O Som da Polis a tremer

Até fico sem jeito. Um tímido risinho, um “beijinho” na mão perante o título - “Fuck the Polis”, clara alusão ao tema icónica do álbum do N.W.A., Straight out Compton [“Fuck the Police”], reservando um dedo do meio esticado às bases da Civilização Moderna, daí a Grécia surgir no horizonte, no centro e na verticalidade de Rita Azevedo Gomes, aqui a cabeça de cartaz para lá da realização. Só que depressa fui enganado! O sorriso malicioso desvanece. O título já tem dono, vem da obra poética de João Miguel Fernandes Jorge. Mas voltando ao trabalho proposto em tela, existe nele uma espécie de turismo culto, fazer deste filme o pretexto da sua viagem, e da viagem o pretexto da sua mensagem e assim adiante, fica-se pela correspondência lida, em voz alta é claro, pelos amigos de sofá que a rodeiam, atentamente, para a ouvir uma ou duas vezes, e a chegada à Polis no coração das trevas, dos diários abandonados ou lá o que seja.
Confesso que “Fuck the Polis” não inventa, não reinventa, apenas fomenta uma fórmula, uma caixa de suporte para um cinema intelectualizado (hoje), defensor do Verbo (ontem) à boa moda straubiana, ensinando a comunicar, poliglota, agiota, sem medo de trespassar a sua passividade. Só que a coragem é que não! Permanece ativa no seu ponto de extração intelectual, daqueles termos que Agustina Bessa-Luís descrevia a sobrinha da sua “Sibila” e toda uma trupe envolto, refugiada naqueles centros civilizacionais que floresciam na cidade Invicta, meros agentes vampíricos que repetem uma cultura apenas, não produzem nada mais, nem agitam sequer. É uma pena que o nevoeiro adensa mais, João Bénard da Costa falava contra ele com exatidão em “Frágil como o Mundo”, até hoje a sua obra-prima, já nesta estância, reproduz “Correspondências”, passeia entre Mozart e no Rohmer deixado à lasca de “O Trio em Mi Bemol” e confessa-se às paredes -”Tu portuguesa, o que estás a fazer agarrada a essa estátua?”.
Faço desta citação a minha perante “Fuck the Polis”, serei minoria no meu refúgio cinéfilo, até porque rosas (e o seu Rei) caírão sobre os seus pés. Não faço intenções de aplaudir por aplaudir, como esse hábito nefasto de sempre aplaudir erguido no fim dos espectáculos mimetizando zumbificadas paradas militares, goste-se ou não, atrás do “standing ovation” por boa educação. Só pedia que Rita Azevedo Gomes rompesse esse tal e maldito nevoeiro, e mostrasse a sua fragilidade porque nela veríamos a força do seu Mundo, ao invés do Mundo frágil como este filmado, enxuto na sua bibliografia de cabeceira. Volto ao tema que me trouxe aqui - não inventa, não reinventa, não recria, peço desculpa pela repetição, mas sinto que a própria realizadora também se repetiu.
Filme vencedor do 36º FIDMarseille





