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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Um colecionador de autores ...

Hugo Gomes, 09.02.21

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Jean-Claude Carrière (1931 – 2021) foi um dos mais impressionantes argumentistas do nosso tempo, e não há adjetivos que chegue para representar a sua genialidade e, mais que isso, hiperatividade. Digamos que a sua carreira fala por si.

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Birth (Jonathan Glazer, 2004)

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L'ombre des femmes / In the Shadow of Women (Philippe Garrel, 2015)

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Le Charme Discret de la Bourgeoisie / The Discreet Charm of the Bourgeoisie (Luis Buñuel, 1972)

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Cyrano de Bergerac (Jean-Paul Rappeneau, 1990)

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The Tin Drum (Volker Schlöndorff, 1979)

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The Unbearable Lightness of Being (Philip Kaufman, 1988)

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Possession (Andrzej Zulawski, 1981)

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Passion (Jean-Luc Godard, 1982)

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Antonieta (Carlos Saura, 1982)

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Valmont (Milos Forman, 1989)

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Milou en Mai / Milou in May (Louis Malle, 1990)

 

Quando o cinzentismo de Garrel trava a sua criatividade

Hugo Gomes, 23.12.20

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A este ponto, até eu [exausto] repito-me … de Philippe Garrel, nada de verdadeiramente (re)vitalizante parece vir dele desde o momento em que o seu coração assombrou-se pela sua espectral autobiografia (“Coração Fantasmas”, 1996).

A partir disto, o sonambulismo o domou, condenando-o, como Prometeu, a ser desventrado uma e outras vezes até ao fim da sua existência. Canso-me de argumentar perante um cineasta, igualmente … isso … cansado, deveras fatigado no seu recurso formal como também discursivo. Para um homem que lutou e que jurou lutar pela dignidade do proletariado (ou assim discursava) não arreda pé do seu próprio estatuto de privilegiado (o cognome autoral que o mesmo exibe para lhe dar a devida impunidade crítica). Não com isto afirmando, deter o absolutismo da palavra, e sim confessando a minha angustia pelas variadas colagens a frio entre prosas com a frieza das imagens naturalistas nestes últimos Garrel(s). É como se procurássemos as respostas do mundo na sua filmografia.

“O Sal das Lágrimas” (“Le Sel des Larmes”) é possivelmente o seu trabalho menos objetivo, à deriva nos diferentes sentimentos e geografias que o próprio realizador nos habituara nestes seus tempos adormecidos. A fotografia de Renato Berta (novamente) presta-se a pintar esta Paris salgada, melancolizada e monótona … mas já vimos estas cores, já “saboreamos” estes tons, é puramente redundante a esta altura do campeonato tecer elogios para aquilo que não é mais criativo, apenas transpassado.

Todavia, deixemos a coloração de lado, o filme avança com uma paragem de autocarro, uma rua e dois passeios separados por uma via de alcatrão, onde em cada uma das “margens” encontram-se dois desconhecidos que cruzam acidentalmente os seus olhares. Daqui, nasce, aquela que continua a ser a melhor de todas as histórias, “a boy meet a girl” (“um rapaz conhece uma rapariga”). A timidez destes futuros amantes rapidamente concedem a linha narrativa principal (segundo muitos admiradores da obra), esta seria a história a acompanhar (novamente apoiando-se nessa perspetiva). Mas estamos numa história garreleana, há traição nestes sentimentos e cobardia enquanto forças motoras.

O nosso protagonista, Luc (Logann Antuofermo), regressa à sua “terra natal”, nos conselhos e conforto que o seu velho e carpinteiro pai guarda e, bondosamente, entrega em cada necessidade. Nasce a cumplicidade aos olhos do espectador, nem que seja pelo carisma resiliente de André Wilms (uma das faces do muito cinema de Aki Kaurismäki). Garrel procura encontrar naquela figura a sua entidade paternal, os seus afetos perdidos e apenas permanecidos na sua memória, mas esta autognose o atinge, ele já não é mais filho do pai (o que poderia exercer o papel oposto nos seus filmes), e a importância disto é que o filme continua direcionado no tratamento da juventude, aliás a sua visão romântica daquilo que pensa ser a juventude “do agora”.

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O autor não acompanha estas andanças à modernidade, confunde a sua posição libertária com um moralismo castrador, ora, por exemplo, o trio amoroso (ou como dizem os franceses e muito bem … ménage à trois). Este é o teor dos seus últimos filmes, entregar-nos de bandeja um certo hedonismo ou refresco para no final pregar o seu sermão, agarrando à figura paternal, nunca ela devidamente presente, para servir de justificação dos seus atos.

A “miúda” da paragem (Oulaya Amamra), aquela lufada de ar fresco no cinema bafiento do cineasta é um oásis esquecido na gaveta para depois ser “resgatado” no reencontro mais patético entre ex-amantes, mas o que importa não é a natureza desta relação de mãos dadas aos diálogos redundantes e primários (só de imaginar que foram veteranos que escreveram aquele “engate de café”, lido e obtido na fixação racial, dá-nos um aperto), o relevante, para Garrel, é o seu uso para satisfazer a ideia de perdição, ora pecaminosa, do nosso protagonista.

Não querendo aproveitar o mais célebre diálogo de Wilms, mas já que estamos aqui – “Em questão de mobília, já tudo foi inventado” – passemos para “Em questão de Cinema, já tudo foi inventado”. Ou seja, pedir a Garrel a invenção da roda ou reinvenção do Cinema é uma impossibilidade, contudo, não é o solicitado. Para o nosso cineasta de velha guarda é pedido a reinvenção do seu cinema ao invés de se pregar pela cantiga do arco-da-velha – “o mesmo filme e sempre o mesmo filme”. Os convertidos à sua mimica continuarão a ser súbitos, não venho com isto alterar o curso dessa existência, é somente cinema confortável e cinema confortável todos têm (eu inclusive, mea culpa).

A grande questão no Garrel contemporâneo e sobretudo este filme em particular, é a relação deste com o exterior, e não refiro só o papel da crítica ou cinefilia, mas sim a do próprio realizador perante o mundo que o rodeia. Por instantes recordo a sua proclamação de feminismo para a imprensa para acompanhar o seu anterior “A Sombra das Mulheres” (“L'ombre des Femmes” [ler texto]), deslocado para aquilo que o filme realmente refletia. Ou seja, tal como qualquer “velhote”, Garrel é desbocado, fala sobre tudo e sobre nada, só que o seu recente cinema e é demasiado fechado, em constante observação do seu interior ao invés daquilo que realmente se insere.

Parou no tempo, mas ao contrário dele, o tempo prossegue vertiginosamente para a próxima mudança. Aliás, basta ver 2020, esse ano mais que atípico. 

Poderia ao menos mudar de amante por um dia?

Hugo Gomes, 19.05.17

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Se o objectivo era uma comédia sobre dignidades traídas pelo adultério, se seguirmos por esse prisma, então o novo filme de Philippe Garrel - L'amante d'un Jour - é capaz de resultar. Entretanto não é por essa vertente que o realizador seguiu. Fazer o mesmo filme durante anos não será considerado um perfeito acto de conformismo? Nesse caso, que se lixe a politica de autores.

L’Ombre de Femmes: Philippe Garrel, o feminista?

Hugo Gomes, 11.03.17

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Será esta a maldição de Philippe Garrel reviver nestes últimos tempos as mesmas intrigas adulteradas? L’Ombre de Femmes tem sido visto como a tendência feminista no seu discurso das traições, da natureza frágil das relações amorosas e da condição imposta pela sociedade ocidentalizada em matéria da monogamia "forçada".

Sim, para quem assistiu à trilogia dos "Amantes", é melhor apertar o "cinto", porque a mesma jornada é induzida em mais uma tonalidade de tons cinzentos. Em comparação com La Jelouise, esta À Sombra das Mulheres é um upgrade dessas mesmas "sombras", fora Louis Garrel carnal, e entra dois desconhecidos neste mundo "garreliano" para servir de vitimas em mais um fraudulento "faz-de-conta" amoroso. Garrel [pai] aposta numa visão que coloca a mulher acima da fragilidade luxuriosa do homem, entendendo que com essa inclinação sentimental, esteja a conduzir-se num proclamado retrato feminista.

Mas não. Existe sim, um lisonjear ao sexo oposto, abdicando do seu "eu" intimamente masculino para forçosamente inserir-se numa "troca-de-papeis", de forma a quebrar o circulo que o próprio havia criado em loop. Mas a Mulher, valorizada ao estatuto de "Vénus" amorosa, é uma somente doce vingança para a carência impelida pelo seu marido. Voltamos ao palco das milésimas Sabrinas, Rebeccas e de outros romances de cordel - a mulher é ultra-sensível, colocando primeiramente o seu sentimento mais inocente frente ao desejo sexualizado, ao contrário do homem, novamente posicionado como o "sacana" de serviço rendido aos instintos primitivos (será a poligamia um acto meramente primitivo?).

Aqui, o que está em causa não são hierarquias, mas sim igualdades, e neste momento queremos mulher a persistir no seu desejo, na fantasia, não no platónico amoroso que parece aqui instalar-se. Sem com isso negar a possibilidade "civilizada" de uma relação afectuosa ao mais alto nível. Até porque temos dois seres que se completam, que se amam, mesmo expostos a "pecados carnais" de diferentes objectividades. O final, essa quebra de uma maldição "teimosa", é inteiramente enxertada como uma vinha de cultivo, não se sente, apenas "engole".

Todavia, há que valorizar o esforço de Garrel em fugir dos grandes pecados de La Jelouise, começando por diálogos cuidados e trabalhados, "migalhas de pão" em direcção ao adultério, os actores e o seu orgulho de "vestir" tais personagens e a realização menos apressada por parte do nosso Philipe. Por outras palavras, talvez seja a melhor obra do realizador nos últimos tempos, mas longe do feminismo pelo qual é vendido.