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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Na 6ª edição do Close-Up, a Comunidade é o que mais importa!

Hugo Gomes, 14.10.21

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As Tears Go By (Wong Kar-Wai, 1988)

Aquilo que poderia soar a um clube de cinéfilos depressa se transformou num dos mais ascendentes eventos culturais e cinematográficos do país: Close-Up: Observatório de Cinema, uma iniciativa da Casa de Artes de Famalicão, chega à sexta edição, com uma programação fiel à sua génese e igualmente com mais vitalidade.

São filmes, convidados, conversas e eventuais tertúlias pós-projeções: o programador Vítor Ribeiro convidou-me a conhecer as surpresas e ambições de mais uma colheita cinematográfica, com destaque para o cinema de Basil da Cunha (“O Fim do Mundo”, “Até Ver a Luz”) e em dois pólos do cinema asiático, Wong Kar Wai (Hong Kong) e Hong Sang Soo (Coreia do Sul).

O Close-Up arranca a 16 de outubro (sábado) com um filme-concerto dos Sensible Soccers através de dois filmes de Manoel de Oliveira (“Douro Faina Fluvial” e “O Pintor e a Cidade”), e o adeus será com “Metropolis”, o grande clássico de Fritz Lang, acompanhado pelo pianista Filipe Raposo e a Orquestra Sinfónica Portuguesa.

Chegamos a uma 6ª edição de Close-Up, aquilo que poderíamos definir como um espaço cinematográfico e cultural. A primeira questão prende-se na própria formalização e idealização do Close-Up, o que o separa de um festival de cinema, por exemplo?

O Close-up é uma programação da Casa das Artes, o Teatro Municipal de Famalicão. É um Observatório de Cinema instalado no Teatro, que apesar de apresentar um momento intenso de propostas [em Outubro], permanece na agenda da Casa das Artes durante todo o ano, o que fortalece a sua ligação à comunidade, com os vários públicos. Por exemplo, com a comunidade escolar, com quem estabelece um diálogo estreito e permanente. Organizado em panoramas, que articula produção do presente e história do cinema, também privilegia um programa orientado por um mote, com várias paisagens, o dar a ver.

A primeira sessão deste Close-Up é o filme de Philipp Hartmann – “66 Cinemas” – que se centra na viagem de um cineasta por 66 cinemas por toda a Alemanha para mostrar e debater sobre o seu mais recente filme. Pondo as coisas desta maneira e seguindo a trajetória imaginária do filme, como vê a importância de uma iniciativa do Close-Up ou do Cineclube de Joane [um dos apoios] para existência do espaço cinematográfico fora das grandes metrópoles?

O "66 Cinemas" é um ótimo filme para discutir as comunidades e os fluxos de memórias que as salas de cinema podem gerar: encontramos salas que preservam uma solenidade, em extensas plateias sob balcões, com poltronas de veludo, candeeiros de lustre e cortinas que ocultam o ecrã, ou régies, já com projetores de digital instalados, pois as cópias em película desapareceram do circuito de distribuição. Em que se acumula "memorabilia", matéria em tempo de digital, como projetores de película, bobines, cartazes, livros, catálogos de festivais, cassetes VHS. O que procuramos em Famalicão, a partir da Casa das Artes, é constituir um conjunto de propostas ecléticas, que tratam o cinema com a mesma elevação das outras artes, em que a proposta pode ser erudita, com marca autoral, mas também lúdica ou popular – algo intrínseco ao cinema e à sua história, com a condição de que o centro da proposta seja o cinema e não o seu inverso. O espectador de Famalicão, no que depender do nosso trabalho, tem acesso às mais diversas propostas, como uma boa dieta do que poderia encontrar nos centros urbanos de Lisboa e Porto. Esta pandemia agravou um panorama já deficitário de distribuição de salas de exibição em espaço público de cinema, algo que as políticas públicas devem contrariar, na participação do cinema como uma arte transversal, com capacidade para dialogar com plateias muito distintas.

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Cristina Coelho e Hugo Gomes, na apresentação de "Les Miserables" de Ladj Ly, na ediçaõ de 2020 do Close-Up

No Close-Up, a maior parte das sessões são pontuadas por intervenções e apresentações de variados convidados (cineastas, críticos, jornalistas, artistas, investigadores, etc.). Com que parâmetros seleciona essas importantes partes do programa? O que define um “convidado Close-Up”?

O que se procurou com o destaque atribuído aos filmes comentados é a possibilidade de singularizar as sessões, de acrescentar algo ao visionamento, de intensificar relações com outros filmes do programa e com a memória do comentador e do espectador. Na escolha dos convidados-comentadores valorizamos a relação dessa pessoa com a obra, começando pela relação mais óbvia - do realizador com o seu filme -, em que se privilegiam convidados que escreveram sobre o filme e a obra do realizador, mas também procurando trazer para a apresentação das sessões artistas e investigadores de outras áreas artísticas e do conhecimento que desenham tangentes ao cinema.

Algo que se vem percebendo no Close-Up é que poderá servir como barómetro do melhor que é produzido, distribuído e visualizado num ano cinematográfico no nosso país. Como funciona essa seleção?

Desde a primeira edição que definimos um mote que percorre o programa. Mas não é esse mote que define a seleção e os panoramas, é mais o seu inverso. É como quem coleciona filmes e autores que quer mostrar e, a partir de determinada altura, esboça-se algo que agrega aquela seleção e que, queremos acreditar, valoriza os filmes e o seu visionamento naquele espaço de tempo. Nesta edição, o mote Comunidade surge reforçado pelo contexto da pandemia que afastou o público das salas de cinema. Sendo que os filmes que aqui juntamos procuram estabelecer esse diálogo a partir da comunidade de espectadores, num vaivém com um ecrã povoado pelas mais diversas comunidades, que são histórias do cinema, do nosso presente, mas também do movimento das coisas, outros tempos que o cinema permite imprimir num imaginário coletivo.

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66 Cinemas (Philipp Hartmann, 2016)

Um dos destaques deste ano é a dualidade de um conjunto de obras de Hong Sang-soo e Wong Kar Wai. No programa impresso encontramos um propósito, mas gostaria de saber pelas palavras do programador o que o levou a juntar dois artesãos das relações afetivas no grande ecrã de estirpes e nacionalidades diferentes.

Na secção Histórias do Cinema procuramos não só mostrar um conjunto de filmes de um autor, mas também colocar em diálogo dois ou mais cineastas, sendo que, curiosamente, a primeira edição também veio de terras asiáticas, com a partilha de mundos, de temas, das famílias e dos lugares de Yasujiro Ozu e Isao Takahata. Nesta edição, ao longo do processo de inventariar possibilidades, apareceram muitas vezes os nomes de Wong Kar Wai e Hong Sang-soo. Se Kar Wai, através da reposição de cópias novas, intensificou a memória dos espectadores que fomos há mais de 20 anos, Sang-soo é um realizador prolífico que nos chegou tardiamente, mas que ocupou o seu lugar na comunidade cinéfila. E se muitas vezes as propostas de um e de outro parecem funcionar por oposição, a velocidade das imagens em movimento de Kar Wai versus um caráter mais contemplativo, também aos pares, de Sang-soo, talvez o coreano seja um autor do nosso tempo, com o cinema, a criação e as suas frustrações, como assunto, enquanto lá atrás Kar Wai usava a cultura popular para nos apontar a vertigem da viragem do milénio.

Como poderá crescer ainda mais o Close-Up? Que outros desafios terão num futuro próximo?

Para lá da exibição, dos encontros entre documentário e ficção, entre produção do presente e história do cinema, na procura de fazer emergir as potencialidades humanistas do cinema, há uma vertente que também pontuou as seis primeiras edições e que é inerente à condição de integrarmos um Teatro Municipal: o apoio à criação. Apresentámos filmes-concerto em estreia, respostas de encomendas da Casa das Artes, cruzamentos artísticos, a que responderam Sensible Soccers, Dead Combo, The Legendary Tigerman, Os Mão Morta, Orquestra Jazz de Matosinhos, Black Bombaim e Luís Fernandes. Paralelamente, promovemos o apoio à produção de filmes de Mário Macedo, Tânia Dinis, Eduardo Brito ou Luís Azevedo, em formato de curta-metragem e associados a ciclos e cartas brancas com esses realizadores. 

Um desafio para edições futuras será intensificar esse apoio à criação, fazendo-a ter ainda mais peso no programa. Se os filmes-concerto relacionam história do cinema com novas criações, obras importantes que chegam a outros espectadores transportados por outras bandas sonoras, há outra ambição, também relacionada com o património do cinema, que é a de proporcionar panoramas de obras de realizadores importantes, mas que não obtiveram distribuição, que foram pouco mostrados em Portugal, para lá de exibições na Cinemateca Portuguesa e que passará, também, por concertar parcerias com outras estruturas de programação.

66 Cinemas depois ... Uma conversa sobre o futuro das salas com Philipp Hartmann

Hugo Gomes, 06.12.20

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"66 Cinemas" (Philipp Hartmann, 2016)

Em Portugal existe um provérbio antigo e exaustivamente utilizado no nosso quotidiano – “Se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé” – e foi através deste tipo de pensamento que o documentarista alemão, Philipp Hartmann, perante uma falta de interesse das distribuidoras locais no seu filme, decide ele próprio transportar o seu trabalho a 66 cinemas espalhados na Alemanha e alguns da Suíça.

A ideia inicial era fazer chegar a obra ao maior número de pessoas, mas o sangue de cineasta corre nas veias de Hartmann, e determinado a registar estes seus encontros com os públicos, proprietários, técnicos ou simplesmente de passagem nos cinemas que o acolhera, transformou-se rapidamente numa reflexão perante o futuro do cinema enquanto espaço de partilha de experiências e de ideias.

Aproveitando a sua própria passagem no Doclisboa para apresentar um novo trabalho seu “66 Cinemas”, falei com o realizador sobre a sua digressão cinematográfica e sob a influência pandémica o qual vivemos. Uma conversa acerca da sobrevivência, ou será melhor, resistência a este nosso património – os Cinemas.

66 Cinemas” está disponível no videoclube da Zero em Comportamento.

Sabendo que o seu filme foi produzido em 2016, chegando só em 2020 ao alcance do público português, não podemos deixar de evitar de falar sobre este cenário atual. Numa altura em que se cada vez mais se fala da morte do cinema, não como a arte em si, e sim espacial – a sala de cinema – de que forma, o seu filme tornou-se premonitório no seu gesto?

Gostei do momento quando este filme é lançado, no meio da pandemia onde ninguém sabe ao certo se teremos cinemas ou não. Aproveito a tua pergunta, que achei curiosa, o de pensar no cinema como um espaço, que também, como se vê, é uma incógnita. Será que as salas de cinemas serão preservadas, sendo que no centro crise exista uma limitação que condiciona a própria experiência, assim como a rentabilidade do espaço? Mas como gesto, o de mostrar um filme sobre cinemas neste preciso momento em que eles terão, mais que tudo, dificuldades, é um gesto de resistência.

Esta estreia coincidente é um gesto de resistência!

Fica aqui só um aparte, há algumas semanas recebemos uma notícia de que, estimava-se, 50% dos cinemas portugueses em Portugal poderão encerrar até ao final do ano. Voltando ao seu filme, o “66 Cinemas” já nos apresentava um sector em resistência. Relembro que muitos deles continham restaurantes ou cafés como alicerce financeiro, e que os seus trabalhadores afirmavam sujeitar aquela posição como amor. Hipoteticamente, se não existisse pandemia, acreditaria que muitas salas não sobreviveriam num futuro bem próximo?

Bem, em relação aos cinemas, eu posso abordar a situação na Alemanha, o qual imagino que seja parecida com o cenário português, não em relação afetiva ou “quantidade” de amor ao cinema, mas na sua relação económica.

Na Alemanha, os cinemas não possuem muitas, mas tem certa ajuda financeira por parte do Governo(s). Não refiro a grande parte das salas, mas a esses, chamaremos assim, “cinemas de resistência” do qual recebem alguns tipos de ajuda, que só compõe uma parte do orçamento deles. Porém, só uma parte que os ajuda a sobreviver nesse mercado que não é de todo um mercado muito lucrativo. Mesmo assim, para muitos não é mais do que um hobby. Existe um amor ao Cinema que se revela numa força maior que os move a promover a Arte. Mas por um lado, existe o fator económico que obriga muitos desses cinemas a encontrar maneiras para conseguir sustentar-se. Por isso, com ou sem pandemia, a situação já era difícil.

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Philipp Hartmann

Por outro lado, desvalorizando a própria pandemia, relembro que nos anos 50 já se falava da morte do cinema em sala com o surgimento e expansão da televisão, e nas décadas seguintes atribuiu-se a culpa ao VHS, depois chegaram os DVDs, a Internet e agora Netflix, ou seja, existe sempre uma força antagónica perante as salas de cinema e que é vista como seu carrasco. No final, o cinema sempre sobrevive. A minha esperança e otimismo, o qual tentei depositar no filme, é que enquanto existirem pessoas determinadas a lutar pelo cinema ou demonstrar o seu grande amor por ele, este sobreviverá.

Pode ser um ato de resistência, e seguramente o é, mas espero que seja o caminho do sucesso na luta. Mas agora, com a pandemia, a situação será mais complicada, porque depende do nosso regresso à “normalidade” e de quanto ajuda os Governos estarão dispostos a dar para os proteger, ou os salvaguardar, quem sabe, de uma próxima pandemia.

E quanto à resistência do seu ato de amor?

Nesse sentido, me vejo do lado do cinema, porque o meu modo de fazer cinema, é também dirigido por amor, por convicção, do que pelo lado económico. Com os meus filmes, eu ganho praticamente nada, mas que tenho conseguido realizar, com sorte, graças aos apoios de finalização por parte do Governo. As minhas últimas três longas-metragens só foram possíveis com essas doses de determinação e ajuda.

Não faço filmes por resistência, mas resisto ao mercado e às condições adversárias.

Um ponto curioso neste seu filme, é que ele nasceu a partir de outro filme – “Times Goes By Like a Roaring Lion” – o qual iniciou a tournée. Gostaria que me falasse qual foi a altura ou momento em que encontrou nesta sua viagem um motivo para a criação de um novo filme?

Não foi a ideia inicial, mas o motivo é um pouco nessa linha que acabou de falar, do qual sentia o lado dos operadores de cinema. Talvez porque lutamos pela mesma causa em diferentes sentidos. Eu faço filmes resistindo ao mercado desfavorável e eles também resistem. Então, lutamos juntos e é através dessa união de forças que se torna possível levar esses filmes ao seu público.

Para o meu filme anterior, “Time Goes by Like a Roaring Lion”, não encontrei nem uma distribuidora interessada … imagino que seja um filme difícil de se vender segunda a lógica do mercado …. visto tratar-se de um ensaio muito pessoal e filosófico sobre o tempo … por isso decidi distribui-lo pelos meus próprios meios. Contactei os 66 cinemas … aliás contactei muito mais mas só este número acabou por me convidar a mostrar o meu filme. A intenção era exibir o filme, comigo presente, o qual faria uma apresentação ou participava nos Q&A, e no dia seguinte partia para o seguinte cinema.

Tive 3 a 4 meses nesta tournée, percorrendo toda a Alemanha e uma parte da Suíça. Porém, foi antes da viagem – percebendo a grande oportunidade que teria para conhecer todos estes cinemas – que senti-me na obrigação de levar uma câmara comigo, para poder documentar. Aí pensei mesmo em fazer uma “coisinha” rápida com entrevistas, só que no final recolhi entre 200 a 300 horas de filmagens! É óbvio que não seria uma “coisinha” rápida como previa. A juntar isso, tive a sorte de vencer um edital em Hamburgo, uma verba pública para me ajudar a montar e a colocar alguma dramaturgia no projeto, e pude tomar o tempo necessário e preciso para trabalhar neste filme. Passei quase um ano só a montá-lo.

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“Time Goes By Like a Roaring Lion” (Philipp Hartmann & Jan Eichberg, 2013)

Dessa sua experiência pelos cinemas, o que é que extraiu na relação entre o seu filme, “Time Goes By Like a Roaring Lion” e o público?

A experiência mais importante e prazerosa, para mim, foi o contacto com o público.

Neste caso específico, o “’Roaring Lion”, sendo um filme bastante pessoal e em efeitos de ensaio não é propriamente um filme que tenha uma mensagem e percetível, há que pensar sobre ele. Para mim era interessante perceber e ouvir o que o público pensava sobre o meu trabalho. Em cada apresentação, aprendia algo novo com este filme. E só de o repetir por 66 vezes essa experiência tornou-se ainda mais fantástica.

O contacto é um dos elementos que mais se destaca no cinema, o lugar social onde vemos um filme juntamente com outras pessoas, dando a possibilidade de poder debater ou trocar ideias com os demais. Esse lugar de comunicação é o que mais me diferencia de ver um filme numa sala do que … sei lá … ver um filme em casa, por exemplo. Muitas vezes nos nossos sofás, computadores, televisões e até mesmo projetores não temos essa possibilidade de partilhar a experiência com outras pessoas.

Pegando nessa sua última frase, “partilhar a experiência”, acredita que é dessa forma que o Cinema ganha ao streaming?

Com certeza. Fora essa experiência social, o qual podemos presumir replicar em nossas casas com um grupo de amigos, é na partilha com desconhecidos que nascem encontros improváveis e enriquecedores. Para além de não falar nas condições técnicas, não se compara as muitas salas de cinemas com o home cinema. Outro fator que pode, e muito, distanciar da experiência caseira, é que muitos destes cinemas possuem uma curadoria.

Durante a rodagem de “66 Cinemas” deparei-me com diversos espectadores que me confidenciaram ir para aqueles mesmos cinemas, porque segundo eles “aqui só ‘passa’ filme bom”. Ou seja, em muitos destes espaços existe uma confiança nos programadores, um vínculo com os espectadores e por sua vez, são muitas destas salas que formam público.

Enquanto no streaming somos refém de um algoritmo …

Sim, mas por vezes não é só o algoritmo, o MUBI, por exemplo, que é uma plataforma que eu uso, existe de facto uma curadoria. Mas para muitas pessoas, normalmente quem não seja cinéfilo, há uma relação de confiança com o programador do cinema na esquina do seu bairro, porque isso lhe traz uma possibilidade de discutir o que viu com ele.

Tendo em conta que está em Lisboa para apresentar um filme num festival de cinema – aliás devo realçar, físico – relembro que no início do ano vários festivais (como por exemplo, o Visions du Réel), de forma a sobreviver, migraram por completo para o online através de plataformas próprias. O que pensa sobre isto, e se o streaming é uma solução para estes tempos incertos?

É uma pergunta interessante, até porque o filme que é exibido no Doclisboa é outro – “Virar Mar” – que é um filme criado para o efeito de ser visualizado no grande ecrã. Há um cuidado especial nesta obra, nem que seja pelos atributos técnicos, o qual destaco a excelente fotografia que requerem esses elementos. Já “66 Cinema” é uma produção que se vê bem em outros ecrãs, não é um filme que apela à grande tela e se encontra em outros festivais, grande parte deles, virtualmente.

Quanto à questão dos festivais online, enquanto durar esta pandemia, penso que é melhor um filme ser visto nessas condições do que não ser visto. Não tenho uma opinião decidida sobre essa migração para o online, só acho que de momento o streaming e essas plataformas são a alternativa arranjada para o Cinema. Mas quando a pandemia terminar, há que terminar essa tendência de “ir tudo” para online. As pessoas tem que voltar aos cinemas, porque é aí que o único local onde o cinema deve ser visto.

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“66 Cinemas” (Phillip Hartmann, 2016)

No seu filme encontrei uma definição bastante paradoxal que é o “multiplex independente”. Quer me explicar o que é certamente?

Julgo que estás a falar concretamente do Cineplex? São uma franquia de cinemas que antigamente era salas de cinearte, mas que nos anos 90 de forma a conseguir adaptar e sobreviver aos novos tempos, nomeadamente com o aparecimento dos multiplexes, os donos aperceberam que para isso não poderia restringir com o filme do Godard ou de outro autor e que teriam que albergar esses blockbusters americanos e vender pipocas e todas essas ‘tretas’ de consumismo. Não sei se concordo muito com esta tática, mas foi através delas que estes cinemas perduram.

Ainda hoje esses Cineplexes são geridos por uma família, ao invés de uma empresa … sei lá … sediada em Inglaterra, ou algo assim. Mas no caso do Cineplex que se encontra no meu “66 Cinemas”, a gerente tinha um luxo especial que era, para além da programação estandardizada, poderia todas as semanas apresentar um filme específico e convidar um realizador para falar dele. Tive a sorte de ser um desses realizadores convidados e foi uma experiência particular. Na minha sala encontravam-se entre 15 a 20 pessoas, enquanto sabíamos que na sala ao lado havia 300 a ver o último “Star Wars”, mas não me importava, porque sabia perfeitamente que as 15 pessoas certas estavam a ver o meu filme.

Um fenómeno curioso que aconteceu em Portugal, possivelmente tenha acontecido em outros locais como na Alemanha, foi que na reabertura dos cinemas assistimos um sofrimento dos multiplexes em reaver o seu público, enquanto os poucos cinemas de bairro e independentes readaptaram-se melhor a esta “nova normalidade”.

Os que mais sofrem com a pandemia, pelo que acompanhei na Alemanha e aqui pelo que dizes é um cenário idêntico, sãos os multiplexes, porque não têm o novo James Bond ou o antecipado blockbuster, enquanto os cinemas de bairro, os de cinearte têm suficientes filmes para exibir, sofrendo menos com essa “falta de programação”. Já imaginei o seguinte: que no fim da pandemia morre o cinema comercial e só sobrevive os pequenos. Seria a vingança do cinearte!