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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

A morte do cisne ...

Hugo Gomes, 14.02.24

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Black Swan (Darren Aronofsky, 2010)

Ela levantou a cabeça. Era linda. O discreto decote da blusa deixava à mostra a textura reluzente da pele. E que pescoço! Não desses muitos longos. Para ser exato, o mesmo pescoço da Vênus de Praxíteles. Também estive lá. Em Roma. Tenho horror de pescoços longos. Eles me lembram cisnes. E cisnes me lembra morte. A morte do cisne. E a morte do cisne me faz lembrar que também vou morrer um dia. Espero que não seja no lago. Tenho horror de quando começo a pensar. É repugnante. Graças ao demo, dono do planeta, há muito pouca gente que pensa. Ainda bem.

Hilda Hilst, "A Obscena Senhora D e outras Histórias" (edição Companhia das Letras) - "Contos D’Escárnio - Textos Grotescos" / 1990

"A kiss is just a kiss"

Hugo Gomes, 11.11.23

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O beijo entre Humphrey Bogart e Ingrid Bergman em "Casablanca" (Michael Curtiz, 1942)

O tempo voltou a passar. O cinema evoluiu … e o público também. Hoje, já nenhuma vedeta do écran poderá gabar-se de provocar tais arrebatamentos. E o beijo, no cinema, tomado na sua dimensão natural, tornou-se moeda corrente … e desvalorizada.

- Henrique Alves Costa, Memória do Cinema (edições Afrontamento)

"A Sibila", obra infilmável?

Hugo Gomes, 11.10.23

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(...) longe estava de imaginar que aquela mulher, intriguista, sorrateira e tão mesquinha de coração quando cismava uma vingança, intentava um lucro, sempre estuante de atividade e ambiciosa de considerações mundanas, ela, tão rasteira como o pó, fardo de malícia e de estultícia incríveis, ela, uma sibila: ela, alguém que sabia, com o único poder da prece, secar um jorro de pranto e soprar novos alentos numa alma esmorecida e gasta.” 

Sublinhamos que nem Manoel de Oliveira, um colaborador de longa data em atribuir imagética aos escritos de Agustina Bessa-Luís, se atreveu a adaptar o que muitos consideram a sua obra-prima - “A Sibila” [publicado em 1954]. Portanto, quatro anos após a morte da escritora, o tão desejado romance finalmente é alvo de uma adaptação cinematográfica, estando Paulo Branco na alçada da sua produção (quem mais?), confiando o projeto a Eduardo Brito, um realizador que, até então, apenas se aventurou em formatos curtas’. Assim, salta para a sua primeira longa-metragem (uma manobra arriscada e, sem dúvida, um tanto suicida), com um argumento trabalhado e idealizado pelo próprio, um episódio pseudo-biográfico de Agustina (como se acredita) e a ascensão e queda de uma mulher, Joaquina Augusta, que, abraçando o extra-natural e fazendo da sua solidão numa impenetrável fortaleza emocional, emancipou-se até adquirir o título de “dona”. 

Carinhosamente ou respeitosamente apelidada apenas de Quina, é uma mulher dotada de um calculismo frio, rígida na forma como mantém relações até perder a crença no terreno, contrastando com uma ideologia própria situada algures entre a charlatanice e o paranormal. Uma personagem e tanto, poderia ser a vilã de muitas histórias, mas é encarada como uma improvável heroína num mundo (e sobretudo num país) dominado por homens. Talvez seja assim que nos é apresentada e realçada: no meio de homens, com a exceção do seu admirado pai, que são ridículos e imberbes, criaturas animalescas e humilhadas pelo peso do estatuto que ostentam na sociedade. O livro, escrito com uma riquíssima prosa, é um relato detalhado da passagem desta “dona” pelo mundo dos vivos, sugerindo as suas afinidades com os mortos, apresentando uma narrativa que percorre episodicamente ponto a ponto nesta vivência, sem com isto assumir-se convencional ou pormenorizadamente esvaziada.

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Já em “A Sibila” [o filme], a narrativa, ao seguir de perto a falsa passada do livro, assume um registo quase trovadoresco, desprovido de conflitos ou clímax (sublinhando, cinematograficamente convencionais). A obra termina da mesma forma como começa, como uma fábula narrada por entre balanços de uma “rocking-chair” (Agustina Bessa-Luís não traduziu no seu romance, como tal, não irei contrariá-la), evocando um tempo distante à beira do esquecimento, cuja única materialidade remanescente, o "império angariado por Quina", funciona como referência desses encontros. Em outras palavras, tudo nos soa como um flashback prolongado e onipresente pela voz de Joana Ribeiro, aqui interpretando Germa, moça sofisticada, observacional e snob graças aos aos ares de uma certa intelectualidade citadina, relegada a um papel secundário na sua própria história. Portanto, há uma tendência de resumo Europa-América na transição de “A Sibila” para o grande ecrã, um mordiscar aos lugares onde esta Quina (Maria João Pinho) enraizou e “apropriou-se” terreno a terreno, até construir o seu domínio tendo como a Casa da Vessada o epicentro da sua influência.

O filme presta-se apenas a servir como acompanhamento visual do próprio livro, não ostentando vida própria para além da espectralidade da sua ligação. Contudo, há dois tópicos pessoais nesta ilustração, sobressaindo a mão de Brito (resistindo em não se revelar anónimo) do que o escrito de Bessa-Luís. O primeiro, e mais evidente (talvez mais estetizado), é o retrato de família, o único, constantemente diagonalizado na sua esquadria, a imagem-chave de uma família nunca linear, marcada pela tragédia, uma maldição, uma profecia ou algo mais banalizado, possivelmente uma simples “estranheza”. A fotografia de reunião é endireitada, contemplada por olhares melancólicos ou de afirmações, por gerações e gerações. 

A segunda vontade encontra-se no vazio cénico, novamente requisitado por Eduardo Brito como um prodigioso veículo para a história contada. Neste aspeto, extraindo do que dele sugere; os corredores apenas percorridos por correntes de ar, aquela cadeira solitária em amplo salão, a casa decadente, a um passo da ruína, sem antes atravessar o seu esquecimento genealógico. É o regresso a "Penumbria", a sua curta de 2016 onde imagina através do nada um ponto geográfico, uma esquecida Atlântida. Em “A Sibilia”, com um cenário sem vivalma, esse “toque” presta-se a ser mais narrativo do que a própria narração. 

Infelizmente, essas marcas não chegam para aliviar o atlante fardo. Poderemos considerar "A Sibila" infilmável? Até agora ... afirmativo.

O fogo da tentação no coração

Hugo Gomes, 06.10.23

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Virgílio Teixeira em "José do Telhado" (Armando de Miranda, 1945)

A verdade é que entre o povo a noção de propriedade está por demais arraigada para que um ladrão, por mais heróico ou altruísta, não seja julgado como infame. Um assassino é tolerado, pode partilhar o pão dos seus vizinhos, pode fazer esquecer o seu crime. Um ladrão lega a toda a sua descendência um ferrete indelével, porque, se o homicida as mais das vezes obedece a uma paixão, um impulso resgatável e quase nunca repetido, o ladrão traz no sangue, e assim o comunica, o fogo da tentação que as circunstâncias, mais ou menos, ou velam ou expandem. Esses fabulosos capitães-bandoleiros que o vício romântico faz mártires e faz glórias nacionais não passam entre os seus conterrâneos senão por homens cujas virtudes foram reduzidas a instrumentos de perdição e de crime. Admiravam José do Telhado, pasmando das suas fugas insólitas, a coragem carniceira que o fazia coser com a agulha de castrador o próprio ventre anavalhado; louvavam a sua generosidade, comum a homens de tal tipo, que acabam por se explicar como reformadores sociais e se fanatizar contra a lei, mas o povo não lhe perdoava a quebra de confiança a que o obrigava, nem a traição que desse facto, mutuamente, resultava.” Agustina Bessa-Luís, “A Sibila” / edição Relógio d’Água

Ai ... a política dos autores! A política dos autores!

Hugo Gomes, 03.09.23

Silvana Pampanini, unknown and director Abel Gance

Abel Gance e a atriz Silvana Pampanini em "La Tour de Nesles" (1955)

Sim, mas a política dos autores tornou-se muito depressa uma figura para a frente, porque era o mesmo que dizer: efectivamente são todos muitos diferentes, mas têm algo em comum que é o facto de serem “autores”. Mas bom, a partir desse momento, num instante, toda a gente se tornou um autor! É verdade quando são Rossellini e Hitchcock, continua a ser verdade quando se trata de Ford e de Renoir, ainda é verdade quando é Hawks, e continua a sê-lo, claro, quando se trata de Lubitsch ou de Dreyer, mas continua a ser verdade quando se trata de Minnelli, ou por mais fortes razões quando se trata de Richard Fleischer? E depois chegamos à Positif, que se põe a falar de Sydney Pollack e de não sei mais quem, ou tanto faz, porque quando se diz Pollack não se está longe de dizer “tanto faz”!

Portanto a política dos autores é uma resposta má, e sobretudo não explica porque é que, nos “grandes” autores, como de resto nos grandes romancistas, nos grandes pintores ou nos grandes músicos, tudo é interessante, porque os seus falhanços merecem ser considerados com mais atenção do que um sucesso de um fazedor; de resto, no príncipio, era isto que a política dos autores queria dizer. Uma encomenda executada por Abel Gance é mais interessante (porque, se bem me lembro, a primeira vez que François [Truffaut] lançou esta expressão nos Cahiers, foi a propósito de um filme de Gance, “La Tour de Nesle”, que era uma pura encomenda, da qual Gance falava com grande modéstia) … portanto, porque é que “La Tour de Nesle” por Gance pode ser tomada em infinitamente mais alta consideração do que a obra-prima de Delannoy? Eis a primeira questão.

E esta, é um assunto arrumado; mas o que não foi resolvido, o que continua em suspenso, é: o que é que faz com que possamos admirar no mesmo plano - por causa da sua coerência, por causa, digamos, da sua lógica, mas isto não é suficiente - cineastas tão diferentes, e usemos os mesmos exemplos, como Rossellini e Hitchcock.

  • Jacques Rivette em conversa com Hélène Frappat em “Jacques Rivette: O Segredo por Trás do Segredo” (edições Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema) 

Rir, porque morrer é inevitável

Hugo Gomes, 22.08.23

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The King of Comedy (Martin Scorsese, 1982)

Não conheço melhor definição do trabalho do humorista. Fazer com que as pessoas se riam desta ideia: por mais que façam, vão morrer. Fornecer-lhes uma espécie de anestesia para esse pensamento. É um ofício belo, nobre, indispensável e inútil:  sim, o riso tem o poder de esconjurar o medo, mas só durante algum tempo, talvez apenas durante o tempo que dura a gargalhada, às vezes, nem tanto.

- Ricardo Araújo Pereira, “A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram num Bar: Uma espécie de manual de escrita humorística”, publicado pela Tinta da China

Godard, o passador

Hugo Gomes, 13.04.23

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Entretien entre Serge Daney et Jean-Luc Godard (Jean-Luc Godard, 1988)

Hoje, consigo reproduzir procedimentos intelectuais ou discursos próximos dos seus - enfim, próximos do Godard daquele período, uma vez que não sei realmente onde está agora. Sem dúvida que há, no gozo de alguém como ele, uma parte que não é comunicável. A respeito de Godard, Jacques Rancière usou o termo passador. O passador é aquele que reserva para si o gozo da última palavra. Há então uma forma de competição e será cada vez maior para se chegar a ser o último. Godard é, talvez, o último grande cineasta, e eu talvez seja o último crítico a tê-lo feito com … Este orgulho que consiste em querer representar um estado terminal ou uma memória lendária é difícil de passar socialmente; deve haver uma espécie de contradição, um constrangimento duplo, onde colocamos as pessoas e que explicaria, efectivamente, que são absolutamente incapazes de …

- Serge Daney entrevistado por Serge Toubiana  [Fevereiro, 1992], publicado sob o título "Perseverança" (edição portuguesa, com tradução de Luís Lima, publicado pela The Stone and the Plot)

Amar os avós que não nos amam

Hugo Gomes, 10.03.23

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Rue de l'Estrapade (Jacques Becker, 1953)

“Não há muito tempo, estava eu a ver a “História Parisiense" [“Rue de l'Estrapade”], de Becker, na TV por cabo, e não conhecendo bem Jacques Becker, senti-me um pouco envergonhado, pois ele terá sido o único cineasta que, na altura da minha saída da infância, amou a juventude dos actores franceses de então, esses jovens como Daniel Gélin e Louis Jourdan ou Anne Vernon, que tinham tudo para ser os primeiros jovens a estrelar no pós-guerra. Pois, nada disso aconteceu. Não sei o que se passou, mas, dez anos depois, ainda antes da Nouvelle Vague, os cabeça-de-cartaz do cinema francês eram novamente os monstros sagrados de entre as guerras: Fernandel, Gabin, Fresnay, Brasseur, Noël-Noël. Portanto, o que o cinema francês estava a oferecer a uma criança francesa, como eu, eram os seus avós, o vovô e a vovó, decerto fantásticos, mas bastantes amargurados e anti-jovens. Era preciso amar a forma como eles não nos amavam!”

- Serge Daney entrevistado por Serge Toubiana  [Fevereiro, 1992], publicado sob o título "Perseverança" (edição portuguesa, com tradução de Luís Lima, publicado pela The Stone and the Plot)

Uma cadência obstinada

Hugo Gomes, 17.02.23

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Albert Préjean e François Rosay em "Jenny" (Marcel Carné, 1936)

O cinema, essa arte paradoxal, privilegiada, diferente de todas as outras. O cinema, lugar dos pais mortos, desaparecidos, ausentes para uma ou duas de cinéfilos por vir. E eu só posso ser o mais obstinado, amarrado à própria “história” como um molusco ao rochedo.”

- Serge Daney entrevistado por Serge Toubiana  [Fevereiro, 1992], publicado sob o título "Perseverança" (edição portuguesa, com tradução de Luís Lima, publicado pela The Stone and the Plot)