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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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À espera da revolução que nunca chega

Hugo Gomes, 25.09.25

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Por mais que nos convençamos de que Paul Thomas Anderson trabalhou neste guião durante vinte anos, ainda assim é difícil não contemporaneizá-lo na América de hoje: a de Trump, a das saídas do “armário” ou, talvez, como hipótese de um tempo cíclico em constante loop, a de uma estagnação de onde nunca saímos verdadeiramente. Em “One Battle After Another”, PTA (carinhoso acrónimo) toma as rédeas dos escritos de Thomas Pynchon, como fizera no ainda discutido “Inherent Vice”. Porém, enruga-os como bacalhau seco e esfrega-os na cara da modernidade, com a ambição de transformar este filme no seu magnus opus, o cinema político norte-americano de que necessitamos.

Mas vejamos: aquele início fervoroso, de assaltos a centros de detenção de imigrantes (aliens, nome careta e de instrumentalização politizada de conservadores e alados), de arma em punho, alguns gritos de ordem e uma ereção inesperada — eis a América enquanto América, a violência como carpe diem. “Toda a revolução é violenta”, afirma a personagem que se apresenta como Perfídia Beverly Hills (Teyana Taylor), herdeira de uma longa linhagem de revolucionários e activistas sem hashtags nem frases feitas. Bom slogan, que poderia rimar com outro: “não há revolução sem revolução sexual”, do nosso caro camarada Dusan Makavejev [“WR: Mysteries of the Organism”], e desta cama passa para camas alheias, sexo aqui, sexo ali, sem notar como tais lascividades condicionam destinos. Mas o que fazer senão a revolução, a promessa, os amanhãs que cantam? Virada à esquerda, radical, talvez sim, talvez não, em terra de americanos, porém, a violência é a senha de entrada no clã.

Agora: cinema político? Precisam os EUA de uma nova vaga? Todas as vagas nascem de uma ruptura, de uma revolução que nunca é pacífica ou negocial, mas agressiva, destruidora de vícios para criar outros. PTA, por outro lado, está longe de ser revolucionário ou de liderar uma vaga possível. A sua agressividade é pacificadora. Ao longo da carreira olha para os alicerces americanos, estabelece pontes com a tradição, defende a sua geração, mas concentra-se em dissecar o Poder: os seus tentáculos, as suas encarnações, as tatuagens desta América. Assim o fez pelo acaso (“Magnolia”, 1999); pela indústria pornográfica (“Boogie Nights”, 1997); pela ganância empreendedora (“There Will Be Blood”, 2007), onde a personagem de Paul Dano desenha o quão carnal a religião se tornou nesses círculos de poderio capitalizado; pelo culto (“The Master”, 2012), filme que hoje seria retrato actual das políticas evangelistas e da sua diluição pelo palco democrático; e pela paranoia (“Inherent Vice”, 2014), já a piscar o olho a “One Battle After Another”. A paranoia é o seu lar, envidraçado na sátira, e PTA, influenciado por Pynchon, caricatura medos, choques e Poder. Aqui Sean Penn surge altamente caricatural, a ridicularizar um punhado de personagens da nossa faux politique.

Mas voltemos às vagas: a obra é demasiado cara para arriscar o corte esperado e o realizador demasiado compreensivo com o cinema da sua casa para fermentar um movimento consequente. Integra a geração herdeira de um cinema “Senhor Hollywood”, sem palhaçadas nem ‘bonecadas’, como James Gray, só que, ao contrário deste, PTA conhece os códigos sem os mimetizar, não sonha sentar-se à mesa dos professores; quer criar um lugar numa mesa apenas sua. Mas será que está a conseguir com o feito? Resposta incerta, contudo cada lançamento seu adquire um tom de filme-evento, o “novo filme de Paul Thomas Anderson a estrear”, frase ouvida para agrado de qualquer realizador. “One Battle After Another” pode não ser o passo seguinte do cinema americano … esperamos, contudo, pelo dia em que surja algo capaz de o arrancar da sua mortiça condição artística. Entretanto, porque não acreditar que a revolução possa vir também das massas? Não dos proles ou dos descontentes, mas da massificação vista pelo prisma capitalista e consumista?

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Daí o mesclar entre a paródia coenesca, descrédito humano de Iñárritu, caos e calmaria, remexendo politiquices, extremismos e paranoias, um trago de Nova Hollywood de estrada vai e estrada vem, ou da malapata scorseseana (nota-se as inspirações, as fontes ‘inspirituais’, mas ao contrário de outros da sua ‘turma’, Tarantino, não deixa as referências em exibição). Tudo paródia, tudo troça, tudo violência na piada e na execução. PTA poderá conquistar público, elaborar o seu filme do momento, o zeitgeist cultural, porque até as massas pedem hoje o seu choque político: make cinema relevant again. Sem construir um movimento (desses que esquartejam a ordem natural do procedimento) este poderá ser, ao menos, o evento necessário para cativar uma audiência desmerecida, ou domesticada pela dominância da tendência rentável. 

Perdoamos aquele epílogo lamechas e descabido, vibramos com o astuto e certeiro golpe na estrada inóspitas, rimos de Sean Penn num bullying permanente a relembrar outras e determinadas figuras da nossa atualidade, torcemos pelo destino atrapalhado por Leonardo DiCaprio, cansamos da obsessiva música de Jonny GreenwoodPTA poderá, num meio deserto extremo, ter criado o seu “cinema político”.

A adopção de Hal Holbrook: a resiliente despedida a um secundário de luxo

Hugo Gomes, 02.02.21

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Não foi certamente a última vez que o vi, mas não deixaria de mencionar a sua, talvez, última grande presença. O momento em que Hal Holbrok resiste à despedida do jovem Emile Hirsch, na pele de Ron Franz em “Into the Wild” (Sean Penn, 2007), o – “Let me adopt you” – é de uma calorosa subtileza e sensibilidade que só um ator com tal longevidade, experiência e também vivência poderia retribuir. Hoje em dia, “Into the Wild” é quase um sacrilégio ser relembrado por muita cinefilia (muito por culpa de “The Last Face”), mas é um filme de pequenas ‘coisas’, e Hal Holbrok, não sendo necessariamente ‘pequeno’, faz parte dessa espontânea magia.

Fora do território selvagem, o ator, que nos deixou aos 95 anos, nunca fora um protagonista emancipado (assumindo como tal em projetos pouco memoráveis), ao invés disso, um secundário de luxo, um valioso suporte do enredo em causa. Quem não esquece o seu obscuro conselho de “Follow the money” em “All The President’s Men” (Alan J. Pakula, 1976), que curiosamente partilha convivência com o seu sermão elitista em “Wall Street” (Oliver Stone, 1987) - “The main thing about money, is that it makes you do things you don't want to do” - ou da sua indignação enquanto padre Malone ao confrontar o criminoso segredo em “The Fog” (John Carpenter, 1980) - “The celebration tonight is a travesty. We're honoring murderers”.

 

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Wall Street (Oliver Stone, 1987)

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All The President's Men (Alan J. Pakula, 1976)

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The Fog (John Carpenter, 1980)

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Magnum Force (Ted Post, 1973)

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Lincoln (Steven Spielberg, 2012)

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The Unholy (Camilo Vila, 1988)