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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

A meio-caminho ...

Hugo Gomes, 06.11.19

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Será que vale a pena matutar o porquê de Hollywood continuar a persistir em obras do calibre de “Midway”? O presunçoso documentário-propagandista bélico vencido pelo CGI que descarta qualquer veia humana e emocional e sobretudo tom crítico ao cenário geopolítico evidenciado? Claro que não. Esse tipo de reflexões não faz sentido numa indústria que anseia captar a nostalgia (seja a nível material, seja a nível formal) e a mensagem definida por razões comerciais.

O resultado é mesmo este, “Midway”, que deveria restaurar a fé no "ex senhor blockbuster" Roland Emmerich (“Day of Independence”, “2012”), mas é pólvora que não arde, apenas intensifica as velhas manias de um cinema que não tem importância para as novas audiências, muito menos para as mais experientes. Isso é tão evidente que Pearl Harbor, o grande fracasso militar dos EUA de 7 de dezembro de 1941, é apenas descrito neste cinema como uma via direta para uma retaliação, uma espécie de mensagem motivacional para o ego de um país que então se mantinha neutro perante as atrocidades da Segunda Guerra Mundial na Europa e Ásia.

"Midway” repesca a homónima batalha do Pacífico que, após esse fatídico ataque à Marinha no Havaí, ditou a alteração do rumo do conflito entre os norte-americanos e os japoneses que todos sabemos como acabou. É o pretexto para expor patriotismo cego, coletânea de condecorações e pirotecnia salta-pocinhas sem desenvolvimento alguns das suas personagens… perdão, figuras pedagógicas e estereotipadas (com cabeças de cartaz para justificar um informativo "power point" final). No fim de contas, perante este retalhista narrativo (até Dennis Quaid pede licença para se coçar e sai de cena), a equívoca moral desta "história" é que a Segunda Guerra Mundial foi vencida por “cowboys”, homens de coragem e patriotismo mas sem equipamento de topo, movidos por atos inconsequentes e igualmente emotivos.

Vazio por vazio, "Midway" consegue pelo menos a proeza de nos fazer chegar a sentir uma ligeira saudade do trio amoroso de “Pearl Harbor” de Michael Bay formado por Ben Affleck, Josh Hartnett e Kate Beckinsale. Porque até nele existia um certo fascínio militar e um “esforço” (mesmo em vão) de ficcionar uma história. Aqui, Roland Emmerich apenas ensaia um embrião de videojogo bélico, involuntariamente ridículo e preso às convenções dos “factos reais”.

Novamente à "batatada" pelo Planeta

Hugo Gomes, 23.06.16

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Passemos então para a desforra! Foi um dos maiores êxitos dos anos 90 e uma sequela disto já soava uma miragem, mas é então que surge entre nós aquele que poderá ser o grande regresso de Roland Emmerich aos blockbusters de Verão, isto depois de ter falhado com abordagens mais pessoais em “Stonewall” e “Anonymous”, e no ataque à Casa Branca com Channing Tatum (o público preferiu o muy bronco “Olympus has Fallen”). Estamos obviamente a falar de “Independence Day" (“O Dia da Independência”), título inesperadamente patriótico para a obra de um realizador alemão, mas como os yankees tem por hábito pronunciar – “cheesy” – o suficiente para entreter nas horas vagas. 

Contudo, o trabalho do crítico não é o de aconselhar quais filmes a ver ou a não ver, nem sequer avaliá-los consoante o grau de entretenimento, nesse sentido a palavra divertido é relativo, mas sim lançar o debate e idealizar o filme em questão. Sob esse signo poderemos dizer que o segundo “Dia da Independência” é uma “trapalhice” pegada, que mesmo assim conserva o de lúdico e ingénuo tem este tipo de blockbusters (longe dos tempos da seriedade hoje envolvida nas produções “kind of likeChristopher Nolan). Agora insinuar que é um bom filme desde que se “desligue o cérebro”, é nada mais que uma desculpa esfarrapada de quase querer “vender a mãe”, mas isso são outras guerras, passemos então à guerra transposta pelo filme.

Como sabem, 20 anos se passaram desde a destruidora “visita” dos alienígena na Terra (sim, a sequência da Casa Branca reduzida a cinzas pode muito bem considerado um déjà vu), sendo que o Mundo é agora um espaço simbiótico, onde todos os povos dos quatros cantos do Globo vivem numa total utopia harmónica (ora quanta inocência!). A tecnologia deu um valente “pulo”, como tal, foram concebido postos de vigia intergalácticos (vá os extraterrestres “visitar” novamente o planeta), armas laser (inspiradas no armamento alienígena) e Jeff Goldblum novamente como o cientista que ninguém quer acreditar mas que deveriam apesar de tudo. 

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E pronto, dá-se o segundo round desta invasão que já persegue o Cinema quando este dava os primeiros passos, as criaturas “from outer space” chegam à Terra com promessas de destruição elevado a dez e Roland Emmerich ostenta novamente os seus apetites apocalípticos, e para sermos sinceros, não existe pessoa indicada para destruir a Terra que ele. Contudo, todo este espetáculo é deveras corriqueiro, previsível e extremamente anorético no que requer a construir personagens, conflitos e relações, aliás o primeiro ponto é dividido entre “retornados” e estereótipos, nada mais que isso. É tudo um jogo de referências, réplicas e “brincadeiras” de CGI sob uma conduta implacável de apresentar muito em tão pouco. 

Mas o pior é mesmo a saturação dos efeitos visuais, neste momento a destruição tecnológica apresentada em “Independence Day: Resurgence” leva-nos a temer o pior – como espetador, este tipo de truques são cada vez mais difíceis de surpreender – um mau sinal tendo em conta que as primeiras imagem de uma nave alienígena a reduzir a Casa Branca a “cacos” em 1996 causou uma tamanha euforia no público. A culpa, talvez, não seja da produção de Emmerich, mas do facilitismo (e o lufa-lufa) como também da preguiça em reduzir-se todo a meras imagens CGI que as produções deste género têm cedido. Agora como anexo a este problema exaustivo, basta verificar a quantidade de produções que apresentam imagens de destruição de qualquer tipo de cenário (não andará uma pessoa farta!). 

Eis o enésimo atentado à Terra por Emmerich, que apenas ganha com a sua valente ironia autorreferencial (por pouco não destruiu novamente a tão famosa habitação presidencial), e o facto de ser um blockbuster que tem a perfeita noção daquilo que é, e não mais um “bigger than life” que a Marvel e companhia parece submeter-mos. Para terminar fica a frase do ano, proclamada pelo nosso velho Goldblum, que refere aos ditos E.Ts: “Eles adoram monumentos”.

Gojira desfila em Hollywood!

Hugo Gomes, 24.05.14

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He's not some monster trying to evade you. He's just an animal. If you find what he wants, then he'll come to you.

A tentativa de "americanizar" o nipónico Gojira, internacionalmente intitulado Godzilla, já vem de muito detrás, precisamente na década de 80, com o realizador Steve Miner ("Lake Placid", "Friday the 13th Part II") anexado a um projeto com permissão dos estúdios Toho [os detentores dos direitos da franquia]. Todavia, a ideia perdeu força e os ditos direitos do popular kaiju "morreram" em 1983 (paz à sua alma!), até serem reavivados em meados dos anos 90, com Roland Emmerich saído do êxito mundial de "Independence Day". Apontado como o homem ideal para tal imigração, reza a história que só desejava produzir um filme sobre asteroides e toda a destruição que isso lhe acarreta, só que a tentação da potencialidade comercial de um objeto com nome definido nos mercados cinematográficos internacionais o levou a isto …

Após a luz verde da Toho, Emmerich, em conjunto com Dean Devlin  [argumentista], e Patrick Tatopoulos [coordenador de efeitos visuais], auferem um novo visual à criatura. Como a sequela de "Jurassic Park" - "The Lost World" - de Steven Spielberg, batia recordes de bilheteira, o novo Godzilla capitalizou a “febre cretácea” e assumiu contornos pré-históricos. Deve-se sublinhar que a Toho não aprovou totalmente o "desenho", o que não impediu de atribuírem carta branca aos estúdios Sony para seguirem avante a sua própria versão, neste caso, poderíamos ser piegas ao ponto de insinuar que, sem a devida bênção, o "Godzilla" de Emmerich automaticamente teve tudo para falhar (e falhou como se bem eternizou), mas o que está em causa não é a fidelidade à matéria-prima, e sim a própria visão de espectáculo hollywoodiano que o realizador contrai neste distorcido "mal-entendido", uma incursão pueril e inócua de uma metáfora fílmica e nacionalista.

Há mais aspirações do que inspirações aqui. "Godzilla" funciona como um filme regido pelos códigos do blockbuster integral, minado de lugares-comuns e estereótipos generalizados de uma Hollywood ainda antes do incidente ocorrido em 11 de Setembro, por isso, não esperem nada de abrangente às fragilidades da segurança dos EUA. Contudo, "Godzilla" foge das influências "trash" e da, muita, série B herdado pela matéria-prima (de uma forma ou de outra também de "Independence Day") e auto-promove-se na seriedade do seu enredo, pausando pelo humor corriqueiro. Tudo aqui exposto é mais do mesmo no que se refere ao suco concentrado hollywoodesco, e em consequência disso e talvez usufruindo da expressão popular - Emmerich compôs um filme “que se vê e esquece no momento seguinte”. Um gigante desajeitado não só em termos físicos, como também narrativos, ofuscando personagens e as suas tramas que a produção teima (ou sugere) em desenvolver, mesmo face à anorexia da sua exploração.

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Por fim, uma reviravolta triste e fermentada no "déjà vu" (como já havia dito, este "Godzilla" tenta ser mais dinossauro spielberguiano do que monstro da Toho), que para todos os efeitos arrasta o óbvio em sofrimento na previsibilidade. Nada surpreende aqui: são efeitos visuais e sonoros (apostado na altura como uma gigantesco passo em frente, hoje obsoleto e poeirento) ao serviço de uma produção munida por um elenco chamativo, que por sua vez é movido por boa vontade... e pelo cheque (Matthew Broderick, Hank Azaria e Jean Reno em modo Jean Reno). Um filme "maldito" cujas sequelas foram avassaladoras para o próprio realizador - o projeto dos seus sonhos gerou nesse mesmo ano dois filmes, ambos grandes sucessos ("Deep Impact" e "Armageddon") e adivinhem? Nenhum deles teve mão de Emmerich.

Porém, o filme de Emmerich guarda um pormenor deveras curioso: a referência satírica aos críticos Roger Ebert, retratado como o mayor de Nova Iorque (Michael Lerner) e a sua campanha "thumbs up", e Gene Siskel, como fruto do rancor de Emmerich às críticas negativas dadas aos seus filmes anteriores. Por fim, como "happy ending" a esta versão americanizada e "formatada", os estúdios Toho assumiram-na como um filme à parte da mitologia "Godzilla" e até retiraram-lhe o "God" do nome, ficando apenas "Zilla", sendo que mais tarde tal modelo serviu como um dos muitos inimigos do "monstro" original em "Godzilla: Final Wars" de Ryûhei Kitamura (2004). Marginalizado para a vida!