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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Aprendizes à força

Hugo Gomes, 21.05.22

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A Clockwork Orange (Stanley Kubrick, 1971)
 
"Serge Daney referiu uma vez que, no dia em que tiver de forçar os alunos a verem um filme que lhes é oferecido, o melhor será deixar de ensinar cinema por completo. E acho que tinha razão. Não se pode forçar ninguém o que quer que seja se não existir o desejo de o aprender." Alain Bergala em conversa com Alejandro Bachmann.
 
Citação sobre outra citação que resume e traduz sobre cinema, cinefilia e a ideologia envolta desta que referi no passado mês de março [ler aqui].

Questões e contradições ...

Hugo Gomes, 15.05.22

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Cat People (Jacques Tourneur, 1942)

É necessário dar ao cinema a sua descontinuidade, ao espectador as suas questões: são as nossas contradições e as do cinema que escondemos ao mesmo tempo e trata-se, hoje, não tanto de resolvê-las, mas de colocá-las em destaque para ser ver alguma coisa.Louis Skorecki, Contra a Nova Cinefilia (Cahiers du Cinéma, Abril 1978)

 

Um Filme em Forma de Assim ... e de assado

Hugo Gomes, 30.04.22

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Sempre foi do conhecimento público o fascínio que João Botelho nutre pela poesia de Alexandre O'Neill (1924 - 1986), não vá por outra razão a sua longa-metragem “Um Adeus Português” (1986) tenha sido assim intitulada, uma homenagem a um poema dessa autoria. Mas anos após anos de presença no nosso cinema, o realizador e apóstolo induzido de Manoel de Oliveira, quebra o seu registo de obras ao serviço do Plano Nacional de Literatura para se refugiar nas rimas e estrofes de O’Neill, num filme cata-vento quanto ao sabor das suas palavras. Estes textos, agora vencidos pelo tempo, aproveitados e contorcidos como “bem apetecer” no domínio de um realizador que esfrega constantemente a palmas de suas mãos para os deter, conservar e preservar em filme, seu reino e reino à parte da criação de O’Neill

Para isso, regressa a Azeitão a um outrora abandonado armazém de um hectare onde filmou “Os Maias: Cenas da uma Vida Romântica” (2014). O artificialismo aí instalado e acompanhando ocasionalmente a sua obra marca-se como dó predominante neste ziguezague por ruas e ruelas à mão de semear. É neste estúdio improvisado que nasce uma Lisboa de cartão, com habitantes “faz-de-conta”, e no seu seio mal-amparados, fatalistas e eternamente sofredores do campo romântico brotam. Botelho resgata O’Neill e o divide pelos seus heterónimos (poeta errado, mas caminho certo para nunca ceder à biografia convencional), seja Pedro Lacerda, seja Cláudia da Silva, ou até mesmo Crista Alfaiate, pedaços da mesma alma, e um todo do mesmo fragmento. Mas para além da citação e da reinterpretação do trabalho do homem-tributo, “Um Filme em Forma de Assim” conquista-se pela destreza técnica em cumplicidade com o seu jeito contrarrevolucionário à trajetória do cinema português. 

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Muitos clamarão - “cinema de velho” - outros com infame desprezo gritarão com o simples e pejorativo “teatro filmado”, mas esquecerão da existência de uma tradição na farsa à portuguesa, Botelho sempre desejara mostrar e romper as meras ilustrações (aliás, ilustrar têm sido, infelizmente, o seu modus operandis nos últimos tempos) em vénia ao seu mestre desejado, porém, dominá-las tem sido um “bicho-de-sete-cabeças”. Em “Um Filme em Forma de Assim”, sente-se uma liberdade e por sua vez fluidez em percorrer os campos terrenos, esses becos e quarteirões materializados, como o de passear pelo espaço do onírico (sonhos ou visões performadas na narrativa como uma peça vicentina), onde cada travelling, turístico digamos, convida-nos a entrar neste imaginário, nesta projeção lisboeta que apenas vive e revive nas nossas fantasias, encostar as nossas orelhas às conversas nas mesas de clubes privados, afastando-se repentinamente após o primeiro sinal de exaltação. “Disparate”, grita o miope encarnado por Cláudio da Silva (o Fernão Mendes Pinto e o Fernando Pessoa de Botelho) obrigando-nos a distanciar da sua figura, à espera que os ânimos acalmam enquanto Crista Alfaiate tenta ocultar o seu riso trocista, de quem provocou voluntariamente o específico stress. 

É uma fantasia à lá Botelho, com coros, literatura e lendas, e sobretudo danças, não esquecer das danças, techno e juventude a desafiar as leis pandemicas. Pede-se no final que abaixe as cortinas, desaparecendo destes, peões, bonecos descaracterizados ao serviço da poesia, do anormal-quotidiano assim descrito. João Botelho arriscou no seu mesmo universo, ou lá o que isso seja, e talvez tenha aqui o seu filme, a “criatura de Frankenstein", aquilo que sempre desejou. O seu poema. A sua mais pessoal criação.   

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Quem? O infinito?

Diz-lhe que entre.

Faz bem ao infinito

estar entre gente.

 

-Uma esmola? Coxeia?

Ao que ele chegou!

Podes dar-lhe a bengala

que era do avô

 

-Dinheiro? Isso não!

Já sei,pobrezinho,

que em vez de pão

ia comprar vinho...

 

-Teima? Que topete!

Quem se julga ele

se um tigre acabou

nesta sala em tapete?

 

-Para ir ver a mãe?

Essa é muito forte!

Ele tem não tem mãe

e não é do Norte...

 

-Vítima de quê?

O dito está dito.

Se não tinha estofo

quem o mandou ser

infinito?


Alexandre O’Neill ("De Porta em Porta")

Esquecer tudo ou esquecer nada?

Hugo Gomes, 08.04.22

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The Zero Theorem (Terry Gilliam, 2013)

"Esquecer tudo é sem dúvida mau. Pior ainda é não esquecer nada, já que todo o conhecimento é gerado pelo esquecimento. Tudo o que é gravado indistintamente perde o seu significado, como acontece nas memórias alimentadas pela energia elétrica, tornando-se uma amálgama desordenada de informações inúteis."
- Judith Schalansky, An Inventory of Losses

Cinema primitivo!? O que é isso?

Hugo Gomes, 15.01.22

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The Big Swallow (James Williamson, 1901)

O mito diretor do cinema é pois a inteira realização daquele que domina confusamente todas as técnicas da reprodução mecânica da realidade que apareceram no século XIX, desde a fotografia ao fonógrafo. É o realismo integral, a recriação do mundo à sua imagem, uma imagem na qual não era ponderada a hipótese da liberdade de interpretação do artista nem a irreversibilidade do tempo. Se o cinema ao nascer não teve logo todas as virtudes do cinema total do futuro, foi contra vontade sua e somente porque as suas fadas eram tecnicamente incapazes de lhas conceber, não obstante os seus desejos.” André Bazin ("O Mito do Cinema Total"), 1946

Os patetas do costume

Hugo Gomes, 16.03.19

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"A verdade é que nenhum dos filmes portugueses de entretenimento interessa a qualquer um dos meus três filhos, que são espectadores normais de cinema. Porque, patetice por patetice preferem os americanos, que são patetas grandes."


- João Botelho (O Cinema da Não-Ilusão: Histórias para o Cinema Português, de João Mário Grilo)