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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Bola Preta #4: Depois da Cinemateca, um jantar projectado com Vistavision. Uma conversa com Samuel Andrade

Hugo Gomes, 25.10.25

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Panic Room (David Fincher, 2002)

Após um dia de trabalho, Samuel Andrade sai da cabine de projecção da Cinemateca com um único objectivo: jantar. Porém, alguém estava no seu caminho. O encontro gerou outro encontro. “Aonde vamos jantar?” “Aqui, mesmo ao lado; nem é preciso andar muito e ainda ficamos no convívio dos fantasmas da Cinemateca.” Abancamos no fundo da cervejaria, na esperança do mais discreto e sossegado possível. Fomos, contudo, traídos pela compostura daquela noite quente. Depois de solicitarmos o menu, o nosso redor começou a encher-se: cacofonia, tilintar de loiça, brindes avulsos na celebração dos mais diversos tratos. Do nosso canto, o Cinema era parte do cardápio. Samuel havia escrito recentemente um Manifesto pela Salvação da Sala de Cinema, e foi a partir dele que agendamos uma pequena luta armada. Paul Thomas Anderson e o seu “One Battle After Another” serviram de pólvora para o embate. “O streaming não tem piada nenhuma!” Chegámos a um acordo mútuo, entre cavalheiros, cada um com o seu prato, opinando entre garfadas sobre o cinema que relembramos enquanto Cinema: o da sala, e, nos mínimos dos mínimos, o do home video, para destilar os desertores. Cheers.

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Bola Preta #2 - O Cinema quer-se nostálgico … ou será aguerrido? Uma conversa com António Araújo.

Hugo Gomes, 03.10.25

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Hard Eight (Paul Thomas Anderson, 1996)

Queixamo-nos da falta de criatividade nos estúdios americanos, mas deixamo-nos embriagar por uma ideia de tempo distante, desses que apenas vivem na memória, como prova de uma existência alternativa. António Araújo, figura central do "podcasting" luso-cinematográfico e coautor do livro "Olhar o Medo", viagem ao cinema de terror em português de Portugal, aceitou, numa noite adentro, abordar este flagelo, porta aberta a outras necrofilias, desapropriações, princesas intergalácticas e crianças armadas. Do elevated horror constatamos a ausência: uma batalha sucedendo-se a outra — emotiva, política, cinematográfica — longe das fortalezas pueris do "cinema confortável". A nostalgia matou o cinema político? Acreditamos que sim. Mas quem somos nós para confirmar ciência exacta?

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Bola Preta #1 - Por detrás de uma geração sacrificada e de uma cinefilia estagnada. Uma conversa com Rui Alves de Sousa

Hugo Gomes, 25.09.25

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Beau Travail (Claire Denis, 1999)

Não há revolução sem violência”. Recordo estas palavras ao sair do novo filme de Paul Thomas Anderson (“One Battle After Another”) e ao tentar encaixá-lo no mundo que nos cerca cada vez mais. Contudo, escolhi outra forma de resistência: a de um podcast sobre crítica, cinema, cinefilia e latências (ou até lactâncias, se preferirem). Não quis formatos rigidamente definidos, nem estúdios com auscultadores para soar profissional. Quis, sim, uma vista para o Tejo (e a Serra da Arrábida a acenar no horizonte), uma ‘litrosa’ como companhia e um parceiro no crime: o primeiro desta jornada, já tão habituado (ou calejado) nestas andanças do ‘podcasting’. Rui Alves de Sousa, radialista da Antena 1 e editor/colaborador da “À pala de Walsh”, aceitou o desafio. E permitiu, assim, esta resistência: a de fazer um podcast sob a ordem da palavra, do diálogo, por vezes labiríntico; das queixas e lamentos de uma geração perdida e de uma cinefilia pelo mesmo caminho. Sem guiões, sem planos, partimos para a tertúlia. Ao contrário do filme do PTA, sem violências, porque não é a revolução que procuramos, deixaremos isso para outras estâncias, ou estações.

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À espera da revolução que nunca chega

Hugo Gomes, 25.09.25

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Por mais que nos convençamos de que Paul Thomas Anderson trabalhou neste guião durante vinte anos, ainda assim é difícil não contemporaneizá-lo na América de hoje: a de Trump, a das saídas do “armário” ou, talvez, como hipótese de um tempo cíclico em constante loop, a de uma estagnação de onde nunca saímos verdadeiramente. Em “One Battle After Another”, PTA (carinhoso acrónimo) toma as rédeas dos escritos de Thomas Pynchon, como fizera no ainda discutido “Inherent Vice”. Porém, enruga-os como bacalhau seco e esfrega-os na cara da modernidade, com a ambição de transformar este filme no seu magnus opus, o cinema político norte-americano de que necessitamos.

Mas vejamos: aquele início fervoroso, de assaltos a centros de detenção de imigrantes (aliens, nome careta e de instrumentalização politizada de conservadores e alados), de arma em punho, alguns gritos de ordem e uma ereção inesperada — eis a América enquanto América, a violência como carpe diem. “Toda a revolução é violenta”, afirma a personagem que se apresenta como Perfídia Beverly Hills (Teyana Taylor), herdeira de uma longa linhagem de revolucionários e activistas sem hashtags nem frases feitas. Bom slogan, que poderia rimar com outro: “não há revolução sem revolução sexual”, do nosso caro camarada Dusan Makavejev [“WR: Mysteries of the Organism”], e desta cama passa para camas alheias, sexo aqui, sexo ali, sem notar como tais lascividades condicionam destinos. Mas o que fazer senão a revolução, a promessa, os amanhãs que cantam? Virada à esquerda, radical, talvez sim, talvez não, em terra de americanos, porém, a violência é a senha de entrada no clã.

Agora: cinema político? Precisam os EUA de uma nova vaga? Todas as vagas nascem de uma ruptura, de uma revolução que nunca é pacífica ou negocial, mas agressiva, destruidora de vícios para criar outros. PTA, por outro lado, está longe de ser revolucionário ou de liderar uma vaga possível. A sua agressividade é pacificadora. Ao longo da carreira olha para os alicerces americanos, estabelece pontes com a tradição, defende a sua geração, mas concentra-se em dissecar o Poder: os seus tentáculos, as suas encarnações, as tatuagens desta América. Assim o fez pelo acaso (“Magnolia”, 1999); pela indústria pornográfica (“Boogie Nights”, 1997); pela ganância empreendedora (“There Will Be Blood”, 2007), onde a personagem de Paul Dano desenha o quão carnal a religião se tornou nesses círculos de poderio capitalizado; pelo culto (“The Master”, 2012), filme que hoje seria retrato actual das políticas evangelistas e da sua diluição pelo palco democrático; e pela paranoia (“Inherent Vice”, 2014), já a piscar o olho a “One Battle After Another”. A paranoia é o seu lar, envidraçado na sátira, e PTA, influenciado por Pynchon, caricatura medos, choques e Poder. Aqui Sean Penn surge altamente caricatural, a ridicularizar um punhado de personagens da nossa faux politique.

Mas voltemos às vagas: a obra é demasiado cara para arriscar o corte esperado e o realizador demasiado compreensivo com o cinema da sua casa para fermentar um movimento consequente. Integra a geração herdeira de um cinema “Senhor Hollywood”, sem palhaçadas nem ‘bonecadas’, como James Gray, só que, ao contrário deste, PTA conhece os códigos sem os mimetizar, não sonha sentar-se à mesa dos professores; quer criar um lugar numa mesa apenas sua. Mas será que está a conseguir com o feito? Resposta incerta, contudo cada lançamento seu adquire um tom de filme-evento, o “novo filme de Paul Thomas Anderson a estrear”, frase ouvida para agrado de qualquer realizador. “One Battle After Another” pode não ser o passo seguinte do cinema americano … esperamos, contudo, pelo dia em que surja algo capaz de o arrancar da sua mortiça condição artística. Entretanto, porque não acreditar que a revolução possa vir também das massas? Não dos proles ou dos descontentes, mas da massificação vista pelo prisma capitalista e consumista?

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Daí o mesclar entre a paródia coenesca, descrédito humano de Iñárritu, caos e calmaria, remexendo politiquices, extremismos e paranoias, um trago de Nova Hollywood de estrada vai e estrada vem, ou da malapata scorseseana (nota-se as inspirações, as fontes ‘inspirituais’, mas ao contrário de outros da sua ‘turma’, Tarantino, não deixa as referências em exibição). Tudo paródia, tudo troça, tudo violência na piada e na execução. PTA poderá conquistar público, elaborar o seu filme do momento, o zeitgeist cultural, porque até as massas pedem hoje o seu choque político: make cinema relevant again. Sem construir um movimento (desses que esquartejam a ordem natural do procedimento) este poderá ser, ao menos, o evento necessário para cativar uma audiência desmerecida, ou domesticada pela dominância da tendência rentável. 

Perdoamos aquele epílogo lamechas e descabido, vibramos com o astuto e certeiro golpe na estrada inóspitas, rimos de Sean Penn num bullying permanente a relembrar outras e determinadas figuras da nossa atualidade, torcemos pelo destino atrapalhado por Leonardo DiCaprio, cansamos da obsessiva música de Jonny GreenwoodPTA poderá, num meio deserto extremo, ter criado o seu “cinema político”.

The roof is on fire!

Hugo Gomes, 19.08.22

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Minari (Lee Isaac Chung, 2020)

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Rebecca (Alfred Hitchcock, 1940)

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Mirror / Zerkalo (Andrei Tarkovsky, 1975)

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The Sacrifice / Offret (Andrei Tarkovsky, 1986)

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Nightsiren (Tereza Nvotovà, 2022)

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The Homesman (Tommy Lee Jones, 2014)

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Burning (Lee Chang-dong, 2018)

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Come and See /  Idi i smotri (Elem Klimov, 1985)

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Midsommar (Ari Aster, 2019)

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Pet Semetary (Mary Lambert, 1989)

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8 Mile (Curtis Hanson, 2002)

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Gone with the Wind (Victor Fleming, 1939)

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There Will Be Blood (Paul Thomas Anderson, 2007)

Oscars 2022: O Padrão, O Cenário e o Desabafo

Hugo Gomes, 27.03.22

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Irritações sobre os Óscares. Um convite de Roni Nunes para o seu site Cultura XXI.
 
"Nesta última indicação gostaria de deixar a minha oposição à Academia Americana e invocar o discurso vitorioso de Bong Joon Ho de estatueta de Melhor Filme na mão: “quando ultrapassamos a barreira das legendas, acedemos a tantos magníficos filmes”. Talvez seja essa a resposta à angústia dos Óscares, essa abertura, internacional digamos (até como ofensiva a uma indústria cada vez mais decadente e homogeneizada), mas também na perda dos preconceitos quanto a géneros e a abordagens. Novamente celebrar Cinema e não apenas “glamour”, se é que um dia os Óscares foram sobre o cinema propriamente dito."
 
Para ler aqui.