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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Se isto é comédia ...

Hugo Gomes, 24.08.17

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As comédias norte-americanas continuam as mesmas, persistindo em characters type de alguns atores, muitos deles reduzidos a caricaturas, ou a resistências do datados estereótipos, quer geográficos, raciais ou de género.

“The Hitman’s Bodyguard”, possivelmente uma das bem sucedidas deste verão, é a rotina deste catálogo que acompanha gerações, gerações e gerações de espectadores. A esta altura o leitor questiona se o filme em si é merecedor desta revolta, ou se apresenta uma qualidade vergonhosamente descarada. Podemos afirmar que não se trata do pior do ano, nem a “coisa” mais ofensiva dos últimos anos, mas não há motivos para descanso, trata-se de um retrocesso considerar isto entretenimento.

Se a nova direção de Patrick Hughes (“The Expendables 3”) funciona quando Samuel L. Jackson e Ryan Reynolds são deixados à sua mercê ao velho estilo buddy movie, o resto … bem, o resto, é uma coletânea de lugares comuns e de miopia por parte dos envolvidos. Vamos por partes: Gary Oldman é o vilão (who else?), fingindo ser um russo… peço desculpa … bielorrusso, porque antagonismo tem origem no leste, segundo a crença yankee; O português Joaquim De Almeida vem sabe-se lá donde e o espectador conhece automaticamente a sua vilania, devido a esse character type e Salma Hayek é a louca mexicana.

Umas piadas previsíveis ali com júbilos geográficos e fart jokes à mistura, a violência R que parece ter virado moda com “Deadpool” (tudo se resume a tendências), umas questionáveis lições de justiça e maniqueísmo (até Tarantino consegue ser mais ambíguo) e Samuel L. Jackson a demonstrar que continua o melhor a vestir a pele de Samuel L. Jackson.

Isto é comédia para alguns, entretenimento para outros, mas no fundo é a mesma jogada de sempre. Hollywood parece não ter aprendido nada ao fim destes anos todos, nem com as mudanças que testemunha.

Febre bélicas, matas remotas e gorilas titânicos

Hugo Gomes, 14.03.17

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Um gorila colossal no topo do Empire State Building, afastando violentamente os caças que desesperadamente o tentam  abater, defendendo-se igualmente e protegendo a sua não correspondida amada. Será que existe imagem tão universalmente identificável no Cinema como o clímax de “King Kong”? Obviamente que não, e não estamos aqui para enganar ninguém. “Kong: Skull Island” não está aqui para tirar o lugar ao filme de 1933, mas surge como uma variação comercialmente fiável para um futuro universo partilhado. Pois, não é spoiler. Já se sabe que este símio do tamanho de um arranha-céus vai enfrentar Godzilla numa futura produção.

Mas já que temos que “gramar” com um revisitar a tão icónica figura da sétima arte, porque não aceitar o que de bom tem esta aventura tecnológica? São vários pontos, aliás, a começar pelos momentos em que o realizador Jordan Vogt-Roberts (do filme indie “King of Summer") tenta contrariar a linguagem visual básica das grandes produções. Cenas como a da libelinha a mimetizar uns helicópteros saídos do ataque-napalm de “Apocalypse Now”, fazem-nos de certa forma salivar por mais desses mimos. E o que dizer da troca de olhares entre Samuel L. Jackson e a nossa besta? Mas estes “5 minutos de paraíso” que Vogt-Roberts parece usufruir de vez em quando têm um senão. Tal como uma troca de cromos, há que apostar no já batido … e até invocar um certo estilo à lá Zack Snyder para corresponder aos requisitos estéticos das novas audiências.

Segundo ponto, a conservação do clássico filme de aventuras. “Kong: Skull Island”, dentro da sua agenda da Hollywood tecnológica, emana um espírito “aventureiro” algo perdido no nosso cinema. Será que tal sensação parece apenas reavivada nas incursões de “King Kong” (já a subvalorizada versão de 2005 respeitava o subgénero)?

Terceiro ponto, e talvez o mais desafiante desta produção: a febre da Guerra explicitada na rivalidade acidentalmente criada por Samuel L. Jackson, em modo “Hurt Locker“, e o nosso Kong. A fúria dos olhares, quer reais (do ator), quer artificiais (a do símio digital), e a procura de um inimigo como fermento para uma sociedade à beira da ebulição conflitual – “Nós encontramos os inimigos quando os procuramos“. Tudo servido, com certa leveza (ou seja, contado para miúdos), como catarse para a memória bélica do nosso século XX.

O resto é o costume do atual panorama industrial: personagens básicas e construídas consoante as necessidades do guião (mesmo com um John C. Reilly em boa forma) e não o oposto; o clímax a dever demasiado aos efeitos visuais e ao espalhafato dos mesmos; e a impressão de assistir a uma reciclagem do guião de “Godzilla” (2014). Fatores estes que constroem a rotina do espetáculo cinematográfico à lá IMAX.

Ainda assim, é certo que existe muito mais em Kong do que a mera artificialidade. Sim, muito melhor que o esperado, mas não a Oitava Maravilha do Mundo.

A Western Fiction

Hugo Gomes, 02.02.16

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Facilmente pode-se supor "The Hateful Eight" como uma [espécie] de sequela não oficial de "Django Unchained" (2012), mas este cold western está mais próximo da primeira longa-metragem de Tarantino - "Reservoir Dogs" - do que propriamente da vingança esclavagista sob toques de Sergio Leone (apesar de ser outro Sergio na mente do realizador, mas já lá vamos ...). Todo o conceito de filme de cerco é novamente praticado através de um registo de oito personagens, todos eles odiosos, de difícil empatia para com o espectador, que confrontam os seus destino, acidentalmente ou não, cruzados.

Uma teia de ilusões, desenganos e duplicidades, desvendada após o arranque dos primeiros acordes de Ennio Morricone, o seu primeiro western composto num hiato de 40 anos, tendo como resultado um novamente "tarantinesco" da pior espécie (alusivo à forma detestável que as personagens emanam), um recheado de referências e marcos cinematográficos que se compõem numa inteira pauta musical e que tocam expelindo uma só sinfonia. Essa sintonia é sangrenta, é certo, mas é com uma oitava obra que Tarantino incute o possível filme mais político da sua carreira (cada personagem corresponde a um ideal político e partidário). Ouve-se falar de um statement autoral ao estado político-social dos EUA após o fim da Guerra Civil, uma nação que se reconstrói mas cujas cicatrizes ainda estão longe de serem saradas. Neste aspeto é possível encarar a ligação com o referido Django Unchained, o western que ao contrário deste "The Hateful Eight" decorre antes da dito conflito interno “estadunidense”.

O curioso é que Tarantino não acode por ninguém, todos os seus "peões" merecem obviamente a morte, e das mais violentas possíveis, e visto estarmos a falar de um realizador diversas vezes acusado de glorificar a violência, esse destino trágico em cada uma destas figuras é digna de nota, aliás, indiciados por um imprevisível reacionarismo. Voltando ao ponto anterior, mais acusações surgirão, até porque o nosso cineasta é um severo juiz, um pouco como Minos da Divina Comédia de Dante, não reconhecendo partidos, ideais, raças nem sexo, tudo é julgado sobre os mesmos parâmetros e igualdades.

As acusações a serem suscitadas são as mais óbvias - misoginia - em consequência de um mundo politicamente correto e demasiado sensível criado pela globalização ardente das redes sociais. Mas até essa suposta misoginia é merecida, até porque Jennifer Jason Leigh desempenha uma personagem tão ou mais odiável que tudo o resto, funcionando também como um importante macguffin enviesado num eventual whoddunit (quase como um conto de Agatha Christie) que fermenta aos poucos nesta intriga, que o próprio cita, carpenteriana.

Tarantino já havia referido que "The Thing" estava na lista das mais evidentes influências, mas por sua vez é Sam Peckinpah (muita da inicial fonte inspiradora de Carpenter) que serve de carimbo no cenário, a tinta, essa é de Sergio Corbucci ("Il grande silenzio" é claramente uma inspiração igualmente conceptual como estética). Mas nem tudo é deixado por acaso, Kurt Russel no elenco é a prova viva dessas mesmas requisitadas referências, o ator vive situações paralelas daquelas que viveu há 33 anos com o magnifico filme de John Carpenter, um easter egg que o próprio Tarantino proporcionou.

Mas o grande "presente" de The Hateful Eight encontra-se na perceção e na construção dos diálogos, monólogos, e tudo o resto, ou seja o nosso cineasta demonstra mais uma vez que é um exímio guionista e sob esses propósitos somos confrontos com outra sua faceta, o de diretor de atores, e que bem é em assumir tal papel. O resultado disso é mais que visível, um dos melhores desempenhos de Samuel L. Jackson dos últimos anos, visto ser um ator cada vez mais em uso e em plena direção de um claro esgotamento de imagem, e uma imperdível Jennifer Jason Leigh, a ser recuperada por vias de um "Tarantino style", parece que em conjunto com "Anomalisa", este 2015 foi um ano de ressurreição para uma atriz esquecida na própria indústria que a acolheu.

Novamente, Quentin Tarantino demonstra razões suficientes pelo qual é declarado um dos mais talentosos do seu ramo a operar atualmente. O resultado é uma pintura barroca pincelada ao seu próprio jeito e melhor … mesmo sob lúdicos momentos assumidamente tarantinescos (aquele fascínio quase visceral e pueril pelo Cinema) … "The Hateful Eight" é até à data o seu trabalho mais maduro. Um autêntico tour de force!

"Bringing desperate men in alive, is a good way to get yourself dead."