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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Lavagante e champanhe ...

Hugo Gomes, 02.10.25

Captura de ecrã_2-10-2025_132942_www.youtube.com.

"O lavagante alimenta o safio “levando-lhe comida a todas as horas (…) a essa serpente estúpida de grandes sonos, vendo-a a engordar, engordar, até saber que a tem bloqueada, incapaz de sair do buraco porque o corpo cresceu de mais, enovelou-se, e não cabe na abertura por onde podia libertar-se. Nesse momento (…) o lavagante servil aparece à boca da toca do safio mas já não traz comida. Vem de garras afiadas devorar o grande prisioneiro que alimentou durante tanto tempo.

Podíamos, nesta altura, estar a celebrar (ou, no mínimo, a constatar) o regresso de António-Pedro Vasconcelos [APV] aos braços de Paulo Branco, mas o destino prega das suas partidas de vez em quando, e “Km 224” tornou-se no ingrato ponto final da sua carreira. O que restou foi um argumento: a adaptação do homónimo livro (por sua vez também inacabado) de José Cardoso Pires, e, no sacrifício da obra, o deslizar de Mário Barroso (de diretor de fotografia para a cadeira de realizador). Difícil mesmo agora é imaginar “Lavagante” como o inimaginável epílogo de APV, até porque, nos últimos anos de carreira, este perdeu a apetência estética, resvalando para um formalismo de fácil digestão, por vezes a lamber o universo televisivo. Daí a questão interessante: como sobreviveria um realizador enredado nestes engodos populares num ambiente que se queria autoral? Requisitando essa via ou apenas o seu simulacro? Ora, mistérios do “e se”! 

Entretanto, “Lavagante” permeia como uma transcrição certinha, mesmo quando o contexto político-social exigiria outras agressividades, tendo em conta o palco português atual e as tentativas de revisionismo dos ideais de Abril. Na procura de um cinema político, Barroso (“Milagre Segundo Salomé”, “Ordem Moral”) parece não ter a garra necessária para transgredir a forma e o adorno aparente, mas, convém sublinhar: o que está em causa é o livro de Cardoso Pires, crítico feroz do antigo regime e das réstias deixadas nas gerações sucessoras. Onde “Lavagante” encontra a sua inspiração é na forma quase sedutora como procura, em Júlia Palha, uma obsessão histórica (no cinema sob o cunho de Branco, a actriz tem servido essa pele como ninguém — veja-se, por exemplo, “Campo de Sangue” de João Mário Grilo), mais do que mera pin-up, uma mulher idealizada num projeto de país. A câmara ama a actriz: nela há uma valsa gradual de olhares, sorrisos e gestos, um namoro, uma fantasia, a romantização de um país paralelo. 

A história de um médico enfeitiçado por esta jovem, culminando na prisão e posteriormente no exílio, é um conto cautelar, com moral enviesada, mas também uma culpa: o sacrifício de uma ideia de país, que só nos contornos adocicados do rosto de Palha o vemos miraculosamente representado, como pinturas rupestres. A sua personagem não é mais do que uma ninfeta, dito assim, parece objetificação vazia … ou talvez não, porque é na compostura, na desilusão trazida por essa prolongada canção de engate, que encontramos a defraudação: a renúncia de uma nacionalidade, de uma identidade, encorajada por esse canto de sereia. Poderíamos, sim, imaginar esta personagem de Júlia Palha pelos olhos de APV, só que, com Barroso, é isto que temos: sob um manto preto-e-branco, emoldurado e igualmente truque para falsear a reconstituição histórica, sempre longínqua, fora das possibilidades orçamentais do nosso cinema. 

Com isto, esperamos, aguardando ansiosamente, por um cinema político não confinado a nichos ou a estéticas autorais, mas algo que fale às massas sobre o saudosismo patológico ou sobre estes tempos tenebrosos que nos ameaçam. Algo adaptável às vontades de cada um, igualmente raivoso, nada contido. Em tempos, à altura de “Parque Mayer”, APV declarou de peito aberto: o “único cinema político português é o meu”, nada mais distante da realidade. Ser político não é apenas reconstruir uma época, é desestabilizar uma estação. Nesse aspecto, APV era demasiado domesticado; Barroso, por outro lado, demasiado ilustrativo.

"Lavagantar"

Hugo Gomes, 19.09.25

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História de lavagantes e safios, de realizadores do povo e realizadores de outra ordens morais, um filme sobre a memória recente urgentemente requisitada que opera numa transformação alegórica do corpo de Júlia Palha num país que nunca existiu, mas o qual se deseja intensamente.

"Lavagante" estreia 2 de outubro nos cinemas portugueses.

Dois cinéfilos, o Cunhal e Paulo Branco entram numa cervejaria ...

Hugo Gomes, 12.04.25

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Camarada Cunhal (Sérgio Graciano, 2025)

Mas porque é que continuamos com este formato? Já o fizemos em “Soares é Fixe”, e agora no ‘Cunhal’... Não consegues fazer algo mais convencional? O leitor vai-se aborrecer e o realizador ainda vai pensar que é perseguição.

Não te sei responder quanto ao último ponto. Talvez, prosseguindo o nosso diálogo anterior … o do ano passado, naquela cervejaria … sim, perseguição não diria, mas mantenho-me atento à sua carreira, como quase tudo o que se faz em matéria de cinema português.

Acho que tu arriscas... mas pronto, cá vai: 3, 2, 1... E então? Hoje foi o visionamento do “Camarada Cunhal”? Como foi?

Antes de te responder, vamos ali ao Pato Real. Tenho sede, e uma cevada vinha mesmo a calhar. Soube que arranjaste convite para a antestreia?

Foi... mas não é o filme que me interessa ver dele. Há um “Memórias do Cárcere” [adaptação do livro de Camilo Castelo Branco], novamente sob a alçada de Paulo Branco.

Sim, é um realizador diferente com Paulo Branco. Poderemos ver aqui uma improvável dupla. Os “Papéis do Inglês” é um filme claramente Paulo Branco, e de um Graciano sem malhas televisivas. Fez dessa colaboração o seu ‘comeback’, sem com isto se dignar a estar no fundo.

“Como assim? Achas que aquilo que ele tem feito é bom? O “Linhas de Sangue”?

Calma. Primeiro, e tendo em conta alguns episódios dos últimos tempos, sinto-me culpado por andar sempre a invocar o “Linhas de Sangue” para aqui e para ali. Descobri que há ‘gente’ arrependida de ter participado no filme.

Enquanto conversavam, os amigos saíam da porta da FCSH, atravessando diagonalmente a Avenida de Berna, ao encontro do tal Pato Real — nada mais que um restaurante-café, com uma máquina de imperiais a condizer com aquele calor primaveril que se fazia sentir. À chegada ao balcão, após o primeiro contacto visual com um dos empregados, um deles estica a mão, assinalando dois e apontando para a máquina. Entendido, o funcionário pega em dois copos de plástico reutilizáveis e enche-os com o elixir de cevada.

Não era possível arranjar em dois copos de vidro? Nós não vamos a lado nenhum.

Com isto, o rapaz transvasa o conteúdo dos copos para os respectivos copos compridos de imperial (ou fino, conforme a geografia), entregando-os aos amigos, que aguardam impacientemente para saciar a sede acumulada.

Isto do Pato Real, não é product placement?

“Talvez... até porque isto aconteceu.”

Sim, mas escusavas de mencionar o estabelecimento. No anterior não o fizeste.

Tens razão, mas agora já vou tarde para remediar.

Um gole sentido na bebida, uma breve careta ao contacto com o amargo da cerveja, e o diálogo continua…

Onde é que íamos?”

No Sérgio Graciano. Será que, com estas mudanças de tom perante outros projectos e as produções de Paulo Branco, ele se revela um realizador multifacetado ou um realizador sem convicção, que precisa de um produtor com forte visão autoral?

“Boa questão... mas para tua desilusão, não quero ainda avançar nisso. Deixa-me espreitar esse tal “Cárcere” que está agora a ser trabalhado.

E o ‘Cunhal’?

Queres a versão curta ou a mais expandida?

Começa pela curta... e grossa, se faz favor.

É uma nulidade. Agora, a longa?

Sim, se faz favor.”

Há duas formas de ver esse ‘filme’. A primeira é como conhecedor de Cunhal e do seu percurso de vida e político — e aí deparas-te com um ‘faz-de-conta’ para lá do amadorismo, com o seu lado pechisbeque visível em todas as costuras. E se não conheces Cunhal, não é aqui que vais aprender algo sobre ele. Primeiro, porque Cunhal não é uma personagem e, em reflexo com todas as outras, não tem um pingo de desenvolvimento, personalidade ou convicção. Por outro lado, e seguindo a lógica do "Soares é Fixe", é um amorfo apolitizado, que apenas repesca factos históricos e os trata não só como História morta, mas como defunto histórico — enterrado e de cerimónias fúnebres já realizadas. Depois, aquele Forte de Peniche, suposta prisão de alta segurança para presos políticos do Estado Novo... o que é aquilo? O Big Brother, com bullying de guardas ocasional?

Como assim?

É que qualquer miúdo de agora, cada vez mais distante do Estado Novo e da sua influência, olha para aquilo e vê ‘brandos costumes’ impregnados como lavagem. Depois admiram-se que haja abstração desse tempo. A culpa não é só dos saudosistas e negacionistas do 25 de Abril — os meios de comunicação... sim, porque "Camarada Cunhal’ é televisão, não é Cinema... — ajudam nesse efeito, propagando a ideia de que tudo aquilo foi uma estação que passou, trouxe alguns resfriados e depois deu lugar à Primavera.

Já não fizeram histórias do Cunhal para o Cinema? Havia um filme antigo, o...

"A Fuga" de Luís Filipe Rocha, sim, é baseado, não necessariamente regido à figura

Isso! Esse lembro que também tinha um lado de baixo orçamento, mas o ‘barato’ da altura parece caro nesta contemporaneidade.

É verdade. E ainda há um do João Botelho ainda por estrear ["O Jovem Cunhal"], e não te esqueças daquele filme ... o "Cinco Dias, Cinco Noites’". É de um livro escrito pelo próprio Cunhal

Sim, o do José Fonseca e Costa. Era um realizador muito interessante do nosso panorama, e não necessariamente daqueles com carreira internacional.”

Concordo. Fazia, entre aspas, cinema comercial, com a devida linguagem de Cinema. Era digno. "Cunhal", de Graciano, não o é. Aliás, novamente tocando na televisão: isto é produzido pela Skydreams… os de "Salgueiro Maia" e "Soares é Fixe" … e lembro-me bem, na altura, de uma entrevista de um dos produtores ao [Rui Pedro]Tendinha, no DN, a referir que a produtora é especializada em produtos para televisão, que depois é que decidem se lançam no cinema em formato ‘cinematográfico’...

Lá estás tu a fazer aspas com as mãos.” [risos]

“Claro, não quero ser mal-interpretado.”

Olha, eu verei esse "Memórias do Cárcere" e, claro, já com bilhete na mão, vou espreitar esse ‘Cunhal’, como prova dessa minha ‘tese’... repara nas minhas mãos, também consigo fazer aspas.” [risos]

Para o ‘Cunhal’ desejo-te boa sorte. O que estava a tentar dizer que é o ‘filme’ é a condensação de uma série ainda por estrear. Aliás, um dos meus colegas ficou indignado que o material promocional cedido pela distribuidora está cheio de imagens da série, ausentes da metragem que vimos no visionamento.

Mudando de assunto e ao mesmo tempo ficando nas “Linhas”, devo dizer-te que vi o ‘Infanticidas’ do Manuel Pureza. Sei o que escreveste, e posso garantir, contra o que disseste, que vejo em Pureza uma visão de Cinema. Vá lá, não sejas tão mau assim para os filmes.

Não acho que seja mau. Eu os vejo, não vejo?

Certo... tens razão.”

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Camarada Cunhal (Sérgio Graciano, 2025)

Na parede, um televisor transmite o noticiário da hora de almoço: Trump, Ucrânia, eleições — a actualidade ali condensada em meia dúzia de tópicos. Os amigos apreciam a cerveja quase no seu final de vida, em silêncio e com alguns olhares aos visores dos seus smartphones, em passagens breves pelo email e Instagram. Até que um deles interrompe o ritual com uma pergunta:

Hugo, diz-me só uma coisa... sou real?

Para ser sincero, neste momento és três pessoas numa só. És uma união de conversas que tive com essas três pessoas.

Então, como é que me chamo? Tenho de ter um nome, no caso de me invocares novamente.

Hmmm... bem pensado.”

Rui? Luís? Ricardo? Jorge? Rafael? Paulo? Duarte?

Mas porquê um homem... podes muito bem ser uma mulher.”

Inês? Susana? Mafalda? Filipa? Tânia? Francisca?

Pensando bem, vou chamar-te Sérgio...

Como o Graciano?

“Há mais Sérgios do que Gracianos. Fazemos assim … és Sérgio, não necessariamente Graciano.”

Muito bem... Sérgio. Gosto. Ao menos tenho um nome.

Brindaram ao nome Sérgio e, com este gesto, encerraram mais uma conversa sobre tudo, sobre nada e sobre Cinema. Talvez, noutro dia, se reencontrem para mais finos e bitaites. Por agora, bebem — e, com os olhos postos no Mundo transmissível, ditado pelo pivô do telejornal — reflectem sobre a Modernidade como uma incógnita, imprevisivelmente distante daquilo que o Cinema lhes tem entregue ultimamente.

No V.H.S., com conventos e curtas a prémio ...

Hugo Gomes, 19.03.25

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Dei a cara pelos Prémios Curtas no V.H.S., o podcast oficial da gala de prémios, e aproveitamos para falar sobre Luís Miguel Cintra e “O Convento” de Manoel de Oliveira, com histórias da autoria de Paulo Branco, resgatar um cineasta do preconceito geral e ainda promessas de cerveja.

 

Atrás do fantasma de Gaugin ...

Hugo Gomes, 20.02.25

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Por essa estrada fora, Hugo Vieira da Silva, depois de citar Joseph Conrad e o Congo colonial no muito apreciado “O Posto Avançado do Progresso”, regressa às adaptações de mato, tendo como farol uma graphic novel — “Loin de la route”, de Christophe Gaultier e Maximilien Le Roy - que por sua vez é inspirada nos escritos de Victor Segalen, médico e poeta que procura o rasto deixado pelo pintor Paul Gauguin no seu refúgio no Taiti, no início do século XX. Dessa mesma busca emergem encontros com fantasmas e uma aura espectral do pintor, do homem e da controversa figura que foi, e que se mantêm, Gauguin

Este projeto coincidiu com um momento delicado na saúde do realizador, levando à requisição da co-realização pelo seu habitual montador, Paulo MilHomens — cada vez mais dedicado a terminar projetos de outros (veja-se também o caso de “Axilas”, o último termo de José Fonseca e Costa) -, numa espécie de coordenação à distância, e o que nasceu dessa colaboração foi um filme de múltiplas vozes e visões, deixando-nos a imaginar como seria caso mantivesse um só maestro. Contudo, mesmo afastando-se por vezes da estrada que lhe fora traçada, a obra acaba por abrigar na sua própria posição: não apenas a de reimaginar os “quadradinhos” de “Loin de la route», nem sequer de reproduzir os escritos de Segalen (aqui interpretado por Antoine de Foucauld), mas também de humanizar Gauguin — figura de mau agouro neste zeitgeist a que convivemos, numa espécie de imposição moral e cancelamentos por via de um cânone ainda por entender. 

O filme faz dessa passagem algo fantasmagórico na sua tese, mesmo subliminarmente implantado à beira-mar, nestes trópicos que oscilam entre a decadência de um império e a mistificação ainda sustentada por crenças de gerações e gerações. Funciona como registo histórico, modesto na sua produção, sem nunca ter o devido golpe de asa. Para Hugo Vieira da Silva, as melhoras. Continuamos interessados na sua nova aventura pelo passado colonialista, seja qual for o prisma.

Joana Ribeiro em "Os Papéis do Inglês": "há momentos em que somos só nós e o deserto. Isso pode ser assustador, mas também é libertador."

Hugo Gomes, 25.10.24

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Os Papéis do Inglês (Sérgio Graciano, 2024)

Sul de Angola, deserto de Namibe, na demanda por uns papéis, um macguffin, um tesouro incógnito que ditos e suspeitas o rodeiam, por entre aquele território enigmático, de horizontes infinitos e de gente ligada a um tempo fora, Ruy (João Pedro Vaz), um poeta, um escritor, um cineasta, homem de artes e de palavras em geral, revela-se numa figura quase quixotesca e enxuta na demanda dessa preciosa papelada e nos mistérios acarretados nele. 

Neste novo filme de Sérgio Graciano - Os Papéis do Inglês - a obra de Ruy Duarte de Carvalho (1941 - 2010) revela-se em matéria maleável para a ficção e à autognose, à aventura pouco convencional, e à reflexão de uma terra e das suas assinaturas, e, sobretudo, do seu lugar no Mundo, seja em África ou nos escritos. O escritor deu carta branca para o produtor Paulo Branco adaptar a sua trilogia “Os Filhos de Próspero”, e o resultado é uma homenagem, ora sentida, ora exótica, ora trovada e entendida no seu consciente. No seu seio, outros se juntam à busca pelos registos em parte incerta, seja o fiel David Caracol, ou mais tarde, um retornado angustiado Miguel Borges, acompanhado pela juventude em forma de Carolina Amaral e de Joana Ribeiro, aqui como Camila, arqueóloga com fascínio pela poesia de Carvalho, e que, através das suas lentes, ‘penetra’ nesta África desconhecida, do berço da Humanidade até às longitudes mais distantes da civilização.

O Cinematograficamente Falando… conversou com a atriz, no Cinema Nimas momentos antes da antestreia nacional de “Os Papéis do Inglês”, numa breve passagem pelo seu papel e pela sua colaboração constante com as produções de Paulo Branco e de novos projetos que chegarão a nós num ápice. Fiquemos assim na companhia de Camila, a jovem aventureira…

Começo pelo início: a sua chegada a “Os Papéis do Inglês” …

A chegada a este filme aconteceu durante um almoço com o Paulo Branco, onde ele me falou deste projeto, que era completamente desconhecido para mim, pois até então não estava familiarizada com a obra de Ruy Duarte de Carvalho. Confesso que o interesse surgiu não só pela evidente ligação à obra de vida de Ruy, o qual teria a oportunidade de o “descobrir”, como também pela personagem da Camila, que interpreto. Em criança, o meu primeiro sonho era ser astronauta, mas também havia um desejo em mim de ser arqueóloga. Assim, ao surgir a oportunidade de interpretar uma personagem ligada a essa área, mesmo sem muita arqueologia durante as filmagens, pareceu-me uma experiência interessante e fez todo o sentido.

Depois do dito “Sim” ao projeto, chegou a ler a obra de Ruy Duarte de Carvalho?

Li pois … Li a trilogia “Os Filhos de Próspero”, que como se bem sabe, serve de inspiração para este projeto, e também “Vou lá visitar Pastores”, pois a minha personagem referencia esse livro e, na época em que o filme decorre, tinha acabado de o ler, por isso fiz o mesmo. Troquei depois várias ideias com o João Pedro Vaz sobre o escritor e a sua obra, uma vez que ele realizou uma pesquisa intensa e profunda sobre o autor para o seu papel.

E como trabalhou, ou preparou, esta Camila?

Esta personagem foi principalmente construída com base na leitura dos livros. Tivemos ensaios, todos na Leopardo [Filmes, produtora de Paulo Branco], e grande parte do trabalho veio da relação que desenvolvi com a Carolina Amaral. Já conhecia a Carolina, mas não éramos amigas, e neste projeto ficámos muito próximas. Foi realmente isso: a conexão com os outros atores, o que estava no guião e na leitura da obra do Ruy.

os-papeis-do-ingles (1).jpegOs Papéis do Inglês (Sérgio Graciano, 2024)

E tendo esse espírito aventureiro, como foi essa ida a Angola?

Foi incrível! Angola foi espectacular e até então foi uma das viagens de trabalho de que mais gostei. É um lugar muito especial, mas também já tinha uma carga, um significado para mim, porque o meu avô esteve em Angola e o meu pai também passou lá muito tempo. Sempre tive o desejo de visitar o país e essa oportunidade surgiu no ano seguinte ao falecimento do meu avô, o que tornou a experiência ainda mais especial. Foi muito emocionante visitar um sítio de que ele falava tanto e de que tanto gostava.

O deserto do Namibe é o mais antigo do mundo, e sente-se uma carga energética única quando se está lá. Num dos locais onde filmámos, havia um monte de pedras à entrada, onde, segundo se dizia, era preciso adicionar uma antes de entrar, e se isso não acontecesse não conseguiriamos sair do deserto. Ao longo da rodagem, senti essa energia e a importância do lugar.

Há uma frase muito bonita de Ruy Duarte de Carvalho em “Vou lá visitar Pastores", que me acompanhou durante as filmagens. Vou lê-la, porque já não a sei de cor, embora a tenha decorado na altura, pois era uma fala minha. Entretanto, outros projetos surgiram e fui esquecendo. A frase é:

Para nós, o deserto faz falta quando estás noutro lugar. Quando estás lá, vocês não dá-se nem conta; mas quando não estás, sentes-lhe a falta. Mas não é de te exaltar o deserto que tu precisas, nem é isso que te faz correr para lá. É estar lá só, e estar antes onde talvez ele possa ver-te, o deserto, e não tu a ele.

Esta frase acompanhou-me muito ao longo da rodagem. O especial que é estar no deserto, porque há momentos em que somos só nós e o deserto. Isso pode ser assustador, mas também é libertador.

Um sentimento de estar sozinha num deserto?

Sim, mas gosto desse sentimento e aceito-o, porque ali tudo é imenso, tudo é grandioso. A vista perde-se, e houve momentos e situações em que realmente se sentiu a imensidade do deserto e daquilo que estávamos a ver. Havia, por exemplo, um campo que me fez lembrar o filme do Terrence Malick com o Sam Shepard.

“Days of Heaven”?

Sim, exatamente, “Days of Heaven”. Com aquele cenário! Houve um momento em que tive que tirar fotografias e tudo, porque aquilo foi mesmo incrível. Lembro-me de ver o Mário Castanheira, o nosso diretor de fotografia, a filmar o Miguel Borges, o João Pedro Vaz, o Sérgio Graciano, e todos os outros ao redor. Aquilo fez-me mesmo recordar esse mesmo filme, que adorei ver, aliás, aqui no Cinema Nimas.

Houve também várias paisagens que me fizeram lembrar momentos de filmes que adoro. É isso que é tão bonito nos filmes: trazem-nos paisagens e imaginários que ainda não vimos, mas que, quem sabe, um dia poderemos ver. Adorei essa parte de filmar em Angola.

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Days of Heaven (Terrence Malick, 1978)

Esse recorda-me … aliás, farei uma ponte a um outro filme que participou - “Diálogos Depois do Fim” - adaptação de "Diálogos com Leucó" de Cesare Pavese, que foi filmado nos Açores. Recordo semelhante sentimento, a de isolamento, ou de estar em estado remoto, na Ilha do Pico.

Sim, porque acho que, quando estamos num lugar tão imenso e cheio de história, há momentos em que, ao olhar para o horizonte, não vemos ninguém. Atrás de mim estava toda a equipa e o elenco, mas se me virasse para determinado lado, não havia uma única pessoa por quilómetros. Isso é incrível; adoro essa sensação de estar completamente sozinha e, de repente, ao virar-me, perceber que há toda uma gente atrás.

Mencionei “Diálogos Depois do Fim” nem de propósito. Tal como nesse filme de Tiago Guedes, como este de Sérgio Graciano, contracena maioritariamente com o ator Miguel Borges. Está encontrada dupla? 

Pois é [risos]. Olha, foi uma surpresa maravilhosa. O Miguel Borges é um ator que admiro muito, e não é de agora, já há bastante tempo, e tem sido incrível poder trabalhar em diferentes projetos e vê-lo em ação. Gosto muito dele, do Miguel, mesmo muito. Tenho um carinho enorme por ele. Nos “Diálogos”, mais para o final, tivemos um trabalho mais próximo e direto. Neste projeto, não tanto, mas estivemos juntos em Angola durante um mês, mas já tem sido constante a colaboração.

Miguel Borges é um dos atores recorrentes nas produções de Paulo Branco, assim como a Joana. “A uma Hora Incerta” (Carlos Saboga, 2015), também da sua produção, foi o seu inaugural papel no cinema. Desde então, tem sido uma presença habitual neste rol de filmes, incluindo os “projetos-órfãos”, curiosamente, como “O Homem que Matou D. Quixote” (inicialmente de Paulo Branco). Gostaria que me falasse um pouco sobre esta parceria.

Sim, o Paulo foi o primeiro produtor a dar-me uma oportunidade no cinema. Quando fazia televisão, ainda havia uma visão algo pejorativa sobre isso no cinema português. O Paulo foi o primeiro produtor português a apostar em mim e a acreditar no meu trabalho. Gosto muito dele; acho que é um produtor imenso. Quando estou com ele, o nosso diálogo sobre cinema é espectacular, e adoro ouvi-lo falar sobre cinema, das histórias sobre das dificuldades que já enfrentou para conseguir produzir filmes, ou seja, do seu universo.

Enquanto o Paulo quiser trabalhar comigo e eu puder, cá estarei. Até agora, todos os projetos para os quais o Paulo me convidou foram possíveis, e foram também projetos dos quais gostei muito de fazer. O futuro é incerto, mas espero que esta parceria continue.

Pelo que percebo é que, hoje em dia, estando bastante presente na televisão, está a ser muito difícil conciliar com outros projetos paralelos.

Não. Por acaso tenho tido sorte, tenho conseguido conciliar os projetos, mesmo agora que estou a trabalhar numa novela. Este ano, por exemplo, tinha uma série da Bando À Parte, em Guimarães, e em breve vou filmar em Manteigas com o Mário Patrocínio, num projeto produzido pela APM, em novembro, e tem sido possível conciliar tudo com a novela, o que é ótimo, porque nada me dá mais ansiedade do que perder um projeto por causa de outro. Tenho tido muita sorte nesse aspecto, e até agora não houve nada que tivesse perdido por conflito de agenda. Aliás, houve um, produzido pelo Paulo … é verdade, que não consegui porque estava em Londres, mas isso já envolveu outras questões. Foi na altura do Covid, e tornou-se muito complicado gerir essa situação.

Nessa altura, mais concretamente em 2020, integrou o European Shooting Stars. Gostaria que me falasse sobre as “portas” que a participação desse programa abriu. 

Parece que foi há tanto tempo [risos]. A maior porta que se abriu para mim foi, sem dúvida, conhecer outros atores europeus na mesma situação e poder trocar experiências e sonhos. Conheci pessoas com quem ainda hoje mantenho contacto, como o Bartosz Bielenia [Corpus Christi”], que é um ator incrível. No ano passado, ele veio a Portugal e chegou a ficar em minha casa - ele vive na Polónia, tenho família por lá, por isso, quando lá for, provavelmente também o irei visitar - fez um espectáculo com o Albano Jerónimo e a Iris Cayatte [“O Carro Falante”, de Agnieszka Polska], na Culturgest. Mas o que realmente me marcou foram estas amizades que permanecem e a partilha de experiências.

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Diálogos Depois do Fim (Tiago Guedes, 2023)

Foi também nos Shooting Stars que soube que tinha conseguido o papel na série “Das Boot", e isso foi, em parte, graças ao evento, pois os produtores estavam lá e viram-me. Claro que isso ajudou. Na altura, recebi também convites para outros castings. Depois veio o Covid, mas foi por causa dos Shooting Stars que consegui a minha agência nos Estados Unidos, a Gersh. Comecei a ter reuniões logo a seguir ao evento, e foi esse network que, ainda hoje, continua a ser importante para mim.

O que poderia-me dizer sobre esses novos projetos?

O de Manteigas… Não sei o que posso partilhar sobre ele. A minha personagem é uma mulher que viveu a vida toda lá, nunca saiu de lá, e vai ter um reencontro com alguém com quem esteve envolvida há alguns anos. As coisas não correram bem entre eles, e o filme explora esse reencontro – pelo menos, essa é a parte da minha história que será retratada.

No próximo ano, tenho um filme chamado “Augusta & Kátia”, realizado e escrito por Lud Mônaco e produzido pela Promenade, que será rodado a meio do ano, creio eu. É um filme sobre duas amigas e a forma como lidam com questões sociais, económicas e profissionais num país que não é o delas. É uma abordagem mais virada para a comédia, e tenho gostado bastante dessa diferença entre drama e comédia. 

A comédia é difícil, sem dúvida, mas tenho-me divertido muito. Acho que o filme “Sonhar com Leões”, que fiz com o Paolo Marinou-Blanco pela Promenade, também foi uma experiência nesse sentido. Foi a minha primeira experiência em comédia, e estava apavorada, porque achei que seria possível.

Mas, no final, adorei e diverti-me imenso. Pouco depois, fiz o casting para “Augusta & Kátia”, que também é uma comédia. Pensei: “Isto é demais, não vou conseguir.” Mas fiquei com o papel! Se calhar, tenho mais jeito para a comédia do que pensava. Quem sabe?

Os salteadores dos papéis perdidos ...

Hugo Gomes, 19.10.24

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Paulo Branco manifestou o quão pessoal este filme é, da sua experiência, e amizade para com o escritor e poeta Ruy Duarte de Carvalho (1941-2010), aos serviços “emprestados” na produção de um dos seus poucos trabalhos em cinema [“Móia: O Recado das Ilhas, 1989”], e a vontade que era em adaptar para grande ecrã a sua mais célebre criação literária, a trilogia “Os Filhos de Próspero”. Para tal necessitou encontrar um escritor/argumentista à altura dos seus calos nestas lides africanas, esse cargo calhou ao não menos talentoso José Eduardo Agualusa. Quanto à realização, segundo o produtor, a busca foi ainda mais exigente, pois era preciso encontrar um olhar que dignificasse e compreendesse a realidade subsaariana. 

O achado deu-se com Sérgio Graciano, que Paulo Branco viu num determinado filme (deste lado apostamos em "O Som que Desce na Terra", 2020), do qual o realizador demonstrou uma sensibilidade especial para com aqueles cenários e pessoas. Assim se formou a equipa: um realizador grosseiramente televisivo, um escritor que nos últimos tempos se tem aventurado no cinema ("Nayola", "Sobreviventes"), e um produtor conhecedor da obra de Carvalho, unindo forças para trazer este “Os Papéis do Inglês”, extracto memorial e temporal do eixo Namibe / Angola em ares coloniais. 

Debatendo não só essa identidade e como essas invocações do lusotropicalismo, o filme utiliza também um subtil “macguffin”, os ditos “papéis do inglês” (será um tesouro?) para “burlar” o espectador, e desta feito convidando-o a permanecer num tempo que parece estagnado, revisitado, poetizado em prol deste tributo a Carvalho. Curiosamente, Sérgio Graciano apresenta aqui o trabalho mais equilibrado da sua carreira, onde se notam os seus sacrifícios enquanto “autor”. Despojado dos vícios televisivos ou de o conceito de cinema “para todos os portugueses” (a tal trincheira comercial), através desse trato algo mefistotelicos (para com um produtor que por si é um autor por direito) reforça-se por diálogos ricos e interpretado de forma vigorosa por um elenco rico e multicultural, e adquire espaço e tempo do seu lado para induzir num ensaio de olhares e escutas, de histórias antológicas trovadas como painel multi-narrativo acima da eventualidade etnográfica e até antropológica. 

Não recorre a clichés técnicos, não cede ao excessivo uso de drones (César Mourão estou a olhar para ti) ou outros artifícios banais de esquadrias narrativas (o filme detém uma força anti-natural ao tempo do seu desenrolar, como se requeresse a nossa paciência e atenção a uma demanda remota) e os seus atos raivosamente ditadores. No fundo é uma viagem para longe, quer de nós, quer das memórias da civilização, dos contos dos expatriados, e no seu interior a história de um homem, Ruy Duarte de Carvalho (aqui interpretado por João Pedro Vaz), na sua demanda pelo seu lugar. 

“Perseverança” no título, perseverança na vida. Serge Daney e o seu livro-testamento.

Hugo Gomes, 16.08.24

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Pode a crítica de cinema ser também íntima? Desconstruímos a perpétua imagem de fanfarrão, soturno e quase misantropo que a cultura pop tem “pintado” com pinceladas agrestes, ou a automatização que nos Estados Unidos nos facultou como “mero cargo”. Pois bem, Serge Daney, um dos mais influentes nesta arte — e se é que podemos chamar de arte o exercício de pensamento sobre os filmes (claro que sim!) — é um desses estandartes do pensamento e da emoção, coabitada no mesmo quadrante, sendo que a Sétima Arte se une à sua pessoalidade e vice-versa. 

Escritor da revista “Cahiers du Cinéma”, tendo dirigido-a entre 1973 e 1979, passando depois para o jornal “Libération”, onde produziu alguns dos seus celebrizados textos, entre os quais uma estabelecida comparação entre ténis, outra das suas paixões, e o cinema [ver o filme-ensaio-documentário de Juliet Faraut, L’Empire de la Perfection de 2018], e em 1991, realizando o seu desejo de uma “crítica lenta”, dotada no lirismo e sem concessões editoriais, com a revista “Trafic: Revue de cinéma”, projeto que acompanhou até à sua “despedida” prematura aos 48 anos de idade, vítima do HIV (inconvenientemente, esse destino fatídico também lhe conferiu uma aura trágica e mítica). Daney revelou-se ao longo das gerações como uma lenda urbana de uma certa nata crítica-intelectual, dos seus filmes e impressões, dos seus ensinamentos e ideias, das suas gravuras emocionais. Hoje, podemos encontrar nesta sociedade, e principalmente em Portugal, onde tinha afinidades e afetividades, alguns “filhos e primos” de Daney.

Em 2005, editado pela Angelus Novus, é lançado um conjunto de textos provenientes da pena de Daney, intitulado “O Cinema que Faz Escrever”, no qual se incluem os amores a Paulo Rocha e o tão debatido texto “Travelling de Kapo”, o seu último escrito, que, aliás, tem a honra de abrir este “Perseverança”, com edição da The Stone and the Plot (nota: tendo em 2020 publicado uma versão portuguesa do completíssimo livro de Donald Richie, “Ozu”). Ao longo de 140 páginas, acompanhamos Daney numa derradeira entrevista a Serge Toubiana, publicada originalmente em 1994, dois anos após a sua morte. 

Este triste fado envolve a conversa, dividida em tópicos que mapeiam a alma órfã, incompreendida e viajada de Daney: da busca pelo pai, fantasiosamente induzido pela sua família como uma voz pontuada nas telas, à defesa da televisão, passando por um certo cinema francês, a viagem a Hollywood atrás das dinastias clássicas e a desilusão ao deparar-se com a indiferença com que essa indústria trata os filmes e seus mestres como produtos comuns. Há ainda a marginalização dos movimentos pós-Maio de 68 e as suas viagens, sempre acompanhadas por um postal de visita, uma tela fora da tela, um cinema fora do seu espaço natural. Em tom confessionário, Daney revela-se e descodifica-se num gesto sem julgamentos nem autocensura, transparece a sua homossexualidade, abordando a cru, e deixando escapar a sugestão de um “mercado sexual” que frequentava, por exemplo, nas suas idas e voltas pelo território indo-pacífico, ou na morte incrustada em alguns dos seus discursos, antevendo uma última flecha de luz. 

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Há aqui algo de mortuário, como se desse corpo despejasse toda a sua energia, memorialista e ritualística, num tom de testamento. Bem sabido é que, na altura, já sob os primeiros sinais de uma morte anunciada, ambicionava escrever um último livro, longe do registo de críticas selecionadas e coletadas, possivelmente uma obra autobiográfica com título escolhido – “Perseverança”. Como bem sabemos, o livro não se concretizou, mas o jornalista Toubiana, transparecendo um tributo ao idealista, concede esta transcrição sob o nome projetado. “Perseverança” não é um livro sobre cinema e, fechando-se nesse círculo, não é teoria nem tese; é um objeto de prova de que o cinema tem gente dentro, que vive e respira cada frame e de como a cinefilia se apresenta como um continente imaginário, ora individualista, ora coletivo. Conhecemos Daney, esse tão importante crítico da segunda século XXI, e na sua companhia “ouvimos” as suas preces, o outro Daney, intimista e carnal, sem com isto desassociar-se ao Cinema.

A tradução portuguesa é de Luís Lima, anteriormente encarregado de trazer ao nosso mundo editorial os amores e devaneios de outro crítico amado, que virou cineasta em toda a sua força, François Truffaut (“Os Filmes da Minha Vida”, Orfeu Negro, 1ª edição 2015). O produtor, e amigo, Paulo Branco é autor do posfácio.

O escritor do Cinema, o Cinema do escritor

Hugo Gomes, 01.05.24

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Um Homem é feito de ignorâncias, e admiti-las é abraçar o seu trajeto de progressão nesta breve existência. Não, nunca li Paul Auster e daquilo que começo da sua pessoa vem do cinema, que o próprio sempre demonstrou fascínio e parte da sua influência literária. E foi através do seu Martin Frost (interpretado por David Thewlis, ator diversas vezes posto à margem) a fazer aproximar do que pode chamar de seu universo. “The Inner Life of Martin Frost” (2007) escrito e realizado pelo próprio escritor, um filme de como torturante (e desesperante) é um escritor lidar com a sua própria arte.

Paul Auster (1947 - 2024)

A geometria do Mito ...

Hugo Gomes, 03.03.24

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Na véspera da sua exibição no Festival de Roterdão, os jornalistas portugueses, dirigindo-se ao visionamento de imprensa de “Diálogos Depois do Fim” no Cinema Nimas, foram recebidos pela produtora Ana Pinhão Moura que os elucidou sobre um aspecto peculiar da obra. Inicialmente produzida como uma série televisiva composta por 19 episódios, este filme foi concebido e realizado através da "colagem" de 6 "diálogos". No entanto, em Roterdão, o "filme" seria diferente daquilo a que os profissionais de imprensa iriam assistir, tal como indicou a produtora, essa versão seria de uma montagem diferente, uma compilação de episódios previamente selecionados pela comitiva de seleção do festival holandês. 

Assim, "Diálogos Depois do Fim" estabeleceu-se como um filme fragmentado, composto por partes que são construídas pela iniciativa do curador/espectador, nunca detendo uma estrutura original, mas mantendo a sua essência - a adaptação de "Diálogos com Leucó", a obra predileta do escritor neorrealista italiano Cesare Pavese (1908 - 1950), integrado na sua visão de desapropriação do mito grego e igualmente a sua subjugação à natureza mitológica (“O mito é (...) o esquema de um facto acontecido de uma vez para sempre, e retira o seu valor desta unicidade absoluta que o leva para fora do tempo e o consagra como revelação”, citando o próprio).

Em resumo, é um exercício performativo digno de instalação, onde 39 atores e uma pequena equipa, liderada por Tiago Guedes ("Os Restos do Vento", "Coisa Ruim", "A Herdade"), aventuram-se no arquipélago açoriano para encenar os diálogos totalizados (19 dos 27 originalmente presentes no livro) e extrair as figuras mitológicas e mortais fantásticas de Pavese, em conflito de ideias, orbitadas pelos fascínios declarados pelo autor. Desde a existência à dicotomia entre a morte e a vida, da violência à paz, da utopia à distopia, estas conversas imaginadas com o mar no horizonte e a selvajaria intactamente indomável servem de palco para a teatralidade encontrada.

Embora Straub e Huillet tenham feito destas inspirações muitos dos seus campos elísios, nas mãos do oscilante realizador Guedes, entendemos como uma variação mais digna do seu processo do que da sua própria conclusão. "Diálogos Depois do Fim" é um filme transmutável, sem um lar ao qual possa chamar seu, encaminhado como um gesto produtivo em vez de uma obra finalizada. Os Açores [Pico] contribuem com o ambiente nesta móvel residência artística, e a sua conjuntura para com o desconhecido apela constantemente à imaginação e crença do espectador. O resto tenta permanecer relevante depois do fim. Não sabemos se resultará com a sua arte ...