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Anteontem, estava na mesa do fundo do 39 Degraus, a explicar ao Hugo o que é que seria o meu texto, em vez de o escrever. Este tipo de sofrimento por antecipação é normal. Passa-se a maior parte do tempo nesta tensão antes do documento, que chega a durar semanas e que só se troca pela tensão na frente do documento, e nenhuma das duas é particularmente agradável. Não queria que o texto fosse muito grande. Queria aproveitar ao mesmo tempo a liberdade que decorre de um convite assim. Um par de frases, pelo menos, queria que fossem dedicadas a dar os parabéns ao Hugo e a este blog, o Cinematograficamente Falando …, que faz 18 aniversários. Saberia vagamente da existência do site no passado, mas só conheci o Hugo este ano, dia 3 de Janeiro de 2025, memorizado porque aterrei na Ilha do Pico, onde estávamos todos para a abertura do Festival Montanha. Cinema e Literatura: na Biblioteca da Vila da Madalena, na Ilha, existia uma mesa disposta com livros para oferta. Trouxe Jean Renoir, de André Bazin. Penso que o Hugo já tinha este — não me lembro qual é que ele escolheu. Tem sido um ano estranhamente maciço, apesar de simultaneamente o mais veloz de todos, como é o costume. Sinto que atravessei episódios importantes da minha vida e não me lembro com precisão de nenhum. Ainda assim, tenho encontrado o Hugo com frequência, seja na FCSH, na Feira do Livro, no 39 ou no Chapitô, e tem sido sempre alguém com quem é um gosto passar umas horas e beber umas cervejas. Por isso, obrigado, amigo, pelo convite, e parabéns pelos 18 anos.
O maior mistério na intersecção entre Cinema e Literatura reside nas adaptações concomitantes de Manoel de Oliveira e de Andrzej Żuławski do romance A Princesa de Clèves, de Madame La Fayette. Oliveira fez A Carta, que sai em 1999, protagonizado por Pedro Abrunhosa e Chiara Mastroianni, Żuławski faz La Fidélité, que sai em 2000, com Sophie Marceau e Guillaume Canet. Ambos produzidos por Paulo Branco, que ainda tem pelo meio Le Temps Retrouvé, de Raúl Ruiz, e outros. Começar a tocar neste assunto é uma demanda tão trabalhosa que poderíamos parar para descansar em qualquer planalto — a escolha do casal Abrunhosa-Mastroianni, por exemplo, que não tem semelhante em todo o cinema — e ter já alcançado suficientemente o sublime.
Repara, em Lost, de J.J Abrams e Damon Lindelof, a personagem Desmond carrega com ele uma cópia de O Amigo Comum de Dickens, para ler por inteiro quando estiver perto de morrer. Para um tema “Ler Cinema, Ver Literatura”, a minha verdadeira contribuição seria o trabalho a fundo que a questão da Princesa de Clèves e dos seus dois filmes gémeos requer, e é uma contribuição que não posso ainda fazer. Esse trabalho, que existirá em mim em devir ou virtualidade desde que fiz eu os dezoito, ter-me-á tomado um dia provavelmente anos de vida, e resultado em dezenas ou centenas de páginas. Temo que o empreendimento me afectasse de forma severa, e que me acontecesse aquilo a que Lacan chama afânise, o desvanecimento do sujeito por detrás do significante. A ligação entre estes dois filmes é um dos grandes temas, a minha rosa-cruz. Pairam em termos simbólicos sobre a minha vida. Há uma fortíssima demanda para os explicar, pelo simples facto da intersecção existir; de resto, é evidente que parecem de algum modo poder explicar-me, e nesse sentido, uma vez publicado o trabalho, seria precisamente um desvanecimento meu que estaria em causa: quando o sujeito aparece algures como significado, é manifestado noutro lugar como desaparecimento.
Portanto, por ora, um outro apontamento: as minhas inesperadas leituras de Florbela Espanca levaram-me a imaginar o que seria realizar uma adaptação de contos seus verdadeiramente atenta e honrosa à sua prosa. Estamos a falar de uma mulher que escreve:
Silêncio. Um silêncio feito de fluidos rumorosos, do vago rastejar dum perfume, dum leve vapor de incenso pairando. Silêncio como um vago clarão de fogo fátuo, como o rasto, a poalha dum desejo imaterial, silêncio em torno da vasta catedral de sombras onde as sombras vestidas de branco pontificam pelas noites.” (“A Morta”)
Imaginei filmar-se com isso em mente. Ainda não foi feito. Gostava de fazê-lo. Do Diário da Florbela Espanca há uma versão fac-similada com prefácio da Natália Correia, poetisa sobre quem vimos um fabuloso filme da Rosa Coutinho Cabral, na Ilha do Pico. Comprei uma outra edição, barata, a um tipo do OLX que se encontrou comigo junto ao Hospital Pulido Valente. O Diário é extraordinário. Tem apenas doze páginas. Aproximei-me dele como Knausgård se aproximou do de Delacroix. O que me surpreendeu mais na prosa de Florbela foram as encenações de compaixão profunda, em sangramento até, que eu julgava ingenuamente incompatíveis com a afecção neurasténica. “O Dominó Preto” é um conto fabuloso, sobre um homem cujo escárnio e troça da mulher amada o conduzem a um final funesto: é de uma elegância e de uma generosidade assombrosa a forma como ela escreve este personagem. “Amor de Outrora”, que é um conto de uma abnegação extraordinária, uma abnegação com semelhanças e diferenças entre aquela do romance de Madame La Fayette, encontra a protagonista a renunciar a um grande amor para não roubar uma criança dos seus pais, por considerar “o ninho destruído, o pequenino sem pai, uma pobre mulher viúva da pior viuvez, sem o ter merecido”. Um grande amor que lhe escreve: “Pensa, pensa bem, mas só em nós, só em nós dois, que os outros são menos do que sombras, são nada, não existem”. É um trabalho notável que me apetecia adaptar com justiça um dia.
*Texto da autoria de Rafael Fonseca, crítico e realizador de cinema, com textos publicados em Tribuna do Cinema, À Pala de Walsh e Talking Shorts. O seu filme Quorum (2025) estreou recentemente na Cinemateca Portuguesa.