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31.10.19

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""Não choro por nenhum cobarde", declara Varela, que mais tarde terá resposta do "homem de Deus" - "Bem-amado é aquele que chora" – para depois ceder ao peso de uma vida em vão, constituída somente pela morte sem pré-aviso. Se bem que o filme de Pedro Costa não é mais do que um diálogo entre dois seres, enfaixados num rigor que só o realizador parece ter adquirido nos seus anos de carreira, Vitalina Varela [título do filme] é um degrau numa escadaria que vai dar, sabe-se lá onde." Ler crítica no C7nema.

 


publicado por Hugo Gomes às 12:56
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27.12.14
27.12.14

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Condição fracturante!

 

Concluída a rodagem de Casa de Lava (1994), cujas filmagens decorreram na Ilha do Fogo (Cabo Verde), vários habitantes solicitaram o realizador Pedro Costa para que este entregasse cartas aos respectivos familiares de Lisboa, grande parte deles, residentes no desolador bairro das Fontainhas, nos arredores da Amadora. Com esta experiência, Costa integrou uma comunidade aprisionada por uma barreira invisível social, confinada à sua própria degradação num "paraíso prometido" não citado em Casa de Lava.

 

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É certo que segundo o próprio Pedro Costa, existe mais "portugalidade" aí que no país inteiro e Ossos, a sua obra seguinte (estabelecendo um catalisador dessa perdição identitária, um cultura contagiada e híbrida que "promete" estampar nas velhas tradições já constituídas) é o seu claro objecto desse mesmo estudo teorizado. Pedro Costa emana um drama sob fortes toques documentais, aliás é evidente encontrarmos um manifesto etnográfico em todo o seu sentido e uma exploração digna do estilo neo-realista italiano. Sendo que o lado ficcional, preservado por um realismo quase formalista mas em pleno espírito de rebeldia para com a câmara, é afectado com uma constante demonstração de actos metafóricos e alusivos.

 

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A história que centra em redor de uma criança não querida pelos seus progenitores, abandonada à sua sorte e à deriva do respectivo destino é o ponto que une todo um conjunto de personagens desesperadas, e de igual situação identitária. Trata-se do espelho de uma sociedade empestada por um futuro negro e desesperante, Costa profetizou a destruição de um captado modo vivente (a demolição do bairro das Fontainhas em 1999) e a dispersão dos habitantes que havia convivido durante anos, os seus anti-heróis cinematográficos, mas heróicas figuras da realidade.

 

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Com Ossos, o realizador afasta-se claramente da ficção cinematográfica imposta pelo Cinema Novo, por sua vez influenciada pela Nova Vaga francesa, que fora vista nos seus anteriores O Sangue (1989) e Casa de Lava (1994), para se lançar num intimo docuficção. Costa perde a olhos vistos a académica formação e mais que nunca, revela a sua rebeldia fílmica para o grande ecrã, mas sem perder o seu gosto pelo estético, pelo planos renascentista e pela fotografia sombria e melancólica em toda essa transição. Depois do catalisador que fora Casa de Lava, Pedro Costa abre a sua trilogia das Fontainhas com esta romantização.

 

Real.: Pedro Costa / Int.: Vanda Duarte, Nuno Vaz, Mariya Lipkina, Inês de Medeiros

 

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Ver Também

O Sangue (1989)

Casa de Lava (1994)

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 19:00
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19.12.14

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Reduzido a cinzas!

 

Se em O Sangue assistimos a revelação de Pedro Costa como cineasta de um panorama cinematográfico nacional que desgarra-se calculadamente dos traços do Cinema Novo, era de esperar que Casa de Lava fosse a sua reafirmação. Porém, se por um lado esta sua obra revela e redefine as características que tornaram Costa no conceituado cineasta dos dias de hoje, é verdade que é em Casa de Lava que assistimos o seu descoberto fraudulento, evidenciando talento ao mesmo tempo inexperiência nessa sua perspectiva artística. Enquanto em O Sangue, a vitalidade da intriga encontrava-se num rio, em Casa de Lava, esta está indiciada num vulcão, elemento invisível mas igualmente presente. Como suas consequências, o cenário é uma região árida por terra magmática que impede o surgimento de nova vida, por um lado desta não está isente.

 

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Talvez esta ilha (Ilha de Fogo, o filme começa com imagens da erupção daquele vulcão filmada por Orlando Ribeiro em 1954) seja o vector dramático deste novo Casablanca, onde novamente Lisboa é tido como o refugio digno de alcançar, mais precisamente Sacavém como o derradeiro Paraíso. Enquanto isso, esta ilha de fogo consumado é a terra da música melancólica, agradada pelos vivos, mas ouvidos pelos mortos, sendo que os moribundos, os "zombies" sem vodu, se manifestem numa eterna guerra entre a vida e a morte. É um local de desespero, de esperanças há muito vencidas pelo tempo "congelado". Inês de Medeiros, novamente peão das jornadas sugeridas por Pedro Costa, resulta no seu novo "ventríloquo", enquanto que Pedro Hestnes (que está para Costa, como Denis Lavant está para Leos Carax), fluente em crioulo, é o seu contra-veneno. Mas em Casa de Lava sentimos o desapontamento, sentimento esse, derivado da renegação do autor à arte do storytelling.

 

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O paradoxismo dos diálogos, algo que já havia sido notado em O Sangue, mas que fora fincado nesta nova jornada, e a narrativa que se perdem nos impasses, esses mesmos em consequência dos devaneios artísticos impostos por Costa, ou talvez o pouco rigor com que consegue abordar o seu redor com lucidez. O cineasta parece ter adoptado o registo já formatado no circulo de autores cinematográficos de Portugal, a recusa pela matriz académica da narrativa e a entrega pela narrativa visual (a aversão dos "autores" a esses factores deriva da formalização modelizada dos produtos televisivos ou produções hollywoodescas). Se bem que esse factor inúmeras vezes é detido como um "disfarce", uma maneira de ocultar a inexperiência do cineasta em conduzir o seu enredo ou implementar as suas mensagens inerentes, em Pedro Costa notamos essa inexperiência em erguer um "Golias", mas nunca incompetência. Porém, revela mais fraquezas e aptidões.

 

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Segundo os textos da Cinemateca-Portuguesa, Casa de Lava é um trabalho de estudo para o filme seguinte, Ossos (1997), e talvez por isso um estudo estilístico e de complexidades narrativas quer visuais quer linguísticas. Contudo, desperdiçou-se aqui um eventual grande filme.    

 

Real.: Pedro Costa / Int.: Inês de Medeiros, Pedro Hestnes, Edith Scob, Isaach de Bankolé

 

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O Sangue (1989)

5/10

publicado por Hugo Gomes às 23:05
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Lógico, foi uma ótima narrativa... Os personagens ...
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8/10 - Bom
7/10 - Interessante
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