Um bom ano para todos e ... conforme seja as vossas escolhas, bons filmes.

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...
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'Til death do us part! Well, you girls are dead. And I'm parting."
Bruce Willis, "Death Become Her" (Robert Zemeckis, 1992)
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Robert Zemeckis nunca desiste em colocar a tecnologia e os seus experimentos ao serviço da narrativa, mesmo que tais façanhas lhe tragam um dissabor financeiro, mesmo assim o sistema ainda se aposta nele nesta corrida entre estúdios e o alcance das bilheteiras. Comecemos então com o seu novo projeto - “Here” - com base na excepcional graphic novel do artista Richard McGuire (editado em Portugal pela Cavalo de Ferro), obra que posiciona-se num só espaço, um canto que atravessa a pré-história até a uma América ante-colonizada, virando uma sala de estar, a “living room” que o inglês tão bem se adequa.
A narrativa parece estagnar nesses saltos formidáveis entre tempos e prossegue na história de uma família, indicando três gerações, e como já devem ter entendido se mantém rígidos na sua assoalhada. Zemeckis acaba por adaptar fielmente esse estilo dos “quadradinhos”, concretizando um plano fixo prolongado no qual a decora por via de uma estética de conversão e transposição tecnológica, há um artifício notável e notado que desliza ocasionalmente para o seu quê de artificial. Dessa feita são os dinossauros e a sua iminente extinção a abrir o pano do espectáculo, seguindo pelos nativos norte-americanos numa espécie de romance intemporal, dando a vez a uma Guerra Civil para dar um aroma específico de tragédia familiar e o final do século XIX com a aviação enquanto sinal de progresso.
“O futuro é o único caminho a seguir”, declara o aspirante a aviador perante a sua esposa desconsolada com a moradia que irão adquirir em conjunto, o filme, por outro lado passeia por esse futuro, contornando, recuando, e incentivando, diminuindo a cadência temporal nas proximidades da nossa contemporaneidade. A narrativa estilhaçada, com pontas geracionais a dialogar com o próximo, indicam a criatividade visual de Zemeckis em apresentar o seu storytelling consoante as regras estabelecidas do tal “plano fixo”, funcionando num teatro de exercícios e virtuosismos. Depois, Zemeckis não deixaria de ser Zemeckis se não existisse esse “bicho carpinteiro” com a tecnologia e as suas possibilidades, Tom Hanks e Robin Wright, o “casal maravilha” de “Forrest Gump” (1994), são as cobaias desse de-aging e aging, da adolescência à velhice, ao serviço de uma fidelidade com os maneirismos e a carne, mesmo que ela nos apresenta em jeito de ”bonecos de cera”.

É o problema destas tecnologias, e o IA prestes a integrar o cardápio dos técnicos, o de nunca transmitir uma verdadeira textura, carnalidade e dimensão, a quem chame facilitismo, neste caso é pura carolice. Porém, não cede ao espalhafato digital porque Zemeckis é um artesão dramático de uma já considerada “velha guarda” em Hollywood, conseguido captar em cada quadro uma carga emocional, como também uma tese submersa ao longo deste joint - somos nada neste universo, indo contra a própria regência da produção. Momentos zeitgeist ali e acolá: George Floyd e o COVID a serem invocados com uma subtileza de génio em historietas anexas, e uma rigidez formal neste metamorfoseado “plano fixo” a revelar o detalhe da sua arquitetura dramatúrgica.
Ficamos felizes com o exercício e a sua ginástica, só que o truque é revelado naquele final consolidador, um travelling mais que spielbergueano a desmascarar a sua sobriedade formal. Robert Zemeckis, o eterno comparsa de Spielberg, cita como sempre citou uma incidência quase capriana, aqui, por exemplo, Tom Hanks a ser uma espécie de George Bailey sem anjos da guarda para o interceder.
Vá … confessemos, este é um dos melhores Zemeckis em muito tempo, mesmo com a sua rigidez e performance tecnológica.
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O livro infanto-juvenil de Roald Dahl [publicado em 1983] sobre uma convenção de bruxas que dá para o torto obteve uma “célebre” adaptação em 1990 pelas mãos de Nicolas Roeg (“The Witches”), que, habituado a um peculiar cinema de género, foi responsável por traumatizar uma geração de crianças eludidas.
Passados 20 anos, e tendo em conta a seca de ideias em Hollywood, a história é refeita para o grande ecrã sob o pretexto de aprimoramentos tecnológicos. Não é por menos que a batuta se encontra nas mãos de Robert Zemeckis, realizador que nos últimos tempos (mesmo com um travão suscitado por um tremendo fiasco como foi "Welcome to Marwen", com Steve Carell) tem apostado numa relação orgânica entre os efeitos especiais com a narrativa ("Back to the Future", "Who Framed Roger Rabbit?", "Forrest Gump", "Polar Express", etc.). Previsivelmente, “Roald Dahl’s The Witches” é tudo aquilo que esperávamos numa revisão contemporânea, um festim de CGI mal emaranhado, uma agreste redução no tom negro da anterior versão e uma tentativa (algo questionável aqui devido à sua leveza) de tecer um contexto social.
Os ingredientes não resultam em nenhum elixir de juventude e a fermentação converte tudo numa poção requentada, monstruosamente despida de personalidade, mesmo que possamos assumir que o início é esteticamente prometedor (com uma narração própria de Chris Rock, a fazer recordar a sua bem-sucedida série “Everybody Hates Chris”). Aqui, onde nem um gato escapa ao domínio das imagens computorizadas (dificilmente os seus visuais sobreviverão num espaço curto de tempo), é Anne Hathaway que vemos como o núcleo esforçado, numa correspondência artificial ao legado deixado por Anjelica Huston, que com "The Witches" se tornou na infame bruxa-mãe de ínfimos pesadelos infanto-juvenis.
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“The first thing I am going to do when I get back is get some decent food.” Alien (Ridley Scott, 1979)

“April the 4th, 1984. To the past, or to the future. To an age when thought is free. From the Age of Big Brother, from the Age of the Thought Police, from a dead man... greetings.” 1984 (Michael Radford, 1984)

“Catch the midnight express.” Midnight Express (Alan Parker, 1978)

“This is the sad tale of the township of Dogville.” Dogville (Lars Von Trier, 2003)

“I am not an elephant! I am not an animal! I am a human being! I am a man!” The Elephant Man (David Lynch, 1980)

“In the absence of light, darkness prevails. There are things that go bump in the night, Agent Myers. Make no mistake about that. And we are the ones who bump back.” Hellboy (Guillermo Del Toro, 2004)

“I want this country to realize that we stand on the edge of oblivion. I want every man, woman and child to understand how close we are to chaos. I want everyone to remember why they need us!” V for Vendetta (James McTeigue, 2005)

“Oh, no. Not again.Oh, no. Not again.” Spaceballs (Mel Brooks, 1987)

“Survivors! Wash yourselves. The water supply section ... wash away the blood …” Snowpiecer (Bong Joon-ho, 2013)

“The powers that be have been very busy lately, falling over each other to position themselves for the game of the millennium. Maybe I can help deal you back in.” Contact (Robert Zemeckis, 1997)
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Claro que a imprensa sensacionalista e cor-de-rosa apelidará, assim servindo de publicidade gratuita, esta obra de sequela não assumida de “Mr. And Mrs. Smith”. Em derivação de tal título estão os inúmeros boatos originados pela separação de um dos casais maravilha de Hollywood, Brad Pitt e Angelina Jolie, assim como os rumores de um possível caso do ator com a atriz Marion Cotillard no set. Verdade ou não, tema, esse não nos cabe julgar perante esta nova longa-metragem de Robert Zemeckis, um dos classicistas movie brats a operar em Hollywood (mesmo seduzido pela tecnologia o qual dispõe para inserir na narrativa, e não o oposto como muito blockbuster que anda por aí).
Mas de uma coisa essa dita imprensa acertou “na mouche”, de “Mr. And Mrs. Smith”, “Allied” tenta sobretudo replicar uma química entre Pitt e Cotillard, da mesma forma que o sucesso dependente de Doug Liman fez com o “ex-casal”, em 2005. Proposta falhada, visto que, primeiro, com Brad Pitt tornou-se impossível o estabelecimento de qualquer ligação, até mesmo amorosa vérité (veja-se o caso com Jolie em “By the Sea”). O reconhecido grande galã do seu tempo, converteu-se num ator fechado a qualquer vínculo, e em consequência disso, limitado pelo cansaço de fugir ao seu verdadeiro role play (o papel de ser o próprio Brad Pitt, de intérprete a globalizada socialité). Por sua vez, Marion Cotillard é uma faca de dois gumes, nunca fora devidamente aproveitada no cinema yankee, muito menos em grandes produções como este “Allied”. Aliás, a sua personagem polariza um certo “quê”” de Ingrid Bergman em terras de Tio Sam, ou seja, um feminismo “fogo-de-vista”que esconde um real facto, ser o interesse amoroso do nosso “herói”, e neste caso específico, uma espécie de macguffin que o faz correr num último terço bem apressado.
Como é possível verificar, “Allied” é uma fita que apostou sobretudo numa mediatizada dupla, mas que não soube compor, porque devidamente, nenhum dos dois está recíproco de tal demanda emocional. Quanto a referências, Robert Zemeckis apaixonado pelo fôlego algo perdido desse cinema clássico de uma idade de ouro que nunca mais será reproduzida, cita “Casablanca” em tudo o que pode. O célebre e popularizado “monumento cinematográfico” (possivelmente a obra que destroçou “Gone with the Wind” no estatuto de filme mais reconhecido da História do Cinema) é a estrutura óssea deste thriller de espionagem que joga com a duplicidade em estratagemas amorosos.
Até mesmo um final ocorrido num aeroporto sob as juras de despedidas de dois amantes faz invocar-nos essa memória cinéfila, da mesma forma que o piano sob os acordes de A Marselha instala-se como o pico de sentimentalismo indomável, recorrendo a essa fantástica viagem do passado. Por outras palavras, “Allied” é um filme de uma dotada herança de referências, porém, sem a imortalização dos mesmos, até porque o espectador mais atento sabe que tudo não passa de uma ficção, e o nosso “Casablanca” é agora uma memória coletiva bem real, da mesma forma que Paris é, a promessa idealizada de dois dos mais poderosos românticos da Sétima Arte.
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Com Denzel Washington em "Heart Condition" (James D. Parriott, 1990)

Na altura um fracasso financeiro e de crítica, hoje constantemente reavaliado: "The Cotton Club" (Francis Ford Coppola, 1984)

Ao lado de Rhona Mitra no pós-apocalíptico "Doomsday" (Neil Marshall, 2008)

Na distopia delirante de Terry Gilliam (Brazil, 1985)

Foi o célebre personagem de videojogo Mário com John Leguizamo no colossal fiasco "Super Mario Bros." (Annabel Jankel & Rocky Morton, 1993)

Como 'dono' de Jet Li em "Danny The Dog" / "Unleashed" (Louis Leterrier, 2005)

Na Terra do Nunca com Dustin Hoffman num dos filmes menos relembrados da carreira de Steven Spielberg (Hook, 1991)

Definitivamente o seu papel mais citado, "Who Framed Roger Rabbit?" (Robert Zemeckis, 1988)

A sua colaboração com o realizador Neil Jordan e com a atriz Cathy Tyson em "Mona Lisa" (1986)
Bob Hoskins (1942 - 2014)
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