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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

O Nada de "Eddington" é o Tudo de Ari Aster

Hugo Gomes, 19.08.25

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Afirma-se, como gravado em pedra, que David Lynch começou a fazer filmes como forma interessante de contar os seus sonhos, algo que, por outra via, normalmente receberia um sinal de reprovação e tédio do ouvinte. Da mesma forma, acredito que Ari Aster faz cinema para centrar as suas paranoias, conspiratórias e obsessivas até. Talvez seja esse o cinema dos novos artesãos, completamente embebidos num mundo em permanente mutação, o que os faz ser... digamos, deslocados, ansiosos e apreensivos.

"Eddington" resolve ser esse filme, um ensaio saído da cabeça do realizador, cuja autoria é impossível negar. Desde o primeiro momento, sabemos onde estamos: há máscaras faciais, e a resistência da personagem de Joaquin Phoenix (um xerife de uma pacata cidade texana que partilha o nome da tabuleta com o título da metragem), indica-nos que o enredo decorre em 2021, em plena pandemia e consequencialmente com o movimento #BlackLivesMatter emergido da trágica morte de George Floyd. O protagonista vive numa casa isolada com a mulher (Emma Stone), traumatizada por um certo episódio infeliz, e com a sogra “licenciada” em teorias da conspiração (Deirdre O'Connell), relação que o contaminará e o levará, contra tudo e todos, a concorrer ao cargo de mayor, contra Pedro Pascal, carismático titular do cargo (quase como uma meta-crítica à sobrepresença do ator na industria corrente). O resto da salganhada cómico-trágica apresentará um buffet de conspirações e delírios coletivos: Bill Gates, George Soros, Covid 19, Governos Sombras, ANTIFAS e cultos satânico-pedófilos … tudo triturado, e servido à colherada ao espectador. 

À saída do filme em visionamento de imprensa, foi possível constatar reações emotivas de colegas meus, e outras tão entediadas quanto indiferentes, acusando a obra de ser “sobre nada”, ou até ser um nada. Saio, então, em defesa do Nada do filme, pois é precisamente a partir desse vazio a ser preenchido que compõe a natureza de muita espiral conspirativa. Se não fossem as teorias da conspiração fruto de uma suspeita quase estrutural sobre todas as formas de autoridade, um Poder “invisível”, quase reptiliano, que só alguns, os iluminados, conseguem decifrar, talvez este Nada não fosse tão inquietante, ou seja, o Nada é o Nada representado em "Eddington". Aí, Ari Aster conseguiu o que pretendia. 

Mas Radu Jude também o fizera há uns tempos atrás no calor do confinamento, num turbilhão mais experimental, com "Bad Luck Banging or Loony Porn", só que sem precisar de tantas estrelinhas ou da solenidade de um tratado. Aster, porém, tem obsessões, e a sua preocupação com o estado da sociedade em que vive (os EUA) leva-o a cometer filmes como este. Da mesma forma que, antes, a falta de terapia o levou ao medo em "Beau Is Afraid".

Quarteto de cordas

Hugo Gomes, 22.07.25

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Tenta-se mais um Quarteto. Tenta-se ser mais Fantástico do que o anterior. Mas as ilações tiradas mostram como uma das personagens mais complexas da assinatura Marvel, o(a) Surfista Prateado, criatura de um outro espaço que para proteger os seus, sacrifica-se à eternidade numa servidão a um tirânico devorador de Mundos (Galactus), angariando culpa e culpa de trilhões de vidas perdidas em prol da insaciável fome da entidade. Contudo, continua sem atingir a sua ênfase dramática nem os seus dilemas existenciais na transposição para o grande ecrã. 

Se não contarmos com as constantes alusões projectadas pela personagem de Richard Gere em “Breathless”, de Jim McBride (sim, o remake americanizado de “À bout de souffle”), as raras importações cinematográficas da figura criada por Jack Kirby são de uma bidimensionalidade atroz, e este “Fantastic Four: First Steps” não foge à regra, mesmo que o “building up” da incorporação de Julia Garner prometa algo acima do que é entregue. Mas não poderíamos esperar muito da Disney neste conteúdo,  e os incómodos dilemas, os complexos que estes quatro magníficos poderiam trazer e deliciar, são facilitados para qualquer freguês entender, sensibilizar, ou interpretar tudo no rol de cinema escapista, diríamos até “pipoqueiro”, se não fosse o caso de as pipocas se apoderarem do espectáculo, nestas condições, ao invés do filme.

Pintado com tinta retro-futurista, a aposta marvelesca inicia-se com a condição de ser um mundo alternativo, não situado no contexto partilhado, mas sim na mistela multiversal que esta fase [phase] nos assegura como grande finale. A ópera aqui orquestrada tem notas que, vá lá, arrancam sorrisos breves, mas nunca uma verdadeira adição. Primeiro, o descartar de muito do humor marvelesco, representando um risco quanto ao seu modus operandi. E, se “Superman”, na sala ao lado, adquiria a cor e a jocosidade que se recordava com nostalgia, aqui a Disney quer consequências, quer seriedade, e insinua umas piscadelas ao texto de crítica político-social.

Obviamente, nem uma coisa nem outra se expandem. Tudo é despejado, entregue a discursos demagogos e de compreensão deslizante. Nem o tal Complexo de Abrãao, que poderia, por um lado, alavancar, feito Arquimedes, o produto para além do aristotélico A e B e clímax C com destruição e festim CGI, é repensado na oralidade de Vanessa Kirby, enquanto Susan Storm (aka Mulher Invisível), de cima do palanque, frente a uma violenta mob, desesperada pela escolha dos seus herois de inspiração, às portas do Armagedão. Resolve-se a situação com empatia, não ao próximo, mas para com eles, a do tal grupo de super-humanos, algo elitistas e bravos no seu admirável novo mundo. Contudo, não convém sermos demasiado duros com esta miopia crítica, porque o próprio mundo aqui construído é binário: os protagonistas e os “outros” (que se resumem ao restante globo), completamente servis às vontades destes seus conquistadores.

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Mesmo com algum camp e kitsch atirado à cara, “The Fantastic Four: First Steps” resume-se ao “mais do mesmo” em termos produtivos e dentro dessa linhagem do MCU. Tem personalidade, o que já é algo, quando comparado aos seus congéneres formatados (“Thunderbolts*” sofria precisamente dessa carência), mas, evidentemente, não é Kierkegaard, mesmo que assumindo a sua limitada sapiência em ser-se “alegórico” sem sê-lo. São milhões investidos, há que ser perceptível, há que acompanhar a juvenilidade dos seus atendentes.

Noutras ordens, Kevin Feige convocou recentemente as suas hordas para anunciar que, em breve, todos estes universos terão o seu reset, um recomeço, ou seja: “toca o disco, vira, toca do mesmo”. Assim vai o estado de saúde do cinema americano à la Hollywood. Enquanto isso, o Surfista Prateado continua aquém da sua potencialidade. Parece que há filosofia nos comics que o audiovisual ainda não consegue replicar.

"Are you not entertained?"

Hugo Gomes, 11.11.24

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Não há regresso possível ao subgénero peplum, muitas vezes à convicção do épico hollywoodesco a fazer-se ao “sword & sandal”, “Gladiator 2” assume, desde o seu primeiro ponto, aquilo que é - uma fantochada histórica. Aceitar ou não aceitar, fica-se pela questão! Mas conforme seja o seguidismo é nesse aspecto, o de nunca aventurar-se por reconstituições de História à luz natural, que esta muita antecipada sequela esbofeteia o anterior “Napoleon”. 

Ridley Scott está no seu circo, a corrida da Roma antiga pelos seus êxitos, e é dessa forma que o tarefeiro carrancudo dança na indústria que cada vez mais fracassada a esses espectáculos de grande tela. Convém afirmar que o épico histórico está morto lá para os lados norte-americanos, Wolfgang Peterson fez-se ao último suspiro [“Troy”, 2004], Scott por sua vez deixou-nos claro no seu anterior “Last Duel” (2021), de que não existe espaço para estes filmes na modernidade, apenas as suas desconstruções. Determinado em contrariar até mesmo ele próprio, o realizador decreta este “Gladiator 2” na sua escondida proeza, o de fazer entretenimento longe das fórmulas correntes, só que essas tais o aproximam, apoderaram-se e estabelecem uma via que só os fracos se torcem, por afinal a fórmula acaba por vencer … ou Ridley Scott só conhece a fórmula? Portanto, a existência desta continuação deve-se à popularidade e ao capital, a primeira a desencadear a última, digamos assim. 

Gladiator”, o filme de 2000, com Russell Crowe esfregando as mãos na areia da arena do Coliseu (“o maior templo romano”), foi um trunfo de cinema popular tendo essa luz encadeado a award season a altura, conquistando o Óscar de Melhor Filme, a partir daí Ridley Scott foi sinónimo de épicos hollywoodianos, fracassando-se espectacularmente nos projetos seguintes (“Kingdom of Heaven”, “Exodus”). Hoje, com a fita estranhamente numa memória colectiva (Hans Zimmer de braço dado com Lisa Gerrard ecoa nessa “eternidade”) e com um obsessão viral, do domínio das redes sociais (“Why men just can't stop thinking about it”, basta pesquisar), tendo como reflexos políticos, do Império Romano numa cultura viril de “machos alfas” fabricados virtualmente, “Gladiador 2” encontra razões, financeiramente viáveis, para existir entre nós. Só que é “azeite” derramado, de cidades em CGI, de atores abonecados para servir uma história que se desvenda a partir de dez minutos, onde só Denzel Washington (novamente ao lado do realizador, 17 anos depois de “American Gangster”) ergue-se na romana coluna da veneração. Por outro lado é a velha máxima do desejo de Hollywood em concretizar “Birth of a Nation” de D.W. Griffith, uma vez mais, da réplica, da réplica e da réplica. 

Ridley Scott exibe a sua fisicalidade, a sua teimosia, expondo-se ao julgamento do Imperador (ou Imperadores, costuras de auras caliguleanas e neroeanas, não saímos daqui), polegar para cima como sinal de misericórdia ou para baixo como sentença divina. Escutem, funcionará como sempre funcionará, restaurará a masculinidade obsessiva em cada um de nós, exaltará a veneração aos “homens fortes” à imagem do povo que o cultua, daí essa branquitude seja um espelho dos tempos politicamente atormentados que vivemos, porque encaramos a Roma antiga nessa mixórdia de lendas e rumores.   

Uma mulher na conquista de Hollywood

Hugo Gomes, 15.12.20

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Erradamente induzido a um símbolo de emancipação feminina, “Wonder Woman” [o filme de 2017] conquistou uns impressionantes 800 milhões de dólares em bilheteiras de todo o Mundo, sem sequer apercebemos que a grande heroína neste cenário foi a sua realizadora, Patty Jenkins.

Não se tornou, outro erro comum que muitos caíram, na primeira mulher a comandar um filme de super-heróis, esse subgénero cada vez mais vincado (antes dela, Lexi Alexander e Karyn Kusama), mas fora a primeira a ter ao seu dispor uma produção com um orçamento acima dos 100 milhões. Por outras palavras, a mulher vinda da televisão e de uma longa-metragem telefílmica que levou Charlize Theron ao Óscar [“Monster”, 2003] assumiu-se como uma guerreira numa indústria ultra-capitalista ainda maioritariamente liderada por homens. Se existe toda uma Mulher Maravilha nisto tudo, é ela mesmo.

Portanto, como já havia referido, 800 milhões angariados dá direito a sequela, se não fosse o facto de este produto inaugural com Gal Gadot estar inserido num universo partilhado, aquelas novas denominações e definições de franchise. Contudo, com adiamentos vários, uma pandemia a ser vivenciada e um estúdio de mãos dadas com uma plataforma de streaming que, ao seu jeito, encontram uma solução para estacar (ou apaziguar) o prejuízo, eis que chega-nos “Wonder Woman 84”, um blockbuster num ano escasso deles.

Com Patty Jenkins novamente no poder, requisitou-se as simples leis da “sequelite” – “mais e melhor”- e em todo o seu esplendor, esta nova produção da Warner Bros é ela mesmo, exagerada, ambiciosa, mas nunca dependente da credibilidade, nem da simulação de tal. A realizadora tinha em mente uma invocação de um espírito longínquo, totalmente perdido neste boom do subgénero que tem variado entre a seriedade e alter-realismo ou o chico-espertismo e o extenso tom paródico, o estilo “camp”, o qual levará muitos adeptos aos tempos de Lynda Carter e as suas episódicas aventuras nos anos 70.

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Confere que a Warner Bros. / DC tem sorrateiramente estabelecendo essa via, basta recordar o tecnologicamente submarino “Aquaman” (James Wan, 2018), só que é na conhecidíssima super-heroína que o estilo é assumidamente erguido nos seus momentos de ação, ou na devolução da figura pedagógica e demagoga a estes figurinos de comics. Os dias atuais levam-nos a encarar com ceticismo e desconfiança à ingenuidade gratuita, ao ativismo utópico próprio de fantasias hollywoodescas, e ao propagandismo samaritano. Sim, há uma demanda ideológica e deveras moralista no sacrifício da nossa heróica mulher, nada de sobrenatural neste registo, nem sequer no subgénero, porém, é a sua devoção explícita que enaltece esse lado escapista e “arcaicamente devedor” da BD em si.

Wonder Woman 1984” funciona, mesmo que desigual, como um tributo à aura dos comics, uma espécie de regressão que o torna limitadamente “fora da caixa” perante a tendência produtiva. O resto, meus amigos, é Patty Jenkins a operar uma produção de grande escala, simbólica, e de coração pulsátil quanto ao seu senso de dever (segundos as mais recentes notícias, a realizadora irá envergar a galáxia “Star Wars” para a Disney, espera-se uma conquista a esta Hollywood megalómana ainda, muito, masculina).

Por fim, Gal Gadot continua muito mais que uma pin-up outrora vencida, dando o corpo a este manifesto, contra duas figuras antagónicas (Pedro Pascal e uma inesperada Kristen Wiig) que carregam o tom fabulista no filme. Porque no fundo, “Wonder Woman” é, isso mesmo, uma fábula à escala de Hollywood, com uma América idealizada e convicta para o Mundo ver.