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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

À 7ª edição, o Close-Up decide reunir a "Família". Arranca o Observatório de Cinema de Famalicão.

Hugo Gomes, 14.10.22

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Mamma Roma (Pier Paolo Pasolini, 1962)

Para muitos Cinema é somente ver “pictures on a screen”, parafraseando Hollywood, esse oásis do espectáculo, mas existem outros que deparam com estas imagens em grande ecrã em afetividades, emoções envolvidas e devolvidas para mais tarde serem partilhadas por quem compaixão nutre para com tais sensações e impressões. Chama-se cinefilia, o que não é menos que uma “Família”, improvisada, mas sustentada por essa paixão pela Sétima Arte. Família é também o novo estado do Close-Up, o Observatório de Cinema em Vila Nova de Famalicão (a decorrer na Casa de Artes a partir do dia 15 de outubro até 22 de outubro), a 7ª edição, ou como bem gostam de se apresentar, o 7º episódio desta iniciativa que tem magnetizando cinéfilos e cinefilias para a cidade.  

Como já é tradição, o primeiro dia será marcado pela espetacularidade envolvido em memórias de “fantasmas do Natal Passado”, neste novo episódio a tarefa cabe ao grupo musical Glockenwise (Nuno Rodrigues, Rafael Ferreira e Rui Fiúsa) para acompanhar “Melodie der Welt” (Walter Ruttmann, 1929), com isto esperando trazer até ao seu público toda a melodia que o Mundo contém. O Close-Up também nos convidará a regressar ao Gabinete do doutor Caligari (“Das Cabinet des Dr. Caligari”, Robert Wiene, 1920) através de um filme-concerto assinado por Haarvöl, e a fechar a edição com “Memorabilia”, de Jorge Quintela, desta feita com acompanhamento dos Miramar.  

A programação “passeará” por universos familiares da nossa cinefilia, de Paulo Rocha a Emir Kusturica, este primeiro representado pelo documentário de Samuel Barbosa [“A Távola de Rocha”] e o segundo pelo tão célebre “Black Cat, White Cat”, ou por Antonioni a Pasolini, bem representados com cópias restauradas na seção “Histórias de Cinema”, porém o grande destaque deste ano é o ciclo dedicada à documentarista Catarina Mourão, presente para conduzir uma masterclass, é uma oportunidade de conhecer e reconhecer a sua obra, uma reunião das suas primárias pegadas (“A Dama de Chandor”, 1998) ao seu mais recente trabalho (“Ana e Maurizio”, 2020).

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Vizinhos (Pedro Neves, 2022)

Sem esquecer da apresentação de dois livros sobre a nossa relação com o Cinema, seja pela sua História (“História do Cinema: Dos Primórdios ao Cinema Contemporâneo”, organizado pelo professor Nélson Araújo), seja pela sua pedagogia ("Hipótese de Cinema: Pequeno Tratado Sobre a Transmissão do Cinema dentro e fora da Escola” de Alain Bergala), e da estreia de “Vizinhos”, a nova curta-metragem de Pedro Neves (“Tarrafal”, “A Raposa da Deserta”), produzido pelo Teatro da Didascália e pela Red Desert, sobre a comunidade vivida no Edifício das Lameiras, a ser exibido na mesma sessão de “Black Cat, White Cat” de Emir Kusturica.

E é difícil o Close-Up falar sobre família e não demonstrar a sua. Como é habitual no Observatório de Cinema, todas as sessões são comentadas por diversos convidados, desde jornalistas a críticos, artistas e intelectuais, todos unidos para uma só tradição - celebrar o Cinema enquanto Família que somos.

Toda a programação poderá ser consultada aqui.

"Pai, se possível, afasta de mim este cálice"

Hugo Gomes, 19.04.22

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Neste preciso momento não consigo abordar “Il Vangelo Secondo Matteo" (1964) sem começar por o referir, em modo de provocação, como “carta de trunfo” a um (outro) filme que me impôs um nó na minha garganta, nos últimos dias. 

Numa semana em que uma tríptica produção de Joaquim Pinto e Nuno Leonel chegava às salas (ou sala, para ser mais preciso), o célebre filme de Pier Paolo Pasolini era reposto no circuito de projeção. Se por um lado, a dupla portuguesa expunha um cristianismo inabalado, martirológico, e com isso, sem releitura para além das interpretações milenares das escrituras, pregadas e pregadas até se estabelecerem em senso comum, na pedra basilar do nosso mundo ocidental (e anglo-saxónico). Esse medo da morte, e dependência do nosso destino (como da nossa Humanidade) nas "mãos" de um ente divino, embatem no “Cavalo de Tróia” construído por Pasolini, uma adaptação fiel ao evangelho mais que decorado, e por sua vez uma reinterpretação aos escritos, ressaltando a veia marxista e ativista de Jesus Cristo, aqui interpretado pelo estudante espanhol Enrique Irazoqui (que na altura estudava Economia em Itália), liderando um elenco de não-atores. 

O anterior poeta, crítico, e até então, realizador celebrado, premiado e constantemente sublinhando a sua veia provocatória (anteriormente havia realizado a curta “La Ricotta”, irando as comunidades religiosas com um desconstrução aos simbolismos cristãos), pretendia um ensaio contrastado com as grandes produções, aliás, apropriações hollywoodescas dos Evangelhos, nesse aspecto, arquiteta uma aproximação ao neorrealismo italiano, filmando uma obra na sua naturalidade; paisagens naturais, pessoas genuínas (a realçar a própria mãe como Maria em alturas de crucificação) e artifícios engenhosos e criativos de recriação dos milagres em tons artesanais.  

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Il Vangelo Secondo Matteo" responde ao apelo que as muitas obras de cariz religioso não fazem, e como Pasolini assumiu-se ateu, mas culturalmente católico, mais impressionante se torna a sua viragem e tratamento nesta “maior história de todos os tempos” (entre aspas como menção a um ambicioso projeto norte-americano que estreava no ano seguinte), fruto do seu fascínio pelo Verbo, ou a poesia escondida (ocultada pelo obscurantismo religioso que prevaleceu) no Evangelho. Novamente frisando, é na sua fidelidade, citando copiosamente a obra-base, que o realizador encontra e enfatiza o tom emprazado nas escrituras. Cristo, não representado aqui como um somente e “mero” Messias, é uma figura politizada que prega a religião das religiões na sua crua forma, ostentando punhos fechados contra burguesias e defendendo o proletariado com tamanha fé e sabedoria, e raramente sem resposta à sua altura. 

Marxista, acusado por muitos, e mais fundamentalizado tendo Karl Marx como um dos ídolos de Pasolini, “Il Vangelo Secondo Mateo” funcionaria na perfeição como uma obra desse campo, algo propagandístico (segundo as más línguas do outro lado da barricada), resgatando o lado franciscano e igualmente preservando a misticidade sem a utilização gráfica implicada à conjugação do misticismo. É num verdadeiro “faz-de-conta”, em paisagens áridas da Calábria (mimetizando a Palestina), com o apoio de planos gerais, conjuntivos, “abraçando” multidões e escadarias em encostas íngremes como se uma pintura babilónica de Pieter Bruegel se tratasse, composição por vezes desafiada por grandes planos dos seus atores, nomeadamente a de Jesus, de olhos fixos e determinados, numa inexpressividade contrariada à grandiloquência musical integrada por Bach, Mozart e cânticos religiosos.  

É um filme atípico, certamente, e o é num sagrado sacrilégio (mesmo que incompreendido pelo seu acompanhamento, erradamente tido passivo, da matéria-prima), tendo reavido o amor, sentimento contrariado pela Igreja ao longo dos tempos, deturpando os ensinamentos do Nazareno em prol da sua sobrevivência institucional. É este tipo de tratamento, acima do mero lisonjeamento, que separa a “religiosidade” existencial de Pasolini com a religiosidade epifânica de Pinto e Leonel. Pasolini não se fixa, interpreta e constrói a sua realidade (“o cinema ao natural”, como dissera uma vez), e nesse seu quadro nasce um dos retratos mais emblemáticos - do Nascimento à Ressurreição - de Cristo no Cinema.  

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PS: sobre a postura algo rebelde de Jesus na obra de Pasolini, é bom recordar (ou descobrir) o polémico “As Horas de Maria” de António Macedo (1977), que se alimenta dos ecos desse tratamento, porém, elevando o seu tom provocatório ao nível de uma denúncia herética. Mas no fundo, é um dos filmes mais impressionantes e acidamente fracturantes da nossa filmografia.   

Nos bastidores da Páscoa!

Hugo Gomes, 12.04.20

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Monty Python's Life of Brian (Terry Jones, 1979)

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King of Kings (Nicolas Ray, 1961)

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The Last Temptation of Christ (Martin Scorsese, 1988)

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The Passion of the Christ (Mel Gibson, 2004)

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Il Vangelo secondo Matteo (Pier Paolo Pasolini, 1964)

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Acto da Primavera [Manoel de Oliveira, 1963)

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Multiple Maniacs (John Waters, 1970)