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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Eduardo Serra (1943 - 2025): pintando telas em tom de pérola

Hugo Gomes, 22.08.25

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Girl with a Pearl Earring (Peter Webber, 2003)

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O Delfim (Fernando Lopes, 2002)

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Unbreakable (M. Night Shyamalan, 2000)

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A Promise (Patrice Leconte, 2013)

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A Mulher do Próximo (José Fonseca e Costa, 1988)

Fados (Carlos Saura, 2007)

 

Um dos nossos nomes mais internacionais deixou-nos, após uma homenageada “Carta Branca” e ciclo na Cinemateca. O fantasma da sua ausência fazia-se sentir nos corredores e nas salas de projeção, até que alguém disse: “Está doente, é uma pena… era muito talentoso.” O derradeiro chegou e, com ele, a força das manchetes. O que dirão perante obra afiada e olhar aguçado? Valorizarão apenas o facto de ter ido para Hollywood e de ter assinado um dos “Harry Potter”? Já esse ciclo continha uma mensagem clara: há sempre mais por onde olhar no cinema de Eduardo Serra. A sua internacionalização não deve ser desmedida para os puristas; a sua sensibilidade fotogénica enche telas … e se as enche!

O pecado mora ao lado ... ou simplesmente, um adeus a Rogério Samora!

Hugo Gomes, 15.12.21

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Duas silhuetas banhadas pelo lusco-fusco - Rogério Samora e Carla Chambel - nos meandros de um estendido jogo de sedução e um constante “flirt”, interrompem o silêncio com uma questão … ou diríamos melhor, uma adivinha: “Quantos são os pecados mortais?Rogério Samora responde à sua parceira errante somente com os dedos, fazendo a numeração de sete, e o qual é respondido automaticamente pela questionadora com um mordiscar num desses dedos esticados. Samora, confuso, lança-se noutra e encadeada pergunta: “Quantos são?”. “São 8”, acrescenta Chambel. “Qual é o oitavo?”. 

És tu, a dizer o meu nome”.

Esta particular sequência de “98 Octanas”, uma das muitas colaborações do ator com o realizador Fernando Lopes, tornou-se na imediata imagem surgida na minha mente após a notícia da sua morte. Nela encontro as especialidades pelo que tornaram Samora num dos mais respeitados da sua área, a voz ora sedosa, ora abrutalhada, capaz de ofuscar algazarras e o seu interminável carisma que em conjunto com personagens dúbias e vilipendiadas (talvez um leque predileto na sua carreira) colocavam o espectador em cheque quanto aos seus dotes empáticos. Rogério Samora não foi apenas um ator de televisão nem o vilão Scar do “Rei Leão” na elogiada versão dobrada, foi um personagem completo, sagaz e munido de experiência com alguns dos melhores mestres do cinema português. Mas poderíamos ficar somente com a sua estadia no universo de Lopes, só por aí tínhamos os mais iluminados palcos que alguma vez pisou.

 

Rogério Samora (1959 - 2021)

A Panóplia Cinematográfica do Verdadeiro Sabichão português

Hugo Gomes, 22.01.20

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“Nunca comas cornetos no café do Aires, ele desliga a arca durante a noite e a bolacha fica mole“

Bruno Aleixo atravessou fronteiras e plataformas e é hoje defendido por um “exército” de ávidos seguidores. “O Filme do Bruno Aleixo” é encarado como o próximo passo nessa tremenda “salta-pocinhas” de territórios criada por João Moreira e Pedro Santo em 2008 mas, ao contrário do expectável, o humor chico-esperto "aportuguesado" opera como um olhar satírico à nossa indústria do audiovisual, o oposto do que se poderia esperar e do que se viu nas conversões de outras marcas da cultura popular-nacional como "Morangos com Açúcar", "O Filme da Treta" ou "Sete Pecados Rurais".

Um pouco como se vê no filme, a dupla Moreira e Santo foi abordada pela produtora O Som e Fúria, a casa de muito do cinema dito autoral português (como Miguel Gomes, Salomé Lamas e João Nicolau) para fazer uma longa-metragem ao seu livre critério. Aos autores foram somente propostos os meios e as ideias foram debatidas por vias de um “brainstorming de meia hora” (citando João Moreira): o (não) conflito do filme que estende o sketch aos seus limites estéticos e narrativos é, nada mais nada menos, do que um uso da não-criatividade em prol da criatividade (convém afirmar que, nesse pequeno detalhe, o universo caricaturesco e desleixado de Aleixo assume-se como um filme “baseado em factos verídicos").

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Aqui, o espectador vai ver Bruno Aleixo à procura de ideias para o seu filme, que encena deliberadamente diferentes géneros, que vão desde o manhoso "thriller" até à "sitcom" de um só cenário, passando pelo policial com tiques de "Sam Peckinpah" embriagado, que remetem para exemplos que todos podemos reconhecer. A grande questão de “O Filme do Bruno Aleixo” é se o nicho a que se destina o vai limitar e se consegue ser transmissível para fora de Portugal. Não se pode pedir tudo, mas é verdade que a sátira destes "episódios em géneros" se perde na tradução e, com isso, os seus atores e as respetivas conotações sociais, sejam eles Adriano Luz ou Rogério Samora, ou o recurso a Fernando Alvim (com muito abuso de imagem) ou o "zeitgeist" do cinema português de Manuel Mozos.

Fora isso, este é um dedo médio esticado às fórmulas estabelecidas do dito cinema autoral português … sim, porque queira-se ou não, “O Filme do Bruno Aleixo” é a palavra autoral no poder.