não, mas vou ficar com atenção para quando passar na televisão”. É um pouco frustrante, mas em compensação saio sempre destes encontros com um molho de sugestões de séries que “eu tenho que ver”. Noto, na “sociedade”, esta obsessão: quer, com toda a força, por-me a ver “séries”. Como se a “sociedade” tivesse desistido do cinema e vislumbrasse uma espécie de triunfo, ou apenas de conforto para uma consciência apesar de tudo culpada, na ideia de converter um cinéfilo às “séries”. Já há muito que deixei de contrapor, balbuciando, que não percebo a lógica associativa, porque é que gostar de cinema faria de mim um espectador de séries se são coisas totalmente diferentes, é como sugerir a um leitor de romances que saiu agora um manual de economia que ele “tem que ler”. Mas já não digo nada, sorrio, faço um esforço sincero para reter os títulos das séries que tão benevolamente me recomendam, e suporto a coisa com o estoicismo de quem se submete a uma terapia de conversão que sabe à partida condenada ao fracasso.

Os mais novos – já posso dizer assim, mesmo se sem gosto nenhum nisso – costumam ficar irritados quando digo que o cinema – que é uma coisa que não se deve confundir com “os filmes” - já morreu e andamos a caminhar entre ruínas, ruínas belíssimas, mas ruínas. Eu percebo-os, porque já tive vinte anos e também me irritava quando ouvia os mais velhos dizer estas coisas ou coisas semelhantes. Tinha a sensação de que estavam a ilegitimar os meus vinte anos, a censurar-me por ter chegado tarde demais, a considerar que a minha obsessão, o meu prazer, o meu interesse, não contavam para nada. Depois, percebi que não estavam a falar de mim. Assim como eu não estou a falar de vocês. Não estou, certamente, a falar dos que vão ao cinema, vêem cinema, estudam cinema, escrevem sobre cinema, fazem do cinema uma forma de relacionamento com o mundo. Não estou a falar dos que estão presentes, estou a falar dos que se ausentaram. Estou a falar do espectador de cinema, espécie em extinção, digna de um documentário da National Geographic – e como num desses documentários sobre espécies ameaçadas de extinção, não se responsabilizam os poucos exemplares sobreviventes pelo destino da espécie. Eles são (não, mudo o pronome), nós somos o que resta, nós somos as ruínas, as lembranças vivas de algo – os linces ou os espectadores de cinema – que já foi maior, possivelmente melhor, certamente mais vivo, quase de certeza mais banal, mais comum, mais corriqueiro.

O que era o espectador de cinema? Podia ser muitas coisas, mas era um indivíduo activo. Saia de casa. Procurava os filmes e escolhia os filmes, em vez de ficar em casa, e ser procurado e escolhido pelos filmes que as televisões e as “plataformas” escolheram para ele. Note-se: não estou a diabolizar a televisão contra o angélico cinema. Sem a televisão, sem os videoclubes, o vírus do cinema não me teria mordido na adolescência, e em grande parte não teria tido como o alimentar. A cultura de cinema na televisão, ou no VHS, ou depois no DVD, ou agora no “streaming” ou nas “torrents”, não é o problema, ou não é o problema todo, porque nunca foi incompatível com a cultura do cinema na sala, e tudo isto gerou, e continua a gerar, espectadores de cinema, na televisão e na sala. O problema, que me parece inegável, é o crescente desaparecimento de uma cultura de cinema, tout court. A televisão, de facto, não ajuda, os anos 80 estão longe, dificilmente algum “zapper” correrá o risco de fortuitamente se cruzar nalgum canal com o Moisés e Arão ("Moses und Aron") apresentado pelo João Bénard da Costa. E sim, antes que mo digam com modos zangados, eu sei que a televisão (uns canais mais do que outros) passa bons filmes, e que agora até há vários canais que passam filmes 24 horas sobre 24 horas. Mas... onde é que está um clássico qualquer (o Citizen Kane, por exemplo cliché) às 9 da noite num canal generalista? Isto acontecia, pasmem, pelo menos uma vez por semana na televisão do tempo em que cresci – a “Noite de Cinema”, na RTP, se não me engano às quartas-feiras, passava clássicos em prime time. Isto tinha um efeito básico: familiarizava os telespectadores com o cinema, ao mesmo tempo que alimentava a familiaridade deles com o cinema, e reflectia outra coisa básica, o facto de o cinema fazer parte do dia a dia. Ver um filme na tv, ou ir ao cinema, eram gestos normais, banais, corriqueiros. Foi isto que desapareceu, foi a cultura do cinema, foi a horizontalidade da relação com a cultura do cinema. E atenção que, embora pareça, não estou a culpar a televisão por isto. Ela – aquilo em que ela se tornou, das infindáveis horas de conversa fiada sobre futebol aos reality shows – tem a sua parte de culpa (sem pedagogia elementar não nasce nada), mas sobretudo é especialmente eloquente como reflexo deste(s) desaparecimento(s).

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Moses und Aron (Danièle Huillet & Jean-Marie Straub, 1975)

O que é uma maneira de dizer que o mundo deixou de ter o equipamento para gerar espectadores de cinema (e não me refiro, mas até esse vive uma espécie de crise, ao equipamento para mobilizar consumidores de cinema em torno de um acontecimento especial e “vertical”, seja ele um “blockbuster” ou um festival). Os espectadores que existem ou ainda são um produto desse mundo (são os velhos, os velhos que não se esqueceram ou não se renderam) ou são de geração espontânea, fortuita (que haja gente de vinte anos interessada não só em ver, mas em saber ver, um filme do Ford ou do Hawks, comove-me sempre, porque existe muito pouco na superfície do mundo para lhes criar esse interesse). Mas todos são, todos somos, acidentes. Como mutantes saídos dum premir dos botões errados numa experiência laboratorial. E, como mutantes, vivemos underground, mesmo que nesse imenso underground que é a internet. Mas é um underground. Que o digam os gestores e exploradores de salas de cinema, os editores de DVD ou Blu-Ray, os editores das mais conceituadas publicações especializadas. Nos jornais ou nos blogs, falamos uns para os outros, esta língua dos mutantes é cada vez menos compreendida. “De quoi parle-t-il?”, perguntava alguém no Nouvelle Vague do Godard, até que alguém respondia: “du cinéma”. Uma língua, um assunto, cada vez mais incompreensíveis.

Lembro-me de uma coisa dita por Louis Skorecki quando veio à Cinemateca, no princípio de 2010. Que, na geração dele, em que todos se sentavam na primeira fila, o enquadramento era uma coisa totalmente desconhecida. “Nós nem o víamos” (cito de memória), “o écran era demasiado grande e nós estávamos demasiado perto para nos podermos aperceber do enquadramento”. Era outra coisa, “era tomar banho no filme, era estar lá dentro”. Na minha cabeça fiz um “raccord” com um artigo de Serge Daney, escrito algumas décadas depois deste tempo em que esta gente “tomava banho” nos filmes, na altura em que para o “Libération” ele escrevia sobretudo sobre filmes vistos ou revistos na televisão. Nesse artigo (não o encontrei, não me lembro do título, sei que está algures numa compilação de textos dele), Daney falava com entusiasmo da relação de alguns cineastas com o enquadramento, e parecia especialmente fascinado com os cineastas que punham uma atenção especial no trabalho sobre as margens do enquadramento. Quando ouvi o que disse Skorecki lembrei-me desse texto, porque imaginei que, se calhar, Daney precisou da televisão para finalmente descobrir o enquadramento, e sobretudo esse território misterioso que eram as margens do enquadramento. De uma maneira intuitiva e sem mais rigor nenhum do que o que o leitor lhe quiser atribuir, a articulação entre o que disse Skorecki e esse texto de Daney estabeleceu-me uma marcação, uma baliza, para duas idades da cinefilia: o tempo em que se vive o cinema, porque se “está lá dentro”; e o tempo em que se  o cinema, porque se encontrou a maneira de “estar fora” dele. A cinefilia aventurosa, romântica; e a cinefilia analítica, cerebral.

Penso que, irremediavelmente, já não estamos no tempo da primeira, e que ainda estamos no tempo, até capaz de algum viço, da segunda. Virá, ou já veio, outra idade da cinefilia? E que fazer com esta ideia? Não sei, e não sei.

 

*Texto da autoria de Luís Miguel Oliveira, crítico do jornal Público e programador da Cinemateca Portuguesa.

Aprendizes à força

Hugo Gomes, 21.05.22

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A Clockwork Orange (Stanley Kubrick, 1971)
 
"Serge Daney referiu uma vez que, no dia em que tiver de forçar os alunos a verem um filme que lhes é oferecido, o melhor será deixar de ensinar cinema por completo. E acho que tinha razão. Não se pode forçar ninguém o que quer que seja se não existir o desejo de o aprender." Alain Bergala em conversa com Alejandro Bachmann.
 
Citação sobre outra citação que resume e traduz sobre cinema, cinefilia e a ideologia envolta desta que referi no passado mês de março [ler aqui].

O virar de mais uma página nos Cadernos de Cinema ...

Hugo Gomes, 03.03.20

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O Cahiers du Cinéma não inventou a crítica de cinema, mas reinventou a nossa ideia de crítica em cinema, colocando essa manifestação no patamar intelectualizado, pessoal e transgressor dos fixos métodos de mercado e que, por sua vez, rebelava contra os ensinamentos de uma vaga anterior (Marcel Martin, Georges Sadoul e Jean Mitry que esculpiam as terminologias da estética). 

Durante anos, os ditos “cadernos amarelos” tornaram-se gurus do próprio ato de pensar em cinema, enquanto fomentam um novo leque de cineastas-escrivães que iriam lançar-se na indústria e perpetuar novos “movimentos” cinematográfico – A Nova Vaga, o Cinema Novo ou Vanguarda – que teria epicentro em território francês, nos anos ‘60, e como pássaros estivais “migrariam” para outras regiões do mundo (Portugal foi um deles). Os EUA embarcou na aventura na década seguinte, após as constantes resistências ao “cinema estrangeiro”, criando assim a Nova Hollywood. Foi essa publicação que acolheu alguns dos maiores pensadores cinematográficos de que há memória, desde o “pai” André Bazin, até aos seus mais fiéis “filhos” Jean-Luc Godard e François Truffaut, até ao marginal que encontrou palco para a sua voz Serge Daney, que viria experimentar em 1991 o slow-critic da revista Trafic.

Obviamente que mais se seguiram, os “filhos”, os “usurpadores”, os “anarcas” e os “fieis”. A crítica ramificou-se para vários estilos, formatos e correntes ideológicas muito graças à Cahiers, pela sua representação de crítica livre e pensada. E com isso, é triste depararmos-nos com o seu presente. Com as notícias de uma demissão em bloco devido a novos acionistas e a iminente intervenção de produtores que anseiam uma revista “chique”. Os jornalistas e críticos da Cahiers du Cinéma temeram pela sua liberdade, e devido a esse ato de bravura e de ética, que vai para além do código deontológico, mereceram fortes aplausos de coragem, o de “heróis” num tempo em que a comunicação social, seja de que plataforma seja, tem estado constantemente diluída nas grandes corporações e à mercê do constrangimento político-social pelo qual se regem.

Cahiers du Cinéma é por si uma marca histórica associada a essa mesma história, e devido a isso muitos cinéfilos têm sido solidários a esta luta, a esta prova de risco que colocará a crítica de cinema numa posição (ainda) mais fragilizada. Mas recordo que não há muito tempo, esta publicação revelava um top de década que fora repudiado por muitos dos que hoje abraçam a sua causa. E essa renegação foi acompanhada por um constante invocar da história, de Bazin a Truffaut, Godard a Rivette, Rohmer a Daney, e também a memória de Douchet. Porquê?

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Jean-Luc Godard e François Truffaut

A grande lição da Cahiers esteve sempre na grande emancipação e com isso a própria responsabilidade dos seus escritos em relação ao cinema contemporâneo. Os ditos ‘Cadernos Amarelos‘ são prova disso, do cinema pensante que não necessitava do academismo, nem das leis de mercado, mas hoje, com a difusão das redes sociais e a inabalável legitimidade da opinião (cada vez mais confundida com a arte da crítica de cinema) torna-se difícil separar a cinefilia da própria presunção snob (ou vaidade, esse tal pecado fatal e fatalista), ou do vampirismo dos ‘filosofares’ de outros. Tornou-se mais fácil apontar o dedo à Cahiers e não apenas questionar as suas ideias, mas desprezá-las à luz de outras, muitas delas vencidas pelo tempo e pela sua cadência. A crítica tornou-se irrelevante. É triste pensar e sublinhar isto, mas é bem verdade que essa arte, que muitos tentavam erguer como tal, encontra-se ameaçada pelos mais diferentes inimigos.

O mar de opiniões, a indústria predominante e interveniente (tido como subsistência), o consenso que muitos desejam construir como instituição e até mesmo a “necrofagia”, némesis que vêm contaminar a auto-estima da dita crítica de cinema, tornando-a uma peça sobresselente de qualquer publicação ou meio. Perde-se a agressividade, perde-se a noção, o bom-senso e acima de tudo, a honestidade intelectual.

Os jornalistas que abandonaram a Cahiers por princípios éticos, certamente serão visto como guerreiros da última estância da crítica cinematográfica, porém, todos nós devíamos fazer “mea culpa” neste cenário, pois desprezamos toda essa jornada ao encontro de novas formas de pensar no cinema, modernamente falando, para alimentar o respetivo ego. Sim, hipocrisia, e nisso não devemos esquecer.

Enquanto isso, a crítica de cinema não morreu … continua a resistir em algumas “habitações”, só que não anda bem de saúde. 

Julien Faraut: "Não acredito que o tema desportivo condicione a minha criatividade"

Hugo Gomes, 17.03.19

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Julien Faraut

Foi através da lente de Chris Marker que Julien Faraut aventurou-se no Cinema concebido pelo Desporto. A sua primeira longa-metragem, “Un Regard neuf sur Olympia 52” (2013), invoca os ecos de Olympia 52, retrato dos Jogos Olímpicos de Helsínquia que automaticamente instala-se como um retrato moral do atleta Emile Zatopek.

Seguindo essa partida, na sua segunda obra, Faraut procura a perfeição através da imperfeição de um dos grandes homens do ténis, John McEnroe, interligando-o com a paixão cinematográfica do crítico Serge Daney, que proclamou certo dia a fidelidade do desporto ao Cinema.

“L’Empire de la Perfection” é essa mixórdia que resolve ser umas das profundas análises psicológicas de uma personalidade no Cinema. Tive o privilégio de conversar com Julien Faraut sobre a sua busca da criatividade num historial desportivo e o fascínio pelo perfeccionismo de McEnroe.

Começo pelo início, como surgiu esta ideia de fazer um filme sobre Ténis?

Primeiro de tudo, devo mencionar que trabalho no French Sports Institution. Estou encarregado da sua coleção de filmes por mais de 15 anos. Nunca contei, nem nunca tive a intenção de fazer um filme em torno de John McEnroe. A verdade é que tudo começou quando olhava para as amostras de um filme institucional da French Tennis Federation, que tinha o propósito de “educar” os jogadores. Fiquei surpreendido com a qualidade destas, tudo filmado em 16mm.

Tivemos que lidar com as “quebras” porque o laboratório onde este material residia tinha por hábito destruir as amostras para possuírem mais espaço para arrumação. Existiram várias amostras que nunca tive oportunidade de ver, mas senti a necessidade de preservar a película desses mesmos filmes. É um tesouro patrimonial.

Esse filme institucional refere sobretudo a perfeição dos movimentos, de seguida passamos para um jogador que não corresponde a essas mesmas pedagogias – John McEnroe – o qual aborda a sua imperfeição como a verdadeira perfeição no desporto.

Eu gosto de John McEnroe, é uma “personagem” complexa. Falas de imperfeição, o que reparo é que houve nele uma inconstante incompreensão e hoje existe uma espécie de remorsos. É um tipo de jogador que não existe mais e não está morto.

Penso que ele marca uma era, a Era McEnroe, na qual o seu fim deu entrada a um novo tipo de jogadores, mais semelhantes com robôs. Eles trabalham com os seus patrocinadores, são bem-comportados, seguem à risca a nutrição, são “perfeitos”. Elementos que faltavam em McEnroe, que estava sempre chateado, enraivecido sem razão e isso tornava-o em alguém bastante humano. Tudo porque evidenciamos nele sentimentos: frustrações e tensão são características bastante humanas. Queremos reagir, logo temos emoções, e não somente escondê-las de forma a defender uma imagem pública, e apenas reagir na sua intimidade. Temos fortes sentimentos enquanto humanos.

Olho para o McEnroe como um super-herói com uma fraqueza. No caso de Ivan Lendl, o jogador que o venceu, encontro uma “personagem” diferente. Aliás, foi um dos primeiros tenistas contemporâneos, um dos primeiros a apresentar as características dos “robôs” que referi. Sim, tenho a percepção da imperfeição que é a humanidade em McEnroe, que procura um lugar na sua constante raiva.

No seu filme, ao tentar criar um constante elo do Cinema com o Ténis, cai na comparação de McEnroe com um realizador. Como chegou a essa conclusão?

Era algo que queria clarificar, porque muitos o encaravam como um ator e não um realizador. Para mim, ele era um realizador.

Deixamos de considerá-lo um ator no devido momento em que aprofundamos a sua história, percebendo que ele não atuava nem fingia. Não tive intenção de criar algo teatral, ele era mesmo assim. Era um realizador, porque acima de tudo era um perfeccionista.

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L’Empire de la Perfection (2018)

Trabalhei com um psicólogo no Instituto e, quando o conheci, falamos sobre isso. Descrevi o seu perfeccionismo e logo acabei por sair desapontado com a sua conclusão. Julgava que o perfeccionismo era algo comum, mas o psicólogo descreveu que neste caso o perfeccionismo pode ser uma patologia. Porque um perfeccionista vive num mundo imperfeito e imprevisível – o nosso mundo, a nossa realidade. E devido a isso, ele vive numa constante frustração, coloca-se numa posição que não cumpre, algo que não se consegue resolver e ele debate-se nisso. Obsessivamente nisso. Não existe maneira de tornar o Mundo como ele quer. Faz lembrar a declaração de Serge Daney.

Continuando nessas ligações entre a Sétima Arte e o Desporto, que é a questão e criação de tempo no Ténis, apesar de focar nos escritos de Serge Daney para o Libération, essa temática levou-me também ao “Esculpindo o Tempo” de Tarkovsky. O tempo é aqui o conceito de liberdade, quer no Cinema, quer no Ténis?

Sim, certamente. Mais preciso que o tempo, é a questão da duração. O tempo é consoante através da dramaturgia. A duração por outro lado é diferente. São perspectivas diferentes.

Por vezes, um filme de uma hora consegue ser para nós uma eternidade, enquanto que outros de três horas equivalem a menos. O senso de duração vem em intermédio do drama. Quando lia os escritos de Serge Daney sobre o Ténis, refletia na questão do tempo e da duração dos filmes. Julgava que era o ponto que ligava o Cinema e o Desporto.

Quanto ao Ténis, não existe um tempo limitado, por isso mesmo, nós enquanto espectadores, não sabemos quanto tempo desenrolará nem como se desenrolará, porque até a previsibilidade pode tornar-se em imprevisibilidade. É uma grande liberdade e cria algo surpreendente. Serge Daney admirava esta questão no Ténis.

Visto falar de dramaturgia, Julien aborda este “documentário” de uma maneira tão ficional. O seu final recorre diversas vezes ao trágico quase shakesperiano. A queda de um ídolo, de um herói.

No meu filme, pelo menos em uma hora, segue sem saber onde quer realmente ir. Mas isso respeita o trajeto que eu próprio fiz enquanto trabalhava nele. Mas depois isso, deparei-me com uma ausência, faltava-me algo. Possivelmente, o elo entre Cinema e Ténis. O drama.

Então trabalhei na narração de um só jogo. No meu filme, como reparaste, não existe a descrição de nenhum evento, nem jogo, nem torneios, nem datas, simplesmente nada. Nos últimos 30 minutos foquei-me num jogo só. No mais famoso, por assim dizer, o qual foi considerado o ponto de transição entre o Ténis dito moderno e o Ténis contemporâneo. Para tal, submeti-me a uma terceira via de como observar uma partida de ténis.

Digo terceira porque existem duas bastantes comuns. A primeira é comprar o bilhete e seguir ao estádio e ver o jogo ao vivo a partir daí. A segunda é obviamente ver o jogo no televisor, com uma transmissão bastante rudimentar, sob o mesmo ângulo e os mesmos comentadores.

Tendo estas duas opções, pensei numa terceira maneira de ver ténis, pensá-lo como um espetáculo de Cinema. Quis criar algo cinematográfico. E fiz com aquilo que tive acesso. Não podia ir aos arquivos do jogo, por isso construí através de excertos. Não sabia qual o momento em que começava a partida. Era como um puzzle, por isso trabalhei para criar uma narrativa linear.

Peguei naquele jogo e tratei-o de maneira operática, queria transformá-lo numa Ópera, o que me ajudou acima de tudo a narrar a história. Toda essa fazia lembrar-me o destino fatídico de McEnroe, ou como vocês chamam aqui, o seu Fado.

Um herói para ser um herói tem que ter a sua queda ao cair do pano?

Sim, necessita de “cair”, mas a última imagem do filme não se resume à queda de McEnroe e sim à tabela de pontuação dessa temporada. Queria que esta fosse a última impressão a dar à audiência. De como seria ser o melhor jogador e os custos que teria para ser o número um. Podes jogar muito durante toda a temporada, mas não conseguir ganhar o jogo crucial da final e devido a isso não conquistares o cobiçado troféu. Para McEnroe foi depressivo, uma cicatriz que ficou.

John McEnroe viu o seu filme?

Sim, mas não foi fácil. Tentei contactar diversas vezes o agente, curioso que ele trabalha com o mesmo desde sempre. O meu pedido era diferente dos habituais que ele recebia.

Demorou um ano até ele perceber o que realmente queria fazer. Mas o filme foi distribuído nos EUA em agosto e teve o privilégio de contar com uma excelente crítica no New York Times. Dois dias depois, McEnroe pediu ao meu produtor um link para poder partilhar com os seus familiares e amigos. Porque realmente gostou do filme.

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L’Empire de la Perfection (2018)

Quanto a novos projetos? Continuará no desporto?

Sim, continuarei. Eu trabalho na Cinemateque e julgo ser o único a fazer este tipo de filmes em França. Acho que sou o único realizador de lá interessado nesta área. Assim é mais fácil ser identificado por estes filmes. Não acredito que o tema desportivo condicione a minha criatividade.

O meu próximo filme será sobre uma equipa feminina de voleibol no Japão, na década de 60. É sobre o desporto em si, mas abordará a condição feminina e as vidas industriais até porque estas mulheres trabalhavam e viviam numa fábrica de têxteis.

Quero mostrar através destas condições que estas atletas eram muito mais resistentes do que as atuais, contrariando a ideia de que hoje se treina mais e mais de forma a atingir a perfeição. Estas mulheres vão demonstrar o contrário.

Não quero fugir do desporto porque sei que é mais que um tema. O desporto não é apenas boletins televisivos que informam quem venceu ou perdeu na partida. O desporto também é criatividade, da mesma maneira que os outros filmes e outras artes. É um planeta à parte, e nós, enquanto realizadores, não sabemos aonde chegar. Sou fascinado pelo gesto e pela performance em si.

Cinema e Ténis cúmplices na busca da perfeição

Hugo Gomes, 02.03.19

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O Cinema mente, o desporto não

E é com a frase de Godard que Julien Faraut nos convida diretamente para o mundo do ténis, no qual somos automaticamente interpolados pelas imagens institucionais de Gil de Kermadec para depois chegarmos ao objeto de estudo desta demanda: John McEnroe.

Mas antes, questionamos o impasse dado neste início, como um obstáculo que nos impede de seguir diretamente o serviço. Porém, a paragem obrigatória nos registo de Kermadec impõem o dilema quanto aos desígnios da dita perfeição. É que as mesmas imagens são paradoxos abismais aqui – o contraste dos gestos robotizados ligados à perfeição de uma idealização do ténis faz-nos crer que essa economia de movimentos é somente uma cabala perante ao desengonçado modo de jogar de McEnroe, quatro vezes campeão do Mundo, que desafia toda a doutrina enraizada nos “bons costumes” do desporto. Mas é nessa imperfeição que Faraut encontra a mestria. Para ele, o norte-americano é o jogador de topo, tendo como grande virtude e característica todo um controlo do ambiente a redor. Um rei no seu espaço … ou melhor, um realizador no seu set.

Mas antes de avançarmos para McEnroe e o seu “mau feitio”, temos que interiorizar que Faraut não é um mero adepto da raquete, mas um cinéfilo, assim como o crítico Serge Daney, que certo dia encontrou as similaridades do ténis com o Cinema, o que originou um livro póstumo e vários artigos no jornal Libération. Para Daney e Faraut, o ténis é um desporto 100% cinematográfico, porque nele deparamos com uma noção de tempo, um trabalho, uma criação e uma gestação (nos enquadramentos dessa tese podemos então incluir o boxe como a modalidade predileta do Cinema). Nessa teoria que nos leva aos escritos de Andrei Tarkovsky [“Esculpindo o Tempo”], o realizador investiga as proezas de McEnroe e depara-se com um “colega seu”. Mais do que um jogador, McEnroe é um cineasta, não fosse o facto de se comportar como tal em campo. As suas constantes interrupções, a sua tremenda determinação de controlar todo o seu redor, desde o mais silencioso dos sons, ou do “olhar a mais” que se projeta na partida. McEnroe parte como um perfeccionista, nem que para isso se assuma numa enzima em equilíbrio do próprio ecossistema.

Faraut compara-o a Mozart, nomeadamente à encarnação cinematográfica de Tom Hulce em “Amadeus” (Milos Forman, 1984). Mas não é por acaso. O próprio ator declarou que se reviu no jogador para recriar o seu compositor. Contudo, o lado a lado com estes natos de diferentes ramos não é vão. Trata-se de um consolidar de génios, a provocação de duas figuras acima do seu tempo, completamente desprezados (ou ridicularizados) na sua contemporaneidade e dotados de uma genialidade em conforto com a própria instabilidade. Para isso, e voltando a mencionar, McEnroe precisa do seu espaço apropriado, nem que batalhe diariamente, ou melhor, em cada minuto, para isso. O realizador (neste caso, refiro Faraut), consegue, através de um minucioso trabalho de arquivo, construir imageticamente uma análise psicológica e comportamental do campeão (um retrato tão profundo de uma figura desde "Zidane, un portrait du 21e siècle", de Douglas Gordon e Philippe Parreno).

E não se deixem enganar por um suposto lado documental, até porque "L’Empire de la Perfection" trabalha sobre as nuances da tragédia ficcional, o qual reserva-nos a meia-hora final da queda de McEnroe. Uma dolorosa conclusão onde, sem perder a sua autenticidade, assistimos à derrota de um gigante e o início de uma nova era no Universo tenista. Possivelmente, Faraut espelhou com alguma tristeza esse desprezo pela perfeição e o arranque da imperfeição das coisas, neste caso, traduzindo em dialeto do ténis.

Sabendo que existe uma escassez de filmes sobre tal desporto, arriscamos em afirmar que a abordagem de Julien Faraut significa por enquanto o desejado casamento do ténis com o Cinema propriamente dito. Porém, a ilusão deste império não deixa dúvidas: longe de comparações temáticas, “L’Empire de la Perfection” é uma carta de amor à Sétima Arte. Não é perfeito, mas não está longe disso.

“Quando assistimos ténis não sabemos o que vamos ver”