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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Arranca o 12º Olhares do Mediterrâneo: "no cinema feito por mulheres a utopia surge como consequência necessária da resistência"

Hugo Gomes, 27.10.25

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The Brink of Dreams (Nada Riyadh & Ayman El Amir, 2025)

Os Olhares do Mediterrâneo regressam a Lisboa com a oferenda da sua 12.ª edição, uma programação que faz jus à luta, atravessando o Mediterrâneo, esse mar que conecta três continentes e diversas culturas, unidas por uma só linguagem: a cinematográfica. É essa a batalha que se apresenta em jogo, a resistência de um Cinema sobre resistências, sobre choques e guarnições, tudo sob o signo feminino.

Mais uma vez, é o Cinema com autoria de mulheres a marcar passo no espaço, seja na projeção de filmes, seja no debate sobre o acesso às nossas plataformas de viabilidade, ou nas estéticas que se querem longe da enfermidade.

A acontecer no Cinema São Jorge, na Cinemateca Portuguesa e, esporadicamente, em eventos ou sessões especiais no Museu do Aljube, ISCTE-IUL e Casa do Comum, o 12.º Olhares do Mediterrâneo (de 28 de Outubro a 6 de Novembro) deseja esclarecer um mal-entendido que atravessa quase um século de existência cinematográfica: existe, sim, (e sublinha-se o axioma) Cinema entre as Mulheres … aliás, existe sim, Cinema, ponto.

Sílvia Di Marco, co-diretora do festival, foi novamente desafiada pelo Cinematograficamente Falando… a responder a este novo ano sob os Olhares Mediterrânicos.

O mote deste ano é “Semear Resistências, Cultivar Utopias”. Quando olha para a selecção dos 63 filmes, sente que a utopia ainda tem espaço no cinema feito por mulheres, ou é já uma forma de resistência em si mesma?

Penso que neste momento no cinema feito por mulheres a utopia surge como consequência necessária da resistência. Ou seja, em geral neste momento não se fazem muitos filmes que apresentem uma proposta utópica de vida ou sociedade, mas, pelo menos na nossa programação, há muitos filmes que mostram formas de resistência grandes ou pequenas, e assim convidam a pensar que as coisas não devem ser necessariamente assim, seja qual for a situação. Este é o primeiro passo para pensar a utopia, aquele lugar que (ainda) não existe. 

Mas de facto, numa das sessões de warm up, apresentamos um documentário sobre uma revolução utópica em curso. “Jînwar - Women’s Village”, da realizadora curda Nadya Derwis, dá-nos a conhecer a revolução do confederalismo democrático actualmente em curso no Nordeste da Síria (Rojava), uma revolução que desde o início tem colocado no seu centro a convivência inter-étnica e a libertação das mulheres. Agora que a fase da luta armada parece terminada, acompanhamos com enorme interesse o que está a acontecer naquela região e esperamos poder apresentar mais filmes sobre esta utopia em construção nos próximos anos.

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My Sweet Land (Sareen Hairabedian, 2024)

O festival cresce em duração e em número de salas — seis espaços lisboetas. Esta expansão é um gesto político, uma necessidade logística, ou um grito cultural contra o estreitamento dos lugares de encontro?

As três coisas juntas! Reclamar mais espaços de encontro é um gesto político, ocupar estes espaços com filmes que fazem pensar e convidam ao diálogo é um gesto político. Ter mais filmes e acolher as pessoas é um gesto muito concreto, que requer tempo – daí ter mais dias – e impõe necessidades logísticas, ocupando mais salas. 

As questões ambientais ganham este ano um destaque especial, com sessões dedicadas e um workshop provocador — “Can Cinema Help Save the Planet?”. O cinema pode realmente salvar o planeta, ou apenas documentar a sua ruína?

O cinema não salvará o planeta (nem consegue salvar-se a si próprio…), mas pode contribuir para construir imaginários diferentes sobre a relação entre os humanos e o planeta que habitam, e desta forma contribuir para escolher viver segundo lógicas menos extrativistas e destrutivas. A nossa aposta é esta: ajudar a pôr o proverbial grão de areia na engrenagem do pensamento hegemónico.

A secção Travessias continua a explorar migrações, colonialismos e racismo. Depois de 12 edições, o que mudou mais — o olhar do público, o modo de contar das realizadoras, ou o próprio entendimento de “mediterrâneo”?

O olhar do público, sem dúvida, e a urgência de alguns temas. Quando nasceu a secção Travessias estávamos no auge da “crise” dos refugiados sírios e dos barcos à deriva no Mediterrâneo. Sentíamos – nós, como programadoras, e as realizadoras enquanto “fazedoras” de filmes – uma grande urgência de documentar e denunciar o que se estava a passar nas rotas migratórias e nos campos de refugiados. Entretanto começou a ter mais força o discurso anti-colonialista e começamos a ligar os pontos que unem migrações forçadas, colonialismo e racismo. Há uma sensibilidade nova tanto entre as cineastas como no público sobre estes temas, e os Olhares do Mediterrâneo acompanham com atenção esta mudança. 

Ao mesmo tempo continuamos à procura do inesperado, o escondido, o de que ninguém fala. É por isso que para a sessão que precede o já tradicional “Debate Travessias” escolhemos um documentário sobre uma guerra esquecida e de baixa intensidade, a do Nagorno-Karabakh. No documentário “My Sweet Land”, a realizadora Sareen Hairabedian acompanha com enorme ternura um miúdo de 11 anos, Vrej, que sonhava ser dentista e que instintivamente recusa qualquer forma de violência, mas que uma guerra multigeracional obriga a viver como refugiado e, quando regressa a casa, a ter treino militar para proteger a sua cultura e identidade. Filmado de forma delicada e atenta, sem cenas de grande violência, o documentário convida a uma reflexão profunda sobre a vida em países militarizados e consegue transmitir de forma incrivelmente límpida o olhar de uma criança sobre o mundo.

Na programação das mostras de Jasmila Žbanić e Mirjana Karanović, revisitamos as feridas da Guerra da Jugoslávia. Porque é que regressar à guerra — e às suas sombras — continua a ser tão urgente em 2025?

Para não esquecer. Para mostrar que a cegueira da “comunidade internacional” de hoje é igual à do passado e, por isso, ainda menos aceitável. Mas, por absurdo que pareça, a nossa escolha de programar os filmes de Jasmila Žbanić e Mirjana Karanović é um gesto de optimismo e confiança na potência do cinema. Jasmila Žbanić é bósnia. Mirjana Karanović é sérvia. Ambas viveram a guerra na sua pele e a guerra dizia que deviam ser inimigas. Mas escolheram não ser. Muitas vezes trabalham juntas. Mirjana Karanović, considerada uma das maiores actrizes sérvias de sempre, actua em vários filmes de Jasmila Žbanić, e esta tem produzido ou co-produzido as obras da colega. É isto, sobretudo, que queremos salientar nesta mostra. Mirjana Karanović estará presente e estamos muito impacientes por dialogar com ela.

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Quo Vadis, Aida? (Jasmila Žbanić, 2020)

Há 12 produções portuguesas em destaque, entre elas "Mulheres, Terra, Revolução" (Rita Calvário & Cecília Honório, 2025). É coincidência ou sinal de um novo fôlego do cinema português no feminino, mais comprometido com a memória e o território?

O novo cinema português no feminino é extremamente vital e comprometido com muitos temas diferentes, utilizando géneros e formatos diversos. O que nós apresentamos é uma amostra muito pequena do que as realizadoras em Portugal fazem hoje em dia. Por falta de tempo/espaço na programação, mas também por questões de coerência programática.

O festival afirma-se como um espaço de militância e de emoção, onde “há lugar para a denúncia, mas também para o riso e o optimismo”. Como é que se equilibra o cinema combativo com o prazer de ver e sentir?

Há prazer na luta! E agora fora de brincadeiras: o facto de um filme ser combativo ou engajado não o coloca em oposição nem à possibilidade de ser um filme “leve”, nem à de ser um objecto estético. Temos uma sessão de filmes experimentais na Casa do Comum, na noite de 29 de Outubro. Cada um deles é ao mesmo tempo um gesto estético e de denúncia ou reflexão. E o filme “Where the Wind Comes From”, de Amel Guellaty, da sessão de abertura oficial do Festival, é a demonstração de como é possível falar com humor e poesia do desamparo e raiva de uma geração.

Por fim, este é o mais antigo festival de cinema no feminino em Portugal. O que ainda falta conquistar? É mais difícil resistir à invisibilidade ou à institucionalização?

Respondo primeiro à segunda parte da pergunta: é mais difícil resistir à institucionalização. Que é uma forma sub-reptícia de invisibilização, porque define padrões de legitimidade que reproduzem, com pequenos ajustes, as dinâmicas de poder existentes, sem as pôr realmente em crise. Quanto a o que ainda falta conquistar: muito. Fizemos muito caminho, não há dúvida. As realizadoras têm hoje muita mais visibilidade do que há 13 anos, quando os Olhares do Mediterrâneo começaram. Mas há ainda muito trabalho a fazer sobre as condições de trabalho das mulheres no sector do audiovisual e a forma como as mulheres e as minorias são representadas no cinema. Este ano, juntamente com a MUTIM, organizamos um workshop de escrita e uma mesa redonda sobre a escrita e representação da intimidade. Penso que o futuro do Festival passa por dar mais peso à formação e à reflexão sobre todo o processo de criação de um filme e não só na sua exibição ao público. Temos um caminho longo e fascinante pela frente.

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Consultar toda a programação aqui

Natália e a cicatriz da sua ausência

Hugo Gomes, 07.09.25

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Recentemente, Eva Brás Pinho, jovem deputada do PSD, durante a sua intervenção na Assembleia da República sobre o enquadramento legal da violação enquanto crime público, leu algumas passagens do livro "A Cicatriz", da autoria de Maria Francisca Gama (publicado pela Suma de Letras), um fenómeno de vendas à portuguesa (impulsionando pelos ‘tik-toks desta vida’) que, no entanto, não se reflete na sua qualidade literária (mas isso são outros cinco tostões).

O que impressiona, hoje, é termos passado de Natália Correia (1923 - 1993) para isto, para a mediocridade que a direita elege como referência cultural, sem esquecer, porém, que também a deputada e poeta não foi sempre unanimemente agraciada pela ala esquerda. É precisamente nesse vazio que se inscreve o novo filme de Rosa Coutinho Cabral, realizadora do mais godardiano trabalho do cinema português ("Lavado em Lágrimas", 2006). "A Mulher que Morreu de Pé" não é apenas uma perspetiva esquemática sobre a vida, obra e carreira de Correia; é também a busca pela sua réstia neste mundo que se despediu da sua presença. Encena-se uma peça, e vários atores proclamam Natália Correia como sua … como unicamente sua. Cada um transmite as qualidades e feituras que a tornaram única, intrapessoal, irrepetível, e ao mesmo tempo pessoal, partilhável e a ser mimetizado no palco (“Qual é a tua Natália?”).

O filme prima por essa corda bamba entre documentário biográfico, ensaio performativo e demanda pessoal da cineasta: um cinéma vérité entre sombras e sósias de Natália, com o arquivo no apoio e na jornada da sua criação (encontrar a Natália de Rosa Coutinho Cabral em todo este espólio?). Entendemos o gesto (“o que aconteceria se a própria Natália fizesse um filme?”), e, sobretudo, a vontade de prosseguir ao encontro desta figura que, recordando a intenção de Eva Brás Pinho, deixou órfã a intelectualidade da Assembleia. Até porque "A Cicatriz", livro sobre uma mulher violada numa favela do Rio de Janeiro e que acaba por se suicidar, é tudo menos um provedor da resistência das vítimas de tão hediondo ato. Ai, se Natália estivesse viva! É por isso, e por outras, que "A Mulher que Morreu de Pé" funciona como lembrete e procura: a busca por uma mulher que, tal como o título indica, nunca se subjugou a quem quer que fosse.

Cine Amadora chega à 2ª edição! Fazer da cidade a "grande tela do cinema lusófono".

Hugo Gomes, 05.03.25

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"Manga d'Terra", de Basil da Cunha, exibido no dia 6 março

Procurando na cidade da Amadora, a sua história, a sua língua… ou melhor, as suas línguas, e, transversalmente, o seu cinema, o Cine Amadora aposta em ser mais do que uma mera montra de filmes, e sim, a pretensão de transformar o cinema numa ferramenta de proximidade, numa ponte cultural e social, num evento que transcende estâncias e conformidades. 

Na sua segunda edição, que decorrerá entre 6 e 9 de março, com entrada livre nos Recreios da Amadora, Eron Quintiliano, diretor artístico do festival, revelou ao Cinematograficamente Falando … o que esperar deste regresso — e as suas ambições de tornar o evento um cantinho afetivo desta cidade, distanciando-a culturalmente do cognome de “subúrbio de Lisboa”. Porque há vida na Amadora, e logicamente, Cinema!

O Cine Amadora tem vindo a afirmar-se como um espaço de resistência e celebração do cinema lusófono. O que diferencia esta segunda edição da anterior?

O Cine Amadora mantém o seu compromisso com a valorização do cinema em língua portuguesa, mas, nesta segunda edição, aprofundamos ainda mais as nossas temáticas e ampliamos a programação. Um dos grandes diferenciais desta edição é o reforço da presença de realizadoras, consolidando a missão de dar visibilidade ao trabalho das mulheres na sétima arte. Além disso, expandimos as ações de formação de públicos com debates, com um olhar mais atento para o diálogo intergeracional e o acesso democrático à cultura, através de sessões direcionadas para escolas e seniores. Esta edição também se fortalece através das colaborações institucionais, como a Carta Branca à Escola Superior de Teatro e Cinema (ESTC) e a parceria com outros festivais lusófonos, ampliando a rede de circulação de filmes.

A cidade da Amadora é frequentemente retratada através de estereótipos, maioritariamente desabonadores. De que forma o festival procura desconstruir essas narrativas e apresentar um outro olhar sobre este território?

A Amadora é um território vibrante, diverso e cheio de talento, mas muitas vezes a sua imagem é moldada por estereótipos negativos. O Cine Amadora nasce exatamente da necessidade de contrariar essas narrativas redutoras, apresentando a cidade como um pólo de criação e exibição cinematográfica. A curadoria do festival privilegia histórias que refletem essa pluralidade cultural, mostrando a Amadora como um espaço de encontros, onde diferentes trajetórias e experiências coexistem. A nossa equipa e parcerias trabalham diretamente com comunidades, escolas e coletivos artísticos, há um sentimento de pertença e envolvimento ativo com o público. 

  • "Césaria Evóra", de Ana Sofia Fonseca (dia 9 de março)
  • "Pedágio", de Carolina Markowicz (dia 7 de março)
  • "Big Bag Henda", de Fernanda Polacow (dia 8 de março)

 

O cinema é diversas vezes visto como uma ferramenta poderosa de transformação social. Que impacto espera que o Cine Amadora tenha na comunidade local e no panorama cinematográfico lusófono?

O impacto do Cine Amadora ocorre em várias frentes. No plano local, queremos criar uma relação contínua entre a cidade e o cinema, democratizando o acesso e fomentando o gosto pela sétima arte, especialmente entre os jovens. Com as sessões gratuitas e direcionadas a diferentes públicos, tornamos a experiência cinematográfica acessível a todos, promovendo um diálogo aberto sobre as narrativas que nos representam.

No contexto lusófono, o festival atua como uma plataforma de visibilidade para filmes que muitas vezes encontram dificuldades de circulação. Ao criar pontes entre cineastas, festivais e públicos de diferentes países, o Cine Amadora contribui para o fortalecimento da produção cinematográfica em língua portuguesa.

A programação deste ano reforça o protagonismo das realizadoras e a luta contra as desigualdades de género na sétima arte. Que desafios ainda persistem para que o cinema feito por mulheres deixe de ser visto como um nicho?

Apesar dos avanços na representatividade feminina no cinema, persistem desafios estruturais. As mulheres ainda encontram dificuldades de acesso a financiamento e distribuição, além de enfrentarem barreiras invisíveis na construção das suas carreiras. O Cine Amadora procura contrariar essa tendência, promovendo um espaço de visibilidade e reflexão sobre a desigualdade de género no setor. Ao colocar realizadoras em destaque, procuramos normalizar a presença feminina atrás das câmaras e incentivar a próxima geração de cineastas a ocupar estes espaços com mais força e legitimidade.

O Cine Amadora não se limita à exibição de filmes, mas aposta também na formação e no intercâmbio cultural. Como vê a importância dessa vertente educativa dentro do festival?

A dimensão educativa do Cine Amadora é essencial. Para além da exibição de filmes, oferecemos workshops e encontros com realizadores, criando um espaço onde o público pode consumir cinema, e também compreendê-lo, discuti-lo e, quem sabe, produzi-lo. Acreditamos que um festival de cinema deve ser um catalisador para a criação de uma comunidade cinéfila ativa e engajada. Nesse sentido, o intercâmbio cultural é um dos eixos centrais do festival, promovendo ligações entre criadores lusófonos e estimulando a colaboração entre diferentes geografias e perspetivas.

Com sessões dedicadas a públicos específicos, como escolas e seniores, o festival reforça a democratização do acesso à cultura. Como tem sido a resposta do público a essa abordagem?

A resposta tem sido positiva. As sessões para escolas, deverão ser momentos de envolvimento e debate, onde os alunos descobrem novas cinematografias e são incentivados a refletir criticamente sobre as histórias que consomem.

As sessões dedicadas aos seniores buscam proporcionar um espaço de encontro e memória, onde a sétima arte funciona como um elo entre diferentes gerações. Para nós, este tipo de programação amplia o público do Cine Amadora, reforçando a importância do cinema como ferramenta de inclusão e partilha intergeracional.

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"Chelas nha kau" do coletivo Bataclan 150, dia 9 de março

Gostaria que nos falasse sobre as parcerias do Cine Amadora com outras instituições [MUTIM] e festivais [Olhares do Mediterrâneo, MICAR], em particular a ligação à Escola Superior de Teatro e Cinema, que nesta edição recebe uma carta branca para apresentar uma seleção de trabalhos dos seus alunos.

A colaboração com a Escola Superior de Teatro e Cinema (ESTC) é um dos pilares do Cine Amadora. Ao conceder-lhes uma Carta Branca, reconhecemos o papel essencial da ESTC na formação de novos talentos do cinema português.

É especialmente simbólico poder exibir uma curta-metragem de Leonor Teles, uma cineasta que deu os seus primeiros passos na ESTC e que hoje é um nome incontornável do cinema nacional. Com esta parceria, criamos um circuito de visibilidade para jovens realizadores, reforçando o compromisso do Cine Amadora em fomentar a renovação do cinema lusófono.

Depois de um ano zero experimental e uma primeira edição de consolidação, o que podemos esperar do futuro do Cine Amadora? Há planos para expandir a mostra para além dos Recreios da Amadora? Extensões ou itinerâncias?

Neste momento, não temos planos para expandir o Cine Amadora para além da cidade, mas sim reforçar a mostra e consolidar a Amadora como a grande tela do cinema lusófono. O nosso foco está em fortalecer a programação, aprofundar as parcerias e continuar a atrair novos públicos e profissionais do sector. Para o futuro, pretendemos ampliar o festival no sentido de introduzir sessões competitivas, permitindo a participação de filmes inesperados e representativos de todos os países de língua portuguesa. Acreditamos que a produção cinematográfica tem crescido significativamente, mas muitas dessas obras encontram dificuldades em alcançar o seu espaço e distribuição. Queremos descobrir e dar visibilidade a esses filmes, oferecendo um palco onde possam ser vistos e reconhecidos.

A expansão dentro da própria cidade está também nos nossos planos, assim como a possibilidade de extensões itinerantes, levando o festival a novos territórios e públicos e reforçando a nossa missão de tornar o cinema mais acessível e diversificado.

Queremos que o Cine Amadora continue a fortalecer-se como uma plataforma essencial para o cinema lusófono, promovendo novas narrativas, estimulando a reflexão crítica e, acima de tudo, fazendo da Amadora um centro vibrante da sétima arte.

Toda a programação poderá ser consultada aqui

No 11º Olhares do Mediterrâneo a revolução do dia-a-dia faz-se no feminino ... e com Cinema!

Hugo Gomes, 27.10.24

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A Mulher que Morreu de Pé (Rosa Coutinho Cabral, 2024)

Falemos de Cinema, mas também de Mulheres, e da dissociação entre ambos. É com este mote que o Olhares do Mediterrâneo se apresenta, com uma programação forte em filmes e eventos paralelos que discutem o género, as possibilidades e a importância de desvendar um cinema pensado, feito e concretizado por mulheres. Ao ultrapassar a marca de uma década, agora com a sua 11ª edição, o Festival Internacional convida-nos novamente a percorrer as margens do Mar Mediterrâneo, explorando culturas e perspetivas audazes que culminam na arte que tanto valorizamos. Este ano, a Palestina surge não apenas como horizonte, mas como algo tangível através das imagens, já que este olhar traz consigo atualidade, urgência e subversão.

O Olhares do Mediterrâneo arranca no próximo dia 31 de outubro, transformando o habitual “Dia das Bruxas” numa celebração do feminino e da sua cinematografia. O evento prolonga-se até 7 de novembro com várias atividades e exibições em novos espaços, como o Cinema São Jorge, a Cinemateca Portuguesa, o Goethe-Institut e a Casa Comum.

Silvia Di Marco, co-diretora do festival, foi desafiada pelo Cinematograficamente Falando … a descortinar as novidades, a programação de mais um ano e a essência desta importante montra cinematográfica. 

O tema desta edição, "Revoluções Quotidianas", é uma escolha particularmente simbólica no ano em que se comemoram os 50 anos da Revolução de Abril. Pode explicar como se deu a escolha deste tema e de que forma ele se reflecte na selecção dos filmes?

Este ano escolher o tema da “revolução” era incontornável para nós, porque os valores de Abril de democracia e igualdade fazem parte do ADN do Olhares do Mediterrâneo - Women's Film Festival, assim como a ideia de que o quotidiano das mulheres que se empenham pela igualdade tem uma forte carga revolucionária: querer que as nossas vozes sejam ouvidas e não sejam apagadas, que as nossas histórias sejam contadas nos nossos termos e não por outros, é uma revolução que fazemos todos os dias e o Festival é uma forma de ampliar e concentrar a força destas revoluções quotidianas. 

Aliás, não é a primeira vez que trazemos a Revolução ao festival. Em 2021, por exemplo, acolhemos a estreia do documentário “Elas também estiveram lá” de Joana Craveiro. Na programação deste ano uma ideia mais subtil de revolução norteou o programa, exactamente para captar esta ideia de quotidianidade do gesto revolucionário, que é o gesto de quem não se conforma ao status quo, seja qual for. Por exemplo, na primeira sessão de curtas-metragens, a 31 de outubro, apresentamos cinco filmes que questionam o corpo de mulheres e crianças, como ele é vivido e socializado. No documentário “The Desert Rocker”, da argelina-canadiana Sara Nacer, damos a conhecer ao público a vida de Hasna El Becharia, a mulher que transformou a música Gnawa, tradicionalmente tocada exclusivamente por homens. 

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Remember my Name (Elena Molina, 2023)

No filme de encerramento da parte competitiva do festival, “The Girls Are Alright”, da espanhola Itsaso Arana, revela-se o potencial revolucionário de um ensaio de uma peça de teatro numa casa de campo, onde quatro actrizes e uma encenadora usam da palavra no gesto extremamente “feminino” de partilhar vivências  e tecer mundos possíveis em longas conversas imprevisíveis.

O Festival dá especial destaque ao cinema palestiniano, com a secção "Olhares da Palestina". O que motivou a escolha da Palestina como país convidado desta edição e qual a importância de dar visibilidade a estas cineastas, principalmente nos tempos incertos que o Médio Oriente vive hoje?

O Festival chama-se Olhares do Mediterrâneo e é impossível olhar ao e do Mediterrâneo sem ver o que acontece na sua costa oriental. Por isso, sempre nos posicionámos de forma clara relativamente à chamada questão palestiniana. Sem nunca deixar de reconhecer e defender o direito dos judeus a viver em segurança em qualquer lugar do mundo, incluindo Israel, consideramos que a opressão do povo palestiniano é inaceitável e tem de acabar já. 

Os horrores de 7 de outubro de 2023, que o governo de Israel utilizou como carta branca para o genocídio em Gaza, é a razão principal que nos levou a decidir que este ano devíamos ter uma restrospectiva sobre as realizadoras palestinianas. É uma forma de homenagear a vida e o trabalho destas mulheres e ao mesmo tempo oferecer ao público uma oportunidade de descobrir uma cinematografia e uma história amplamente desconhecidas e criar oportunidades de debate. Os filmes que apresentamos são essencialmente filmes da diáspora. Porquê? O que obrigou e obriga estas mulheres a viver fora da Palestina? Muitos deles falam de memória e arquivos perdidos. Que memórias são estas? Porque os arquivos, assim como as pessoas, sofreram uma diáspora ou foram destruídos? Acreditamos que no momento actual é essencial conhecer o trabalho das realizadoras palestinianas para reconhecer a sua humanidade e estamos convencidas de que estes filmes oferecem também  uma oportunidade única para ajudar a compreender como se chegou ao ponto em que estamos no Médio Oriente.

A programação inclui uma forte componente de filmes sobre migrações, colonialismo e racismo. Como é que o cinema pode contribuir para aumentar a consciência sobre estas questões sociais e políticas?

Dando a ver e “sentir”, através do documentário, da ficção, do cinema experimental, as múltiplas facetas das migrações, o colonialismo e o racismo. Apresentando narrativas diferentes daquelas que são habituais. Criando oportunidade de debate e encontro. Despoletar curiosidade, pensamento crítico, mas também empatia. O cinema tem esta capacidade incrível de transmitir conhecimento objectivo e ao mesmo tempo mexer nas nossas emoções, dois elementos essenciais para fomentar a consciencialização sobre questões sociais e políticas.

Com um total de 67 filmes de 28 países, como foi o processo de curadoria para garantir uma diversidade geográfica e temática, especialmente num festival dedicado a realizadoras da região do Mediterrâneo?

Muito trabalho e uma equipa dedicada! A maioria dos filmes são seleccionados a partir de uma chamada. Este ano recebemos cerca de 530 filmes, entre longas e curtas-metragens através desta chamada. Cada um foi visto e avaliado por pelo menos duas pessoas. Além destes, avaliamos mais cerca de 50 filmes que procurámos activamente, vendo quais passaram nos festivais mais importantes e os catálogos de várias distribuidoras independentes. Para os “Olhares da Palestina” contactámos vários arquivos e a selecção foi feita em colaboração com a equipa da Cinemateca Portuguesa.

Este ano, o festival traz várias estreias nacionais e até uma estreia mundial com o filme português "A Mulher que Morreu de Pé", de Rosa Coutinho Cabral, envolto da influência e pensamento da escritora Natália Correia. Gostaria que me falasse dessa estreia e a sua importância num festival como este?

Foi um achado! Nós estávamos já a fechar a programação e a Rosa Coutinho Cabral estava ainda a acabar de montar a versão definitiva do filme quando nos contactou. Pensámos logo que era uma oportunidade imperdível: homenagear a Natália Correia no Festival no ano do 50º aniversário de 25 de Abril tem algo de especial para nós. "A Mulher que Morreu de Pé" é um documentário-ensaio visual fascinante e a sua estreia no Festival será também uma oportunidade para pensar no legado da Natália como pensadora e artista revolucionária, que viveu e pensou de forma autónoma todas as questões, artísticas e políticas, inclusive na sua relação com o feminismo da altura. 

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A realizadora Farah Nabulsi durante a rodagem de "The Teacher" (2023) / Foto.: Omar Al Salem

O filme de abertura, "The Teacher", de Farah Nabulsi, aborda a complexa questão da violência na Cisjordânia. Que impacto espera que este filme tenha no público português, especialmente no contexto de um festival dedicado às revoluções quotidianas e no vivenciado zeitgeist?

Trata-se de um filme que, a nosso ver, mostra a situação atual na Cisjordânia de forma honesta e equilibrada, tomando claramente uma posição, mas sem desumanizar o outro lado, e questionando a violência como forma de luta. Gostaríamos que o filme oferecesse ao público português a oportunidade de conhecer uma realidade que muitos desconhecem e que atingisse o objectivo da sua realizadora, a britânica-palestiniana Farah Nabulsi, de levar os espectadores numa viagem intensa e emocional dentro das vidas dos protagonistas do filme, que faça reflectir sobre as escolhas e decisões que as personagens tomam e a realidade cruel em que essas decisões são tomadas.

Além das exibições, o festival oferece uma programação rica em workshops e debates. Pode destacar quais as iniciativas paralelas que considera significativas nesta edição?

Sem dúvida os debates sobre colonialismo. São dois, o primeiro na sexta-feira, 1 de Novembro, pelas 16h, à seguir à projecção do documentário “Maria India - Genealogia de Migração e Colonização”, moderado pela jornalista Joana Gorjão Henriques. O segundo, no domingo 3 de Novembro, pelas 18h, intitulado “Colonialismo/Decolonialismo e as Suas Representações”, no seguimento de uma sessão de quatro curtas-metragens que tocam de forma diversa este tema. Em Portugal é impossível pensar a revolução sem pensar no passado colonial do país, portanto estes debates são particularmente importantes. 

Incontornável também o “Debate Travessias” deste ano, cujo tema será a migração de menores não acompanhados e contará com a presença da realizadora do documentário “Remember My Name”, a espanhola Elena Molina. Entre os workshops assinalamos “Género, Autoconhecimento e Empatia”, a 31 de Outubro, com Laura Falésia e André Tecedeiro, da associação Flecha, o workshop Gender Stereotypes and Sexism in Films”, sábado, dia 2 de Novembro de manhã, organizado no âmbito do projecto “Olhares do Mediterrâneo with Eurimages For Equality” e, numa nota mais leve, a Oficina de Cantos do Mediterrâneo, no mesmo dia à tarde, que o ano passado teve grande sucesso.

Sendo o mais antigo festival de cinema no feminino em Portugal, quais foram as principais mudanças que notou no panorama do cinema realizado por mulheres ao longo dos últimos 11 anos? E para onde o Olhares irá “olhar” nas futuras edições?

Há cada vez mais filmes realizados por mulheres e a sua visibilidade vai aumentando, o que nos anima muito. Ao mesmo tempo, as mulheres continuam a ter problemas de acesso aos financiamentos mais substanciais, que tipicamente servem para poder realizar longas-metragens de ficção. O que é muito interessante é que aumenta a capacidade e a vontade das cineastas de se organizar ou criar redes para melhorar e reforçar as suas condições de trabalho, como é o caso da MUTIM - Mulheres Trabalhadoras das Imagens em Movimento aqui em Portugal

Relativamente aos filmes que apresentamos no Festival, continuamos a notar que os que entram através da chamada para filmes variam muito consoante os anos e o zeitgeist do momento, mas há temas, nomeadamente os que dizem respeito às relações humanas e familiares nas suas múltiplas vertentes e manifestações que continuam a ser recorrentes, confirmando a necessidade das realizadoras de explorar o quotidiano e o privado como elementos fundadores do colectivo e do político. 

Nos próximos anos continuaremos a olhar com muito cuidado para tudo o que acontece, cinematograficamente falando, mas não só, à volta do Mediterrâneo, especialmente ao Sul e ao Leste, mas não excluímos a possibilidade de alargar as nossas fronteiras a outros horizontes. Estamos a criar redes com vários festivais de cinema feito por mulheres e esperamos que em breve isto nos permita criar novas actividades, como, por exemplo, residências artísticas.

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Toda a programação e informação aqui