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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

O Film Noir continua cool! Arranca o 4º Screenings Funchal Festival, na companhia de Bogart e Stanwick.

Hugo Gomes, 03.10.25

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In a Lonely Place (Nicholas Ray, 1950) / 4 de Outubro (Forum Madeira, 21h00)

A Madeira será, nas próximas semanas, uma ilha rodeada por neblina: ruas escuras, detetives privados de gabardine e poses cool, crime, castigo e mistério. Tudo a preto e branco, resguardado nas sombras e nos becos escuros. É o cliché do film noir o que descrevo, mas é precisamente aqui que o genuíno subgénero será apresentado, numa retrospectiva cuidadosamente selecionada.

Contratou-se o seu inspetor na capital do arquipelago: o Screenings Funchal Festival, que chega à quarta edição e a um novo caso, melindroso caso, talvez sob os olhares atentos daquela mulher de passado longínquo, a habitual femme fatale, em quem qualquer homem sonharia perder-se e igualmente temer. Armadilhas, diríamos.

Mas não nos desviemos. Voltemos ao ciclo: Humphrey Bogart e Barbara Stanwyck surgem como protagonistas num prolongado noir na Madeira, narrado por Pedro Pão, programador que rompe a lógica dos festivais de cinema e apresenta, de bandeja acinzentada … para não contrariar o monocromatismo … oito obras, a representar Hollywood no seu esplendor e intriga, a partir do dia 3 de outubro e prolongando pelo resto do mês.

O Cinematograficamente Falando… desafiou o programador a apresentar o seu caso… eis-lo:

O film noir surge na ribalta nesta 4.ª edição do Screenings Funchal Festival. Porquê este subgénero na programação? E, dentro dele, por que motivo estes títulos foram escolhidos como representantes desse universo tão vasto?

O noir não foi o ponto de partida, foi o de chegada. Gosto que haja uma razão estruturada para cada edição, mas às vezes as coisas surgem por acaso, e foi o caso desta. Durante a pandemia, descobri que ninguém do meu grupo próximo de amigos tinha visto o “Casablanca”. Tendo em conta as restrições em vigor, resisti à tentação de arranjar amigos novos, e organizou-se uma sessão privada com projector, Blu-ray num atelier bem amplo. Depois fui-me lembrando de outros filmes que gostava muito com o Bogart, e fiquei com uma ideia (muito embrionária) de um dia fazer um ciclo dedicado ao Bogart

Nesta fase as possibilidades eram demasiadas, e foi preciso pensar em restringir o tema. Assim que decidi que o ciclo não deveria ser exclusivamente focado no Bogart e que deveria ser partilhado com uma protagonista do género feminino achei que só poderia mesmo funcionar dentro do film noir, e a Barbara Stanwyck era a escolha óbvia. Desta forma, foi mais fácil escolher este conjunto de filmes, que apesar de se tratar de uma pequena amostra do noir, representa bem as histórias e personagens que me interessam, e que se encaixa na proposta do ciclo.

O ciclo parece orbitar em torno de dois espectros: Barbara Stanwyck e Humphrey Bogart. Acredita que um subgénero pode ser sintetizado em dois intérpretes? Ou foi antes um atalho para trazer obras prestigiadas, populares e que, ao mesmo tempo, sintetizam o estilo?

O ciclo orbita de facto em torno de Stanwyck e Bogart, mas nunca foi a minha intenção resumir o noir nem aos actores nem ao limitado número de filmes exibidos. Acho que a ideia de “atalho” é perfeita. Achei que eles representam os arquétipos mais emblemáticos do noir e quis usá-los para criar um fio condutor. Além disso, sendo figuras icónicas, (o Bogart provavelmente mais) quis aproveitar isso para que o ciclo fosse o mais apelativo possível. Outro objetivo foi dar visibilidade a uma actriz incrível, a Stanwyck, que creio ser muito menos reconhecida pelo público em geral.

No campo dos realizadores, encontramos nomes distintos e percursos muito diferentes, com exemplos de ecletismo dentro de Hollywood. Teve em conta este factor artístico? E, perante esta diversidade, considera o film noir um subgénero de transição mais do que um corpo coeso?

Depois de ter restringido o tema como referi anteriormente, fiquei com um painel de luxo, no que toca a realizadores, para selecionar obras. Achei a diversidade de realizadores muito interessante, e é por isso que se defende que o noir não é tanto um género, mas antes um estilo. Mesmo pela amostra reduzida dos que conheço, isso é notório e fascinante. Wilder, Ray e Lang, entre outros, mostram abordagens muito distintas dentro do noir, e ao longo da década de 40 o noir transformou-se através de experimentações formais, estéticas e influências diversas, tornando-se um território cinematográfico muito rico e interessante por essa diversidade.

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Clash by Night (Fritz Lang, 1952) / 24 de Outubro (Forum Madeira, 21h00)

Relativamente à masterclass de Luís Miguel Oliveira: não lhe peço apenas que fale das intenções de criar este “intervalo” reflexivo no meio da programação, mas também da importância (ou irrelevância) da crítica no papel da curadoria de festivais que, como este, não seguem a lógica dominante do mercado.

A masterclass parte de uma necessidade e lacuna muito grande, do contacto do público madeirense com especialistas, neste caso da área do cinema, mas que se aplicaria igualmente, a muitas outras áreas. Acredito que este esforço de complementar o ciclo com o contributo do LMO enriquecerá não só os espectadores, mas também o próprio festival. Esta lacuna não é exclusiva da insularidade, reflete uma condição de periferia cultural, que no nosso caso se agrava pela nossa condição ultraperiférica e que teria uma solução muito simples chamada: “investimento”.

No que diz respeito à crítica, é difícil imaginar alguém que desempenhe um papel de programador que lhe seja indiferente. Acho o trabalho da crítica inestimável e muitas vezes pouco valorizado. Socorri-me várias vezes dela para ajudar a organizar e justificar a escolha de alguns filmes neste ciclo e sou constantemente enriquecido por ela tanto como programador como espectador.

Enquanto programador e cinéfilo, houve algum filme que gostaria de incluir neste ciclo, por corresponder ao espírito do evento, mas que acabou por ficar de fora?

Falta-me descobrir, ver e aprender demasiadas coisas para me sentir bem com esse intimidante título de cinéfilo. Trabalhar neste ciclo, fez-me perceber que existem muitos mais filmes que ainda quero ver do que aqueles que já vi. Tem sido sempre assim, e isso é algo que eu aprecio imenso no processo. Gostava de ter incluído o “Casablanca”, que acabou por inspirar o festival, mas, não sendo um noir, não se enquadrava na proposta. Outro filme que considerei foi “The File on Thelma Jordon”, mas acabei por optar pelo “Clash by Night”. Apesar de ser um melodrama com elementos noir, pareceu-me mais pertinente para este ciclo, na medida em que explora não o arquétipo da femme fatale, mas uma mulher com consciência social, que procura autonomia e se sente insatisfeita com as expectativas que a sociedade lhe impõe.

É sabido que eventos culturais desta natureza dependem muitas vezes do apoio autárquico. Sente-se apreensivo sabendo que as eleições locais, a decorrer no mesmo mês, podem condicionar a continuidade de futuras edições do festival?

Essa dependência é real e, no nosso caso, decisiva. Este festival nunca poderia realizar-se nestes moldes sem o apoio fundamental da Câmara Municipal do Funchal, ao qual estamos muito agradecidos.

Não me sinto apreensivo por várias razões. Em primeiro lugar, porque o departamento de cultura da CMF é composto por uma equipa cujo trabalho fala por si e que, mesmo numa eventual mudança partidária, dificilmente deixaria de ser reconhecido e continuado. Além disso, acredito que aquilo que temos vindo a oferecer à cidade do Funchal é culturalmente significativo, e o facto de estarmos já na 4.ª edição parece indicar que essa convicção é partilhada. No pior cenário, iremos nos adaptar, como sempre fizemos até hoje, focando e reforçando as nossas sessões regulares.

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The Big Sleep (Howard Hawks, 1946) / 18 de Outubro (Forum Madeira, 21h00)

O Screenings Funchal Festival vai-se consolidando edição após edição. Que linhas de força gostaria de ver no seu futuro? E persistindo; John Waters continua na sua lista de desejos?

Gostaríamos que o festival crescesse (e não me refiro a after parties e cocktails) e tivesse mais condições para trazer com mais frequência realizadores e outros convidados, pois esse contacto direto com o público é importantíssimo. Mesmo fora do festival, na programação regular, seria possível ter cá com mais regularidade cineastas se tivéssemos algum tipo de apoio mais alargado. 

Em relação ao Pope of Trash, acho imensa piada que tenhas retido isso e que me relembres de vez em quando. É sinal que é uma excelente ideia, e se correr mal, posso sempre alegar ter sido incentivado e induzido em erro pelo crítico. Não sei se o Liarmouth ficou de vez na gaveta, mas poderia ser um incentivo adicional. Gostava mesmo muito de ter um festival dedicado ao John Waters. A Madeira é um dos sítios menos apropriados para o fazer e é exactamente isso que faz da ilha o sítio perfeito para o receber. Não será em 2026, e de forma a evitar que eventuais repercussões possam encurtar o tempo de vida da iniciativa, ainda gostava de ir ao Herzog primeiro. Mas continuo a achar que o “Pink Flamingos" seria o filme perfeito para a última sessão do Screenings Funchal. Um último gesto de celebração e provocação. Podem haver formas melhores de acabar, mas não me ocorre nenhuma de momento. 

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Toda a programação poderá ser consultada aqui.

Prano Bailey-Bond: "o horror é isso mesmo: as coisas escuras que evitamos encarar acabam por se manifestar como monstros. É tudo sobre repressão."

Hugo Gomes, 28.08.25

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Censor

Aconteceu em 2024, ano passado, no auge do 18.º MOTELX. A varanda do Cinema São Jorge encontrava-se apinhada de gente: visitantes do festival, aficionados do terror, curiosos ou copofónicos, todos com os respectivos recipientes cheios da bebida do momento, conversando, rindo e macaqueando os demais. Muitos aguardavam a próxima sessão: que terror os esperaria? Contudo, duas horas depois daquele instante seria apresentado um livro na sala inferior. Essa apresentação seria a minha desculpa para evadir-me daquele espaço sobrelotado, mas por enquanto não, até porque não estava sozinho: ao meu lado encontrava-se Prano Bailey-Bond, realizadora galesa presente em Portugal para apresentar, em sala, o seu “Censor”, primeira longa-metragem, “filme-sensação” que nunca conheceu estreia oficial no nosso país.

A sua vinda, tal como a do filme, não foi fruto do acaso: celebravam-se os 50 anos do 25 de Abril, da queda de um regime e da censura por ele instalada. “Censor”, vinha a calhar no ambiente de “livramento”. Por sua vez, aborda o quartel-general dessa outra censura, nos tempos de Thatcher, no Reino Unido, em que os “video nasties” eram alvo de cortes higienizados enquanto, no exterior, alimentavam clandestinidade e, ao mesmo tempo, histeria. O filme prolonga-se nessa descida infernal de uma censora que acaba por cair na realidade oferecida pelos objectos que analisa.

Prano Bailey-Bond aceitou o meu convite, com amabilidade, para falar do seu filme: do que veio antes, do durante e do depois, das políticas e das libertações. Seguiu-se a conversa, nesse dia quente a espreitar o Outono, com a multidão envolta em cacofonia e música ambiente a anestesiar audições. Por instantes, pareceu “Pierrot le Fou”. Só faltou perguntar: “O que é o Cinema?”.

Gostava de começar pelo fim. Tens uma apresentação marcada às sete da tarde, sobre um livro, certo?

Sim, vou estar no painel sobre o livro da Heidi Honeycutt, I Spit on Your Celluloid”. Ainda não terminei a leitura, mas trata-se de uma obra sobre realizadoras de cinema de género, explorando a História do Cinema e trazendo entrevistas com várias cineastas. Acho que isso torna o livro especial, porque a Heidi reuniu testemunhos de diferentes épocas, de realizadoras contemporâneas e outras do passado, e dá-lhes voz para falarem das suas experiências, das dificuldades em fazer filmes, dos seus processos criativos. É muito interessante a esse nível.

Hoje em dia parece-me que há muitas mulheres a realizar filmes de terror, talvez até mais vozes promissoras do que no passado.

É verdade, agora são bem mais. Quando comecei a tentar obter financiamento para as minhas curtas, sentia que ninguém queria apostar numa realizadora e muito menos numa que fizesse “cinema de género”, pelo menos no Reino Unido, onde os financiadores de curtas-metragens não mostravam abertura.

Mas nos últimos oito anos as coisas mudaram bastante, e isso permitiu a entrada de muitas mais vozes femininas. Essa transformação tem acontecido também noutros países, ainda que em ritmos diferentes. Ontem, por exemplo, falei com uma jovem realizadora portuguesa que me dizia que em Portugal ainda há pouquíssimas mulheres a dirigir. Lembro-me de estar em Sitges, há alguns anos, e ouvir comentários semelhantes em relação a Espanha: apesar de já existirem algumas realizadoras de género, poucas conseguiam passar à longa-metragem. Confirma-se, o movimento está a espalhar-se,só que de forma gradual. Ainda assim, hoje temos muitas mais mulheres a filmar, e estão a surgir obras muito empolgantes.

Tal nota-se também nos grandes festivais. Por exemplo, a Julia Ducournau venceu a Palma de Ouro com “Titane” e o “The Substance” conquistou também um prémio forte no festival da Riviera. Mas passando agora para “Censor”... já agora, lembro-me da tua curta “Nasty”, que foi exibida aqui mesmo no MOTELX. Mas quanto à tua longa,  é um filme muito pertinente e até diria arriscado, pelo comentário sociopolítico que levanta. Julguei até que tivesses escrito um artigo para a Sight & Sound sobre censura, o qual tenha sido o protótipo …

Na verdade, o que escrevi para a Sight & Sound foi um artigo sobre mulheres no horror e sobre a minha relutância em estar constantemente a participar em debates e painéis sobre o tema … o que é irónico, já que mais logo vou estar precisamente num painel sobre mulheres no horror, por causa do livro da Heidi! [risos] Mas quando “Censor” estreou no Reino Unido, a revista lançou um número dedicado ao fenómeno dos “video nasties”, e o filme foi capa. Houve, sim, muito destaque a esse tema, mas não fui eu que escrevi o artigo principal. Peço desculpa pela desilusão … [risos]

[Risos] … talvez fosse “The British Video Massacre”, recordo-me desse título.

Ah! Esse! Creio que foi escrito pelo Kim Newman, que até foi produtor executivo em “Censor”. Houve também uma entrevista muito boa que fiz com o Mark Kermode, onde explorámos bastante a época dos video nasties. Mas sim, é provável que esse texto fosse do Kim.

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Prano Bailey-Bond

Esses artigos chegaram a inspirar-te a fazer “Censor”? Ou até a curta “Nasty”?

Na verdade, a inspiração inicial veio de um artigo da época da Hammer Horror, sobre os censores que trabalhavam então. Dizia-se que não havia muitas regras fixas, mas havia uma que eles cumpriam à risca: qualquer cena que mostrasse sangue no peito de uma mulher tinha de ser cortada, porque acreditavam que isso poderia incitar os homens a cometer violação. Fiquei em choque — “o quê?!” — e percebi que a maioria desses censores eram homens.

Foi aí que comecei a pensar: e se uma censora acreditasse profundamente no que fazia, mas começasse a questionar até que ponto estava ou não a ser influenciada pelos filmes que via diariamente? Se ela acreditava que as imagens podiam corromper as pessoas, porque é que não a estariam a corromper a ela também? A partir daí mergulhei na investigação e percebi que a época dos video nasties, nos anos 80 no Reino Unido, era perfeita para explorar essa ideia. Na altura dizia-se que o VHS de terror estava a criar uma geração de psicopatas, que era responsável por toda a criminalidade, ou seja, havia um eco direto do tema que pretendia explorar na personagem: o medo de, no fundo, ser uma má pessoa.

Além disso, muitos dos filmes proibidos ou mal vistos nessa altura (“The Evil Dead”, “The Texas Chainsaw Massacre”, “Suspiria”) foram também as obras que me marcaram enquanto espectadora e influenciaram o meu estilo. Pude, portanto, beber da estética desses filmes, o que foi muito divertido como realizadora.

Quando vi “Censor” pensei também na atmosfera dos anos 80, no moralismo dos tempos de Margaret Thatcher, em que se culpavam os filmes pela violência da sociedade. Mas no fundo o que dizes no filme é que a violência nasce do ser humano, não das obras. Afinal, a protagonista é ela própria censora, mas acaba por se tornar parte daquilo que censura.

Correcto! A referência à Thatcher é muito pertinente. Naquele período havia uma necessidade de encontrar bodes expiatórios para os problemas sociais. O governo e os jornais preferiam culpar os filmes de terror, quando na realidade o que estava a acontecer era o corte massivo de apoios sociais e o aumento do desemprego. As pessoas estavam a sofrer, a viver dificuldades, mas a narrativa oficial era: “a culpa é dos video nasties”, e isso ecoa até hoje. No Reino Unido, com os Conservadores no poder há 14 anos, assistimos a uma degradação semelhante: cortes brutais e, em vez de assumir responsabilidades, apontam-se outros culpados, neste caso, os refugiados. A retórica é a mesma: “estão a roubar-vos os empregos, são os responsáveis pelos vossos problemas”. Já vimos como isso culmina, com motins nas ruas muito recentemente, fruto dessa manipulação.

Não quero entrar demasiado na política, mas encaro o teu filme, de certa forma, muito político. Há sempre paralelos possíveis: no massacre de Columbine culparam a música [a banda Slipknot foi o principal ‘culpado’], por exemplo. E no Reino Unido houve o caso do James Bulger, em que culparam um filme que o pai de um dos rapazes tinha alugado, isso acabou por gerar mais tentativas de censura nos anos 90.

Sim, exactamente! O caso do James Bulger esteve muito associado ao “Child’s Play 3”. Foi terrível: um rapaz foi morto por dois outros rapazes e acreditou-se que eles teriam copiado algo do filme. Mas havia bastante cepticismo em relação a essa ideia.

Houve também o massacre de Hungerford, em meados dos anos 80, em que um homem armado matou várias pessoas. Ele usava a arma e até carregava as balas da mesma forma que em Rambo, e automaticamente criou-se a narrativa que teria copiado o filme. Mas nunca houve prova alguma de que ele sequer tivesse visto “Rambo”, e a forma como carregava as balas era simplesmente a única possível para aquele tipo de arma. Ouvi até a história, não sei se é verdade, de que o censor responsável por aprovar “Rambo” se demitiu depois, porque se sentiu responsável pela tragédia. Pode ser apenas lenda.

Essa ideia também acabou por inspirar “Censor”, certo?

Completamente. Porque a questão que me interessava era: se acreditas mesmo que os filmes influenciam as pessoas, o que acontece quando um crime é atribuído a um filme que tu aprovaste? Onde está a responsabilidade? É do censor? Do realizador? Ou, na verdade, é da pessoa que cometeu o crime? Ou até do governo, por não garantir condições de vida dignas, serviços de saúde mental, apoio social?

O tema da culpa, de quem carrega o peso da responsabilidade, foi algo muito presente enquanto escrevia “Censor”.

Também acredito que uma das grandes forças do teu filme seja a escolha da protagonista, Niamh Algar …

Adoro a Niamh. Ela tinha aparecido na televisão britânica pouco antes de começarmos o casting para “Censor”. Esteve na série “The Virtues”, do Shane Meadows (o realizador de “This is England”), ao lado do Stephen Graham.

Já a tinha conhecido num evento, antes de ver o trabalho dela, e lembro-me de lhe falar de um guião que estava a escrever, chamado “Censor”. Mais tarde, quando a vi em “The Virtues”, fiquei absolutamente impressionada: a energia, a naturalidade, a forma como tem acesso imediato às emoções. São tudo características que transparecem no ecrã. Quando veio ler para o papel, surpreendeu-me ainda mais. Compreendeu a personagem de forma profunda e levou as cenas para um outro nível, logo nas primeiras leituras. Por isso não tive dúvidas: tinha de ser ela. Foi uma experiência incrível trabalhar com a Niamh, o seu papel era extremamente exigente — a personagem está em todas as cenas, carrega o filme às costas. Para mim era fundamental escolher alguém capaz disso, e a Niamh não só correspondeu como ultrapassou as expectativas. Parte do sucesso do filme deve-se a ela.

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Censor

Sim, até porque ela tem essa capacidade de esconder o que sente, e no filme isso é fundamental. Afinal, é uma viagem à mente dela.

Corretíssimo! Quando escrevíamos o filme, perguntávamo-nos constantemente: “Como é que mostramos o que se passa dentro da cabeça da Enid?

Normalmente, num filme, tens uma personagem secundária, um amigo, alguém a quem o protagonista confia pensamentos, mas em relação à Enid não tem isso. Ela está sozinha, não se abre com ninguém. A sua solidão é central no percurso: como não partilha nada, deixa que tudo se acumule, que apodreça dentro dela, e acaba por lutar contra si própria.

Adoro personagens desonestas, que mentem a si mesmas. A Enid é assim: não é uma personagem transparente. O desafio era garantir que, mesmo sem diálogos que explicassem o seu interior, o público conseguisse perceber o que se passava com ela, e a Niamh deu-nos exatamente isso. Claro que não foi só ela, todos os departamentos contribuíram, da fotografia à música, da montagem ao som, só que a Niamh foi a chave-mestra que nos abriu a porta para dentro da cabeça da Enid.

Ela acaba por acreditar que está a fazer o bem. Tal como os censores acreditavam que protegiam a sociedade. Até o termo usado para os filmes censurados em Portugal era “para o bem da nação”.

Sim. Sempre imaginei que a Enid fosse movida pela ideia de proteger a sociedade. Ela acredita que está a erradicar o mal, a impedir que algo prejudique os outros. Mas, na verdade, não está a reconhecer o mal dentro de si própria. Para sermos pessoas equilibradas, temos de aceitar tanto o lado bom como o lado sombrio. Se reprimimos traumas e sentimentos negativos, eles voltam à superfície de forma descontrolada. É o que o Jung descreve como a “sombra”: precisamos conhecê-la, encará-la, porque não desaparece sozinha. Para mim, o horror é isso mesmo: as coisas escuras que evitamos encarar acabam por se manifestar como monstros. É tudo sobre repressão.

Isso faz-me lembrar algo curioso. Há um ou dois anos (já não sei ao certo) entrevistei o realizador romeno Radu Jude, que venceu a Berlinale em 2021 com “Bad Luck Banging or Loony Porn”. Ele disse que o cinema é como o espelho usado por Perseu para enfrentar a Medusa: não conseguimos olhar o mal diretamente, temos medo, então usamos o reflexo para o ver. De certa forma, os filmes de terror são isso, uma maneira de enfrentar o mal sem o encarar de frente.

Que interessante. Gosto muito dessa imagem.

“Censor” foi a tua primeira longa-metragem, depois de várias curtas. Pergunto se já estás a preparar uma segunda? O filme ganhou muito destaque. Estreou em Sundance, se não me engano.

Sim, estreou em Sundance. Tem sido uma viagem incrível com “Censor”. É engraçado porque continuo a ser convidada para festivais a falar do filme, mesmo anos depois, mas é um prazer, e gostei muito de vir a Lisboa novamente. Já cá tinha estado e adoro a cidade. Além disso, achei muito interessante o foco deste ano, com o 50.º aniversário do 25 de Abril e a mostra dedicada aos filmes censurados. Tenho muito interesse em perceber como a censura foi aplicada em diferentes países, como afectou a sociedade, os cineastas e a relação com o cinema. Por exemplo, no final do ano passado estive na Argentina e a reação ao filme foi fortemente política, por causa da história da censura e também dos desaparecidos. Foi surpreendente para mim perceber como “Censor” dialogava com essas memórias.

Em relação ao futuro, estou a escrever alguns projetos. Quem sabe, talvez o meu segundo ou até o meu terceiro filme saiam daqui. Um deles já foi anunciado: uma adaptação de um conto de “As Coisas que Perdemos no Fogo”, da Mariana Enriquez. Ela é fabulosa! Tive o prazer de a conhecer num festival na Suíça há alguns anos, e correspondeu totalmente àquilo que se espera dela: uma pessoa adorável, generosa, divertida. Foi fantástico conversar com ela. Estou, portanto, a adaptar esse conto e também a desenvolver outros projetos. Ainda não sei qual será o próximo a avançar, mas há várias coisas a ganhar forma.

“Censor” será exibido no Screenings Funchal, nos dias 29 e 30 de agosto, pelas 21h00. Ver mais aqui.

Revenge of the 80's e mais cultos. Arranca o 3º Screenings Funchal Festival com vénia ao cinema de género.

Hugo Gomes, 05.07.24

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"Dead or alive, you're coming with me!", proclama Peter Weller, ou melhor, Robocop na homónima obra-prima de Paul Verhoeven, enquanto, Roddy Piper, mascando pastilha e com a shotgun a postos, ameaça: "I have come here to chew bubblegum and kick ass... and I'm all out of bubblegum.", numa outra obra-mestra, desta com assinatura de John Carpenter. "They Live" e "Robocop", dois filmes que ilustram o frenesim da sci fi da década de 80, pouco pretensiosa e astuta como deve ser, tendo a violência e o humor corrosivo como brindes. São alguns dos exemplares que serão exibidos nesta terceira edição do Screenings Funchal Festival (do dia 5 a 27 de julho), que, de mãos dadas com o MOTELx, premiará a Madeira ao longo de um mês objetos de culto, ora extraídos da ficção científica dos anos 80, ora dos recentes trabalhos do género de terror com direito a holofote.

Pedro Pão, programador, foi novamente desafiado a apresentar-nos a iniciativa, os seus filmes, as suas representações e a possibilidade de futuras edições com arraial à mistura.

Segundo parece, foram 315 os filmes exibidos ao longo destes 7 anos que marcam a iniciativa Screenings Funchal, como se sente perante este número? Tem a sensação de legado? 

É um número jeitoso e que custa a acreditar porque arrancar com isto foi duro. Houve muitos entraves. Portas fechadas que deviam estar abertas e muita porta na cara. A insularidade por si só é tramada e aqui ainda temos algumas especificidades lynchianas que podem ser muito desgastantes e com as quais ou aprendemos a lidar ou desistimos. Eu ainda não aprendi, mas também ainda não desisti. Portanto, de certa forma, é difícil de acreditar, mas não creio que "legado" seja a palavra certa. A sensação que tenho é a de ter feito o melhor que podia (e sabia) com os meios disponíveis. E isso, o que finalmente começa a dar, é uma certa paz de espírito. E mais importante ainda é a sensação de que estas sessões são importantes para algumas pessoas. No final do dia, só isso importa, mas é um número muito bonito.

Este ano, o Screenings Funchal Festival terá como aliado o MOTELx, antes de partimos para a temática do evento, como aconteceu esta abordagem / parceria? 

A vontade de trazer o MOTELx ao Funchal começou na minha primeira visita ao festival em 2017. Aquele festival, com aquele público e ambiente, foi uma experiência que me marcou bastante e fiquei com muita vontade de trazer um pouco daquela magia ao Funchal. O cinema de terror por cá geralmente corre bem, mas acho que, apesar de estar melhor, há uma grande lacuna (até neste género) na diversidade das obras que estreiam aqui na ilha. A ideia andou a marinar desde então.

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Repo Man (Alex Cox, 1984)

Porquê ficção científica - terror, ou melhor, cinema de género? Como se seleccionou a programação?

Acho que a escolha deveu-se à riqueza e diversidade do cinema de género, das lacunas na oferta e é também uma tentativa de trazer público mais jovem ao Screenings. Tenho particular estima por este género e isso acaba também por influenciar as escolhas. Incluo com relativa frequência cinema de género na programação regular do Screenings Funchal. Recentemente exibimos o “Le règne animal”, “Les Cinq diables”, “Memoria” [Apichatpong Weerasethakul] entre outros e correram bem. Mas não foram bem sucedidos em atrair o público mais jovem que gosta e vai ao cinema ver este tipo de filme. Portanto, aproveitamos estas circunstâncias especiais, e preparamos uma “caixa” que lhes pudesse parecer apelativa (o terror e o sci-fi), para depois apresentar obras autorais o mais estilisticamente diversas possível. E tentou-se no processo, não alienar o público habitual.

Sobre a mostra de culto dos anos 80, continua a existir um diálogo destas alegorias / distopias com a nossa contemporaneidade? Estes filmes ainda funcionam perante um público moderno, e muitas vezes, mais sensível? 

Acredito que sim! Acho que nesta selecção o “They Live” é o melhor exemplo disso. O John Carpenter disse há uns anos numa entrevista que o filme não era ficção científica era um documentário. Basta pensar na pandemia para este filme parecer um documentário em vários e perturbadores níveis. Não sei o que poderá querer dizer que filmes futuristas distópicos feitos há quase 40 anos, estejam hoje a se aproximar do género documental. Mas espero que estes filmes também sirvam para pensarmos nisso.

E sobre a seleção infantil?

Toda a secção Lobo Mau do MOTELX é simplesmente incrível. Foi possível trazer ao Funchal o Sustos Curtos que eu acho particularmente mágico. Espero que haja curiosidade por parte dos pais, porque tenho a certeza que os miúdos vão adorar. Acho mesmo importante naquelas idades este tipo de experiências. É um investimento com retorno exponencial garantido.

Ambição para o futuro? O desejo de um ciclo de John Waters mantém-se?

Gostava muito de trazer o Paulo Carneiro e o Pedro Costa ao Funchal e tenho alguns ciclos em mente que gostaria muito de concretizar como por exemplo do Herzog… Mas como é que se escolhem só 4-5 filmes dele? O John Waters continua em cima da mesa. Festejar um aniversário com esse ciclo seria a festa de arromba que a Madeira merece. Adianto em primeira mão que quando isso se concretizar, a edição irá se chamar “Arraial Screenings Funchal”.

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Toda a programação poderá ser consultada aqui

Leonor Teles: "A direção de fotografia é o lugar que me faz mais feliz!"

Hugo Gomes, 12.04.24

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"Baan" (Leonor Teles, 2023)

Chegamos a L (Carolina Miragaia), uma jovem que caminha numa dimensão diluída, seja nas suas memórias embaralhadas por ordens indecifráveis do destino, seja no lugar, entre Lisboa e Bangkok, uma nova cidade e ao mesmo tempo cidade nenhuma. Qualquer um de nós, outros já passando em oposição aos que ainda vão passar, identifica-se com L, as suas crises, as suas dúvidas existenciais, a sua melancolia nunca dissipada em festas alheias. L é mais do que uma personagem, é um estado de alma, e esse estado tem um outro nome: Leonor Teles.

Percorremos "Baan" (da palavra tailandesa "Lar"), nessa imaginação, nessa mistura de águas salobras. É um filme de passagem, isso sim, de uma realizadora, e quiçá autora, que desde o brilharete em Berlim ("Balada dos Batráquios"), se afigurou na linha da frente um cinema com novos olhares e linguagens a serem enxertados em Portugal. Depois da sua estreia em Locarno e do circuito comercial nacional, "Baan" parte em busca do seu verdadeiro lar, que é conhecido por outra designação: a sala de cinema.

Aproveitando a sua chegada ao Funchal, por via do cineclube/iniciativa Screenings Funchal, o Cinematograficamente Falando... partilha uma breve conversa com a realizadora, questionando-nos sobre os caminhos que Leonor (a nossa L) irá trilhar. Mãos à obra!

Arranco com a mais 'chata' das questões: como começou este projeto? 

A ideia para o “Baan” surgiu desde 2017, quando viajei e filmei um videoclipe em Macau. Daí nasceu um desejo de filmar um filme em território asiático, que surge desta procura num lugar no Mundo após o fim abrupto de uma relação. Obviamente que esta busca do “depois de um fim” traz consigo todas estas questões de; “como voltar a confiar?”, “Como se sentir bem” e outros problemas de confiança. É toda uma série de consequências e igualmente de novos horizontes o qual apetecia explorar no preciso momento em que uma pessoa perde a sua casa, e neste caso refiro a uma “casa emocional”. 

Bangkok e Almirante Reis, diluídos no mesmo espaço e no mesmo tempo, a criação deste “não-lugar” serve de alguma maneira como alegoria à abstração sentida e vivida por L?

Sim, sem dúvida. Esta ideia de um “não-lugar”, ou de um espaço mental vai muito ao encontro do que a própria personagem está a sentir e do que está a viver, e como se situa no mundo. Nós, muitas vezes, quando estamos em estados extremos de desilusão, de tristeza ou de euforia, temos a tendência de viver dentro da nossa cabeça, deitar-se nas memórias ou projetar futuros, simplesmente viver. Acho que se vive as memórias, viver dentro deste lugar que habita na cabeça dela, é como se o cinema pudesse ser o estado mental das personagens. É através do cinema, desta junção ou não-junção, deste cá-lá e tudo o mesmo sítio, que nos representa o espaço interior da própria L. Claro que isso se reflete. Vê e vive o mundo à sua volta. Era importante que a linguagem do filme transmitisse esse espaço interior. Portanto, sim, seria como uma abstração vivida pela L

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Leonor Teles no Festival de Locarno 2023

Porquê a escolha de Carolina Miragaia? Existe nela um reflexo, diria, autobiográfico?

A escolha da Carolina prendeu-se muito com o rosto e com o corpo que iriam dar vida a L, é certo que também há um lado autobiográfico, e isso é assumido, mas prende-se ao facto de não conseguir falar das ‘coisas’ que estão longe de mim. Para mim também era importante ter um lado familiar e próximo enquanto estava a filmar para que soubesse para onde estava a dirigir o filme, e como levar esta personagem? Como conhecer esta personagem? Como torná-la numa pessoa de carne e de osso, digamos assim, para quem está a vê-la no ecrã? A Carolina tem uma fotogenia incrível e uma presença muito forte e enigmática que acaba por atravessar a câmara. São qualidades que se tem que procurar até encontrar a pessoa certa para o papel em questão e no caso deste filme, a L só poderia ser a Miragaia

A gentrificação das cidades tem sido uma das suas preocupações, seja na curta dos "Cães que ladram aos pássaros", seja no discurso feito na primeira edição dos Prémios Curtas, e agora em "Baan", cujo título não é o acaso. Da produção da longa até aos dias de hoje, como vê essa situação, principalmente a habitação jovem nas grandes cidade portuguesas?

Sim, acho que nos “Pássaros” a gentrificação e a crise da habitação eram o foco e o tema central do filme, em “Baan”, também estão presentes mas não centrais. Há aqui muitas questões que atravessam a personagem e o filme que reflete a vida na cidade quase Lisboa, no qual existem tantas situações que não se encontram resolvidas e que precisavam de uma solução o qual preocupam os jovens. Era importante que o filme abordasse essas questões, que afetam a cidade, e que os que enfrentam dificuldades.

É certo que a habitação é um desses tópicos e é importante, não só a habitação física como também a reflexão e o questionamento sobre um lugar em que nos sentimos bem. É a procura de uma habitação interior e emocional. Tudo reflete um pouco a realidade de que se vive atualmente em Lisboa, principalmente a dos jovens que estão a começar a trabalhar e a assumir responsabilidades numa cidade muito agressiva e desigual.

Tendo em conta o seu percurso, e de uma segunda longa que distanciamento diverge da primeira [“Terra Franca”], que realizadora a Leonor espera ser, e que nós espectadores contaremos? Como se vê daqui a uns tempos?

Não tenho resposta a essa pergunta, porque nem eu sei o que vou fazer a seguir, nem posso lidar com as expectativas que as pessoas queriam.

"Baan" (Leonor Teles, 2023)

Para além de "Baan", 2023 ficou marcado pelo seu trabalho de direção fotográfica no díptico de João Canijo (saliento ainda o trabalho anterior com Pedro Cabeleira no "Verão Danado" ou com Ágata de Pinho na curta “Azul”), esse tipo de experiências a aperfeiçoam enquanto realizadora? Que lições com estes filmes você transporta para os seus?

Em relação à direção de fotografia, continua como o lugar onde me sinto melhor - apesar das pessoas me conhecerem da realização. Na verdade aquilo que pretendo e prefiro fazer, e investir o meu tempo, é sobretudo nesse campo, porque é o lugar que me faz mais feliz! É onde aprendo muito, e com cada realizador que trabalho, seja mais ou menos experiente, a partilha de ideias e discussões acerca dos projetos que estamos a desenvolver, permite-me crescer muito, não só profissionalmente, como também pessoalmente. Isso também me garante que possa tratar essas experiências quando estou a realizar ou a fazer outras ‘coisas’.

Porque ao conhecer os outros, e aprendermos com quem trabalhamos é sempre uma experiência gratificante e faz com que a nossa perspetiva esteja sempre a aumentar e isso torna os nossos trabalhos futuros melhores. É uma aprendizagem em vários aspectos; de como trabalhar com os atores, lidar com os atores, com a equipa técnica, no plateau, ou seja, um trabalho coletivo em constante aprendizagem.

O Lugar da Mulher é na realização! Arranca o 2º Screenings Funchal Festival

Hugo Gomes, 01.06.23

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Iniciado em 2017, o Screenings Funchal é uma iniciativa cinematográfica madeirense que visa enriquecer esse panorama no Funchal. Até à data, foram mais de 200 filmes exibidos, oriundos de mais de 30 países, contando obras-primas, cultos, redescobertas ou êxitos improváveis, tudo em nome do cinema e a sua arte de partilhar e de ver o Mundo, sistematicamente em todos os fim-de-semanas. 

Contudo, o evento sucedâneo deu origem a um festival, uma mostra cinematográfica fora do âmbito convencional do que se predomina ser festival de cinema. Ciclos temáticos que não só vieram para fortalecer a proposta em si como também criar pontes imaginárias unificadoras da ilha com o cinema, seja lá qual for, longe dos catálogos mainstreams e supra-vendidos que preenchem multiplexes no continente. À chegada da segunda edição o Screenings Funchal Festival (do dia 2 a 24 de junho), seguimos numa pequena viagem pelo cinema assinado no feminino; de Vera Chytilová, a “mãe da Nova Vaga checoslováquia", a Kinuyo Tanaka, a sensação nipónica na distribuição portuguesa deste ano, com paragens em Kelly Reichardt, na consagrada e irreverente Chantal Akerman e a promissora Eliza Hittman. Mulheres, e além disso, cineastas a conhecer ou revisitar, gestos e olhares para além da delicadeza e da serenidade. 

Para conhecer melhor este festival, o Cinematograficamente Falando … conversou com Pedro Pão, programador, dando luzes à programação, aos propósitos, aos desafios e mais que tudo, ao Cinema [toda a programação poderá ser consultada aqui].

Visto que o Screenings Funchal é uma iniciativa que corresponde a sessões correntes em quase todos os fim-de-semanas, o que difere este intitulado Screenings Funchal Festival da periódico evento que os cinéfilos do Funchal estão habituados?

Na nossa actividade regular semanal, trabalhamos essencialmente com obras com distribuição portuguesa. O Festival Screenings Funchal além do número superior de filmes exibidos (8 em vez de 4), permite-nos construir uma programação com menos “restrições” e trabalhar com distribuidoras internacionais se houver necessidade disso e ter cá convidados que possam contribuir para o enriquecimento da experiência cinematográfica e de certa forma minimizar, mesmo que por breves momentos, a nossa condição ultraperiférica.

Este Screenings Funchal Festival posiciona-se na casa feminina, numa mostra que compreende cinco cineastas / realizadoras. Quais foram os critérios de seleção das oito obras e das suas protagonistas?

A primeira parte da seleção definida foi o ciclo. Dada a frequência pouco habitual do festival, um ciclo parece-me dar alguma coesão ao mesmo e minimizar de certa forma o espaçamento existente entre as sessões. Soube o ano passado que a The Stone & The Plot ia exibir em Portugal o ciclo da Kinuyo Tanaka e pareceu-me importantíssimo não só que as obras viessem ao Funchal mas que fossem o pilar central desta edição e que se usasse a promoção adicional à disposição para promover estas obras e chegar ao maior número de pessoas possível. Ajudou que o feedback do público tivesse sido muito positivo quando exibimos o ciclo Mestres Japoneses Desconhecidos I

Um dos critérios principais é exibir filmes que não tenham estreado no Funchal e nesta segunda parte da programação procurei que os filmes cumprissem isso e que comunicassem de certa forma entre si e com o ciclo. Acho que em todos os filmes há um olhar feminino sobre questões que me parecem extremamente pertinentes e que apresentam uma abordagem única (sem falar na óbvia qualidade artística das obras) pelas suas autoras. Apesar das limitações da programação, procurei tematicamente ter diversidade e universalidade nas lutas das protagonistas, achando importante que essas lutas não se restringissem a uma época específica. Procurei algum distanciamento temporal entre elas. Começamos na década de 60 com “Daises” e acabamos em 2020 com “Never Rarely Sometimes Always”. 

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Daisies (Vera Chytilová, 1966)

Uma das coisas que gostaria de conseguir transmitir é a sensação que há muito trabalho a fazer. Noutro formato teria sido possível pensar as coisas de outra forma, mas neste e em torno destas obras da Kinuyo Tanaka pareceu-me fazer sentido assim. Vamos ver como corre e qual será o feedback do público.

O festival apresentará 4 obras de Kinuyo Tanaka, e receberá o investigador Miguel Patrício [para apresentar a palestra intitulada “Quem és tu, Kinuyo Tanaka?”], que foi um dos responsáveis por trazer o integral da cineasta nipónica ao circuito comercial nacional. Gostaria que me falasse destes gestos que vão além da distribuição convencional, e enquanto coordenador de um festival, os desafios que estes filmes (e outros) possuem para vingar nas telas além do ambiente de festival de cinema?

Só posso (tentar) responder a esta questão refletindo sobre a situação particular da região. Não me sinto habilitado a tentar responder acerca desses desafios em Portugal Continental apesar de ter uma ideia de como as coisas correm por aí. Não temos festivais a “roubar” público às salas porque a realidade local é outra. Quando os festivais que já existiram no Funchal tinham antestreias, os filmes regra geral não estreavam cá depois.

Simplesmente não havia espaço para cinema, excepto animação e blockbusters. Durante algum tempo, por exemplo o Madeira Film Festival que decorria uma semana por ano, era a única hipótese de quem queria ver este cinema poder fazê-lo. Um dos desafios principais é fazer com que as instituições locais repensem a forma como pensam o cinema. Aqui parece-me que primeiro se pensa no impacto económico, depois no turístico, depois ainda virá certamente o educativo e o social (a arte pela arte parece-me ser um conceito alienígena por estas bandas) antes de se pensar no impacto cultural. Creio ser essencial que certas instituições (que têm poder/dever para apoiar, dinamizar e divulgar) comecem a ver o cinema como um acto de cultura e isso infelizmente não me parece que seja o caso.

Mas ainda assim no que diz respeito a desafios, acho que temos é de olhar ao espelho. Continuo a achar que o grande problema é a falta de curiosidade do público. Acho que há um grupo pequeno de pessoas a trabalhar muito para distribuir filmes fora dessa distribuição convencional, tal como há um grupo pequeno de críticos a trabalhar muito, a escrever e a fomentar discussões muito importantes sobre estas obras e que do outro lado há uma enorme massa de pessoas que só quer ver aquilo que conhecem e aquilo que já viram e que não parecem minimamente cientes das discussões que este cinema tem para oferecer.

A importância de eventos cinematográficos deste género fora, além das metrópoles, do Portugal continental?

A insularidade é uma coisa tramada, e não duvido que seja equivalente ao que ocorre fora das grandes cidades no resto do país. Um madeirense ir a um festival de cinema tem custos astronómicos. É um luxo. E por vezes não tem hipótese de ver os filmes de outra forma. E acho que não devia ser assim. O streaming devia ser um último recurso, ou um complemento, e nunca a única solução possível. Acho importantíssimo e perfeitamente exequível que houvesse articulação entre entidades locais e alguns desses festivais de forma a que se tornasse mais fácil para os madeirenses (e todos aqueles de certa forma isolados geograficamente) de acederem a esses eventos, por exemplo através de extensões. E tenho a certeza que haveria público, se as coisas fossem feitas com discernimento, em locais onde estivessem garantidos conforto e qualidade de projecção e onde se colocasse em primeiro lugar o impacto cultural das iniciativas e não deixando o imperativo económico dominar. Acho que esse investimento teria repercussões brutais a todos os níveis.

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The Eternal Breasts / Para Sempre Mulher (1955)

Ambições para o futuro? Quais outros signos a explorar em eventuais novas edições do Screening Funchal Festival?

Conseguir mais apoios do que temos seria muito benéfico e iria permitir eventos com outros formatos (cineconcertos por exemplo) e trazer mais realizadores e outros convidados que pudessem enriquecer de alguma forma a oferta existente, porque esse contacto faz-nos falta e acho que é importante. Não sei, no entanto, se poderia classificar esse desejo de uma ambição para o futuro. É que já lá vão 6 anos e o reconhecimento ao que tem sido feito nestes anos geralmente vem de fora. Temas a explorar? Anteriormente referi a falta de curiosidade e como reação a isso, estou constantemente à procura de algo que provoque uma reação (boa ou má) nas pessoas. 

Gostava de num futuro próximo me focar no género de terror, que me parece ter muito má reputação em Portugal (incluindo na própria crítica), e mostrar que é um género com uma grande variedade e riqueza cinematográfica, como todos os anos o festival MOTELx bem nos mostra. Para o ano, havendo uma 3º edição do festival gostaria imenso de dedicar um ciclo ao John Waters. Estou convencido que o “Pink Flamingos”, em exibição articulada com as escolas secundárias, universidade e decisores políticos pode ser a chave para despoletar não só uma renovação de público em massa aqui no Funchal como para nos desbloquear novas formas de apoio financeiro.