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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Os carteiristas sem nome

Hugo Gomes, 06.11.25

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Não é Robert Bresson, mas quer, à sua maneira algo lacrimejada e miserabilista, estender-se sobre as identidades nas ‘sobrepopulações’, ou questionar se a individualidade é uma anormalidade numa sociedade em que cada um desempenha o seu plano predestinado, seja por via das castas, da precariedade que o envolve ou da recompensa monetária como jogo final. Esta história de “slumdog millionaires”, com uma rede de meninos-carteiristas, uma cédula criminal onde apenas um número os classifica e personifica, leva-nos até ao número 55 (como o título do filme), jovem dotado na arte (Rizwan Shaikh) de “gamar”, de mãos leves, que coleciona os BI das suas vítimas, sempre fantasiando em frente a um espelho com qual nome que se adeque à sua face e personalidade.

O existencialismo aqui é de gesto rápido, indolor e por vezes engenhoso, tal como o talento de um carteirista, e nessa premissa, seguimos por Bombaim, suja, corrompida, desesperada e instrumentalizada no seu próprio mecanismo de cidade. Infelizmente, chega-nos muitas vezes com um olhar quase de acordo com “gringo-cinematográfico”, daqueles implementados e amplificados no já mencionado filme de Danny Boyle. Só não há cantorias, mas há fugas que remetem para a projeção de um cinema bollywoodesco, talvez a cultura que mais conforto encontra no seu próprio cinema. Se Dev Patel, na sua progressão pelas perguntas milionárias, contactou, escatológicamente acrescenta-se, com uma mega-estrela local, e Kani Kusruti no tão terno “All We Imagine as Light (Payal Kapadia, 2024), pausa na sua condição através de uma saída em grupo para um romance cinematográfico e cantado que Bollywood tão bem caracteriza. O seu olhar maravilhado tem equivalência com um abraço imaginado com a luz. Já “55” (com produção de Ridley Scott, que se esse apoio não conseguiria terminar) integra o cinema como parte da sua própria cultura, pelo menos é assim que o vende. 

Entre a miserabilidade cinematográfica que tenta apanhar os fragmentos caídos (e esquecidos) do neorrealismo italiano ou das vidas de um certo Apu, é, novamente, com Bresson e o seu “Pickpocket” que o filme parece responder entusiasticamente, os estratagemas e os movimentos de larápio furtivo levam-nos a esse lugar. O que poderá correr mal? Curioso, no mínimo.

Michael Madsen (1957 - 2025): o ator 'cool'!

Hugo Gomes, 04.07.25

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Na caça de uma alien sexy em "Species" (Roger Donaldson, 1995)

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Ao lado de Susan Sarandon em "Thelma & Louise" (Ridley Scott, 1991)

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Uma tentativa de ser-se igualmente tarantinesco e rodriguesco em "Hell Ride" (Larry Bishop, 2008)

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"Wyatt Earp" (Lawrence Kasdan, 1994)

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Em "Boarding Gate" (2007), com Asia Argento num dos filmes mais deslocados de Olivier Assayas

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Um dos seus outros momentos altos da carreira foi no elogiado "Donnie Brasco" (Mike Newell, 1997), o qual contracenou com Al Pacino e Johnny Depp 

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Na adaptação da graphic novel de Frank Miller: Sin City (Robert Rodriguez, 2005)

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Um dos antagonistas em "Kill Bill Vol 2" (Quentin Tarantino, 2004)

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Indiscutivelmente o seu mais emblemático papel! Na primeira longa-metragem de Quentin Tarantino, "Reservoir Dogs" (1992)

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Possivelmente o momento mais baixo da sua carreira. A sua interpretação desinteressada em "Bloodrayne" (Uwe Boll, 2005) diz tudo o que há para dizer.

Irmãos, projectos a meias ...

Hugo Gomes, 01.03.25

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Auguste e Louis Lumière, os pais do cinematografo

- La Sortie de l'usine Lumière à Lyon (1895)

- L'arrivée d'un train à La Ciotat (1896)

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Jean-Marie e Arnaud Larrieu, realizadores

- Tralala (2021)

- Roman de Jim (2024)

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David e Nathan Zellner, realizadores

- Damsel (2018)

- Sasquatch Sunset (2024)

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Runje, Runme e Runde Shaw, produtores de Hong Kong, fundadores do Shaw Bros

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Harry, Albert, Sam e Jack Warner, fundadores da Warner Bros

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Josh e Benny Safdie, realizadores

- Good Time (2017)

- Uncut Gems (2019)

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Jen e Sylvia Soska, realizadoras

- American Mary (2012)

- Rabid (2019)

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Ethan e Joel Coen, realizador e argumentistas

- True Grit (2010)

- Inside Llewyn Davis (2013)

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Anthony e Joe Russo, produtores e realizadores

- Avengers: Endgame (2019)

- The Gray Man (2022)

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Jean-Pierre e Luc Dardenne, realizadores, uns dos bastiões do cinema realista francês

- Rosetta (1999)

- L'enfant (2005)

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Vittorio e Paolo Taviani, realizadores

- Padre Padrone (1977)

- Cesare deve morire (2012)

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Oxide e Danny Pang, realizadores e editores

- The Eye (2002)

- Re-cycle (2006)

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Tony e Ridley Scott, realizadores e produtores

- Produtores de "The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford" (Andrew Dominik, 2007)

- Produtores de "Stoker" (Chan-wook Park, 2013)

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Mário e Pedro Patrocínio, realizadores, diretores de fotografia e fundadores da produtora Bros

- Complexo - Univeso Paralelo (2011)

- I Love Kuduro (2014)

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Lina e Maira Fridman, realizadoras e produtoras

- Calendário (2020)

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Lana e Lilly Wachowski, produtoras e realizadoras

- The Matrix (1999)

- Speed Racer (2008)

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Paul e Chris Weitz, realizadores

- Down to Earth (2001)

- About a Boy (2002)

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Bobby e Peter Farrelly, realizadores e argumentistas

- There’s Something About Mary (1998)

- Me, Myself & Irene (2000)

Bifes (II) ...

Hugo Gomes, 19.12.24

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Deves fazer sempre o oposto de Ridley Scott, a cada segundo." (...) É desse fascismo que falo quando me refiro a filmes fascistas, o oposto de Straub e Ford. Claro, Ridley Scott é fascismo absoluto; não há nada ali para retirar. Vês aquilo e dizes: não, não levo nada disto. Porque é um verdadeiro populismo, como se diz na política. Ele é um tipo populista. Vai enganar-te, prometer dar-te tudo, que serás feliz e livre, etc. (...) Os filmes que estão longe da vida são, digamos mais uma vez, os de Ridley Scott. Ele vive noutro mundo – Hollywood, Los Angeles, dinheiro, ouro. Vive de champanhe e luxos. Se vivermos na realidade, tudo é super-rápido, e esses filmes também são super-rápidos."

Pedro Costa sobre Ridley Scott, numa entrevista pela Othon Cinema [ler aqui]

"Are you not entertained?"

Hugo Gomes, 11.11.24

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Não há regresso possível ao subgénero peplum, muitas vezes à convicção do épico hollywoodesco a fazer-se ao “sword & sandal”, “Gladiator 2” assume, desde o seu primeiro ponto, aquilo que é - uma fantochada histórica. Aceitar ou não aceitar, fica-se pela questão! Mas conforme seja o seguidismo é nesse aspecto, o de nunca aventurar-se por reconstituições de História à luz natural, que esta muita antecipada sequela esbofeteia o anterior “Napoleon”. 

Ridley Scott está no seu circo, a corrida da Roma antiga pelos seus êxitos, e é dessa forma que o tarefeiro carrancudo dança na indústria que cada vez mais fracassada a esses espectáculos de grande tela. Convém afirmar que o épico histórico está morto lá para os lados norte-americanos, Wolfgang Peterson fez-se ao último suspiro [“Troy”, 2004], Scott por sua vez deixou-nos claro no seu anterior “Last Duel” (2021), de que não existe espaço para estes filmes na modernidade, apenas as suas desconstruções. Determinado em contrariar até mesmo ele próprio, o realizador decreta este “Gladiator 2” na sua escondida proeza, o de fazer entretenimento longe das fórmulas correntes, só que essas tais o aproximam, apoderaram-se e estabelecem uma via que só os fracos se torcem, por afinal a fórmula acaba por vencer … ou Ridley Scott só conhece a fórmula? Portanto, a existência desta continuação deve-se à popularidade e ao capital, a primeira a desencadear a última, digamos assim. 

Gladiator”, o filme de 2000, com Russell Crowe esfregando as mãos na areia da arena do Coliseu (“o maior templo romano”), foi um trunfo de cinema popular tendo essa luz encadeado a award season a altura, conquistando o Óscar de Melhor Filme, a partir daí Ridley Scott foi sinónimo de épicos hollywoodianos, fracassando-se espectacularmente nos projetos seguintes (“Kingdom of Heaven”, “Exodus”). Hoje, com a fita estranhamente numa memória colectiva (Hans Zimmer de braço dado com Lisa Gerrard ecoa nessa “eternidade”) e com um obsessão viral, do domínio das redes sociais (“Why men just can't stop thinking about it”, basta pesquisar), tendo como reflexos políticos, do Império Romano numa cultura viril de “machos alfas” fabricados virtualmente, “Gladiador 2” encontra razões, financeiramente viáveis, para existir entre nós. Só que é “azeite” derramado, de cidades em CGI, de atores abonecados para servir uma história que se desvenda a partir de dez minutos, onde só Denzel Washington (novamente ao lado do realizador, 17 anos depois de “American Gangster”) ergue-se na romana coluna da veneração. Por outro lado é a velha máxima do desejo de Hollywood em concretizar “Birth of a Nation” de D.W. Griffith, uma vez mais, da réplica, da réplica e da réplica. 

Ridley Scott exibe a sua fisicalidade, a sua teimosia, expondo-se ao julgamento do Imperador (ou Imperadores, costuras de auras caliguleanas e neroeanas, não saímos daqui), polegar para cima como sinal de misericórdia ou para baixo como sentença divina. Escutem, funcionará como sempre funcionará, restaurará a masculinidade obsessiva em cada um de nós, exaltará a veneração aos “homens fortes” à imagem do povo que o cultua, daí essa branquitude seja um espelho dos tempos politicamente atormentados que vivemos, porque encaramos a Roma antiga nessa mixórdia de lendas e rumores.   

A talentosa saudade de Ms. Ripley

Hugo Gomes, 14.08.24

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Já com “Covenant” (2017), essa tentativa de reavivar a saga “Alien” na sua forma pura fazia antever os problemas nunca abordados quanto à sua imposta ressurreição. E com “Romulus”, essa primeira instância sob a chancela da Disney, persistem as mesmas anomalias: o motor do franchise não está nos xenomorfos; é a história de uma mulher: Ellen Ripley

E, como se costuma dizer (nunca, na verdade, mas tentarei a todo o custo que se torne um hino), Ripley só há uma! Sigourney Weaver, que atravessou o filme inaugural de 1979, um whodunit espacial, para o belicismo sci-fi de 1986 [de James Cameron], sequencialmente um filme de cerco nos algures cósmicos de 1992 [de David Fincher], e para uma fantasia body-horror em 1997 [de Jean-Pierre Jeunet] - cada um com a sua assinatura, e cada assinatura com a sua marca vincada - , tendo terminado aí o seu percurso, em tempos houve promessas de um regresso num possível “Alien 5” sob a batuta de Neil Blomkamp (“District 9”), mas, enfim, os “donos-disto-tudo” tinham outros planos, e Ridley Scott apressou-se em conectar o universo ao seu “Prometheus” (dos poucos filmes da sua fase pós-“Thelma & Louise” que merece uma espreitadela). O resultado foi o mencionado “Covenant”, que partilha com este, agora sob a alçada de Fede Alvarez (“Don’t Breathe”, “Evil Dead”) e com o apadrinhamento do próprio Scott, o facto de serem objetos competentes, mas cuja competência não paga imposto, principalmente em indústrias demasiado oleadas como a que presenciamos.

Romulus” encontra-se despido de Ellen Ripley, o que não é novidade alguma, e é disso que a saga saliva de saudade, com a persistência em apressar novas personagens, esboçar passados trágicos a fim de traçar empatias com o espectador (o efeito é contrário; “Alien” de 1979 despachava esses assuntos, e até ao final tememos pelo destino da protagonista acidental e do gato laranjinha a bordo), só que em matéria de sobrevivencialismo, as novas personagens são um “bando de incompetentes”, com claras alusões ao transhumanismo, essa substituição da carne, humanamente falando, pela mecânica (nota-se - “facepalm” - na pior decisão da protagonista). Para alguns, será visto como uma tentativa de refrescar uma saga para futuras explorações, só que despida de ambições de expansão, limitando-se à reciclagem na envolvência do “mais-do-mesmo”, aquela estrutura algorítmica de reunir os elementos familiares aos espectadores (mal) habituados (não se vá desafiar expectativas), para no final sair-se com a sensação de conforto.

Romulus” (confirma-se à relação simbólica com o mito génese  romano) ainda dá paleio para puxar os fios daquele universo constantemente invocado como canónico - o de cruzar “Alien” com “Blade Runner” - e desta feita olha de esguelha para os episódios de “Prometheus” (2012). Além disso, é um filme-Disney que guarda algumas das suas piores tendências, entre elas a de “ressuscitar” atores falecidos para o propósito de os “homenagear” por via de um CGI pobre (se é mau agora, imaginem daqui a 5 anos, sabendo da caducidade destes efeitos). Vale pelo trabalho de som, que por momentos atinge a sua genialidade, mas ficarmos por um capítulo pela sua sonoridade é uma desculpa muito esfarrapada, não é verdade?

#Metoo à moda medieval

Hugo Gomes, 28.10.21

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Basta a entrada do primeiro plano, uma vista aérea sobre um arena gélida e uma Paris medieval, para percebermos que o grande épico do cinema americano se encontra falido, depenado da sua grandiosidade e rendido aos facilitismos e possibilidades da tecnologia. Em “The Last Duel” constatamos que esse género é reavivado com dificuldade, mas nunca verdadeiramente ressuscitado. Nem era isso que pretendia Ridley Scott, o homem que anda anos a fio agarrado a um dos seus últimos grandes êxitos – “Gladiator” –, que opera como o ilustrador de um filme que vai mais além do que a reconstituição histórica.

O relato real de um dos últimos duelos judiciais em França, em 1386, entre o Cavaleiro Jean de Carrouges e o respeitado escudeiro Jacques de Gris, momento histórico que serviu de inspiração a trovadores e a relatórios minuciosos que fecundaram estudos contemporâneos, foi a matéria para as penas de Matt Damon e Ben Affleck, a dupla de atores e argumentistas consagrada por “Good Will Hunting” há quase 25 anos, fazerem um estudo sobre o papel da mulher nesta autêntica era das Trevas.

Em jeito formal, "The Last Duel" descortina-se em três atos paralelos, três perspetivas. Se preferirmos, “verdades” sobre algo que aconteceu, como uma espécie parcial de “Rashomon” (a obra-prima de Akira Kurosawa de 1950). Mas ao contrário da evidente inspiração nipónica, este filme não tende a refletir a essência da verdade propriamente dita, mas sim a denunciar o entranhado e impune patriarquismo que dominava aquela época sangrenta. Aqui, Jean e Jacques (Damon e Adam Driver) combatem pelas suas honras, mas no centro do seu confronto de feira está uma alegada violação, que, como se pode ouvir a certo momento, não é um “crime contra a mulher”, mas "contra o património do seu tutor legal”.

Portanto, “The Last Duel” lava-se nas águas modernas de um revisionismo histórico #MeToo, desafiando-nos a olhar para estes tempos de peste e cruzadas com uma consciência contemporânea, evitando com isto ceder abruptamente ao básico panfletarismo e elevando dramaticamente a visada Madame Marguerite interpretada por Jodie Comer como a recompensa do embate entre homens viris.

Por outras palavras, “The Last Duel” (um título deveras denunciados se pensarmos que Ridley Scott atingiu a sua primeira notoriedade em 1977 com um filme chamado “The Duellist”) é uma tentativa de desmistificação não só do evento histórico, mas de um género que, anos a fio, esteve profundamente centrado no imaginário masculino. Só que, voltando ao início, a contradição é que a espetacularidade cinematográfica deste género está moribunda, tendo perdido o seu poder produtivo para se encostar ao mero artifício tecnológico. Resta o intimismo que se encontra nas personagens e há uma aproximação a isso neste filme, mas, mais uma vez, sublinhe-se, fica-se pela aproximação...