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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Bola Preta #13 - Por onde sopra a Cinefilia? Arqueologia familiar como aventura. Uma conversa com Rafael Fonseca.

Hugo Gomes, 25.12.25

Quorum (Rafael Fonseca, 2025)

Que episódio serei?” “Serás o episódio 13!”, respondo com exactidão. “13?!” “Sim, espero que não sejas supersticioso … Eu considero-o um número de sorte.” “Veremos, então.” Para o lugar mais habitual desta jornada chamada “Bola Preta”, sentamo-nos no Bar 39 Degraus da Cinemateca, afastados do balcão para “escapar” dos ruídos habituais de café (esperamos ser bem sucedidos nisso), com possível encosto nos cartazes vintage de filmes de outras épocas: um “Ginger e Fred”, de Fellini, por detrás de mim; uma “Flauta Mágica” diante do convidado; e “Páginas Imortais” entre nós … talvez o filme de Rolf Hansen também ansioso por esta companhia. Pedimos o costume, brindamos. À minha frente está Rafael Fonseca, crítico do site “Tribuna do Cinema”, com uma mão cheia e textos no “Talking Shorts” e no “À Pala de Walsh”, e realizador de uma obra intitulada “Quorum”, filmada no Gerês, povoada por fantasmagorias de invenção camiliana, cavalos improvisados, OVNIs e uma actriz com rosto de cinema à la Eugène Green. Uma das descobertas proporcionadas por 2025, tanto o filme como a pessoa. Fonseca tornou-se presença recorrente em festivais e jantares, e também em ocasionais ‘encontrões’ pelos corredores da Cinemateca. Está aqui para falarmos de uma aventura em particular, a cinéfila no geral.

 

Material de Apoio

Rafael Fonseca no Rio Talents 2025 - https://www.festivaldorio.com.br/br/talents/apresentacao

Crítica ao “Quorum” - O Cinema da extinção, e dessa morte, a reinvenção. - Cinematograficamente Falando …

Informação sobre o Festival Montanha, na Ilha do Pico: mirateca.com/miratecarts/picofestival/default.aspx

Entrevista de Rafael Fonseca a Charlie Shackleton no “Talking Shorts”: Truth in Parts — Talking Shorts

 

Ouvir episódio completo aqui

 

Ler Cinema, Ver Literatura [Índice]

Hugo Gomes, 06.09.25

Fidelidades, Abnegações

Hugo Gomes, 03.08.25

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Anteontem, estava na mesa do fundo do 39 Degraus, a explicar ao Hugo o que é que seria o meu texto, em vez de o escrever. Este tipo de sofrimento por antecipação é normal. Passa-se a maior parte do tempo nesta tensão antes do documento, que chega a durar semanas e que só se troca pela tensão na frente do documento, e nenhuma das duas é particularmente agradável. Não queria que o texto fosse muito grande. Queria aproveitar ao mesmo tempo a liberdade que decorre de um convite assim. Um par de frases, pelo menos, queria que fossem dedicadas a dar os parabéns ao Hugo e a este blog, o Cinematograficamente Falando …, que faz 18 aniversários. Saberia vagamente da existência do site no passado, mas só conheci o Hugo este ano, dia 3 de Janeiro de 2025, memorizado porque aterrei na Ilha do Pico, onde estávamos todos para a abertura do Festival Montanha. Cinema e Literatura: na Biblioteca da Vila da Madalena, na Ilha, existia uma mesa disposta com livros para oferta. Trouxe Jean Renoir, de André Bazin. Penso que o Hugo já tinha este — não me lembro qual é que ele escolheu. Tem sido um ano estranhamente maciço, apesar de simultaneamente o mais veloz de todos, como é o costume. Sinto que atravessei episódios importantes da minha vida e não me lembro com precisão de nenhum. Ainda assim, tenho encontrado o Hugo com frequência, seja na FCSH, na Feira do Livro, no 39 ou no Chapitô, e tem sido sempre alguém com quem é um gosto passar umas horas e beber umas cervejas. Por isso, obrigado, amigo, pelo convite, e parabéns pelos 18 anos.

O maior mistério na intersecção entre Cinema e Literatura reside nas adaptações concomitantes de Manoel de Oliveira e de Andrzej Żuławski do romance A Princesa de Clèves, de Madame La Fayette. Oliveira fez A Carta, que sai em 1999, protagonizado por Pedro Abrunhosa e Chiara Mastroianni, Żuławski faz La Fidélité, que sai em 2000, com Sophie Marceau e Guillaume Canet. Ambos produzidos por Paulo Branco, que ainda tem pelo meio Le Temps Retrouvé, de Raúl Ruiz, e outros. Começar a tocar neste assunto é uma demanda tão trabalhosa que poderíamos parar para descansar em qualquer planalto — a escolha do casal Abrunhosa-Mastroianni, por exemplo, que não tem semelhante em todo o cinema — e ter já alcançado suficientemente o sublime. 

Repara, em Lost, de J.J Abrams e Damon Lindelof, a personagem Desmond carrega com ele uma cópia de O Amigo Comum de Dickens, para ler por inteiro quando estiver perto de morrer. Para um tema “Ler Cinema, Ver Literatura”, a minha verdadeira contribuição seria o trabalho a fundo que a questão da Princesa de Clèves e dos seus dois filmes gémeos requer, e é uma contribuição que não posso ainda fazer. Esse trabalho, que existirá em mim em devir ou virtualidade desde que fiz eu os dezoito, ter-me-á tomado um dia provavelmente anos de vida, e resultado em dezenas ou centenas de páginas. Temo que o empreendimento me afectasse de forma severa, e que me acontecesse aquilo a que Lacan chama afânise, o desvanecimento do sujeito por detrás do significante. A ligação entre estes dois filmes é um dos grandes temas, a minha rosa-cruz. Pairam em termos simbólicos sobre a minha vida. Há uma fortíssima demanda para os explicar, pelo simples facto da intersecção existir; de resto, é evidente que parecem de algum modo poder explicar-me, e nesse sentido, uma vez publicado o trabalho, seria precisamente um desvanecimento meu que estaria em causa: quando o sujeito aparece algures como significado, é manifestado noutro lugar como desaparecimento.

Portanto, por ora, um outro apontamento: as minhas inesperadas leituras de Florbela Espanca levaram-me a imaginar o que seria realizar uma adaptação de contos seus verdadeiramente atenta e honrosa à sua prosa. Estamos a falar de uma mulher que escreve:

Silêncio. Um silêncio feito de fluidos rumorosos, do vago rastejar dum perfume, dum leve vapor de incenso pairando. Silêncio como um vago clarão de fogo fátuo, como o rasto, a poalha dum desejo imaterial, silêncio em torno da vasta catedral de sombras onde as sombras vestidas de branco pontificam pelas noites.” (“A Morta”)

Imaginei filmar-se com isso em mente. Ainda não foi feito. Gostava de fazê-lo. Do Diário da Florbela Espanca há uma versão fac-similada com prefácio da Natália Correia, poetisa sobre quem vimos um fabuloso filme da Rosa Coutinho Cabral, na Ilha do Pico. Comprei uma outra edição, barata, a um tipo do OLX que se encontrou comigo junto ao Hospital Pulido Valente. O Diário é extraordinário. Tem apenas doze páginas. Aproximei-me dele como Knausgård se aproximou do de Delacroix. O que me surpreendeu mais na prosa de Florbela foram as encenações de compaixão profunda, em sangramento até, que eu julgava ingenuamente incompatíveis com a afecção neurasténica. O Dominó Preto é um conto fabuloso, sobre um homem cujo escárnio e troça da mulher amada o conduzem a um final funesto: é de uma elegância e de uma generosidade assombrosa a forma como ela escreve este personagem. Amor de Outrora, que é um conto de uma abnegação extraordinária, uma abnegação com semelhanças e diferenças entre aquela do romance de Madame La Fayette, encontra a protagonista a renunciar a um grande amor para não roubar uma criança dos seus pais, por considerar “o ninho destruído, o pequenino sem pai, uma pobre mulher viúva da pior viuvez, sem o ter merecido”. Um grande amor que lhe escreve: “Pensa, pensa bem, mas só em nós, só em nós dois, que os outros são menos do que sombras, são nada, não existem”. É um trabalho notável que me apetecia adaptar com justiça um dia.

 

*Texto da autoria de Rafael Fonsecacrítico e realizador de cinema, com textos publicados em Tribuna do Cinema, À Pala de Walsh e Talking Shorts. O seu filme Quorum (2025) estreou recentemente na Cinemateca Portuguesa.

"Quorum" em Junho!!

Hugo Gomes, 22.05.25

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Menção no jornal da Cinemateca Portuguesa! Contudo, há que frisar que "Quorum", a curta-metragem de Rafael Fonseca, vai estrear no Museu do Cinema no dia 27 de junho.

Poderia estar aqui a escrever uma ou duas frases 'bonitas' sobre o filme para vos aguçar a curiosidade, mas basta ler o cujo texto [ler aqui]. Está lá tudo, e o que falta podem encontrá-lo no "Quorum".

Tertúlia oscarizada!

Hugo Gomes, 24.02.25

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Óscars!! Lá vamos nós! Amanhã (25 de Fevereiro) haverá tertúlia entre os críticos da Metropolis (Jorge Pinto e eu) e da Tribuna do Cinema (Rafael Fonseca, Rita Cadima de Oliveira, David Bernadino, André Filipe Antunes e Pedro Barriga), com moderação de Rui Pedro Tendinha, na FNAC Chiado. Pelas 18h30. Entrada livre. Apareçam e levem pompons.

O Cinema da extinção, e dessa morte, a reinvenção.

Hugo Gomes, 09.01.25

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Em 2013, Raya Martin e Mark Peranson, numa proposta oscilante entre o experimental e o falso-documentário, contaram a jornada caótica e eclética de um realizador americano que se preparava para o seu derradeiro filme e, talvez, no contexto apocalíptico que o envolvia, o último filme de todos os tempos. “La última película”, exibido entre nós numa sessão competitiva do Leffest (nunca mais foi visto em território português), dividiu profundamente os poucos que o presenciaram: encantou alguns, enojou outros, mas sobretudo lançou os seus espectadores num malabarismo conceptual entre as infinitas possibilidades do cinema e as limitações que o ameaçam. Ao mesmo tempo, num tom quase sussurrado, debatia-se perante as portas do armagedão. Se a humanidade desaparecesse, o que restaria do cinema? Extinguir-se-ia como prova indissociável da nossa ligação carnal ao mundo, ou persistiria como algo alheio à nossa existência? Hipóteses delirantes, tingidas de surrealismo, sobre o que seria a última produção cinematográfica: como seria, e seria ela capaz de traduzir a nossa essência enquanto espécie?

Rafael Fonseca não se propõe a criar uma última obra antes do crepúsculo definitivo, mas “Quorum” surge como uma identidade em pura experimentação, como se fosse já tarde demais para o cinema progredir enquanto ato criativo futuro. Aqui, o cinema — apresentado sob a forma de um filme histórico em construção — é simultaneamente uma miragem e um gag prolongado, a busca incessante de um realizador pela sua obra, pela sua voz, num mundo que, em torno dele, parece recusar-se a oferecer as condições para tal descoberta. Filmado no Gerês, é a natureza que domina, soberana e implacável. Contudo, no meio da paisagem selvagem, um filme emerge subtilmente, através de uma narrativa esculpida em pedra, e pelo tempo - e mesmo assim respirando o imaginário.

Daí, como se pode ouvir através da leitura proclamada de Alice Ruiz (uma atriz que parece-nos saída do universo de Eugène Green), há um romance proibido entre uma freira e um soldado. Mas é apenas a imaginação que nos conduz até lá. Os atores, por sua vez, emprestam os seus corpos à encenação, mas as emoções, os gestos, os olhares — tudo parece pairar no limiar dessa fronteira, do romance e do não-romance. São os multi-terrenos da ficção a condizer com um cinema que se experimenta a si próprio. Fonseca não abdica da cinefilia que o atravessa; antes estica-a até ao limite, num ato de risco controlado de onde sai triunfante.

Quorum” é, simultaneamente, drama histórico, ficção científica, romance épico e ensaio memorialista — uma obra que celebra o ecletismo, desgastando os géneros, improvisando com ousadia. Funciona como tudo e funciona como nada. É um filme que se faz no prenúncio de um fim — um reflexo do mundo à beira do colapso. Mas Fonseca entrega-nos mais do que imagens ou sons: entrega-nos encantamento, muito deles pelo desconhecido como fenómenos do Entroncamento, aqui, rompendo os céus e iluminando de forma miraculosa as fases destes protagonistas (serão eles os três anjos do Apocalipse na espera do quarto?). Porque, no meio deste cataclismo silencioso, há o deslumbramento para com a natureza, é o que resta, e o que restará depois de nós, da nossa iminente ausência. Os garranos, selvagens e deslumbrantes, ecoam essa promessa do cinema como máquina de maravilhas. Fonseca captou-os num inventivo modo de distanciar-se da realidade, ou de acharmos dela a melhor representação. 

Há muito que o Fim do Mundo não parecia tão hipnotizante. Que últimos filmes nos trarão? Que últimas imagens guardaremos? Fonseca dá-nos uma resposta tangível: o cinema, mesmo nos seus estertores, continua a ser um gesto de criação, uma promessa de eternidade perante o inevitável.