Finja, está a ser filmado!

Não podes dizer isso!”
“Porquê?”
“Porque não estamos sozinhos. Estamos a ser filmados.”
Louis Garrel movimenta a cabeça em direção à audiência, e Raphaël Quenard constata automaticamente o óbvio e o declarado: não estão sozinhos. Ambos quebram a quarta parede, e um pedido de desculpas por parte de Quenard despedaça a narrativa que, até então, assumíamos produção fílmica. O filme tem consciência de ser isso mesmo… um filme. Este tipo de percepção não é inédito no cinema de Quentin Dupieux, ao longo da sua obra, directa ou indirectamente, tem contemplado os seus filmes com essa autoconsciência, criando objectos ‘matrioskados’ entre metalinguagem e desconstrução — iluminando, assim, a sua prolongada tese sobre a qualidade do espectador.
Ora, se em “Rubber” (o seu filme de ribalta, em 2010) nos apresentava um grupo de voyeurs (alusão ao espectador enquanto observador passivo-compulsivo) na demanda absurda de um pneu assassino com poderes telecinéticos; ou em “Yannick” (talvez a sua jóia da coroa, em 2023), onde, mais uma vez, Raphaël Quenard interrompia uma peça medíocre, “Le Chiffonier” de Paul de Kock, para impor um novo rumo à narrativa, desafiando o teatro a corresponder aos seus desejos enquanto espectador. Os gestos podem ser lidos de várias formas: como metáfora da ausência empática das artes para com a audiência; como reflexão sobre os desafios de criar empatia com figuras socialmente marginalizadas; ou como crítica à imperatividade e ao conformismo do gosto do espectador actual, pouco disposto a sair da sua zona de conforto. Fico com esta última.
Voltando a “Le Deuxième Acte”, diria que, numa tirada generalizada, é a concepção de um filme — um mau filme autoral — que, além dos referidos actores, junta Vincent Lindon e Léa Seydoux como intérpretes em camadas: ora personagens, ora actores que as encenam. Um malabarismo entre realidades e contactos que desemboca num… leia-se… “formato formalizado”. Quentin Dupieux desliza aqui a sua lente para o outro lado do seu habitual alvo satírico. Já não é o espectador e as suas propriedades: é o próprio cinema enquanto sistema. A sobrevivência da arte perante os diferentes campos de erosão: os egos de quem a constrói, a auto-censura desta espuma dos dias, e a máquina trituradora que tudo pica e mói em nome de um formato. Um cinema sem gosto nem cheiro, erguido em honra de um mercado rígido, previsível e cumpridor do seu eixo. E que melhor símbolo dessa ditadura de directrizes senão a inteligência artificial?
“Le Deuxième Acte” é, sempre no tom jocosamente absurdo à la Dupieux, um imprevisível volte-face: não poderão existir espectadores de qualidade sem um cinema que lhes corresponda.