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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Petra Costa: na vertigem do trauma e da sensibilidade do Brasil

Hugo Gomes, 01.05.20

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Vertiginoso é o caminho que Petra Costa percorreu até chegar a esta sua retrospectiva no Visions Du Réel.

A cineasta brasileira tem caminhado de braço dado com a sua própria intimidade, até mesmo na proximidade com a esfera política, a qual resultou no seu filme mais bem-sucedido – “A Democracia em Vertigem” – conquistado uma histórica nomeação nos Oscars de 2020. Mas longe do estetizado retrato da fragmentação da ética política brasileira, Petra Costa sempre fora uma ativista no seu jeito autoral, entregando como grande arma massiva a sua sensibilidade.

Sabendo que os tempos do COVID-19 impediram que o festival suíço se realizasse sob os moldes tradicionais, decorrendo exclusivamente online, o meu reencontro da cineasta foi dividido por um ecrã, e partilhado por temas fortes e quentes, muitos deles impostos por esta “nova normalidade”. O cinema brasileiro, o estado do Mundo, o íntimo e o trauma como os mais cumpliciados inimigos, foram os tópicos trazidos nesta conversa “distante”.

Gostaria de começar com o próprio convite da Visions du Réel, do atelier que irá coordenar e claro, a retrospectiva integral da sua obra. Como se sente? O que espera atingir com este projecto?

Fiquei muito honrada com o convite, acompanho desde há muito este festival. Visions du Réel trouxe sempre consigo uma visão bastante interessante e inovadora do universo do documentário, assim como o ramo mais híbrido da ficção. A minha ideia para o atelier é falar sobre a minha trajetória, a minha busca nos meus filmes ao longo dos anos.

Tendo em conta estes novos tempos, o que tem a dizer sobre as mudanças trazidas com o COVID-19? Os festivais? A cultura? A política? O mundo?

Antes de tudo, é uma pena não estar presente, porque seria marcante o facto de todos os meus filmes serem exibidos em retrospectivas e poder falar sobre cada um deles. Tal vai acontecer, mas infelizmente não será presencial.

Quanto à pandemia, penso que ela trará uma reflexão importante para a Humanidade, visto que viemos de um ritmo insustentável há muitos anos. Não conseguindo perceber os recados ou pregados desse ritmo predatório da Humanidade, e muito pelo contrário, a ascensão de regimes fascistas tem acelerado ainda mais o capitalismo selvagem. Penso que o vírus acaba por deixar cair a máscara do fascismo, e mostra o quanto era um impulso de morte, uma forma de desconsiderar a vida humana, como fica claro com o governo do Bolsonaro aqui no Brasil. Espero que acorde mais consciências sobre o Estado, do bem-estar, da saúde pública, um governo mais ligado às questões sociais.

Artisticamente, para todo o Mundo, mesmo com desafios imensos (toda a questão de desigualdade social que tanto aflora, as mortes – é muito duro lidar com isso), quem puder, ou simplesmente privilégio, ter este tempo como uma interiorização ou meditação e reflexão. Acho que é muito positivo, visto que ficamos muito virados para fora. Então, o vírus está a obrigar todo o mundo a parar e a refletir.

Sabendo que numa fase pré-pandemia o cinema brasileiro … como diria … encontrava-se de “mãos atadas” pelos constantes cortes e mudanças radicais no seu sistema de financiamento, produção e distribuição. Acha que o cinema brasileiro sobreviverá com este abalo, sabendo que depois disto, com alguma previsibilidade, surgirá uma recessão económica? Será o golpe misericordioso?

Democracia em Vertigem (Petra Costa, 2019)

Todos andam muito receosos, porque mesmo antes disto, já vínhamos de uma escalada de destruição do cinema nacional. São centenas de filmes que estão esperando o dinheiro que está bloqueado na ANCINE e muitos atos de censura no audiovisual brasileira. Está uma verdadeira destruição, e isto só vem agravar ainda mais esse cenário. Sim, preocupo-me com isso, e não tenho uma boa perspetiva. Mundialmente, a crise financeira vai ser calamitosa, e tenho receio do que isto nos vai levar. Ou uma ascensão ainda maior do fascismo ou não. Espero que uma onda de solidariedade seja motivado por essa pandemia, talvez o surgimento de governos mais presentes no bem social, mas por enquanto é difícil de prever o que vai acontecer.

Para terminar o assunto do COVID-19, gostaria que me falasse do projeto “Dystopia”.

É um projeto que surgiu desse desejo de retratar um momento histórico que nós estamos vivendo, e tendo essa quarentena ampliada, o que temos pedido às pessoas é registar as suas experiências na pandemia, quer no Brasil, quer no resto do Mundo. O nosso desejo é criar um mosaico de emoções dessa pandemia, ou pandemónio como quiserem chamar. Em que as desigualdades e as contradições da nossa sociedade fiquem escancaradas. Além disso, temos algum material filmado por nós mesmos, que tem sido bem fortes.

A Petra Costa vai realizar ou somente estará presente como produtora?

Ainda não sei. O projeto está em construção. Estamos produzindo e nem sequer sabemos como será o produto final.

Se pegarmos na sua obra, existe uma definição geral do seu cinema – intimidade. Desde a curta Olhos de Ressaca, passado pela belíssima confissão em “Elena” e até mesmo “A Democracia em Vertigem”, onde os avanços /recuos da política brasileira seguem em conformidade com a sua própria experiência, lidamos com essa mais íntima pessoalidade.

Muito antes de começar a fazer cinema, fiz um ensaio de uma peça, pelo qual sou encantada, que é o Hamlet, que joga na intimidade de Hamlet, da Ofélia, da Gertrudes. De muito estudar essa peça, adquire o desejo de fazer investigações que chegassem a esse nível de intimidade. Era justamente essa palavra: chegar nessa intimidade. E também, vem da minha experiência no teatro, um grupo chamado Teatro da Vertigem, inspirado na vanguarda norte-americana, que nessas minhas pesquisas teatrais o que tinha mais interesse era exatamente aquilo pelo qual tinha mais vergonha – da minha própria experiência. E quando conseguia acessar a isso, descobria material que era valioso em ser partilhado.

Também aproxima-se de outro conceito que tenho mergulhado muito que é o trauma. E o trauma, talvez seja as nossas experiências mais íntimas. As experiências, além das amorosas, são traumáticas. E o trauma é como um buraco negro que é contado através de uma cicatriz psicológica, onde se apaga todo o significado, a nossa capacidade de criar uma significância, e aí vem a tendência de repetir os atos traumáticos porque nunca tivemos a capacidade de elaborá-los. Os filmes, por um lado, também são tentativas de elaborar traumas; o suicídio de Elena [irmã de Petra Costa] e a sensação de estar a repetir os passos dela (que é próprio do trauma), e no “Olmo e a Gaivota” é o desafio de morrer para dar a vida ao outro (um trauma muito pouco explorado, as pessoas tentam desmistificar e apagar tudo o que é escuro do processo de gravidez, duma forma bem machista) e no "Democracia em Vertigem" é evidentemente o trauma político, o de ter a democracia como um dos poucos alicerces certos do qual me poderia posar na sociedade brasileira, ser rapidamente destruídos.

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Hector Babenco em "Babenco: Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer Parou" (Bárbara Paz, 2019)

No Visions du Réel, nem todos os filmes que englobam a sua retrospectiva são da sua autoria, uma delas é “Babenco: Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer Parou”, de Bárbara Paz, que conta com a sua produção. Queria que me falasse sobre esse projeto de um dos “heróis esquecidos” do cinema brasileiro.

Sou amiga de longa data da Bárbara Paz e ela conversou comigo desde o começo sobre o seu desejo de fazer este filme. Ela era companheira do Babenco. Eu tinha uma grande admiração pelo seu trabalho assim como a “Elena”, o qual um dos seus grandes sonhos era ser atriz num dos seus filmes, visto que também era um dos poucos realizadores a trabalhar no Brasil nos anos 80. Ela até escreveu uma carta para ele, na altura que rodava “At Play in the Fields of the Lord”.

A Bárbara desejava elaborar um documentário mais afetivo, lírico e não ter a pressão de cometer uma biografia documental, então sugeri-lhe um filme – “As Praias de Agnès Varda” – e disse-lhe que ela teria que sentir-se livre para fazer aquilo que realmente sentia. No fundo, foi isso que o filme é, uma carta de amor, e como a poesia do cinema dele trouxe muito daquele cinema à vida. É muito emocionante, chorei juntamente com muitas na plateia durante a estreia do filme no Festival de Veneza, o qual acabou de vencer um prémio lá.

Durante a promoção de “Democracia em Vertigem” nos EUA, referiu inúmeras vezes que tinha material para uma espécie de sequela do filme.

Tinha sim, mas também teria que produzir muito mais, apesar que na política brasileira o argumentista continua excelente, com reviravoltas cada vez piores. Aliás, nós superamos o argumentista de “House of Cards”, que na altura nos disse impressionado que julgava que a sua ficção superasse a realidade, mas ao ver “Democracia Vertigem” apercebeu que a “vossa realidade supera a nossa ficção.”

Voltaria a trabalhar numa continuação dessa jornada na política brasileiro?

Não sei, por vezes sinto uma compulsão de fazer, mas ao mesmo tempo não desejo seguir o que já fiz. Procuro sempre novos desafios. Para dizer a verdade, não sei.

Voltando um pouco à temática da “Dystopia”. No Brasil, é irónica a guerra que existe entre o Presidente e vários governadores, anteriores apoiantes dos seus ideais, quanto ao confinamento e as formas de prevenção e combate da pandemia. Com isto gostaria de perguntar: é que com estes tempos de sobrevivência até mesmo os ideais são colocados em segundo plano?

É um pouco como eu falei, é um dos pontos positivos desta vinda do vírus, a máscara do fascismo vai caindo e também vai-se desintegrando. Mas é uma característica própria do fascismo e do nazismo, estão sempre se traindo a si mesmos. Acho que quando uma pessoa sai da barbárie acaba sempre por ser devorado pela própria barbárie. É como a SS [organização paramilitar ao serviço do partido nazi], que acaba por trair a SA [divisão de assalto do regime nazi] do e vice-versa, uma ala do Hitler começava a assassinar outra, é uma ideologia tão sem escrúpulos que se vai auto-destruindo. Mas acho que é muito positivo que tem tido uma dissidência e governadores que tem tido atitudes muito mais sensatas, aqui no Brasil, que estão a favor da quarentena e contra um Presidente que menospreza tudo isto como uma “gripezinha”, induzindo a Nação a um suicídio coletivo. Ele tem perdido cada vez mais apoios, entre eles.

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Elena (Petra Costa, 2012)

Toquei novamente na questão da política porque gostaria que me dissesse o que sente acerca dos ataques pelo qual a Petra Costa é alvo desde o lançamento de “Democracia em Vertigem”. Não sente raiva?

Não sei se diria raiva, porque grande parte disso são ataques orquestrados, são "robôs". Depois de terem me atacado, seguiram em frente contra a Patrícia Campos Mello, que é a jornalista que revelou o esquema de corrupção e fabricação de fake news que beneficiaram a campanha eleitoral de Bolsonaro. Isto não passa de uma “caça às bruxas”, vindo de um ímpeto machista que muito privilegia os erros do próprio governo, com apenas o intuito de atacar.

Assim que João Dória [governador de São Paulo] começou a posicionar-se a favor da quarentena e contra as indicações do Presidente, surgiu no Twitter, trends como #ForaDoria, #ImpeachmentDoria ou até mesmo #ImpeachmentMaia. São claramente ações orquestradas por robôs. Eles dominam essa tecnologia, por isso é uma tarefa das nossas instituições aprenderem rapidamente como os controlar, assim como as redes sociais como o Twitter e Facebook, a punir e controlar esses robots. Porque são um quinto poder que ameaça a nossa liberdade de expressão e influencia a nossa democracia. Não possuem qualquer tipo de regularização. Estão a colaborar com a reeleição dele e a destruir a nossa democracia. Ainda estamos muito atrasados em controlar esses exames tóxicos que estão extraviando as nossas redes. É uma tristeza, porque é um ataque a mim hoje, mas amanhã poderá ser a outro. É um ataque a todos.

Em Berlim deste ano, a produtora Sara Silveira (“Todos os Mortos”) fez um discurso emocionante na conferência de imprensa, proclamando o cinema como resistência. Acredita que o cinema brasileiro é a grande resistência da democracia brasileira?

É uma importante fonte de resistência desse avanço autoritário. Tem sido, ao longo das décadas, como nos últimos anos.

Década 2010 - 2019: os filmes que ditaram a nossa jornada pela imagem

Hugo Gomes, 28.12.19

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Antes de começar com a previsível justificação da minha seleção, queria mencionar um filme que apesar de se encontrar ausente desta listagem, foi importante e reflexivo para com a virada da década, e quiçá, desenhando aquele que diríamos ser o cinema das próximas gerações.

Essa obra é nada mais, nada menos, que a “The Social Network” (A Rede Social), de David Fincher, que acertou contas com um dos possíveis vórtices da nossa identidade do século XXI, enquanto individual, enquanto coletiva. Não poderemos negar que os nossos dias são demasiado dependentes desse dispositivo - o de trabalhar a nossa imagem para o exterior e moderar a exposição do nosso (não) íntimo. Digamos, que foi através desses pensamentos perante tal “futilidade”, do qual se tornariam o espelho narcisista da nossa modernidade, que Aaron Sorkin inspirou-se para escrever esta fictícia trama (na altura apontada como “cedo demais”) que operaria como pontapé de saída para os filme que reúno aqui – intimidade expositiva e a imagem fabricada da nossa existência.

Por isso, passeamos pelo último gesto de cineastas incompreendidos (The Other Side of the Wind, The Turin Horse) até à possível previsão do futuro do cinema (Holy Motors, The Congress), a nossa exposição sentimental como instalação artística (Elena, Before We Go, L’ Vie d’ Adèle), a identidade ou existência como demanda de natureza várias (La Grande Bellezza, La Piel que Habito, Django Unchained). Mas no seu todo é uma “mixórdia”, como muitos deverão salientar, de velhos autores em reunião com outros nomes sonantes e promissores que aguardam pelo seu tempo. Porque o cinema tem destas coisas - o de esperar para ver.

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1 -The Other Side of the Wind (Orson Welles, 2018)

2 – Holy Motors (Leo Carax, 2012)

3 – Elena (Petra Costa, 2012)

4 – La vie d'Adèle (Abdellatif Kechiche, 2013)

5 – The Turin Horse (Béla Tarr & Ágnes Hranitzky, 2011)

6 – Before We Go (Jorge Léon, 2014)

7 – The Congress (Ari Folman, 2013)

8- La Grande Bellezza (Paolo Sorrentino, 2013)

9 - Django Unchained (Quentin Tarantino, 2012)

10 - La piel que habito (Pedro Almodóvar, 2011)

A revolta originou um documentário!

Hugo Gomes, 06.05.19

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A imparcialidade é encarada como a impossibilidade das virtudes, sobretudo no seio jornalístico, no qual códigos deontológicos tentam garantir esse território, visto que nós enquanto seres pensantes não envergamos inteiramente a dita perceção justa e redefinida. E esse dito virtuosismo pelo qual todos nós ansiamos em atingir não é de todo um materializado pódio. Já o cineasta italiano Nanni Moretti, no seu mais recente filme – “Santiago, Itália” – realçou o facto de não ser imparcial, até mesmo quando é requisitado sob a promessa dessa mesma “característica”. Para simplificarmos, ninguém é tal “coisa” e Petra Costa nunca o ambicionou ser nesta “Democracia em Vertigem”. E ainda bem que não o tentou.

Eis um documentário sobre a vontade de denúncia do atual estado da democracia brasileira, desenhando o seu diagnóstico através de um historial que se inicia no legado da realizadora até às eleições de 2018 que levaram o ex-militar Jair Messias Bolsonaro a presidente do país da Ordem e Progresso. No meio dessa linha narrativa, a presidência de Luiz Inácio Lula da Silva e o “impeachment” da “presidentaDilma Rousseff são marcados como embarques para este cenário não tão optimista. Aliás, tudo é conduzido como tópico de um autêntico filme-catástrofe, amenizado pela poesia intimista de Petra Costa que é recitada em elipses intercaladas do iminente desastre.

Democracia em Vertigem” funciona como pandã a um outro mediático filme nos bastidores da política brasileira, “O Processo”, de Maria Augusta Ramos, um exercício kafkiano num golpe arquitetado por forças invisíveis alicerçadas por uma ideologia política contrária. Mas no caso do filme de Costa, o desencanto formal dá lugar a um encanto estético de embelezar o não-embelezado, e no seio dessa moldura, a realizadora que intervém como uma testemunha da queda de um “bem sagrado” ironiza todo o processo de espetacularizar esse jogo. Tal como o reparo que faz nos preparativos do impeachment, onde os apoiantes do golpe são levados a um recinto à direita, enquanto os adeptos de Dilma Rousseff [que preenchem a esquerda política] são posicionados à esquerda do Planalto, não deixando o acaso como uma mera questão de coincidência. Petra Costa desenha uma “conspiração” na sombra das eventuais maroscas politizadas.

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Aliás, espetacularidade é o que se poderá associar a todos esse método político, desde o teatro por detrás ao impeachment a Dilma, até ao sermão evangelizado de Janaína Paschoal, sem esquecer de Lula da Silva, a provar o seu status de animal político enquanto profere, a uma multidão apoiante, a vinda de uma nova Primavera, isto, em contraste com um discurso primário e movido pelo ódio de Bolsonaro, que, como sabem, viria a tornar-se presidente perante a desinformação e a falta de alternativas políticas. Com todas estas “personagens” e subenredos que desaguam pela ambição de poder, o Brasil é, tendo em conta esta “Democracia em Vertigem”, um autêntico teatro tragicómico no que requer ao seu mundo político.

Contudo, a imparcialidade procurada é uma ilusão premeditada, Petra Costa revela sempre fascínio pelo PT (Partido dos Trabalhadores) e repugna pelos seus antagonistas. Não tentemos encontrar aqui o senso detetivesco que o último trabalho de Michael Moore na sua não assumida sequela de “Fahrenheit 9/11” possuia, onde ao apurar as causas da presidência concretizada de Trump apontou para o falhanço dos democratas em anos e anos de governação (o episódio de Barack Obama evidencia esse desmascara).

Fora essa pretensão de ser um documento, “Democracia em Vertigem” é um gesto de revolta que gerou um documentário de uma força inerente vivida, uma obra que assume a sua posição e muito mais a sua ambição. Petra Costa não engana ninguém quanto aos seus propósitos e sobretudo na sua marca enquanto autora (uma das promissoras e prolíferas vozes da cinematografia brasileira atual, e para isso só bastou assistir “Elena”). Mas à luz da imparcialidade, se é que isso existe, a condição do Brasil merece uma lupa e uma abordagem mais sóbria (possivelmente acinzentada) e não tanto alarmista. Porque se “o mal impera porque os homens de bem nada fazem“, é necessário entender o que falhou para gerar este novo “abraçar” das trevas.

Falando com Petra Costa e Lea Glob, sobre o trágico bailado do "Olmo e a Gaivota"

Hugo Gomes, 02.07.16

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Lea Glob e Petra Costa

Por entre a realidade filmada em jeito documental e a encenação não como um dispositivo fictício, mas antes uma ferramenta para compreender esse mesmo veio de veracidade, “Olmo e a Gaivota” é um dos filmes mais fascinantes a chegar aos nossos cinemas este ano. As autoras desta obra, a brasileira Petra Costa e a dinamarquesa Lea Glob, falaram com o Cinematograficamente Falando … sobre esta colaboração não voluntária que resultou numa catarse sobre o cinema propriamente dito, sem limitações a géneros nem estilos. No seio de “Olmo e a Gaivota” esconde-se ainda temáticas a merecer da nossa consideração, algumas delas fazendo parte da luta de Petra, os direitos das mulheres e a soberania destas pelo seu próprio corpo. 

Começo com a pergunta mais básica, como surgiu este projeto?

Petra Costa: Este projeto surgiu através do Dox Lab, num festival da Dinamarca. Todos os anos são convidados dez realizadores não-europeus para co-dirigir com dez europeus. Eu fui convidada para trabalhar com a Lea, tinha até um certo interesse no cinema dinamarquês e queria conhecer um pouco mais sobre ele. Tínhamos uma semana para decidir que tipo de filme iríamos conceber, mesmo antes de conhecer-nos pessoalmente. Vim com dez ideias que tinha guardado desde então, uma delas era a documentação de um dia na vida de uma mulher onde nada acontece, mas que tudo acontece na sua cabeça. Entretanto, a Lea sugeriu: “e que tal pegasse-mos numa mulher real“. Ela estava mais interessada em fazer documentário e no meu caso, ficção. Ela queria ir para a Amazónia e eu para a Dinamarca

Sim, vamos pegar numa mulher real, mas se for atriz, pegaríamos na vida real dela, e eu conheço uma atriz“. A atriz que falava era Olivia Corsini, que estava no momento a fazer uma turnê no Brasil através da companhia teatral francesa Théâtre du Soleil e que tinha visto o meu primeiro filme [“Elena”]. Ela havia sugerido fazer um filme comigo, então falei-lhe da ideia. A Lea gostou. Fizemos uma reunião através do Skype com Olivia que demonstrou automaticamente interesse. Todavia, ela disse “estou grávida“, e foi aí que decidimos alargar um dia para nove meses. 

Lea Glob: Foi um convite através do CPH:Dox, a escolha seguiu do comité do festival, por isso não tivemos decisão nenhuma com a formação deste par. Enquanto isso, eu tinha visto Elena, e encontrei similaridades com a minha curta [“Mødet med min far Kasper Højhat”], ambos falavam de histórias pessoais que tinham como temática o suicídio. Esse era o primeiro filme da Petra, e no meu caso, tinha acabado de formar na Escola Nacional de Cinema da Dinamarca, eu sou europeia, ela não, por isso julgo que quem decidiu esta dupla encontrou uma espécie de ligação, algo em comum.

O facto de trabalhar com uma atriz, seria a melhor forma de trabalhar ambos os lados, o lado ficcional e o lado verídico, neste caso documental? 

LG: Absolutamente, tal era essencial. Aliás ela era bastante dada a trabalhar desta maneira, isso nota-se ao longo do filme. Ao trabalhar com atores assim tornaríamos-nos realizadoras mais livres e chegaríamos facilmente à intensidade do material.

PC: Na grande maioria dos documentários, uma das grandes questões é ter acesso ao personagem e a questão dos limites, se está ou não a invadir a vida daquela pessoa, ou se está usando ela num filme que supostamente poderá não ser tratada da forma como ela pretende. Mas a grande vantagem de trabalhar com um ator é que o desejo é recíproco, ela não quer contar uma história, ela quer ser usada, porque essa é a sua profissão, o seu desejo, a de estar ao serviço de uma história nem que para isso tenha que usar o corpo e a mente. Mas quando a história é na realidade a vida dela, o ângulo inverte mas continua no âmbito do desejo. 

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Olmo e a Gaivota (Lea Glob e Petra Costa, 2015)

No caso de Petra, visto que já conta com duas longas-metragens, “Elena” e “Olmo e a Gaivota”, existe uma palavra que caracteriza esse seu cinema – intimidade. Enquanto que em “Elena”, o espetador sentia-se incomodado por invadir a sua intimidade, neste filme, estamos a invadir a intimidade de uma atriz, o qual em certas sequências Olivia pede mesmo para parar. Como sente em invadir a intimidade de outras pessoas?

PC: É um pouco mais que isso, porque é justamente nessas questões que estou a falar, quando é a sua própria intimidade vai da vontade, não existe um limite imposto. Mas essa tensão foi frutífera, é como se estivéssemos constantemente a jogar aquele jogo de cordas onde cada um puxa para o seu lado. Nós tentamos chegar um pouco mais fundo na intimidade dela, e ela, com clareza, deixava, depois há um momento em que colocamos visivelmente as nossas interações com ela. Nesse aspeto, tratou-se de revelar esse limite – as portas  – como as do banheiro que se fecham, neste caso conseguimos estar do lado dentro do banheiro [risos]. 

Em Olmo e a Gaivota, o que é que poderemos considerar ficção e documentário?

LG: Não existe resposta para isso [risos], nem sei se consigo responder corretamente a isso. Julgo que é a mais bela parte do filme, porque incentiva os espectadores, mas não se trata de um jogo do que é falso ou real. Diria antes que é uma “onda” de interação, sim diria antes disso, e como tal gosto do filme por causa disso, porque faz-me sentir que fizemos algo certo naquilo.

PC: Sim, essa é a questão que motiva o filme, que analisa todas as cenas, é como se fizéssemos um filme hermafrodita, qual seria a parte masculina, qual seria a feminina. O filme é precisamente a tensão entre os dois géneros.

Quais as grandes influências para a condução deste filme?

LG: O teatro, assim como a peça de Anton Tchekhov, foram bastantes importantes para o tom do filme.

PC: Primeiramente o teatro, Olivia integrava o Théâtre du Soleil, por isso temos registos dos seus ensaios e encenações. Temos ainda influências do cinema francês, não da Nouvelle Vague, mas da facção Rive Gauche, como Chris Marker, Alain Resnais e Agnès Varda, que usualmente abordam as questões da identidade, da memória, mais do feminino. O livro de Virginia Woolf, “Miss Dalloway”, que foi para nós essencialmente um guia, visto que era para ser um dia na vida de uma mulher, mas que fez com que olhássemos para a vida de Olivia através da moldura deste livro.  

No final, “Olmo e a Gaivota” resultou num retrato de um romance. Uma romance entre dois atores, marido e mulher que teriam que lidar com o maior dos fardos. O filme captou esse amor na sua integral forma, relembro da sequência musical [“Mi Sono Innamorato di Te”], por exemplo. Tal fator [o romance] já estava prescrito na ideia ou foi uma oportunidade que surgiu durante o processo?

LG: Diria que foram os dois casos. Visto que temos uma história sobre gravidez e era normal termos um amor, uma relação amorosa, que poderíamos aprofundar. Bem, eu penso que sou a pessoa mais romântica da “equipa” [risos] o que fez também abordar esse tópico. 

É bom sentir o amor, e existe bastante neste filme. Petra também mencionou que tal transmitia uma empatia entre os dois, não apenas como marido e mulher, mas também como atores, o que permitiu-nos segui-los, o qual tornaram uma relação gentil. Eles são gentis juntos, e isso foi bom. Quanto às canções, como também muitos outros gestos, surgiram através deles. Foram tudo ideias deles. 

PC: Sim, penso que isso está muito presente na sua relação. Talvez tenhamos provocado mais o outro sentido, do que mostrar mais amor. O amor surgiu naturalmente, assim como demonstraram as “fraturas” desse relacionamento.

Quanto a novos projetos? Regressarão como equipa ou separadamente?

LG: Bem, ambas temos novas ideias, mas serão em separado. Não temos ideia de regressar a esta colaboração, quer dizer, se Petra pedir estarei disponível, assim vice-versa. As portas estão abertas e continuarão assim. Neste momento, estou a preparar um filme sobre a sexualidade, a interpretação de mulheres através de memórias erradicadas, como elas procedem a esse encontro. 

PC: Estou a trabalhar num filme ficcional que decorre nos anos 80, no Brasil, sob o ponto-de-vista de uma jovem rapariga, focando na maneira como ela interage com a diferença de classes e políticas. Também estou a trabalhar num documentário sobre a crise política brasileira. 

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Olmo e a Gaivota (Lea Glob e Petra Costa, 2015)

Para Petra, gostaria de falar sobre a sua campanha “O Meu Corpo, as Minhas Regras“?

PC: Sim. Surgiu quando o nosso filme ganhou o Prémio de Melhor Documentário no Festival do Rio. Fiz um discurso em que dedicava o prémio a todas as mulheres, para que nenhuma sofresse de machismo no Brasil, desde a presidenta até à doméstica, e que todas tivessem a soberania sobre o próprio corpo, seja para mergulhar numa gravidez como a nossa personagem, com todos os direitos para isso, ou fosse para interromper, como já é legal na França e EUA há mais de quarenta anos.

Nessa noite fui dormir feliz, até porque tinha ganho um prémio (risos) e feito um discurso. Na manhã seguinte, acordo com uma invasão de milhares de comentários muito agressivos na minha página de Facebook, “sua abortista, você deveria morrer, é pena que a tua mãe te teve, fecha a perna, sua vagabunda“, um machismo que nunca tinha encontrado, pelo menos a este nível. O que demonstra um ódio crescente que o Brasil tem experimentado.

Então através disto fiz um video, pelo qual já tinha vontade de fazer, que tratasse das questões do filme que não estão claramente abordadas nela, que é a falta de interpretação de mulheres no cinema, a questão do corpo e do próprio aborto. Tinha alguns atores que tinham visto o filme e que tinha gostado, e então sugeri a ideia, eles gostaram e prosseguimos com a iniciativa. A ideia era pegar no figurino de Olivia, mulheres e homens engravidando até para colocar na mente das pessoas o que aconteceria se o sexo masculino pudesse mesmo engravidar. No Brasil, muitos colocavam a hipótese se o homem engravidasse o aborto já teria sido legalizado há muitos séculos. 

O vídeo surgiu disso, brincar com todas essas questões e ele viralizou, teve umas 14 milhões de visualizações e partilhas em diferentes páginas de Facebook. Acabou por virar uma “onda“, que fora a primeira “onda” feminista de grande impacto no Brasil. O país teve um movimento feminista nos anos 60 e 70, mas foram bastante reprimidos. Ou seja, eles afirmaram menos do que desafirmaram, virou quase “xingamento“, só em novembro do ano passado é que ser feminista deixou de ser “xingamento” no Brasil. 

Tudo também foi possível porque temos um forte antagonista que é Eduardo Cunha, presidente da Câmara, que é um dos políticos mais machistas que o Brasil presenciou, e também um dos corruptos, o qual vem retrocedendo diversas pautas que foram conquistados pelas mulheres. 

O que está a tentar dizer que o Brasil é no fundo um país conservador?

É um país contraditório, para muitos é a terra do samba, da mulher “pelada”, do homem cordial, da igualdade racial, mas isso é falso de certa forma, essas contradições é como se estivessem enterradas por ali. Somos um país que comemora a democracia, mas na realidade ela é uma fina camada de papel, que por baixo vai sendo corroída por ratos. Esses mesmos ratos, comeram, comeram, até que quebraram a coluna vertebral, e os ratos estão agora expostos, mas na verdade eles sempre estiveram ali. Talvez seja do facto do Brasil nunca ter tido uma Guerra Civil como os EUA ou uma grande luta pela independência. Nunca houve esse embate de ideais. 

Hoje assistimos a um país sob uma Guerra Civil retardada, uma parte, esclavagista, machista, oligarca e conservadora contra uma outra porção que luta pelos direitos humanos.

No bailado dos opostos ...

Hugo Gomes, 29.06.16

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Depois de ter partilhado a sua dor através de um tributo íntimo à sua falecida irmã, Petra Costa decide explorar as crises existenciais de uma atriz promissora - Oliva - cuja vida se altera drasticamente após a descoberta da sua gravidez.

Tal como a sua primeira longa-metragem, “Elena”, Costa regressa ao estilo inconformado do documentário, numa reinvenção com pé assente na ficção e outro no limiar da realidade e da manipulação cinematográfica. Poderíamos salientar que em “Olmo e a Gaivota” somos remetidos à estranheza, à bizarria da forma narrativa e através disso a uma viagem direta para  sentido vital da sua protagonista / vítima. Enquanto que em “Elena” o espectador sentia incómodo por penetrar em territórios tão pessoais da autora, nesta nova longa-metragem (em colaboração com Lea Glob) temos a tendência de julgá-la pela persistência de entranhar na vida, ainda a ser “escrita”, da sua atriz, mesmo que esta demonstre por várias ocasiões as fronteiras impenetráveis e proibidas do seu ser.

Um exercício narrativo que tem sido várias vezes comparado com os triunfos literários atingidos por Virginia Woolf (“Mrs. Dalloway”). A obra assenta num diversificado registo tão distinto da autora, que se comporta como uma entidade divina no preciso momento em que chega a transformar a sua própria realidade, como se esta fosse barro maleável pronto para uma exibição. É uma peça de arte, se assim acreditarmos, que reúne a performance artística em conjugação com uma veia teatral forte (a protagonista é uma atriz de teatro em plena encenação de “A Gaivota”, de Anton Tchekhov, logo é evidente essa matriz) com a complexidade literária; a experimentação dos pensamentos da sua “heroína” como conduta narrativa a reter. Aliás, ela é o leme, enquanto as realizadoras adquirem um papel de almirantes em alto-mar.

Os medos da maternidade, a cedência às trivialidades do quotidiano e os sonhos desfeitos em prol do ciclo que a vida suscita, são pontos de reflexão que Oliva contrai, sujeita às intervenções das suas respectivas “patroas”, agora ditadoras do seu dia-a-dia. Uma luta assinalada como se uma gaivota resistisse à tempestade. Olivia é essa gaivota (alusão ao filme), contando com Serge, o seu “olmo”, a árvore medicinal que contrabalança a sua alma enclausurada.

Uma história de amor atormentada, mas rica em momentos românticos que salientam o seu “quê” de realidade, e tal é testemunhado logo nos primeiros minutos, onde Serge recita com tanta afeição Mi Sono Innamorato di Te (Luigi Tenco). Ocasionalmente belo e narrativamente utópico, “Olmo e a Gaivota” é uma peça-mestre na maleabilidade narrativa, e mostra como Petra Costa poderá tornar-se mais que somente uma promessa: uma poeta visual. Apesar de tudo, e infelizmente, não é o turbilhão de emoções que “Elena” fora, essa ainda (um pouco) desconhecida pérola do género documental.

Uma carta de amor pública!

Hugo Gomes, 17.04.14

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Será possível alcançar os limites do documentário? Existe uma matriz que o define ou uma formula mestra que nos realça a verdadeira essência equacional da sua transfiguração enquanto cinema?

Com Elena de Petra Costa, tais questões surgem e assentam na atmosfera fantasmagórica com que o documentário se funde com a poesia, quer lírica quer visual, a encenação com a realidade dos factos e a emoção técnica com a frieza da narrativa. Todos esses ingredientes contraditórios unem-se para gerar um híbrido, não no sentido abominável, mas no divino da palavra. Um filme que paira entre os diversos cantos da arte, passando pelo teatro primórdio remoto da Grécia Antiga até aos maneirismos do egocentrismo artístico tão claro na Arte Moderna.

Elena é acima de tudo uma carta de amor pública, denunciante aos lugares-comuns e às banalidades da mesma, construindo uma linguagem suportada por um visual digno de barro, inegavelmente moldável e cúmplice para com a sua autora, Petra Costa, que dedica este trabalho à sua falecida irmã, um modelo que seguiu de perto e que viu sucumbir num ápice. Contudo, nunca na sua memória, pelo que Elena (filme) remete-nos à perda e ao medo da solidão, ao espírito decadente que inflige os seus golpes numa narrativa que para além de reforçada com o seu instinto artístico é combatida pelo afecto e pela veneração de uma figura carregada de emoção. É que a autora constrói uma fita tão pessoal que chegamos a sentir-nos culpados em “invadir” este seu Mundo.

Voltando à questão inicial, é possível identificar o esgotamento da veia documental? Por enquanto não nos é permitido garantir uma resposta concreta, sendo assim, Elena demonstra o quão ínfimas são as possibilidades de trazer cinema e torná-lo em algo infinitamente diversificado. Onde muitos viram vídeos caseiros e citações poéticas, Petra Costa viu Arte na sua forma mais pessoal.