Se a vida dá-te imagens, constrói um filme

Depois de “Cordão Verde” e o “Sabor a Leite Creme”, a dupla Hiroatsu Suzuki e Rossana Torres iniciam nova atividade nas proximidades do rio Guadiana, em pleno Alentejo, através de um exercício de montagem que valoriza o enfoque da narrativa visual. Eis um ensaio contemplativo, onde a simplicidade leva-nos ao efeito moldura, um objeto paisagista que se insere num ciclo natural.
“Terra” é isso mesmo, um filme-calendário onde dois fornos de carvão vão alterando o relevo na cadência de um ano. O documentário é composto unicamente pelo uso de uma edição selectiva e sobretudo minimalista, ao ponto de condensar tudo numa duração de 60 minutos. Para sermos sinceros, não existe muito para dizer, este vencedor da Competição Nacional do Doclisboa 2018 é exclusivamente aquilo que nos promete e qualquer esboço metafórico em relação a essas imagens é de pura pretensão umbiguista. E se o trabalho de “Terra” é no campo visual e na sonoridade que nos transporta efetivamente ao momento vivido, é também verdade que todo este esforço empregue atribui-lhe uma sensação de preguiça, quer a nível de corpus de estudo, quer na concepção de uma metragem que supere os lugares-comuns do puro documentário português que parece ter encontrado em muitas das programações de festivais uma doutrina do menor esforço.
O que salva “Terra” de não ser o próximo “Campo de Flamingos sem Flamingos”, por exemplo, é o facto de ser perfeitamente percetível. Porém, esperávamos mais do que uma linha de costura imagética.