Um realizador acossado na lente de um americano

“Nouvelle Vague” não nos chega como um evento sísmico no panorama cinematográfico, nem, à luz da sua reconstituição, se devem esperar transgressões ou reconfigurações do cinema moderno (ou pós-moderno), fiquemo-nos então pelo brinde, pelo ‘miminho’ que Richard Linklater nos atira como guloseima. A premissa é simples: a trupe dos Cahiers du Cinéma dá o passo largo para o outro lado do cinema escrito, realizam filmes (êxitos até, contrariando a velha lengalenga de “críticos de cinema serem realizadores falhados”). Claude Chabrol e François Truffaut inauguram o caminho, desbravam o terreno, Jean-Luc Godard, por seu lado, sente a inveja desse horizonte e decide experimentar. Depois de curtas e publicidades, mete o Cinema na sua causa, na sua coreografia e no seu caos, segue a sua longa-metragem, com desconfiança do produtor, sempre à perna, e da estrela (segundo consta) incrédula do resultado final.
“À bout de souffle” (1960) é desses filmes guardados com desejo e saudade. Ansiamos por uma nova vaga, uma disrupção da fórmula, uma cuspidela na tradição e, simultaneamente, uma vénia aos ídolos. Entre nós, sob o título “O Acossado”, cumpriu esse feito: falso noir de contrabandista (Jean-Paul Belmondo) e da sua americana apaixonada (Jean Seberg, saída do seu sucesso sob a direção de Otto Preminger, “Bonjour Tristesse”), a anteceder a Nova Hollywood e a ressurgir em vagas e vagões pelo mundo fora. Cinema como acto de caos, provocação, espontaneidade, sem fidelidades estéticas à fórmula cristalizada. Truffaut quis o seu “Bout de Souffle” … é claro! … tentou-o com a responsabilidade de Charles Aznavour em “Tirez sur le pianiste” (1960), fracasso de bilheteira que o obrigou a seguir um outro caminho, aquele que o afastaria das pisadas godardianas onde o amigo persistiria. Divórcio à vista.

Mas deixemos dos arrufos, olhemos assim para este “Nouvelle Vague”: um gesto de entendimento para com aquela figura de óculos escuros, imprevisível, a meio do autismo autoral, mediador da entropia, amador no sentido formal do termo (interpretado de forma mimetizadora por Guillaume Marbeck). Linklater surpreende pelo fascínio, um americano atento a Godard, Truffaut, Chabrol, Varda, Rossellini, Genet, Melville, Resnais … ora vejam … a sair do seu continente, a olhar o cinema para lá do canudo hollywoodesco, a recitar o “estrangeiro”. Eis o “The Avengers” para cinéfilos de casca grossa! Ainda assim, o filme vive dessa curiosidade e, nesse gesto, torna-se uma brincadeira pedagógica. Mais uma vez, a natureza americana afasta-o da sombra de Hazanavicius e da sua tentativa de ficcionalizar Godard: sem farsas, sem meta-linguagens, sem hesitações face ao material. Linklater é sóbrio e solarengo, e isso sabe bem.
Sem construir novas pontes nem fortalezas, “Nouvelle Vague” é uma volta de carrossel com compreensão histórica e uma reinterpretação de génios do cinema (Mesmo falando eu, não godardiano e por vezes céptico perante qualquer religião do autor, e acreditando numa certa rendição ao instantâneo enquanto sobrevivência intelectual, convém não esquecer: Godard é Cinema). Para ver e rever “À bout de souffle” logo a seguir … se estes filmes não servirem para isso, para que servirão?
























