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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Pelo retrovisor ...

Hugo Gomes, 11.01.23

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Taxi Driver (Martin Scorsese, 1976)

“Há uma imagem que me agrada muito, que é a do espelho retrovisor. Há um momento - chamemos-lhe envelhecer, morrer - em que é melhor olhar para o retrovisor. Porque, em suma, podemos ver nele tanto a imagem do nosso passado quanto a forma como essa imagem é modificada por todos os presentes, que já nem sequer espreitamos, e que nos caem dos olhos como palimpsesto efêmero, “dromoscópio”. Contentamo-nos em olhar para trás, para as sobras no retrovisor, para aquilo com o que esse presente se parecia.”

- Serge Daney entrevistado por Serge Toubiana  [Fevereiro, 1992], publicado sob o título "Perseverança" (edição portuguesa, com tradução de Luís Lima, publicado pela The Stone and the Plot)

Educar artisticamente ...

Hugo Gomes, 17.10.22

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"The 400 Blows" / Les Quatre Cents Coups (François Truffaut, 1959)

Há muitos anos que várias pessoas pedem uma maior comercialização das instituições artísticas, das quais se espera que sejam mais acessíveis. Mas a pergunta é até onde se pode baixar o limiar de acessibilidade, se as escolas já praticamente não ministram aulas de arte e a classe política não defende a importância da arte. Não se pode querer que mais gente vá aos museus ou que haja mais leitores, se o público não tiver tido ocasião de aprender a valorizar arte.

  • Joke J. Hermsen ("Melancolia em Tempos de Perturbação") 

O “espectador primeiro”

Hugo Gomes, 07.09.22

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Marguerite Duras na rodagem de “Le Camion” (1977)

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Jean-Luc Godard na rodagem de “Sauve qui peut (la vie)” (1980)

Jean- Luc Godard: Penso que os espectadores são mais autênticos que os … Quanto a mim, nunca me apoiaram, no entanto, eles me deixaram que me apoiasse. Eles só me acolhem bem quando faço o esforço de ir até eles, de outra forma, deixam-me cair …

Marguerite Duras: Mas concordas que há camadas irredutíveis?

JLG: Sim.

MD: Pensava que éramos da mesma opinião. Aquilo a que chamo o “espectador primeiro”, foi sobre isso que escrevi umas coisas esta manhã: o mais infantil, o mais insignificante no cinema, esse, permanece na sua zona, é autista, procura as violências da infância, o medo da infância, e nada podemos fazer para o demover. Portanto , parece-me que há alguma ingenuidade em acreditar que podemos escrever para muita gente. Às vezes acontece, pode acontecer, mas são acidentes do público.

- Conversa datada de 1979 transcrita no livro “Diálogos: Marguerite Duras - Jean-Luc Godard” (tradução de António Gregório e Joana Jacinto, SR Teste Edições)

... e o Titanic afunda-se!

Hugo Gomes, 28.08.22

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India Song (Marguerite Duras, 1975)

Eu faço pleonasmos constantemente. Acredito que quando digo “o Titanic afunda-se” e o Titanic afunda-se, é muito mais intenso do que não dizer nada. Em “India Song”, a dada altura, disse “há gritos de remadores pelo Ganges”, os chamamentos de barco para barco, de pescador para pescador, e eu digo-o, digo que são os pescadores do Ganges, os ruídos de Calcutá. Enquanto os ouvimos. Depois de os termos ouvido, de preferência , imediatamente a seguir. E isso, sinto-o muito violentamente. Decuplica o som. Mas não há nada mais oposto ao escrito que a palavra magistral. A palavra da lei. Por exemplo, repara, o que eu oporia mais ao escrito, mais do que a imagem, é a palavra política. A palavra do poder.

- Marguerite Duras para Jean-Luc Godard, conversa datada de 1979 transcrita no livro “Diálogos: Marguerite Duras - Jean-Luc Godard” (tradução de António Gregório e Joana Jacinto, SR Teste Edições)

 

O realizador por detrás da câmara ...

Hugo Gomes, 14.08.22

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The Man with a Movie Camera (Dziga Vertov, 1929)
 
“Sem mediações nem mediadores, a relação do olho com a realidade é essencialmente direta. A distância, os impulsos, os movimentos, os desequilíbrios que ficam registados (na película ou em digital) são a reação, a resposta espontânea e autêntica da Visão e do Ser do realizador; assim, com o realizador à câmara, filmar torna-se um ato intenso e profundamente impressionista. O realizador que faz a câmara deixa marcas profundas nas imagens que constrói. Seja na relação com os atores, os corpos, a luz, os objetos, a distância / proximidade, o espaço ou o tempo … Cada realizador procura encontrar a sua expressão, o seu ponto de vista, uma maneira singular e própria de olhar para o mundo, de se aproximar e relacionar com as pessoas e a realidade. São estas descobertas que fazem o verdadeiro trabalho do realizador.”
 
- Cláudia Tomaz na crónica “O Homem da Câmara de Filmar”, integrado no número 59 da revista de cinema Premiere Portugal (Setembro 2004)

O silêncio da crítica no templo do cinema

Hugo Gomes, 25.07.22

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Jalsaghar / The Music Room (Satyajit Ray, 1958)
 
"Escrever (inscrever) manifesta o saber-ler porque, na realidade, ler já é escrever (sem inscrição). A leitura é uma escrita que não deixa rasto: escrita plenamente interior ou apenas sussurrada. Só por essa razão – e não por qualquer reverência suspeita – se deve fazer silêncio num museu: alguém, ao nosso lado, pode estar a escrever interiormente." 
 
(Tomás Maia in Incandescência - Cézanne e a Pintura. Lisboa: Cadernos do Atelier-Museu Júlio Pomar/ Sistema solar/ Documenta, 2015, p. 48)
 
 

 

*Da autoria de Pedro Florêncio, cineasta e professor de História de Cinema na licenciatura em Ciências da Comunicação da Universidade Nova de Lisboa

Aprendizes à força

Hugo Gomes, 21.05.22

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A Clockwork Orange (Stanley Kubrick, 1971)
 
"Serge Daney referiu uma vez que, no dia em que tiver de forçar os alunos a verem um filme que lhes é oferecido, o melhor será deixar de ensinar cinema por completo. E acho que tinha razão. Não se pode forçar ninguém o que quer que seja se não existir o desejo de o aprender." Alain Bergala em conversa com Alejandro Bachmann.
 
Citação sobre outra citação que resume e traduz sobre cinema, cinefilia e a ideologia envolta desta que referi no passado mês de março [ler aqui].

Questões e contradições ...

Hugo Gomes, 15.05.22

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Cat People (Jacques Tourneur, 1942)

É necessário dar ao cinema a sua descontinuidade, ao espectador as suas questões: são as nossas contradições e as do cinema que escondemos ao mesmo tempo e trata-se, hoje, não tanto de resolvê-las, mas de colocá-las em destaque para ser ver alguma coisa.Louis Skorecki, Contra a Nova Cinefilia (Cahiers du Cinéma, Abril 1978)

 

Um Filme em Forma de Assim ... e de assado

Hugo Gomes, 30.04.22

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Sempre foi do conhecimento público o fascínio que João Botelho nutre pela poesia de Alexandre O'Neill (1924 - 1986), não vá por outra razão a sua longa-metragem “Um Adeus Português” (1986) tenha sido assim intitulada, uma homenagem a um poema dessa autoria. Mas anos após anos de presença no nosso cinema, o realizador e apóstolo induzido de Manoel de Oliveira, quebra o seu registo de obras ao serviço do Plano Nacional de Literatura para se refugiar nas rimas e estrofes de O’Neill, num filme cata-vento quanto ao sabor das suas palavras. Estes textos, agora vencidos pelo tempo, aproveitados e contorcidos como “bem apetecer” no domínio de um realizador que esfrega constantemente as palmas de suas mãos para os deter, conservar e preservar em filme, o seu reino e reino à parte da criação de O’Neill

Para isso, regressa a Azeitão a um outrora abandonado armazém de um hectare onde filmou “Os Maias: Cenas da uma Vida Romântica” (2014). O artificialismo aí instalado e acompanhando ocasionalmente a sua obra marca-se como dó predominante neste ziguezague por ruas e ruelas à mão de semear. É neste estúdio improvisado que nasce uma Lisboa de cartão, com habitantes “faz-de-conta”, e no seu seio mal-amparados, fatalistas e eternamente sofredores do campo romântico brotam. Botelho resgata O’Neill e o divide pelos seus heterónimos (poeta errado, mas caminho certo para nunca ceder à biografia convencional), seja Pedro Lacerda, seja Cláudio da Silva, ou até mesmo Crista Alfaiate, pedaços da mesma alma, e um todo do mesmo fragmento. Mas para além da citação e da reinterpretação do trabalho do homem-tributo, “Um Filme em Forma de Assim” conquista-se pela destreza técnica em cumplicidade com o seu jeito contrarrevolucionário à trajetória do cinema português. 

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Muitos clamarão - “cinema de velho” - outros com infame desprezo gritarão com o simples e pejorativo “teatro filmado”, mas esquecerão da existência de uma tradição na farsa à portuguesa, Botelho sempre desejara mostrar e romper as meras ilustrações (aliás, ilustrar têm sido, infelizmente, o seu modus operandis nos últimos tempos) em vénia ao seu mestre desejado, porém, dominá-las tem sido um “bicho-de-sete-cabeças”. Em “Um Filme em Forma de Assim”, sente-se uma liberdade e por sua vez fluidez em percorrer os campos terrenos, esses becos e quarteirões materializados, como o de passear pelo espaço do onírico (sonhos ou visões performadas na narrativa como uma peça vicentina), onde cada travelling, turístico digamos, convida-nos a entrar neste imaginário, nesta projeção lisboeta que apenas vive e revive nas nossas fantasias, encostar as nossas orelhas às conversas nas mesas de clubes privados, afastando-se repentinamente após o primeiro sinal de exaltação. “Disparate”, grita o miope encarnado por Cláudio da Silva (o Fernão Mendes Pinto e o Fernando Pessoa de Botelho) obrigando-nos a distanciar da sua figura, à espera que os ânimos acalmam enquanto Crista Alfaiate tenta ocultar o seu riso trocista, de quem provocou voluntariamente o específico stress. 

É uma fantasia à lá Botelho, com coros, literatura e lendas, e sobretudo danças, não esquecer das danças, techno e juventude a desafiar as leis pandemicas. Pede-se no final que abaixe as cortinas, desaparecendo destes, peões, bonecos descaracterizados ao serviço da poesia, do anormal-quotidiano assim descrito. João Botelho arriscou no seu mesmo universo, ou lá o que isso seja, e talvez tenha aqui o seu filme, a “criatura de Frankenstein", aquilo que sempre desejou. O seu poema. A sua mais pessoal criação.   

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Quem? O infinito?

Diz-lhe que entre.

Faz bem ao infinito

estar entre gente.

 

-Uma esmola? Coxeia?

Ao que ele chegou!

Podes dar-lhe a bengala

que era do avô

 

-Dinheiro? Isso não!

Já sei,pobrezinho,

que em vez de pão

ia comprar vinho...

 

-Teima? Que topete!

Quem se julga ele

se um tigre acabou

nesta sala em tapete?

 

-Para ir ver a mãe?

Essa é muito forte!

Ele tem não tem mãe

e não é do Norte...

 

-Vítima de quê?

O dito está dito.

Se não tinha estofo

quem o mandou ser

infinito?


Alexandre O’Neill ("De Porta em Porta")

Esquecer tudo ou esquecer nada?

Hugo Gomes, 08.04.22

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The Zero Theorem (Terry Gilliam, 2013)

"Esquecer tudo é sem dúvida mau. Pior ainda é não esquecer nada, já que todo o conhecimento é gerado pelo esquecimento. Tudo o que é gravado indistintamente perde o seu significado, como acontece nas memórias alimentadas pela energia elétrica, tornando-se uma amálgama desordenada de informações inúteis."
- Judith Schalansky, An Inventory of Losses